FAZER LOGINPov Lianna Aslan
O som do celular ainda vibrava na minha mente, insistente, como se zombasse da minha ingenuidade.
Zayden soltou o braço dela por um instante, enfiou a mão no bolso e, sem olhar a tela, desligou a chamada. Friamente. Como quem desliga um incômodo.
Meu coração se partiu um pouco mais naquele gesto simples.
Ele sabia que era eu.Sabia.Camille passou a mão pelo braço dele, teatralmente, inclinando-se para dizer algo. Eu estava perto o suficiente para ouvir, embora desejasse não estar.
— Você precisa relaxar, amor. Foi só um corte. — A voz dela era mansa, quase infantil.
— Eu não devia ter me empolgado tanto ontem — ele respondeu, tenso, mas ainda assim doce. — Foi demais… acho que acabei me empolgando.
“Ontem.”
A palavra ecoou como um soco no peito. Ontem eu sofri um acidente e ele não veio me ver. Ontem era nosso aniversário de casamento e ele não apareceu. Agora entendi... ele estava com ela o tempo todo.
Camille riu, aquele riso abafado que eu conhecia desde criança, cheio de veneno e prazer.
— Empolgado? — ela provocou, mordendo o lábio inferior. — Quase me deixou sem andar, Zayden.
Meu estômago revirou.
Um som rouco escapou da minha garganta, mas eles não perceberam.Ela se inclinou mais, apoiando a cabeça no ombro dele, como se precisasse de amparo.
— Você é uma fera, e eu adoro isso.
— Camille, aqui não. — Ele olhou em volta, tentando parecer contido, mas o sorriso no canto da boca o traía. — Estamos num hospital.
— Então por que me trouxe? — ela perguntou, brincando com o colar dele.
— Porque você se machucou, e eu não quis que ficasse uma marca. — Ele passou o polegar no queixo dela, carinhoso, possessivo. — Eu cuido do que é meu.
Do que é meu.
A frase me atravessou forte.
O homem que eu amava, o mesmo que me pediu pra largar a medicina porque “não precisava provar nada pra ninguém”, o mesmo que me jurou amor eterno... agora era o amante da minha irmã.
A minha irmã!!! Porra, eu não mereço isso.E aqui estou, de pé, com o exame de ultrassom tremendo nas mãos, o coração fragmentado e duas vidas pulsando dentro de mim.
Zayden passou o braço em volta dela e a conduziu até a recepção, onde uma enfermeira perguntou algo. Ele respondeu, sereno, como se tudo fosse banal. Como se eu nunca tivesse existido.
Senti as pernas fraquejarem. Me apoiei na parede fria e respirei fundo. A náusea subiu, queimando.
Não chora, Lianna. Não aqui.
Peguei minha bolsa com dedos trêmulos e comecei a andar, devagar, tentando não chamar atenção.
Mas cada passo era uma implosão silenciosa.A voz dele me alcançou de novo, cortando o ar.
— Vou te levar pra casa. Depois quero que descanse.
Casa. A mesma palavra que ele usava comigo, o mesmo tom protetor. Só que agora ela era o “amor”. E eu era o erro.
Meu corpo inteiro doía. A cicatriz recente no joelho latejava, mas o que me despedaçava era invisível.
Quando passei pela saída do hospital, o vento frio da madrugada bateu no meu rosto, misturando lágrimas e chuva. Segurei o envelope dos exames com tanta força que o papel amassou.
Abri, só pra confirmar o que eu já sabia: “Gestação gemelar – seis semanas”.
Dois corações. Dois milagres. Filhos de um homem que acabava de escolher outra mulher.Olhei o nome no topo do laudo: Lianna Aslan Cross. E percebi que, naquele instante, aquele sobrenome já não me pertencia.
Pensei em voltar, em jogar o exame na cara dele, gritar que ele era pai, que eu o amava, que ainda havia tempo de consertar tudo. Mas não. Alguma coisa dentro de mim, talvez o amor-próprio que ele tentou apagar, me impediu.
A imagem dele beijando Camille se repetia como um filme antigo queimando no projetor. A voz dela, suave, falsa, ecoava dentro da minha cabeça: Você é uma fera.
Eu ri. Um riso rouco, amargo, que me escapou sem controle. Porque era isso, não era? Ele era uma fera. E eu, a idiota que acreditou poder domar o monstro.
Respirei fundo. Uma, duas, três vezes. O cheiro do hospital ficou para trás, e o gosto do adeus se instalou na língua.
“Você está grávida.” “Você é uma fera.” As duas frases se misturavam na minha mente como cicatrizes sobrepostas.
Quando o táxi parou diante de mim, entrei sem olhar pra trás.
— Pra onde, senhora? — o motorista perguntou.
Olhei pela janela, para o letreiro iluminado do hospital. Atrás do vidro, a silhueta dele ainda estava lá, cuidando dela. Camille. A mulher que roubou tudo.
— Para casa do Zayden Cross. — murmurei. — Pai dos meus filhos.
Mostrei o meu celular com o endereço.
O motorista viu o endereço imediatamente, uma área nobre, com mansões cercadas por jardins impecáveis e visíveis elétricas.
— Deve ser bom viver em uma família rica, né? — comentou ele, dando uma risadinha enquanto ligava o motor. — Aposto que vocês têm tudo o que querem.
O carro arrancou, o ronco do motor abafando o choro que finalmente explodiu de mim.
Eu me encolhi no banco de trás, o mundo lá fora passando em borrões, enquanto o peso da traição e da perda me esmagava.
Como explicar que aquela “família rica” era justamente o que estava me destruindo?
POV LIANNAEu achei que o corpo estava cansado demais para reagir.Estava errada.As batidas na porta vieram secas. Curtas. Sem paciência. Não eram um pedido, eram uma exigência.Meu coração disparou antes mesmo de eu levantar da cama.Abri.Zayden estava ali.Descalço. Camisa aberta no peito. Os olhos vermelhos, brilhando de algo que não era arrependimento. Era urgência. Desespero disfarçado de direito.— A gente precisa conversar — ele disse, entrando antes que eu respondesse.Fechei a porta por instinto. Tranquei. Um erro. Eu soube no segundo seguinte.— Já conversamos hoje — falei, mantendo a voz firme. — Isso acabou.Ele riu. Um riso curto. Vazio.— Você sempre diz isso quando está fugindo.— Não estou fugindo. — dei um passo para trás. — Estou escolhendo sair.Foi rápido.As mãos dele fecharam em meus braços com força suficiente para doer, mas não o bastante para deixar marcas imediatas. O suficiente para lembrar. O suficiente para intimidar.— Você não vai embora — ele disse, b
POV LIANNAO último dia chegou sem cerimônia.Nenhum aviso no calendário, nenhuma contagem regressiva dramática. Apenas a certeza silenciosa de que, quando o sol se pusesse, eu não dormiria mais naquela casa.Passei o dia em estado de suspensão. Fiz as coisas de sempre, levei Selina e Selin à escola, respondi e-mails do hospital, assinei dois relatórios, como quem cumpre tarefas automáticas para não pensar demais. Pensar demais sempre doía.Quando voltei no fim da tarde, a casa estava diferente.Não era algo gritante. Era o tipo de mudança que você sente antes de perceber. O ar cheirava a algo quente e familiar. Ervas. Alho. Vinho aberto. As luzes da sala estavam mais baixas, amareladas. A mesa, posta com cuidado demais para uma terça-feira comum.Meu estômago se contraiu.Zayden estava na cozinha, de camisa branca arregaçada até os antebraços. Um avental, ridículo e calculado, amarrado à cintura. Quando me viu, abriu um sorriso que eu conhecia bem. O sorriso do tempo em que ele queri
POV LIANNASaí do hospital com a sensação de que tinha esquecido algo importante, mas não era objeto, nem tarefa. Era um pedaço de mim que ficava sempre para trás quando eu precisava funcionar.O estacionamento estava cheio demais para o fim de tarde. O céu de Genebra pesava, baixo, como se prometesse chuva sem cumprir. Entrei no carro, fechei a porta e fiquei alguns segundos com a testa apoiada no volante. Respirei. Uma, duas, três vezes. O corpo respondeu devagar, como um animal assustado que aprende a confiar de novo no próprio pulso.O celular vibrou.Não era Zayden.Era o advogado.— Recebi o encaminhamento do juiz de plantão — ele disse. — As medidas provisórias saem amanhã. Hoje, evite qualquer confronto. Se houver insistência, registre.— Ele não gosta de “evitar”. — respondi.— Por isso mesmo. — ele disse. — Quanto mais contido você estiver, mais claro fica o padrão dele.Desliguei com um gosto metálico na boca. Padrão. Palavra limpa para uma coisa suja.Peguei as crianças na
POV LIANNAA casa dormia, mas eu não.Havia um tipo específico de silêncio depois de uma explosão. Não era paz, era rescaldo. Os corredores pareciam mais longos, as paredes mais finas, e cada rangido soava como aviso. Eu deitei ao lado de Selina por alguns minutos, observando o subir e descer regular do peito dela, o polegar enfiado no canto da boca. Selin dormia do outro lado do quarto, de bruços, o cabelo caindo nos olhos. Os dois respiravam como quem acredita que o mundo é confiável.Acreditei nisso por eles.Fechei a porta com cuidado e voltei para o meu quarto. Tranquei. Conferi a janela. Tranquei de novo, só para garantir. A rotina tinha se tornado um ritual, não por paranoia, mas por sobrevivência. O corpo aprende rápido quando precisa.Sentei na beira da cama e só então permiti que o cansaço me alcançasse. Não era físico; era aquele peso antigo, emocional, que gruda nos ombros como um casaco molhado. O celular vibrou.Adrian.Fiquei olhando a tela por um segundo a mais do qu
POV LIANNAO silêncio dentro do carro no caminho de volta parecia mais alto do que qualquer grito.Selina cantarolava alguma música inventada no banco de trás, balançando as pernas, enquanto Selin observava a rua com aquela atenção que não combinava com sete anos. Nenhum dos dois fazia ideia do furacão que nos esperava.E eu… eu sentia.Era como uma pressão no peito. Um aviso.Quando virei na entrada da casa, vi o carro dele parado na frente. Motor ainda quente. Faróis apagados, mas o reflexo metálico denunciava que ele tinha chegado há pouco.Meu estômago revirou.Estacionei devagar.— Crianças… — falei, virando levemente no banco. — Assim que entrarmos, vocês vão direto tomar banho, ok?— Mas eu nem tô suja! — Selina reclamou.— Hoje é banho rápido. — respondi, firme, mas sorrindo. — Depois a gente escolhe o pijama mais confortável do mundo.Selin me olhou pelo retrovisor.Ele entendeu.Assentiu em silêncio.Saímos do carro e, assim que atravessei a porta principal, senti a tensão n
POV LIANNAO portão da escola se abriu e, como sempre, o mundo voltou a ter som.— MÃE! — Selina veio primeiro, mochila maior que o corpo, sorriso aberto como se nada no universo fosse capaz de quebrá-la.Selin veio logo atrás, mais contido, mas com os olhos atentos, observando tudo.Me agachei para abraçá-los, respirando fundo. Cheiro de criança. De segurança. De algo que ainda era meu.— Como foi o dia? — perguntei, beijando as testas.— A gente teve educação física! — Selina disparou. — E desenho!— E eu tirei dez em matemática. — Selin completou, sério, como se fosse um relatório.Sorri. Um sorriso real. Raro ultimamente.No caminho até o carro, Selina puxou minha mão.— Mãe… a gente pode parar no parquinho?— E tomar sorvete? — Selin emendou, rápido demais para ser coincidência.Hesitei por um segundo. Olhei o relógio. Olhei o céu ainda claro. Olhei para eles.— Pode. — cedi. — Só um pouco.Os dois comemoraram como se eu tivesse anunciado férias eternas.O parque ficava a poucas







