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Capítulo 3

Author: Cocojam
A viagem da cidade até a catedral levou uma hora.

O silêncio no carro era sufocante.

Eu estava no banco do passageiro, encarando as luzes borradas da cidade.

Meus dedos traçavam a cicatriz já curada no meu ventre.

A mão de Alistair cobriu a minha. A palma dele era gelada, mas a voz, perfeitamente quente.

— Certo, vamos deixar esta noite para trás. Já coloquei os melhores chefs élficos de prontidão. Qualquer iguaria que você quiser para o banquete de aniversário, eu mandarei preparar.

Ele fez uma pausa, os olhos violetas suavizando.

— E você tem estado tão frágil ultimamente — murmurou, o polegar acariciando o dorso da minha mão. — Talvez seja hora de falarmos sobre um filho. Sobre torná-la eterna. Verdadeiramente minha.

Grávida?

Engoli um soluço, os olhos ardendo. Meu coração parecia estar sendo rasgado em dois.

Esse Príncipe, com sua percepção lendária… Ele nunca percebeu. Nunca sentiu que eu estava grávida.

Nunca sentiu que eu perdi nosso filho. Um filho que ele destruiu com as próprias mãos.

Assim quando o carro entrou na estrada sinuosa da montanha rumo à catedral, o telefone de Alistair tocou alto.

Ele olhou para a tela. Toda a cor sumiu de seu rosto.

— Desculpe. — disse, atendendo.

— O quê? Agora?

Ouvi uma voz apressada do outro lado.

— Entendido. Estou voltando.

Ele desligou e se virou para mim, os olhos uma tempestade de desculpa e dor.

— Seraphina, um clã rival está causando problemas. É uma emergência. Preciso voltar para resolver isso.

Lá estava de novo.

A mesma desculpa daquela noite.

— Vá. — Eu disse calmamente. — Seus deveres vêm primeiro.

Ele estremeceu, como se minha calma fosse um tapa.

— Seraphina, eu…

— Está tudo bem. — Consegui até sorrir. — Vou esperar por você na catedral. Você prometeu que estaria aqui no meu aniversário.

Ele parou o carro nos portões da catedral, beijou minha testa com uma relutância que parecia fingida, e então deu meia-volta com o carro.

Observando o veículo desaparecer na noite, caminhei lentamente para dentro da magnífica catedral gótica.

A luz da lua entrava pelas enormes janelas de vitral, lançando um caleidoscópio de cores no chão.

Assim como na noite em que nos conhecemos.

A ironia era sufocante. As duas vezes que vim aqui, estava em agonia.

No silêncio mortal da igreja, o som de uma notificação nas redes sociais foi ensurdecedor.

Olhei para baixo. Isabella tinha uma nova postagem.

Era uma foto dela, parecendo fraca e frágil, aninhada nos braços de um homem.

O rosto dele estava deliberadamente fora do enquadramento, mas a tatuagem visível logo acima do pulso fez meu coração parar.

Um antigo símbolo vampírico.

Idêntico ao que estava no meu próprio pulso.

Nossa tatuagem combinando.

A legenda dizia: “Tão sortuda por meu anjo da guarda estar sempre lá quando eu mais preciso.”

Soltei uma risada fria e disquei o número de Alistair.

A voz que atendeu não foi a dele.

— Oh, é você, irmã? — a voz de Isabella era doce e enjoativa. — Alistair está um pouco ocupado agora. Ele está me confortando depois do meu… incidente.

A risada dela foi afiada e cruel.

— Está se perguntando sobre aquele “negócio urgente” na noite em que você perdeu seu bastardinho? Vou te contar. Peguei uma adaga revestida de prata, fiz um pequeno corte em mim mesma e corri até ele chorando que um lobisomem tinha me atacado. E assim, ele enviou o Curandeiro-Chefe — aquele que deveria estar salvando você e seu vira-lata — para o meu lado. Você realmente achou que poderia competir comigo?

Meu mundo desabou.

Uma mentira. Foi tudo o que bastou para matar meu filho.

Deixei o telefone cair, minha mão tremendo. As lágrimas finalmente vieram, quentes e imparáveis.

Cinco anos de casamento, construídos sobre uma mentira após a outra.

Meu filho, minha arte, meu amor… eles pisotearam tudo até virar pó.

Assim como a primeira traição que eu flagrei antes do casamento.

Esperei a noite inteira.

Esperei até a luz da lua desaparecer, até os primeiros raios do amanhecer estarem prestes a romper a escuridão.

Alistair nunca voltou.

Caminhei até a entrada da catedral, onde os guardas de Alistair estavam de vigia.

— Podem retornar ao castelo. — Disse ao capitão.

Ele hesitou.

— Senhora, o Príncipe ordenou que a protegêssemos.

Balancei a cabeça, a voz um sussurro suave.

— Podem ir. Ele prometeu que voltaria para mim. Quero esperar por ele sozinha.

O guarda não ousou discutir. Ele se curvou e recuou com seus homens.

Caminhei lentamente em direção ao altar, o lugar onde a luz sagrada era mais forte.

Todos os votos lindos dele, seus abraços ternos… um sonho lindo e envenenado.

Quão ridículos pareciam agora, comparados às palavras naquele pergaminho: “Prioridade absoluta. Acima de tudo.”

Quando o primeiro raio de sol atravessou a cúpula e iluminou o altar, liguei para ele uma última vez.

A chamada foi cortada antes mesmo de tocar.

Encarei a tela de cristal escura e então coloquei três coisas sobre o altar.

Uma cópia do pergaminho de sangue, prova de sua prioridade.

O relatório secreto do aborto espontâneo que eu nunca lhe mostrara, prova de como a negligência dele matou nosso filho.

E o cristal de gravação da minha chamada com Isabella, prova de toda a verdade distorcida.

Feito isso, abri os braços, banhando-me na luz sagrada que cortava a escuridão.

Fechei os olhos e sussurrei minha confissão.

— Eu confesso… que me apaixonei por uma mentira.

— Eu confesso… toda a esperança que eu tive por causa dele, uma esperança que nunca deveria ter existido.

— Eu confesso… esta alma que ele manchou.

Em um canto sombreado, um jovem monge que limpava os bancos olhou, os olhos arregalados de terror.

A luz sagrada explodiu, tornando-se cegante, e engoliu completamente a mulher sobre o altar.

Quando a luz se dissipou, tudo o que restou foram alguns grãos cintilantes de poeira dourada, flutuando no ar.

Como se ela nunca tivesse estado ali.

Enquanto isso, Alistair estava prestes a sair da residência de Isabella.

Seu ancião do clã, Viktor, materializou-se em um redemoinho de sombras, o rosto uma máscara de puro terror.

— Meu Príncipe, é uma catástrofe! A Senhora… ela tirou a própria vida no altar da antiga catedral!
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