INICIAR SESIÓNDulce Maite — Sevilha, Espanha
Sentamos na bancada para lanchar, mas a imagem do nome de Érika brilhando na tela do celular de Zian recusava-se a sair da minha mente. Eu mastigava mecanicamente, os pensamentos correndo a mil por hora. — Finalmente ficou quieta — observa Zian, quebrando o silêncio enquanto me avalia. — No que tanto pensa? Tento engolir o alimento e disfarçar minha inquietude, forçando uma expressão neutra. — Na faculdade, nos meus amigos... Resumindo, em tudo. Mesmo que tenha passado pouco tempo, sinto falta de casa — respondo. Não era uma mentira, só não era o foco principal do que eu pensava no momento. Seus olhos escuros se estreitam ligeiramente, fixos em mim. — Amigo? O que você ligou agora pouco? — questionou. De tudo o que eu havia falado, parecia que ele tinha ouvido apenas a palavra "amigo". No caso, eu tinha dito no plural, mas ele claramente direcionou a pergunta a alguém em específico. — Sim, gosto muito dele. A propósito, ele estava me esperando para o ensaio do coral — lembro. Jonas tinha sido a última pessoa com quem falei antes de o pano preto apagar meus sentidos no meio da rua. Zian franze a testa por um breve instante, parecendo processar a informação. — Coral? É da igreja? — perguntou. Para a minha surpresa, seu tom de voz não carrega nenhum tipo de deboche ou julgamento. — Sim, frequento duas vezes por semana — sou vaga na resposta. Talvez ele não estivesse nem um pouco interessado na minha vida dentro da igreja. Afinal, nem todos seguiam uma religião ou tinham fé. Longe de mim julgar alguém por isso; cada um tem sua própria escolha e um caminho a percorrer. Não importa o que seja considerado certo ou errado aos olhos da sociedade, eu acreditava que todos, no fundo, podem ser salvos. Até mesmo homens como ele. — Faz tempo que não entro numa igreja — ele confessa, olhando para o vazio por um segundo. Sinto uma pontada de curiosidade e a vontade de perguntar o porquê surge imediatamente, mas me contenho. Sinto que ele não se sente muito à vontade com esse assunto; talvez aquele comentário tenha sido apenas um ato involuntário, um escape de seus próprios pensamentos. — Talvez um dia você se sinta bem outra vez e volte a frequentar, nem que seja uma única vez — digo, oferecendo um sorriso brando. Ele apenas assente com a cabeça, absorvendo minhas palavras em silêncio. Estávamos só nós dois na imensidão daquela cozinha; as crianças haviam subido para os quartos para tomarem banho e trocarem de roupa. O silêncio que se instala me dá espaço para pensar em outra coisa que estava me incomodando. — A sua esposa não vai se importar comigo aqui? — questiono. Na minha cabeça, se ele tinha filhos daquela idade, certamente era casado. Embora há pouco tempo a Zuria tivesse perguntado se eu era namorada dele, o que indicava que ele estava sozinho, ainda assim me restava a dúvida de onde estava a mãe das crianças. — Não sou casado. Não faça perguntas pessoais — responde ele, a voz tornando-se seca e ríspida em um piscar de olhos. Concordo, encolhendo os ombros, mas a minha língua simplesmente não para dentro da boca. — Última pergunta: ela vem aqui com muita frequência? Zian solta um suspiro pesado, fechando os olhos por um breve instante, como se estivesse tentando recrutar até a última gota de seu autocontrole para não perder a paciência comigo. — Foi embora para não voltar — dita, gélido. Engulo em seco. Hum... Eu havia acabado de ultrapassar um limite perigoso. — Desculpe, eu fui inconveniente. Não deveria me meter na sua vida pessoal — admito, olhando para as minhas próprias mãos na bancada, genuinamente arrependida por ter tocado em uma ferida dele. Ele se levanta da banqueta, sua postura imponente bloqueando a luz do teto sobre mim. — Não faça isso de novo. Existem assuntos que não dizem respeito a você. — avisa com frieza, antes de dar as costas e sair da cozinha, me deixando completamente sozinha com os meus pensamentos. Bebo minha vitamina de abacate lentamente, apoiando os cotovelos na bancada e olhando para o nada. — Se eu ao menos pudesse ver os meus coreanos... — suspiro, uma onda de drama pessoal me atingindo ao lembrar dos meus doramas inacabados. Eu precisava saber o final daquela temporada. Nesse momento, Kiliam adentra a cozinha, carregando os braços cheios de sacolas de compras. Deixo o meu copo de lado e me levanto para ajudá-lo com o peso. — Finalmente! Vem cá: você foi comprar a água na fonte, é? — pergunto, erguendo a sobrancelha diante da demora. Ele solta uma risada alta, colocando as sacolas em cima da mesa. — Claro! Nessa casa não tem água, estamos com problemas no encanamento — fala, com a maior cara de pau do mundo. Balanço a cabeça negativamente, dividida entre achar graça e desconfiar da desculpa dele. — Hum-hum... — murmuro. — Você viu meu celular por aí? Queria usá-lo para ver algumas séries — comento, tentando parecer despretensiosa. Liam para imediatamente de guardar os mantimentos na geladeira e se vira, me encarando seriamente, embora haja um brilho divertido em seus olhos. — Nem que eu fosse doido! Vai que você chama a polícia? Quer me queimar? — seu tom é totalmente descontraído, mas a resposta é definitiva. Bufo, cruzando os braços e fazendo um bico emburrado. — Eu já estou presa aqui, e agora não posso nem assistir às minhas séries? Sério isso? Nem os presos são tão limitados — tento argumentar, usando meu melhor tom de indignação dramática. — Alguns têm televisão — acrescento, apontando o dedo na direção dele. — Aposto que até eles conseguem terminar uma temporada antes de serem libertados. Liam para o que está fazendo e leva a mão ao peito, encenando uma falsa mágoa. — Que comparação ofensiva. A gente te dá comida, quarto, vitamina de abacate e ainda somos os vilões? — Porque vocês me sequestraram! — rebato na mesma hora, incrédula. — Ah, verdade — concorda ele com a cabeça, com a maior naturalidade do mundo, como se tivesse acabado de se lembrar desse pequeno e insignificante detalhe. Nego com a cabeça, contendo o riso. Com Kiliam o clima ficava muito mais leve, quase me fazia esquecer por alguns instantes a gravidade da situação. — Então eu vou poder ter o meu celular? — volto a insistir, tentando arrancar alguma vantagem daquela descontração toda. Ele nega imediatamente com o dedo indicador, estalando a língua. — Kiliam! — resmungo, fazendo bico. — Ah não, não aceito isso, você também não! — reclama ele, encenando uma indignação que me deixa confusa. — Qual é o problema de me chamar de Liam? Qual?! — exagera, jogando as mãos para o alto. Reviro os olhos diante de tanto drama. — Ok, não chamo mais, tá bom? — suspiro, me rendendo. — Assim é bem melhor! Vamos lá conhecer o seu quarto, o Félix está quase voltando com as suas coisas — diz ele, puxando-me pela mão de forma animada. Subimos os degraus em direção ao andar de cima, mas, para a minha surpresa, ele me guia de volta exatamente para o mesmo quarto onde acordei amarrada mais cedo. — Eu já não estive aqui antes? O que preciso conhecer? — pergunto, erguendo a sobrancelha ao parar no meio do cômodo. — Sei lá, falei por falar, sabe como é? Só para complementar a frase — Kiliam dá de ombros com a maior cara de pau. — Você é bem peculiar — comento, balançando a cabeça. Sem a menor cerimônia, ele se j**a de costas na cama. Bem, já que haviam dito que aquele quarto agora era meu, tecnicamente tudo o que estivesse ali me pertencia por enquanto. — Ei, sai daí, folgado! — ordeno, aproximando-me e dando uns tapinhas em sua perna para que ele se mova. — Eu não. Está muito bom aqui, vem relaxar ao meu lado — rebate ele, cruzando os braços debaixo da cabeça e fechando os olhos, folgado como ninguém. Antes que eu pudesse responder qualquer coisa ou expulsá-lo dali de verdade, a porta se abre e Zian entra no quarto. Seus olhos escuros passam por Liam jogado na cama e depois se fixam em mim. — Vamos tentar mais uma vez — diz, olhando diretamente nos meus olhos. Oi? Sinto minhas bochechas queimarem instantaneamente. Meu coração dá um salto descompassado no peito e eu travo no lugar. — Hum... perdão? — pergunto, completamente confusa e com a mente disparando em direções perigosas. Zian retira calmamente o celular do bolso do terno e o estende na minha direção. Só então a minha ficha cai e percebo que ele está falando, obviamente, da ligação telefônica. Que boba! Por um momento absurdo e embaraçoso, eu tinha pensado uma tremenda besteira. — Ligar. Vamos ligar para o seu amigo — complementa ele, com a voz séria de sempre. — Sim, sim... Espero que dessa vez o Jonas atenda — limpo a garganta, tentando disfarçar o meu constrangimento, e pego o aparelho para discar o número. O celular chama duas vezes antes de a ligação ser finalmente atendida do outro lado. — Alô? — ouço a voz de Jonas, soando totalmente despreocupada. Esse insensível! Nem para estar desesperado ou sentindo a minha falta. — Sou eu, Dulce — digo, tentando manter o tom de voz mais normal possível sob o olhar atento de Zian. A linha fica muda por alguns segundos, como se ele estivesse processando. — Oh, criatura, por onde andou?! Te liguei a tarde toda, fui até mesmo no seu apartamento... Você perdeu o ensaio! — ele começa a falar, a voz subindo de tom. Fico o equivalente a meia hora apenas ouvindo suas reclamações em silêncio, esperando que ele se acalme para que eu possa falar. — Ok, chega de falar! Eu tive um imprevisto e ficarei fora da cidade por alguns dias. Sabe, consegui um intercâmbio muito bom, vou viajar para Londres — minto de uma vez. Eu odiava mentiras e evitava ao máximo contá-las na minha vida diária. Mas a realidade era completamente outra agora. Eu havia sido sequestrada por uma organização criminosa e estava presa em uma mansão com um homem perigoso; não podia envolver terceiros ou colocar pessoas inocentes em risco. Mentir para o meu melhor amigo era, naquele momento, a única forma de manter todos seguros. Levanto os olhos após desligar o aparelho e encontro Zian me observando em absoluto silêncio. Seu olhar escuro e impenetrável está fixo no meu rosto, sem dar pistas do que passa por aquela mente calculista. Não sei dizer se ele estava satisfeito por eu seguir suas regras de não revelar nosso paradeiro... Ou se estava avaliando o quão boa eu era em mentir.Dulce Maite — Sevilha, EspanhaO silêncio no interior do carro volta a se instalar, denso e desconfortável. Fico completamente sem graça com a provocação absurda de Zian sobre a terapia. Alguns minutos depois, os grandes portões de ferro fundido se abrem e o veículo avança pela alameda principal, estacionando em frente à imponência gélida da mansão.Olho pela janela, e um aperto estranho surge no meu peito. Será que a Zuria e o Math estão bem? Será que notaram a minha ausência?Só se passou um dia desde que saí daqui, mas a verdade eufórica e assustadora é que eu já estava sentindo a falta deles.Dulce, o que você tem na cabeça?!, minha consciência me dá um estalo imediato, me repreendendo sem piedade. Isso é uma loucura completa! Como você pode sentir falta do ambiente do seu próprio cativeiro? Ao invés do Zian precisar de um psiquiatra, quem precisa de internação é você, sua boba!Minha mente travava uma batalha. De fato, não dava para negar: era uma insensatez absoluta o que eu est
Dulce Maite — Sevilha, EspanhaSem outra opção viável, Érika e eu fomos forçadas a seguir Zian, perdendo a primeira aula da manhã na faculdade.No carro, permanecemos em um silêncio tenso, esperando por alguma explicação sobre para onde estávamos indo. Mas Zian parecia absolutamente determinado a nos manter no escuro. Por alguns minutos longos e sufocantes, apenas o som abafado do motor preenchia o interior do veículo.Até que perco totalmente a paciência.— Então você não vai falar nada mesmo? — pergunto diretamente, olhando para a nuca dele. — Por que me trouxe junto se o seu negócio é com a Érika?Érika dá um tapinha leve no meu braço, me encarando.— Ei! Você não disse ainda há pouco que estaria sempre ao meu lado? Como é que agora quer pular do barco assim, na primeira oportunidade? — questiona ela, em tom de brincadeira.Decido acompanhar o drama.— Olha para a cara do seu ex-carrasco pelo retrovisor e me diz: você acha mesmo que eu vou arriscar a minha preciosa vida por você? A
Dulce Maite — Sevilha, EspanhaNo dia seguinte, eu já estava tentando me forçar a voltar à rotina.Caminho apressada pelo corredor da faculdade quando, de repente, encontro Érika vindo na direção oposta. Assim que ela me vê, sua expressão muda instantaneamente e ela fica pálida como um papel. Era quase como se ela esperasse que eu nunca mais voltasse a pisar ali.Aproximo-me para falar com ela, mas, para minha surpresa, ela simplesmente dá meia-volta e começa a andar rápido na direção contrária.— Ei, Érika! Não reconhece mais a sua melhor amiga?! — grito no meio do corredor.Ela para abruptamente.Eu sei que o meu sequestro tinha alguma relação direta com ela. Afinal, as ordens do Félix eram para que a Érika fosse a sequestrada naquela noite na garagem. Mas eu não conseguia culpá-la por isso. Eu não sabia o que estava acontecendo de errado na vida dela, muito menos por que aquela situação terrível tinha chegado àquele ponto extremo.— Eu... — ela tenta falar, mas as palavras morrem n
Zian Matias — Sevilha, EspanhaDou um soco violento contra o volante, tomado por uma raiva cega que há muito tempo eu não sentia.Dulce havia me expulsado de sua casa.E o pior de tudo: ela tinha total razão ao fazer isso.Nós não éramos mais sequestrador e prisioneira. Eu não tinha absolutamente nenhum argumento plausível para continuar mantendo-a sob o meu controle ou ao alcance dos meus olhos.Isso deveria ser simples. Eu deveria apenas fechar essa página e focar nos meus negócios.Então por que diabos eu não conseguia simplesmente deixá-la ir?Liam me encara, genuinamente assustado no banco ao lado. Em doze anos — todo o tempo em que nos conhecíamos e trabalhávamos juntos —, ele nunca havia me visto perder o controle daquela maneira por motivo algum.— Que bicho te mordeu? Ou será que foi a docinho? — pergunta, obviamente aproveitando a primeira oportunidade para me provocar.Lanço um olhar mortal na direção dele.— Cala a boca e dirige. Estou estressado e quero chegar em casa o m
Dulce Maite — Sevilha, Espanha— Bom, então vou embora — diz Jonas, levantando-se do sofá.Eu o acompanho até a entrada do apartamento. Paramos ali por alguns segundos, encarando um ao outro.— Até amanhã na igreja — digo, quebrando o silêncio que havia ficado entre nós.Jonas me puxa para um abraço apertado e protetor.— É tão bom ter você de volta, minha pequena — ele sussurra perto da minha orelha.Retribuo o abraço com força. Realmente era maravilhoso estar de volta. Principalmente por estar em seus braços de novo.— Eu sou realmente inesquecível, né? Confessa, você estava morrendo de saudades de mim! — brinco, afastando o rosto para olhar para ele.Jonas ri, balançando a cabeça.— Boba... — ele me dá um peteleco carinhoso na ponta do nariz. — Agora eu tenho que ir mesmo.Ele acena com a mão e se vira para caminhar pelo corredor.— Tchau, bebê! — grito, acenando da porta.Bebê era um apelido carinhoso que eu costumava usar para provocar e me referir a ele nos momentos em que estáv
Dulce Maite — Sevilha, EspanhaMinha curiosidade estava a mil. Queria desesperadamente saber qual seria o próximo passo de Zian depois daquela mensagem misteriosa que fez sua expressão mudar tão drasticamente.— Dulce, você ainda não me respondeu! — Jonas faz questão de me lembrar, chamando minha atenção de volta para ele.Engulo a ansiedade e abro um sorriso o mais natural possível.— Estou bem, Jonas! Veja bem, não há absolutamente nada de errado comigo — falo, levantando-me do sofá e dando uma voltinha rápida para ele ver. — Então pare de se preocupar tanto. Se o Zian não for o cara certo, você será a primeira pessoa para quem eu irei correndo e chorando — brinco, tentando suavizar o clima denso da sala.Eu não podia permitir que o Jonas se aprofundasse nessa situação com o Zian. Ele não sabia com quem estava lidando. O único caminho seguro para proteger a vida dele era entrar temporariamente no jogo de mentiras do meu sequestrador.— Você é a mulher da minha vida, Dulce. A única.







