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O asfalto de Joinville refletia as luzes da cidade sob uma garoa persistente, mas para Frederico, o mundo era apenas um borrão acinzentado. Sentado no meio-fio, as mãos trêmulas seguravam uma garrafa barata de cor âmbar. O homem que um dia comandou o submundo de São Paulo, o homem cujas palavras decidiam quem vivia e quem morria, agora lutava apenas para manter os olhos abertos.
Sua barba estava crescida e emaranhada, e o sobretudo rasgado escondia o corpo que, apesar da negligência, ainda guardava a estrutura de um guerreiro. Ele fechou os olhos, tentando silenciar a voz de Vanessa e o riso de traição de Gustavo em sua mente.
“Beba, Frederico. O álcool é o único amigo que não te apunhala pelas costas”, ele pensou, levando a garrafa aos lábios.
Foi quando um grito agudo cortou a melancolia da noite.
— LOREN! NÃO!
O instinto, enterrado sob camadas de depressão e autocomiseração, despertou como um vulcão. Frederico virou a cabeça. Do outro lado da calçada, uma menininha de cachos dourados e vestido de seda corria atrás de uma bola de pelúcia, indo direto para a avenida movimentada.
Um sedã preto vinha em alta velocidade, os pneus cantando no asfalto molhado. O motorista não teria tempo de parar.
A mãe da criança, uma mulher de elegância impecável mas com o rosto pálido de puro terror, estava a metros de distância, as mãos estendidas no vazio.
Frederico não pensou. Ele não era mais o mendigo bêbado de Joinville; por um segundo, ele foi o predador de elite que São Paulo temia.
Ele saltou.
O impacto foi seco. Frederico envolveu o pequeno corpo de Loren em seus braços, rolando pelo asfalto enquanto o carro passava a milímetros de suas costas. O som do metal freado e os gritos das pessoas ao redor formavam uma sinfonia caótica.
— Loren! Meu Deus, Loren! — Lívia desabou de joelhos ao lado deles, o coração saindo pela boca.
Frederico se levantou devagar, os joelhos ralados e o ombro protestando de dor. Ele entregou a menina, que chorava assustada, para os braços da mãe.
— Ela está viva. Só está com medo — a voz de Frederico saiu rouca, profunda, carregada de uma autoridade que não condizia com suas roupas sujas.
Lívia ergueu os olhos, pronta para agradecer com uma recompensa em dinheiro, mas as palavras morreram em sua garganta. Diante dela não estava um morador de rua comum. Através da sujeira e do cabelo desgrenhado, ela viu olhos de um azul tempestuoso, inteligentes e profundamente tristes. Havia uma nobreza residual naquela postura, um perigo silencioso que a fez estremecer de uma forma que ela não sentia há anos.
— Você salvou a minha filha… — Lívia murmurou, apertando Loren contra o peito, enquanto seus seguranças finalmente chegavam, cercando-os.
Frederico apenas assentiu, pegando sua garrafa que havia rolado para o bueiro. Ele deu as costas, pronto para desaparecer na escuridão da qual sentia que pertencia.
— Espere! — Lívia gritou, levantando-se com a autoridade de quem comanda um império. — Qual o seu nome?
Ele parou, mas não se virou. O passado de sangue e traição pesava em seus ombros.
— Um homem que não existe — ele respondeu, e continuou caminhando.
Lívia observou as costas largas do desconhecido sumindo na neblina. Ela tinha inimigos por todos os lados, sua vida e a de sua filha corriam perigo constante dentro da própria família, e seus seguranças de elite haviam falhado hoje. Mas aquele homem... aquele homem era diferente.
— Encontrem-no — ela ordenou aos seguranças, sua voz recuperando o tom gélido de CEO. — Não me importa em qual buraco ele se esconda. Eu o quero na minha frente amanhã cedo. Limpo.
Enquanto Dante lutava pela vida, em uma mansão isolada no interior de São Paulo, o destino de Alessandro Fiorramont era selado. Ele estava amarrado a uma cadeira de ferro no centro de uma sala circular, iluminada apenas por uma luz fria que descia do teto.Ao redor dele, nas sombras, estavam os doze líderes da Cúpula da Máfia. Alberto estava à frente, segurando o dossiê de crimes que Alessandro cometera não apenas contra os Moretti, mas contra as leis não escritas da própria organização.— Alessandro Fiorramont — a voz de Alberto ecoou, solene e implacável. — Você quebrou o código sagrado. Você sequestrou o filho de um irmão de sangue. Você usou uma inocente como escudo. Você tentou destruir a linhagem que jurou proteger.Alessandro riu, um som seco e patético.— Eu criei
No convés do navio, o tempo pareceu dilatar. Alessandro, acuado e com a sanidade estilhaçada, percebeu que não haveria fuga. Em um último ato de maldade pura, ele apertou o cano da arma contra a têmpora de Loren.— Se eu não saio daqui, ninguém sai! — ele gritou, o dedo tensionando no gatilho.Dante, cujas mãos estavam presas pelos capangas, viu a morte nos olhos de Alessandro. Com um rugido que não era de um soldado, mas de um homem que encontrara algo por que viver, ele usou toda a força do seu treinamento. Ele girou o corpo, deslocando o próprio ombro para se livrar da pegada do primeiro capanga, e se lançou como um projétil humano entre a arma de Alessandro e o rosto de Loren.O som do disparo rasgou a no
O Silêncio antes da RupturaAs três semanas que se seguiram à revelação do DNA foram as mais sombrias da história da família. No subsolo da mansão, em uma sala blindada e repleta de monitores, Frederico, Dante e Alberto viviam em um estado de vigília constante. Pilhas de mapas do hospital de custódia e diagramas de rotas de fuga cobriam as mesas.— Não queremos apenas matá-lo, Dante — Frederico disse, os olhos injetados de sono e fúria. — Queremos extraí-lo. Ele vai ser julgado pela Cúpula. Ele vai encarar cada homem que ele traiu antes de ser apagado da existência.Dante assentia, mas sua mente estava no andar de cima. Ele agora morava na casa, no quarto de hóspedes, a poucos metros de Loren. Mas a distânc
Alberto espalhou os registros do orfanato e as fotos de Vanessa sobre a mesa. A voz dele era um fio condutor que ligava os pontos da crueldade de Alessandro: o abandono de Vanessa, o sequestro da criança e a lavagem cerebral que transformou o filho de Frederico em um carrasco.Frederico caiu sentado na poltrona, as pernas falhando pela primeira vez em anos. Ele olhou para Dante — não mais como um espião ou um reflexo incômodo, mas como a extensão de sua própria alma.— Meu filho... — a voz de Frederico saiu quebrada, um som que carregava a anos de agonia. — Ele roubou sua infância. Ele fez você me odiar para que você mesmo se destruísse.Dante estava estático. A fúria fervia sob sua pele, mas o choque era maior. Ele olhou para as próprias mãos,
O som do vidro quebrando no escritório ainda ecoava quando Loren disparou pelo corredor. O vestido de seda, antes símbolo de sua celebração, agora parecia uma mortalha de desespero. Ela ignorou os chamados de Lívia e correu para a noite, em direção aos jardins da mansão.Dante, movido por um instinto que ia além de sua missão, tentou alcançá-la, mas a mão de Frederico o segurou pelo peito com a força de um furacão.— Afaste-se dela, Dante! — Frederico rugiu, os olhos transbordando uma dor insuportável. — Você não pode tocá-la. Nunca mais. — Do que você está falando? Ela está sofrendo! — Dante gritou, tentando se soltar. — Ela está sofrendo porque descobriu que você é o irmão dela! — O golpe das palavras de Frederico foi mais forte que qualquer surra de Alessandro. — Loren é filha biológica de Alessandro. Se você é filho del
As luzes do escritório eram frias, cortando a penumbra como lâminas. Frederico mantinha a mão sobre a pistola na mesa, seus olhos azuis fixos em Dante. O silêncio era tão denso que se podia ouvir o som da festa no andar de baixo.— O kit de espionagem, Dante. Agora — ordenou Frederico.Dante, sem hesitar, colocou o envelope e o pendrive sobre a mesa. Ele sabia que o jogo de Alessandro falhara no momento em que ele beijara Loren. A máscara caiu, revelando a alma torturada de um jovem que nunca teve escolha.— Alessandro me criou no inferno, Frederico — começou Dante, a voz trêmula mas firme. Ele contou sobre o treinamento na Itália, sobre a falta de amor, sobre como foi ensinado a ser uma arma. — Ele me disse que você destruiu a nossa família. Ele disse que ele







