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Sob as Ordens do Meu Meio-Irmão
Sob as Ordens do Meu Meio-Irmão
Author: Lethicya Mattos

Capítulo 1 — O menino do muro

last update publish date: 2026-10-13 19:49:26

Capítulo 1

Isabella

Eu tinha ensaiado aquele reencontro umas quarenta vezes no banco de trás do carro da minha mãe. Em algumas versões, Lorenzo Valle sorria assim que me via; em outras, fingia surpresa e fazia algum comentário sobre como eu continuava baixinha. Mas, em todas, ele dizia meu nome daquele jeito antigo, arrastando o “s” de Isabella, antes de me chamar de Bella pelo resto da noite. Era uma lembrança tão nítida que, por alguns minutos, consegui acreditar que oito anos não fariam tanta diferença.

Nenhuma das versões incluía um terno preto. Muito menos um jantar na casa do pai dele, com talheres demais ao redor do prato e uma sala tão impecável que eu me sentia inconveniente só por estar ali.

— Para de puxar o vestido — minha mãe murmurou, inclinando-se discretamente na minha direção. — Está ótimo.

Soltei o tecido, embora continuasse achando que a barra tinha subido durante o caminho.

— Você disse que seria um jantar de família.

— E é.

Olhei para a mesa posta, depois para o homem que aguardava junto à porta.

— A nossa família costuma comer com um garfo só.

Helena apertou os lábios para conter o sorriso e tocou meu braço, num pedido silencioso para que eu me comportasse. Eu pretendia me comportar. Tinha escolhido um vestido preto, na altura dos joelhos, e passado tempo demais diante do espelho para alguém que alegava não estar nervosa. O cabelo, pelo menos, eu deixara solto sem muita discussão. Lorenzo costumava gostar dele assim.

Aos treze anos.

Eu sabia que era ridículo levar aquela informação em consideração. Ainda assim, tinha desistido de prendê-lo.

Ricardo Valle nos recebeu com um beijo carinhoso no rosto da minha mãe. A mão dele permaneceu por alguns segundos nas costas dela, um gesto familiar que me fez perceber o quanto eu ainda desconhecia daquele relacionamento. Quando se voltou para mim, abriu um sorriso.

— Isabella. Faz tanto tempo… Você cresceu.

— Oito anos costumam fazer isso.

Minha mãe me lançou um olhar, e eu acrescentei depressa:

— É bom ver o senhor.

— Ricardo, por favor. Fico feliz que tenha vindo.

Ele pareceu sincero. Eu começava a relaxar quando ouvi a porta do corredor se abrir e olhei por cima do ombro dele.

Reconheci Lorenzo antes mesmo de conseguir conciliar o homem à minha frente com o menino de quem me lembrava. O cabelo escuro estava penteado para trás, deixando o rosto mais exposto; os ombros preenchiam o paletó, e havia uma segurança nos movimentos que me fez endireitar a postura sem perceber. A mandíbula era diferente, mais marcada. A boca, infelizmente, não tinha mudado o bastante para me poupar de olhar.

Mas foram os olhos que me prenderam. Castanhos, atentos, os mesmos que eu procurava do outro lado do muro entre nossos quintais.

Só que, daquela vez, ele não sorriu.

Seu olhar parou em mim por um instante antes de se voltar para o pai, e senti o entusiasmo que vinha alimentando durante o caminho se tornar um constrangimento difícil de disfarçar.

— Lorenzo, venha cumprimentá-las — Ricardo chamou. — Você se lembra de Isabella, não é?

Ele se aproximou.

— Claro.

Esperei por alguma coisa depois disso. Uma pergunta, um comentário, qualquer sinal de que também se lembrava de nós dois sentados no muro até nossas mães começarem a chamar. Lorenzo apenas estendeu a mão.

— Isabella.

Apertei seus dedos, tentando ignorar o calor da palma contra a minha.

— Oi, Enzo.

Houve uma pausa breve. Os olhos dele voltaram aos meus, e seu polegar se moveu sobre a lateral da minha mão antes de soltá-la.

— Lorenzo — corrigiu, num tom baixo. — Faz tempo que não uso esse apelido.

— Eu percebi.

Minha mãe interveio antes que o silêncio ficasse ainda pior.

— Vocês dois eram inseparáveis. Lembra, Ricardo? Eu precisava chamar umas cinco vezes para Isabella entrar. E, quando finalmente entrava, vinha perguntar se Lorenzo podia jantar conosco.

— Lembro muito bem — ele respondeu, sorrindo. — Vamos nos sentar?

Lorenzo afastou uma cadeira para Helena e, depois, a que ficava ao lado da dele para mim. Agradeci e me acomodei, consciente demais de sua presença quando ele se sentou. O perfume era discreto, mas eu o sentia sempre que ele se movia. Não tinha nada a ver com o sabonete que usava quando éramos crianças. Era estranho notar isso; mais estranho ainda era descobrir que eu me lembrava.

Durante a entrada, ele conversou com minha mãe sobre uma viagem recente a Lisboa. Depois, respondeu às perguntas do pai a respeito de uma campanha e de um cliente que ainda não aprovara o material. Parecia à vontade falando de trabalho. Escutava sem interromper, fazia comentários breves e, vez ou outra, sorria.

Para eles.

Comigo, mantinha uma distância educada que seria perfeitamente aceitável se tivéssemos acabado de nos conhecer.

Eu tentei participar. Comentei sobre a viagem, respondi quando Ricardo perguntou pelo meu trabalho, até ri de uma história que minha mãe contou. Mas, quanto mais Lorenzo agia como se aquele reencontro não tivesse importância, mais difícil ficava continuar fingindo o mesmo.

A pergunta escapou durante uma pausa na conversa.

— Você chegou a ler minhas cartas?

Lorenzo parou com o garfo a meio caminho do prato. Ao meu lado, minha mãe se ajeitou na cadeira.

— Cartas? — Ricardo perguntou.

— Eu escrevia para ele no internato.

Só então Lorenzo virou o rosto para mim. Seu olhar passou rapidamente pelo meu cabelo antes de encontrar meus olhos.

— Isso foi há muito tempo, Isabella.

— Eu sei. Estou perguntando porque você nunca respondeu.

Minha mãe tocou meu pulso por baixo da mesa. Entendi o aviso, mas não retirei a pergunta.

Lorenzo pousou o garfo.

— Eu não recebi.

Quis acreditar nele. Teria sido tão fácil aceitar que as cartas se perderam, que o endereço estava errado, que eu passara anos magoada por um equívoco. Mas a ponta da orelha esquerda dele ficou vermelha, e conhecia aquele detalhe bem demais. Quando éramos pequenos, Lorenzo conseguia sustentar uma mentira olhando diretamente para mim. A orelha sempre o entregava.

— Nenhuma das sete?

— Nenhuma.

Baixei os olhos por um segundo, sorrindo sem vontade.

— Engraçado. Sua orelha ainda fica vermelha.

Ele levou a mão ao copo de água, mas não bebeu de imediato. Houve uma mudança quase imperceptível em sua expressão, algo que me lembrou o menino que prendia o riso quando eu o pegava fazendo alguma coisa errada. Durou pouco.

— Está quente aqui — respondeu.

— Claro.

— Isabella — minha mãe disse, dessa vez alto o suficiente para encerrar o assunto.

Recostei-me na cadeira.

— Tudo bem. Era só uma dúvida antiga.

Ricardo retomou a conversa com uma pergunta sobre Lisboa, e Lorenzo respondeu com a mesma tranquilidade de antes. Eu me concentrei no prato. Não sabia o que tinha esperado ao mencionar as cartas, mas certamente não era me sentir outra vez como a adolescente que verificava a correspondência mesmo depois de prometer a si mesma que tinha desistido.

Conseguiria terminar o jantar. Sorriria para minha mãe, agradeceria a Ricardo e iria embora. Mais tarde, sozinha, teria tempo para me arrepender de ter deixado o cabelo solto por causa de uma lembrança.

Antes de servirem a sobremesa, Ricardo pousou a mão sobre a de Helena.

— Queremos contar uma coisa a vocês.

Minha mãe olhou para ele e sorriu. Havia um nervosismo feliz naquele sorriso, algo que eu não via nela havia muito tempo. Desde a morte do meu pai, Helena aprendera a ser cuidadosa até com a própria alegria, como se precisasse verificar antes se podia senti-la.

Ao vê-la daquele jeito, esqueci Lorenzo por um instante.

— O que foi, mãe?

Ela estendeu a mão, e eu a segurei.

— Ricardo e eu vamos nos casar.

Fiquei olhando para ela, esperando que a frase encontrasse algum lugar dentro de mim.

— Casar?

— No fim do verão — Ricardo explicou. — Ainda estamos decidindo alguns detalhes, mas queríamos contar pessoalmente.

Minha mãe apertou meus dedos.

— Eu sei que talvez pareça rápido para você. Nós conversamos bastante, e… estamos felizes, filha.

Foi isso que me fez sorrir. A felicidade dela era evidente, e eu não queria que minha surpresa fosse confundida com rejeição.

— Então eu fico feliz também.

Helena soltou o ar, aliviada, e se inclinou para beijar meu rosto. Retribuí o carinho antes de olhar para Lorenzo.

Ele já estava me olhando.

A expressão que encontrei não se parecia em nada com a indiferença do começo da noite. Havia surpresa, tensão e alguma coisa mais que não consegui identificar antes de ele desviar os olhos.

— Parabéns, pai — disse. Depois, voltou-se para minha mãe. — Aos dois.

Sua voz permaneceu firme, mas a mão fechada sobre o guardanapo chamou minha atenção.

— Obrigada, querido — Helena respondeu. — Queremos vocês perto de nós nessa nova fase. Vamos ser uma família, afinal.

Uma família.

Olhei para as mãos de minha mãe e Ricardo sobre a mesa, e a consequência daquela decisão ficou clara de um jeito que eu ainda não tinha considerado. Eu conhecia Lorenzo desde criança, sentira sua falta durante anos e chegara ali imaginando como seria abraçá-lo de novo.

Agora, nossos pais iam se casar.

Ricardo começou a falar sobre um almoço no domingo. Helena mencionou o jardim, a lista de convidados, a possibilidade de uma cerimônia menor. Eu escutava e respondia quando necessário, mas uma parte da minha atenção continuava presa à mão de Lorenzo, que ele finalmente abriu para deixar o guardanapo ao lado do prato.

Quando vieram recolher a louça, ele se inclinou na minha direção.

— Não volte a falar das cartas na frente deles.

Virei o rosto para encará-lo.

— Você poderia ter respondido quando teve oportunidade.

— Não é hora de discutir isso.

— Você teve oito anos para escolher uma hora melhor.

O maxilar dele se contraiu. Lorenzo olhou rapidamente para nossos pais, ocupados com os preparativos, antes de tornar a falar.

— As coisas mudaram, Isabella.

— Isso eu já tinha percebido.

— Nossos pais vão se casar. Você vai ser minha irmã.

A palavra me incomodou ainda mais na voz dele.

— Não sou sua irmã, Enzo.

— Não me chame assim.

— E você não pode decidir o que eu sou só porque não quer conversar comigo.

Ele ficou em silêncio. Por um instante, achei que fosse finalmente dizer alguma coisa que explicasse a frieza, as cartas, aquele cuidado excessivo em manter distância. Mas Lorenzo apenas se afastou e aceitou o café que lhe ofereceram.

Terminei o jantar com a sensação de que tínhamos discutido muito mais do que qualquer pessoa naquela mesa poderia imaginar.

No carro, minha mãe falou quase sem parar. Contou como Ricardo fizera o pedido, disse que ainda não tinha escolhido o vestido e perguntou duas vezes se eu estava mesmo bem com a notícia.

— Estou, mãe.

— Você ficou tão quieta…

— Fui pega de surpresa. Só isso.

Ela me observou por um momento antes de voltar a olhar para a frente.

— Eu sei que ele não é seu pai, Bella.

A maneira como disse aquilo me fez esquecer, por alguns segundos, o resto da noite.

— Eu sei. E não precisa ser. Ele faz você feliz?

Minha mãe sorriu.

— Muito.

— Então está tudo bem.

E estava, pelo menos naquela parte. Ricardo era gentil com ela. Prestava atenção quando falava, fazia questão de incluí-la nas decisões e parecia tão feliz quanto minha mãe com o casamento.

Eu não tinha nada contra ele.

O problema era o filho, que apertava minha mão como um desconhecido e depois mentia olhando nos meus olhos.

Em casa, tirei o vestido e prendi o cabelo antes de me sentar diante da escrivaninha. Demorei um pouco para abrir a última gaveta. Sabia exatamente o que encontraria ali, embora não mexesse naquele maço de papéis havia anos.

Eu tinha guardado os rascunhos das cartas. Na época, escrevia primeiro em folhas de caderno, riscava o que me parecia bobo e passava tudo a limpo antes de enviar. Queria contar tantas coisas que acabava levando dias para decidir o que caberia no envelope. Depois, gastava mais tempo ainda imaginando o que ele responderia.

Passei o polegar pelo elástico cor-de-rosa que prendia as folhas, mas não abri nenhuma. Já tinha me exposto o suficiente por uma noite.

Meu celular vibrou sobre a mesa.

A mensagem vinha de um número desconhecido.

“Domingo, ao meio-dia, na casa do meu pai. E, por favor, não me chame de Enzo na frente deles.”

Não havia assinatura. Eu não precisava de uma.

Li outra vez, incomodada com a facilidade com que ele conseguira meu número e decidira me escrever depois de passar o jantar evitando qualquer conversa de verdade.

“Você podia ter me pedido isso sem fingir que mal me conhece.”

A resposta não veio de imediato. Deixei o celular ao lado das cartas, levantei para pegar água e voltei antes de sentir sede.

Quatro minutos depois, a tela acendeu.

“Não estou fingindo.”

Sentei-me devagar.

Era uma frase curta, mas não respondia a nada. Ou talvez respondesse a mais coisas do que ele pretendia.

“Então por que mentiu sobre as cartas?”

Dessa vez, ele respondeu quase na mesma hora.

“É melhor deixar isso no passado, Isabella. Nossos pais estão felizes. Não complique as coisas.”

Olhei para a mensagem até sentir a irritação vencer o constrangimento.

“Eu só fiz uma pergunta, Lorenzo. Você é que está transformando isso num problema.”

Ele começou a digitar. Parou. Começou outra vez.

Esperei, com o celular entre as mãos, mas nenhuma mensagem chegou.

Quando me deitei, deixei as cartas sobre a escrivaninha. Não tinha coragem de relê-las, e guardá-las de novo parecia admitir que ele conseguira encerrar o assunto.

No escuro, tentei pensar na felicidade da minha mãe, no casamento, no almoço de domingo. Pensei até em uma desculpa para não ir. Mas sempre acabava voltando ao instante em que Lorenzo segurara minha mão, ao movimento breve do polegar dele e ao olhar que trocamos depois do anúncio.

Ele podia insistir que eu seria sua irmã. Talvez repetisse aquilo até se convencer.

Eu só queria entender por que precisara me lembrar disso antes mesmo de eu pensar na possibilidade.

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