FAZER LOGINLorenzo
As cartas de Isabella estavam no fundo do cofre do meu escritório, junto da aliança da minha mãe e de um relógio que eu não usava havia anos. Eu poderia ter guardado os envelopes em qualquer gaveta. Poderia ter jogado fora. Escolhera um lugar que ninguém abria além de mim e, durante muito tempo, evitei pensar no que isso significava.
Na agência, eu sabia o que fazer com qualquer coisa que chegasse às minhas mãos. Havia um responsável, um prazo, uma decisão a tomar. Com aquelas cartas, nunca tinha conseguido passar da leitura.
Eram sete. Algumas folhas tinham marcas das dobras, outras ainda conservavam a pressão da caneta no papel. Isabella escrevia como falava: começava num assunto, se lembrava de outro no meio e acrescentava alguma observação que provavelmente me faria rir se ela estivesse por perto. A letra ficara mais firme com o passar dos anos, mas o modo de escrever meu nome no alto da página continuara igual.
Enzo.
No jantar, bastara ouvir aquele nome na voz dela para descobrir o quanto eu me enganara a respeito do tempo.
Tirei a primeira carta do envelope. Ela chegara dois meses depois do enterro da minha mãe, quando eu ainda estava me acostumando ao internato e à ideia de que meu pai não pretendia me buscar tão cedo.
“Enzo, o muro está alto demais sem você. Ontem o poste acendeu e eu ainda estava esperando, até minha mãe mandar eu entrar. Seu pai disse que você foi estudar. Estudar o quê, se você já era o melhor da turma em tudo que não fosse educação física?”
Eu tinha dezessete anos quando li aquilo pela primeira vez. Lembrava de estar sentado na cama, com a mochila ainda nos pés, e de ter rido da última frase antes de precisar apoiar os cotovelos nos joelhos e esperar passar a vontade de chorar.
Isabella não perguntara se eu estava sendo forte. Não dissera que minha mãe gostaria de me ver seguindo em frente. Apenas escrevera sobre o muro, como se ainda houvesse um lugar me esperando do outro lado.
Naquela noite, cheguei a pegar uma folha para responder.
Meu pai ligou antes que eu começasse. Quis saber das aulas, das notas e se eu tinha parado de pedir para voltar. A discussão terminou no mesmo acordo que ele repetiria nos meses seguintes: eu concluiria os estudos, ele cuidaria do que minha mãe deixara para trás, e nenhum dos dois daria mais trabalho ao outro.
Na época, pareceu uma exigência à qual eu não tinha escolha a não ser obedecer. Hoje, eu sabia que isso explicava algumas semanas de silêncio. Talvez meses.
Não explicava oito anos.
Guardei a primeira carta e procurei a última. Já conhecia boa parte dela de memória, principalmente o trecho em que Isabella tentara fingir que não se importava.
“Esta é a última. Não vou continuar escrevendo para alguém que talvez nem abra os envelopes. Você pode ter morrido, casado ou decidido que não quer mais saber de mim. Se for a terceira opção, pode dizer. Vai ser melhor do que me deixar tentando adivinhar.”
Ela não voltara a escrever.
Eu continuara esperando.
Passei os dedos pela borda da folha antes de colocá-la no envelope. Na mesa de jantar, Isabella me dera a oportunidade de explicar. Eu poderia ter dito que recebera todas, que ainda as tinha, que não havia uma justificativa capaz de tornar meu silêncio menos cruel.
Em vez disso, mentira.
E ela percebera pela minha orelha, como fazia quando éramos crianças.
Fechei o cofre e me afastei da escrivaninha. Do outro lado da janela, São Paulo continuava acesa. Eu gostava daquele apartamento pela distância da rua, pelo silêncio, pela possibilidade de chegar em casa e não precisar responder a ninguém. Naquela noite, porém, cada coisa parecia me devolver ao jantar.
Isabella entrara com o cabelo solto.
Eu notara antes do vestido, antes de perceber o esforço que ela fazia para parecer à vontade. Durante alguns segundos, quis sorrir e chamá-la de Bella. Perguntar se ainda prendia uma mecha entre os dedos quando ficava nervosa. Quis saber tudo o que tinha acontecido enquanto eu estivera longe.
Então ela me olhou com uma expectativa que eu não tinha direito de encontrar ali, e fiz a única coisa que vinha fazendo bem havia anos: mantive distância.
Não funcionara como eu esperava. Ela se sentara ao meu lado, me chamara de Enzo e fizera perguntas que eu não conseguia despachar com educação. Quanto mais eu tentava conduzir a conversa para um terreno seguro, mais consciente ficava de sua presença.
Depois, meu pai anunciara o casamento.
Eu sabia que ele e Helena estavam envolvidos. Sabia que o relacionamento era sério. Ainda assim, não estava preparado para vê-los de mãos dadas enquanto ela dizia que seríamos uma família.
Olhei para Isabella antes de conseguir evitar.
Ela também estava olhando para mim.
Talvez tivesse sido apenas surpresa. Talvez eu estivesse procurando naquela expressão alguma coisa que me permitisse acreditar que não era o único incomodado. O que quer que fosse, precisei desviar os olhos.
Quando lhe disse que seria minha irmã, não estava esclarecendo uma consequência do casamento. Ela era perfeitamente capaz de entendê-la sozinha.
Eu estava tentando estabelecer um limite antes que precisasse admitir por que ele me parecia necessário.
Meu celular vibrou sobre a escrivaninha.
“Você podia ter me pedido isso sem fingir que mal me conhece.”
Li a mensagem duas vezes. Tinha conseguido seu número com Helena sob o pretexto de combinar o almoço de domingo, e bastara começar a conversa para Isabella retomar o assunto que eu evitara durante a noite.
Digitei que não estava fingindo.
Só percebi o quanto a resposta era ambígua depois de enviá-la.
A pergunta seguinte chegou depressa.
“Então por que mentiu sobre as cartas?”
Sentei-me, apoiando os antebraços na mesa. Havia respostas possíveis. Nenhuma cabia numa mensagem que eu estivesse disposto a mandar.
“É melhor deixar isso no passado, Isabella. Nossos pais estão felizes. Não complique as coisas.”
Assim que enviei, senti vontade de apagar. Eu acabara de colocar sobre ela a responsabilidade por um problema que vinha sustentando sozinho havia anos.
A resposta não me deixou esquecer disso.
“Eu só fiz uma pergunta, Lorenzo. Você é que está transformando isso num problema.”
Comecei a escrever um pedido de desculpas. Apaguei antes de terminar. Depois digitei que conversaríamos no domingo, mas também não enviei.
Deixei o telefone virado para baixo.
Às onze, meu pai ligou.
— Você tem um minuto?
— Tenho.
— Helena ficou preocupada com Isabella. Achou que ela estava quieta na volta.
Passei a mão pela nuca.
— Vocês anunciaram um casamento. É normal que ela precise de algum tempo.
— Eu sei. Mas tem outra coisa. Uma prima de Helena mandou uma foto hoje. Isabella numa festa, dessas que continuam até de manhã.
Fechei os olhos por um instante. Eu sabia de qual foto ele estava falando. Meu pai a encaminhara antes do jantar, sem explicação, e eu reconhecera Isabella junto de algumas pessoas num bar. Ela sorria, segurando um copo, com a cabeça inclinada na direção de uma amiga.
Não havia nada de extraordinário na imagem. Eu olhara por mais tempo do que precisava.
— Ela tem vinte e três anos, pai. Pode sair com os amigos.
— Não estou dizendo que não pode. Estou dizendo que as pessoas comentam. Agora que vamos nos casar, qualquer coisa envolvendo Helena e a filha acaba chegando até mim.
— Uma foto num bar não é um escândalo.
— Ainda assim, prefiro evitar assunto.
Eu conhecia aquele tom. Meu pai já tinha uma solução e esperava apenas o momento de apresentá-la como se tivéssemos chegado a ela juntos.
— Helena me contou que ela está terminando design e fazendo alguns trabalhos por conta própria — continuou. — Pensei que você pudesse oferecer uma oportunidade na agência.
Afastei o telefone por um segundo e olhei para o cofre.
— Uma oportunidade?
— Um estágio, uma vaga de assistente. Você saberá o que faz sentido. Ela ganha experiência, passa a ter uma rotina mais definida…
— Ela já estuda e trabalha.
— Lorenzo, não transforme uma sugestão numa discussão. Estou tentando ajudar.
Havia ajuda na proposta. Também havia o desejo de colocar Isabella num lugar onde meu pai pudesse saber o que ela fazia, com quem andava e a que horas terminava o dia. Eu reconhecia a combinação porque crescera sob ela.
— Se houver uma vaga, alguém vai precisar avaliar o trabalho dela — respondi.
— Claro. Não estou pedindo que invente um cargo.
Ele deixou passar uma pausa antes de acrescentar:
— Mas gostaria que você conversasse com ela no domingo. Helena ficaria mais tranquila sabendo que vocês estão próximos.
Próximos.
Eu me recostei na cadeira.
— Não sei se trabalhar comigo seria uma boa ideia.
— Por quê? Vocês se conhecem desde crianças.
Porque eu me lembrava de coisas que deveria ter esquecido. Porque passara boa parte do jantar evitando olhar para a boca dela. Porque ainda guardava sete cartas num cofre e acabara de mentir sobre todas.
— Família e trabalho nem sempre funcionam bem juntos.
— A Valle inteira foi construída assim.
Não havia muito que responder a isso.
— Vou verificar as vagas.
— Ótimo. E seja mais receptivo com a menina. Ela sempre gostou de você.
Apertei os dedos contra a borda da mesa.
— Boa noite, pai.
Desliguei antes que ele insistisse.
Por alguns minutos, permaneci sentado sem fazer nada. Depois abri o notebook e procurei uma pasta antiga no e-mail. Entre documentos que já não tinham utilidade, havia um rascunho salvo no ano anterior.
“Bella, eu recebi suas cartas. Todas. Você tem razão de estar com raiva.”
O texto terminava algumas linhas depois, numa tentativa de explicar que eu achara melhor deixá-la seguir a vida sem mim.
Na época, parecera uma razão aceitável. Lendo outra vez, vi que era apenas uma decisão que tomara por ela para não precisar enfrentar a conversa.
Fechei o arquivo.
No domingo, eu falaria sobre a agência. Poderia pedir o portfólio, explicar as vagas, deixar que outra pessoa conduzisse a avaliação. Havia uma maneira correta de fazer aquilo, e eu sabia exatamente qual era.
O problema surgiu quando imaginei Isabella entrando no meu escritório numa manhã qualquer, deixando a bolsa sobre uma cadeira e discutindo uma ideia comigo. Pensei em ouvi-la rir do outro lado de uma sala. Em descobrir que café tomava, em saber como passava os dias.
Demorei a voltar à questão do emprego.
Olhei para o celular ainda virado para baixo e compreendi por que não respondera à última mensagem.
Isabella tinha feito uma pergunta sobre o passado.
Eu estava preocupado com o quanto queria voltar a fazer parte da vida dela.
IsabellaMarina segurou o vestido contra a luz do meu quarto e ergueu as sobrancelhas.— Sua mãe vetou esse por um motivo.— Minha mãe não foi convidada.— Mas Lorenzo foi. Pelo visto, o vestido também sabe disso.Tomei a peça das mãos dela e me virei para o espelho.— É uma confraternização num hotel, Marina. Não vou de camisa social.— Você tem outros vestidos. Escolheu justamente o que passou vinte minutos experimentando quando soube que ele estaria lá.Não respondi porque seria difícil discordar sem mentir.O vestido era preto, de alças finas, ajustado à cintura e curto o suficiente para exigir alguma atenção ao sentar. Deixei o cabelo solto e coloquei brincos pequenos. Quando terminei, Marina me observou pelo espelho.— Você está linda. Só tenta se divertir também.Peguei a bolsa.— Essa é a intenção.Ela fez uma expressão de quem não acreditava, mas teve a gentileza de não insistir.A Leme alugara o terraço de um hotel na Paulista. Havia música baixa, garçons circulando entre os
LorenzoEu tinha dezoito reuniões naquela semana e um elevador prestes a me lembrar que nem tudo obedecia à minha vontade.Isabella entrou quando as portas começavam a fechar, o crachá torto e um bloco apertado contra o peito. Prendera o cabelo com uma caneta, deixando algumas mechas soltas junto ao rosto. Eram quase oito, e o estúdio já estava vazio. Eu ficara para revisar o manifesto da Leme. Ela, pelo que Caio me dissera, resolvera procurar referências no arquivo antigo da agência depois de descartar as que encontrara na internet.— Desce? — perguntou, recuperando o fôlego.— Desce.Ela apertou o botão do térreo, embora já estivesse aceso, e se acomodou ao meu lado. No espelho, vi a mancha de café no punho da blusa branca e a marca que a alça da bolsa deixara em seu ombro. Não havia nada de especial naquela roupa. Mesmo assim, precisei me obrigar a olhar para o painel.O elevador desceu dois andares antes de parar.A luz piscou, e um aviso sonoro interrompeu o silêncio. Isabella ol
IsabellaA Valle ocupava os três últimos andares de um prédio na Faria Lima onde até o calor parecia ter sido barrado na recepção. Cheguei às oito e trinta e sete, porque dar a Lorenzo o prazer de apontar um atraso no primeiro dia estava fora de questão. A recepcionista encontrou meu nome na lista e me entregou um crachá provisório.Isabella Duarte.Passei o polegar sobre o sobrenome antes de prender o cartão à blusa. Ali, pelo menos, eu ainda não era apresentada como parte da família dele.Caio Mendes me esperava na saída do elevador. Tinha trinta e poucos anos, a camisa aberta no colarinho e um sorriso de quem conseguia deixar qualquer pessoa à vontade.— Então você é Isabella. O chefe comentou que chegaria cedo.— Espero não ter decepcionado.— Três minutos de vantagem. Excelente começo. — Ele indicou o corredor. — Vi seu cartaz do prêmio estudantil. Melhor que muita coisa que passou por aqui no último trimestre. Não conta que eu disse isso.— Só se eu quiser ser demitida na primeir
IsabellaMinha mãe já estava na cozinha de Ricardo quando chegamos para o almoço de domingo. Tinha insistido em preparar o frango com alecrim que costumava fazer nas ocasiões especiais e, desde a manhã, falava da sobremesa, da roupa, do trânsito, de qualquer coisa que a impedisse de perguntar outra vez se eu estava mesmo feliz por ela.Eu estava. Só não sabia como explicar que minha dificuldade com aquela nova família tinha nome, sobrenome e uma habilidade irritante de me fazer perder a paciência.Lorenzo chegou ao meio-dia em ponto. Usava uma camisa branca com as mangas dobradas e parecia à vontade naquela casa de um jeito que eu ainda não conseguia ficar. Cumprimentou minha mãe com um beijo no rosto, conversou brevemente com o pai e, quando olhou para mim, fez um pequeno movimento de cabeça.— Isabella.— Lorenzo.Helena sorriu, satisfeita com o que provavelmente considerou uma evolução. Eu aceitei a taça que ela me ofereceu e resolvi colaborar. Não mencionaria as cartas, não faria
LorenzoAs cartas de Isabella estavam no fundo do cofre do meu escritório, junto da aliança da minha mãe e de um relógio que eu não usava havia anos. Eu poderia ter guardado os envelopes em qualquer gaveta. Poderia ter jogado fora. Escolhera um lugar que ninguém abria além de mim e, durante muito tempo, evitei pensar no que isso significava.Na agência, eu sabia o que fazer com qualquer coisa que chegasse às minhas mãos. Havia um responsável, um prazo, uma decisão a tomar. Com aquelas cartas, nunca tinha conseguido passar da leitura.Eram sete. Algumas folhas tinham marcas das dobras, outras ainda conservavam a pressão da caneta no papel. Isabella escrevia como falava: começava num assunto, se lembrava de outro no meio e acrescentava alguma observação que provavelmente me faria rir se ela estivesse por perto. A letra ficara mais firme com o passar dos anos, mas o modo de escrever meu nome no alto da página continuara igual.Enzo.No jantar, bastara ouvir aquele nome na voz dela para d
Capítulo 1IsabellaEu tinha ensaiado aquele reencontro umas quarenta vezes no banco de trás do carro da minha mãe. Em algumas versões, Lorenzo Valle sorria assim que me via; em outras, fingia surpresa e fazia algum comentário sobre como eu continuava baixinha. Mas, em todas, ele dizia meu nome daquele jeito antigo, arrastando o “s” de Isabella, antes de me chamar de Bella pelo resto da noite. Era uma lembrança tão nítida que, por alguns minutos, consegui acreditar que oito anos não fariam tanta diferença.Nenhuma das versões incluía um terno preto. Muito menos um jantar na casa do pai dele, com talheres demais ao redor do prato e uma sala tão impecável que eu me sentia inconveniente só por estar ali.— Para de puxar o vestido — minha mãe murmurou, inclinando-se discretamente na minha direção. — Está ótimo.Soltei o tecido, embora continuasse achando que a barra tinha subido durante o caminho.— Você disse que seria um jantar de família.— E é.Olhei para a mesa posta, depois para o h







