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Capítulo 2

Author: Cocojam
Na noite seguinte, aconteceu a gala de abertura da minha exposição de arte.

Entrei no grande salão de baile ao lado de Alistair, o retrato perfeito da artista dedicada e de seu príncipe patrono.

Esta noite deveria ser minha.

O salão da propriedade Valerius estava deslumbrante, cheio da elite da cidade e de dignitários sobrenaturais, todos reunidos para celebrar minha conquista artística.

— Senhora Seraphina, sua obra é simplesmente de tirar o fôlego.

— Parabéns. Esta exposição é, sem dúvida, o evento artístico do ano.

Sorri e aceitei os elogios, mas então eu a vi.

E lá estava ela. Isabella. Parada ao lado de um enorme cavalete coberto por um pano, sorrindo como se fosse dona daquele maldito lugar.

Quando a noite atingiu seu auge, o anfitrião me convidou ao palco para fazer um discurso.

Assim que eu estava prestes a falar, Isabella deu um passo à frente e pegou o microfone antes de mim.

— Obrigada a todos por virem à exposição da minha irmã esta noite. — O sorriso dela era doce e inocente. — Mas hoje eu também tenho uma surpresa. Um debut como nova artista.

Ela puxou o pano atrás de si.

Um suspiro percorreu a multidão.

Foi engolido pelo silêncio repentino onde meu coração costumava estar.

Era Primeira Luz em uma Noite Sem Fim. Minha alma sobre a tela. A história de ser puxada de uma escuridão, apenas para ser jogada em outra ainda mais profunda.

Mas agora, no canto inferior direito, a assinatura dizia: “Isabella.”

— O conceito central desta obra é “a esperança de um novo começo”… — Isabella continuou, explicando a pintura ao público.

Ela estava distorcendo minha alma, minha dor, transformando tudo em alguma motivação barata e vazia.

Um arrepio percorreu minhas veias. Virei a cabeça bruscamente para Alistair. Eu vi — um lampejo de culpa em seus olhos, desaparecendo tão rápido quanto surgiu.

— Seraphina! — a voz de Isabella chamou do palco, enquanto um holofote se voltava para mim. — Minha querida irmã, obrigada por toda a sua… inspiração. Esta pintura não existiria sem você. E, por isso, eu a dedico a você.

Toda a atenção da sala estava nela.

Os elogios se derramavam, com pessoas proclamando que o talento artístico dela superaria em muito o meu.

Isabella desceu do palco com elegância e parou bem na nossa frente.

— Irmã, você não parece feliz. — Sussurrou, com a voz baixa o suficiente para apenas nós três ouvirmos. — Está… com ciúmes?

Eu a encarei, sem palavras.

Antes que eu pudesse responder, de repente, um grito agudo rasgou sua garganta.

— Ah!

Ela caiu no chão, tremendo, um monte de soluços e lágrimas.

— Um ataque psíquico! — Alguém gritou na multidão.

Todos os olhos da sala se voltaram para mim.

— Não fui eu. — Eu disse, com a voz desesperada.

— Seraphina, chega! — A voz de Alistair estalou como um chicote. Ele nem sequer olhou para mim. Em um borrão de movimento, já estava ao lado de Isabella, erguendo-a em seus braços.

Uma luz dourada de cura jorrou de sua palma.

E eu, sua esposa, fiquei ali parada, naquilo que deveria ser minha celebração, cercada por olhares de suspeita e condenação.

— Graças a Deus, ela está bem.

Alistair soltou um suspiro de alívio.

Então se virou para mim, os olhos cheios de decepção.

— Chega, Seraphina. Eu te ensinei magia, e é isso que você faz com ela? Machucar sua irmã inocente? Seja lá o que for isso, vamos discutir quando voltarmos ao castelo.

Ele não estava apenas me acusando. Estava me silenciando. Publicamente.

— Alistair, aquela pintura… — Apontei para minha obra roubada, a mão tremendo. — Você disse que ela não roubaria de mim…

Ele seguiu meu dedo, desviando o olhar, incapaz de encontrar meus olhos.

Depois de alguns segundos, voltou a olhar para mim, a voz rouca.

— Você a inspirou. Ela interpretou sua luz do jeito dela. Isso não é uma forma de legado? Inspiração artística é compartilhada. Por que usar uma palavra tão suja como “roubar” para descrever sua única irmã? Essa fama te deixou tão cruel? Tão possessiva? Esta não é a mulher por quem eu me apaixonei.

Naquele momento, meu mundo se despedaçou.

Ele sabia a verdade. Mas, para proteger Isabella, escolheu me pisotear com a mentira mais absurda.

Um nó de dor se torceu em meu estômago. Lágrimas escorreram pelo meu rosto, mas mantive o sorriso estampado.

Alistair viu aquilo, e pela primeira vez, um lampejo de pânico cruzou suas feições.

Ele entregou Isabella a um curandeiro que havia se aproximado e deu um passo em minha direção.

— Seraphina, acalme-se…

— Eu estou calma. — Enxuguei uma única lágrima da bochecha. Minha voz estava morta, plana. — Nunca estive tão calma.

— Certo, vamos para casa. Posso perdoar tudo o que aconteceu hoje à noite. Não quero que nada estrague sua noite. — Alistair estendeu a mão para mim.

Dei um passo para trás.

— Não. Eu não vou voltar para o castelo. — Olhei diretamente nos olhos dele, com uma voz tão baixa que até me assustou.

— Amanhã é meu aniversário. — Eu disse, estranhamente serena. — Quero ir à catedral. Aquela onde nos conhecemos. Só nós dois.
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