INICIAR SESIÓNPOV Lianna
O relógio marca duas da manhã.
Estou deitada na cama, ainda com a cena do hospital, que não sai da minha cabeça. Zayden e Camille, rindo como cúmplices, as mãos dele firmes na cintura dela. O jeito que ele a olhou, como se ela fosse o centro do universo.Ao chegar em casa, subi com dificuldade, tomei banho, me maquiei e coloquei uma lingerie para tentar enxergar o problema em mim, já que o meu marido foi atrás de outra mulher. Fiquei horas na frente do espelho até começar a chorar sem parar, me sentindo inferior a qualquer mulher.
Tento dormir, mas cada vez que fecho os olhos, é como se as palavras da minha irmã e o cuidado do meu marido com ela ficassem se repetindo e brilhando cada vez mais na minha mente.
E então, o som. A porta da frente se abre.Ele chegou.
Meus músculos ficam tensos. Quero me esconder, quero desaparecer, mas minhas pernas não obedecem. Fico imóvel, como presa que já sabe do predador.
O ranger dos sapatos no piso de mármore, o tilintar das chaves sobre a mesa. O som da gravata sendo arrancada às pressas. Um copo batendo contra a bancada. Passos firmes subindo a escada.
O coração dispara.
A maçaneta gira e a porta se abre.
Ele surge. Zayden Cross.
Alto, imponente, o cheiro de uísque se mistura ao perfume caro que sempre usou para me seduzir. O paletó jogado de qualquer jeito sobre o ombro, a camisa meio aberta, revelando o peito. O olhar dele percorreu meu corpo estendido sobre a cama, a lingerie preta, a maquiagem borrada, os cabelos soltos.Um sorriso surge em seus lábios. Aquele sorriso que sempre foi minha fraqueza.
— Lianna… — ele sussurra, rouco, fechando a porta atrás de si. — Você está linda.
Meu corpo se retrai, mas ele não percebe. Ou talvez perceba e não se importe.
Ele se aproxima devagar, os olhos escuros queimando desejo.— Você me esperou assim? — desliza os dedos pelo meu braço, pela curva do meu quadril. — Deus, você não faz ideia do quanto eu te quero agora.
Antes que eu processe, já está em cima de mim.
Os lábios tomam os meus num beijo faminto, como se nada tivesse acontecido. Suas mãos deslizam pela minha cintura, apertando minha pele. O peso do seu corpo me prende contra o colchão. Minhas forças estão quebradas. As mãos exploram, apertam, acariciam. Ele murmura elogios ao meu ouvido.
— Minha esposa… a mulher mais bonita dessa cidade… só minha.
E por um instante, eu quase acredito. Por um instante, me deixo levar pela familiaridade do toque, pelo calor que ele sempre soube despertar. É uma prisão viciante.
Mas então fecho os olhos.E sinto.
O perfume. Não o meu. Não o dele.Um cheiro doce, floral, intruso. Camille.E a imagem do hospital me invade como uma faca girando na ferida: ele rindo com ela, tocando-a, como agora me toca.Meu corpo congela.
— Para. — minha voz sai baixa, mas firme. — Para, Zayden.
Ele recua apenas o suficiente para me olhar, os olhos semicerrados pela excitação. — O quê? — Ele ainda insiste, colando sua boca em meu pescoço. — Lianna, eu preciso de você…
Empurro o peito dele com as mãos, respirando fundo. — Eu disse para parar.
Ele se afasta meio incrédulo, ainda semi nu, o cinto solto, a camisa aberta. O olhar dele se estreita.
— Do que você está falando?
Eu engulo em seco, mas a coragem vem junto com a dor.
— Eu vi. — minha voz falha, mas eu repito, mais firme. — Eu vi você, Zayden. No hospital. Com a Camille.
O rosto dele muda. Primeiro surpresa, depois frieza. Ele se ajeita, passa a mão nos cabelos. Ri, um riso cínico.
— Você está imaginando coisas.
— Não estou imaginando nada! — minha voz explode, carregada de lágrimas. Eu me levanto da cama, ainda com a lingerie, e pego o lençol e o enrolo no meu corpo. — Eu sofri um acidente, e você passou a noite toda com ela...
— Ela se machucou, eu só a ajudei... E você? Tá aí, inteirinha, não tá? — Ele passa a mão pelo cabelo. O riso amargo escapa da minha boca. Ajuda. Essa palavra nojenta que ele usa para tudo que não quer explicar.
— Ajuda? Você chama segurar minha irmã como se fosse sua amante de ajuda? Quer que eu acredite nisso?
Me afasto da cama, tremendo, o lençol ainda preso ao corpo. Vou até a cômoda, pego o celular e abro a galeria. Mostro as fotos que tirei, minhas mãos vacilantes mas firmes o suficiente para registrar a traição.
Zayden olha. Os olhos se estreitam. A mandíbula trava. Mas não há arrependimento.
Só arrogância.— Isso não significa nada.
Meu sangue ferve.
— Não significa nada?! É a minha irmã! É o meu casamento! Você me jogou no lixo como se eu fosse descartável!
Minha voz ecoa pelas paredes. O peito arde, a garganta queima. O lençol escorrega, revelando parte da lingerie. Mas eu não me importo. A humilhação já é maior do que qualquer vergonha.
Ele dá dois passos na minha direção, o olhar sombrio.
— Baixe a voz. Você está se exaltando sem motivo.
Rio nervosa, descontrolada.
— Sem motivo?! Você me trai, me expõe, e ainda ousa me calar? Eu não vou mais fingir, Zayden!
E então acontece.
Ele me segura pelo braço com força, os dedos cravando na minha pele. Tento soltar, mas o aperto aumenta.
— Você não vai sair gritando pela casa feito uma louca.
A raiva me domina. Com a outra mão, acerto seu peito, empurrando.
— Me solta!
Ele perde a paciência. Um tapa estala contra o meu rosto, rápido, forte. A cabeça gira com o impacto, o gosto metálico do sangue inunda minha boca.
Silêncio.
Meu coração despenca. O mundo parece parar.
Olho para ele, incrédula, a pele ardendo. Nos olhos dele, não há remorso. Só frieza. Uma sombra de poder, de posse.
— Você é minha, Lianna. Sempre foi. Nunca teve opção.
POV LIANNAEu achei que o corpo estava cansado demais para reagir.Estava errada.As batidas na porta vieram secas. Curtas. Sem paciência. Não eram um pedido, eram uma exigência.Meu coração disparou antes mesmo de eu levantar da cama.Abri.Zayden estava ali.Descalço. Camisa aberta no peito. Os olhos vermelhos, brilhando de algo que não era arrependimento. Era urgência. Desespero disfarçado de direito.— A gente precisa conversar — ele disse, entrando antes que eu respondesse.Fechei a porta por instinto. Tranquei. Um erro. Eu soube no segundo seguinte.— Já conversamos hoje — falei, mantendo a voz firme. — Isso acabou.Ele riu. Um riso curto. Vazio.— Você sempre diz isso quando está fugindo.— Não estou fugindo. — dei um passo para trás. — Estou escolhendo sair.Foi rápido.As mãos dele fecharam em meus braços com força suficiente para doer, mas não o bastante para deixar marcas imediatas. O suficiente para lembrar. O suficiente para intimidar.— Você não vai embora — ele disse, b
POV LIANNAO último dia chegou sem cerimônia.Nenhum aviso no calendário, nenhuma contagem regressiva dramática. Apenas a certeza silenciosa de que, quando o sol se pusesse, eu não dormiria mais naquela casa.Passei o dia em estado de suspensão. Fiz as coisas de sempre, levei Selina e Selin à escola, respondi e-mails do hospital, assinei dois relatórios, como quem cumpre tarefas automáticas para não pensar demais. Pensar demais sempre doía.Quando voltei no fim da tarde, a casa estava diferente.Não era algo gritante. Era o tipo de mudança que você sente antes de perceber. O ar cheirava a algo quente e familiar. Ervas. Alho. Vinho aberto. As luzes da sala estavam mais baixas, amareladas. A mesa, posta com cuidado demais para uma terça-feira comum.Meu estômago se contraiu.Zayden estava na cozinha, de camisa branca arregaçada até os antebraços. Um avental, ridículo e calculado, amarrado à cintura. Quando me viu, abriu um sorriso que eu conhecia bem. O sorriso do tempo em que ele queri
POV LIANNASaí do hospital com a sensação de que tinha esquecido algo importante, mas não era objeto, nem tarefa. Era um pedaço de mim que ficava sempre para trás quando eu precisava funcionar.O estacionamento estava cheio demais para o fim de tarde. O céu de Genebra pesava, baixo, como se prometesse chuva sem cumprir. Entrei no carro, fechei a porta e fiquei alguns segundos com a testa apoiada no volante. Respirei. Uma, duas, três vezes. O corpo respondeu devagar, como um animal assustado que aprende a confiar de novo no próprio pulso.O celular vibrou.Não era Zayden.Era o advogado.— Recebi o encaminhamento do juiz de plantão — ele disse. — As medidas provisórias saem amanhã. Hoje, evite qualquer confronto. Se houver insistência, registre.— Ele não gosta de “evitar”. — respondi.— Por isso mesmo. — ele disse. — Quanto mais contido você estiver, mais claro fica o padrão dele.Desliguei com um gosto metálico na boca. Padrão. Palavra limpa para uma coisa suja.Peguei as crianças na
POV LIANNAA casa dormia, mas eu não.Havia um tipo específico de silêncio depois de uma explosão. Não era paz, era rescaldo. Os corredores pareciam mais longos, as paredes mais finas, e cada rangido soava como aviso. Eu deitei ao lado de Selina por alguns minutos, observando o subir e descer regular do peito dela, o polegar enfiado no canto da boca. Selin dormia do outro lado do quarto, de bruços, o cabelo caindo nos olhos. Os dois respiravam como quem acredita que o mundo é confiável.Acreditei nisso por eles.Fechei a porta com cuidado e voltei para o meu quarto. Tranquei. Conferi a janela. Tranquei de novo, só para garantir. A rotina tinha se tornado um ritual, não por paranoia, mas por sobrevivência. O corpo aprende rápido quando precisa.Sentei na beira da cama e só então permiti que o cansaço me alcançasse. Não era físico; era aquele peso antigo, emocional, que gruda nos ombros como um casaco molhado. O celular vibrou.Adrian.Fiquei olhando a tela por um segundo a mais do qu
POV LIANNAO silêncio dentro do carro no caminho de volta parecia mais alto do que qualquer grito.Selina cantarolava alguma música inventada no banco de trás, balançando as pernas, enquanto Selin observava a rua com aquela atenção que não combinava com sete anos. Nenhum dos dois fazia ideia do furacão que nos esperava.E eu… eu sentia.Era como uma pressão no peito. Um aviso.Quando virei na entrada da casa, vi o carro dele parado na frente. Motor ainda quente. Faróis apagados, mas o reflexo metálico denunciava que ele tinha chegado há pouco.Meu estômago revirou.Estacionei devagar.— Crianças… — falei, virando levemente no banco. — Assim que entrarmos, vocês vão direto tomar banho, ok?— Mas eu nem tô suja! — Selina reclamou.— Hoje é banho rápido. — respondi, firme, mas sorrindo. — Depois a gente escolhe o pijama mais confortável do mundo.Selin me olhou pelo retrovisor.Ele entendeu.Assentiu em silêncio.Saímos do carro e, assim que atravessei a porta principal, senti a tensão n
POV LIANNAO portão da escola se abriu e, como sempre, o mundo voltou a ter som.— MÃE! — Selina veio primeiro, mochila maior que o corpo, sorriso aberto como se nada no universo fosse capaz de quebrá-la.Selin veio logo atrás, mais contido, mas com os olhos atentos, observando tudo.Me agachei para abraçá-los, respirando fundo. Cheiro de criança. De segurança. De algo que ainda era meu.— Como foi o dia? — perguntei, beijando as testas.— A gente teve educação física! — Selina disparou. — E desenho!— E eu tirei dez em matemática. — Selin completou, sério, como se fosse um relatório.Sorri. Um sorriso real. Raro ultimamente.No caminho até o carro, Selina puxou minha mão.— Mãe… a gente pode parar no parquinho?— E tomar sorvete? — Selin emendou, rápido demais para ser coincidência.Hesitei por um segundo. Olhei o relógio. Olhei o céu ainda claro. Olhei para eles.— Pode. — cedi. — Só um pouco.Os dois comemoraram como se eu tivesse anunciado férias eternas.O parque ficava a poucas







