LOGINIsabella
A casa de Ricardo cheirava a frango com alecrim quando chegamos para o almoço de domingo. Minha mãe tinha insistido em cozinhar, talvez porque ocupar aquela cozinha a fizesse se sentir um pouco mais em casa. Desde cedo, estava animada demais para perceber que eu conferia o celular sem esperar mensagem nenhuma.
Lorenzo chegou ao meio-dia em ponto, de camisa branca e mangas dobradas. Cumprimentou minha mãe, conversou com o pai e só então olhou para mim.
— Isabella.
— Lorenzo.
Helena pareceu satisfeita com aquela troca civilizada e nos ofereceu vinho. Aceitei. Durante o almoço, respondi sobre a faculdade, ouvi os planos do casamento e tentei não prestar atenção em tudo o que ele fazia. Falhei algumas vezes. Numa delas, Lorenzo me pegou olhando para sua boca. Desviei os olhos para o prato, mas ainda percebi quando ele apertou o maxilar.
Depois do café, Ricardo mencionou que o filho queria conversar comigo sobre a agência.
— Podem usar a biblioteca. Lá fica mais tranquilo.
Minha mãe sorriu como se já soubesse o resultado da conversa. Olhei para Lorenzo, mas ele apenas se levantou, esperando que eu o acompanhasse.
Na biblioteca, sentei numa poltrona enquanto ele permaneceu junto à escrivaninha.
— Meu pai sugeriu que eu oferecesse uma oportunidade na Valle — começou. — Há uma vaga de estágio remunerado na criação. Três meses, com possibilidade de renovação. Das nove às três.
Esperei que continuasse.
— Você trabalharia com a equipe de Caio, nosso diretor de criação. Vai precisar cumprir os horários, respeitar os prazos e entender que o parentesco não muda a cobrança.
— Seu pai pediu que você incluísse essa última parte ou foi contribuição sua?
— Estou tentando evitar mal-entendidos.
— Então comece explicando por que estamos tendo essa conversa sem que eu tenha pedido emprego.
Ele apoiou a mão na escrivaninha.
— Sua mãe comentou que você quer experiência em agência. Meu pai achou que seria uma boa oportunidade.
— E você?
— Também acho.
A resposta veio depressa. Antes que eu decidisse o que fazer com ela, ele acrescentou:
— Mas vai precisar de uma rotina. Não dá para sair durante a semana e chegar aqui sem condições de trabalhar.
Fiquei olhando para ele.
— Desculpa. Em que momento essa conversa passou a ser sobre as minhas saídas?
Lorenzo soltou o ar devagar.
— Isabella…
— Foi a foto, não foi? A prima da minha mãe mandou para ela, ela comentou com Ricardo e agora vocês decidiram me manter ocupada.
— A vaga existe independentemente da foto.
— Mas você não estaria me oferecendo se ela não existisse.
Ele não respondeu de imediato, e aquilo bastou.
Levantei da poltrona.
— Eu estudo, trabalho e pago minhas coisas, Lorenzo. Sair com meus amigos não apaga isso. Você passou oito anos sem saber da minha vida e agora acha que pode decidir o que está faltando nela?
— Não estou decidindo nada. Você pode recusar.
— E vocês vão concluir que eu não quero responsabilidade.
— Eu não disse isso.
— Ainda.
Ele afastou a mão da mesa e me encarou.
— Quer ouvir por que acho que você serviria para a vaga ou já decidiu o que vou dizer?
Cruzei os braços.
— Pode falar.
— Seu portfólio é bom. Você tem boas ideias e sabe desenvolvê-las. Falta experiência, e é justamente isso que um estágio pode oferecer.
Minha irritação vacilou.
— Você viu meu portfólio?
— Vi.
— Quando?
— Ontem. Caio reconheceu um dos projetos da seleção de um prêmio universitário. Comentou que gostou, então fui olhar o restante.
Eu não soube o que responder de imediato. Estava preparada para discutir uma tentativa de controlar minha vida. Não para descobrir que ele tinha passado parte do sábado olhando meus trabalhos.
— Não é caridade, Isabella — continuou. — Eu não colocaria você numa equipe que não tivesse nada a oferecer.
— Podia ter começado por aí.
Lorenzo baixou os olhos por um instante.
— Podia.
A admissão me desarmou mais do que eu gostaria. Descruzei os braços, embora continuasse sem me sentar.
— E se eu não quiser?
— Você recusa. Eu aviso que conversamos e seguimos em frente.
— Sem usar isso contra mim no próximo almoço?
— Sem usar isso contra você.
Observei seu rosto, tentando encontrar alguma condição escondida.
— Você gosta de ter a última palavra, não é?
— Gosto de resolver as coisas.
— Eu não sou uma coisa para você resolver.
O olhar dele permaneceu no meu.
— Eu sei.
A voz saíra mais baixa. Só então percebi que estávamos mais perto do que antes. Eu tinha avançado durante a discussão; ele se afastara da mesa. Nenhum dos dois parecia disposto a corrigir a distância.
Fui a primeira a recuar.
— Se eu aceitar, como vai funcionar?
Lorenzo levou alguns segundos para responder.
— Sua mesa fica no estúdio. Você responde a Caio e participa dos projetos da equipe. Nós vamos trabalhar juntos em algumas situações, mas não precisa passar por mim para resolver tudo.
— E as regras sobre a minha vida?
— Não atrase entregas por causa dela.
— Isso vale para qualquer funcionário.
— Exatamente.
Quase sorri. Marina diria que eu estava procurando motivos para recusar uma oportunidade que desejava havia meses. E teria razão. Trabalhar na Valle pesava mais no meu futuro do que vencer aquela discussão.
Havia também a parte que eu não contaria a ela: eu queria descobrir se Lorenzo conseguiria continuar me tratando como uma desconhecida quando me encontrasse todos os dias.
— Tenho três condições.
Ele inclinou a cabeça, esperando.
— Meu trabalho vai ter crédito, conforme as regras da agência. Não quero virar a menina que ajudava porque era da família.
— Certo.
— Se eu errar, você conversa comigo. Nada de contar para minha mãe no almoço de domingo.
— De acordo.
Hesitei antes da última.
— E não volte a me chamar de irmã para encerrar uma conversa que não quer ter.
A expressão dele se fechou um pouco.
— Nossos pais vão se casar.
— Eu estava na mesa quando anunciaram. Não preciso que você me lembre toda vez que faço uma pergunta inconveniente.
Lorenzo me observou por tempo suficiente para me fazer pensar que voltaria a discutir. Por fim, assentiu.
— Tudo bem. Mas, na agência, é Lorenzo.
— Já entendi essa parte.
Estendi a mão, querendo encerrar o acordo antes que encontrássemos outro motivo para brigar. Ele olhou para minha palma e a segurou. O polegar tocou meu pulso por um instante antes de se acomodar junto aos meus dedos.
Tentei não dar importância. Meu corpo não colaborou.
— Segunda-feira, oito e quarenta, na recepção — disse ele.
— Você falou nove.
— Quero apresentar você ao Caio antes de a equipe começar.
— E se eu chegar oito e quarenta e um?
O canto de sua boca se moveu.
— Você já está negociando o primeiro atraso?
Ali estava. Por um segundo, reconheci o menino que discutia comigo por qualquer coisa e depois precisava disfarçar a vontade de rir.
Soltei a mão primeiro.
Minha mãe nos encontrou no corredor, ansiosa demais para fingir que passava por acaso.
— E então?
— Vou conhecer a equipe amanhã.
Ela me abraçou como se eu tivesse anunciado a formatura. Retribuí, mas olhei por cima de seu ombro. Lorenzo continuava à porta da biblioteca, observando nós duas.
Sorri para minha mãe. Para ele, toquei de leve o relógio no pulso.
Oito e quarenta.
Eu chegaria no horário. Só não pretendia tornar o resto tão fácil.
IsabellaMarina segurou o vestido contra a luz do meu quarto e ergueu as sobrancelhas.— Sua mãe vetou esse por um motivo.— Minha mãe não foi convidada.— Mas Lorenzo foi. Pelo visto, o vestido também sabe disso.Tomei a peça das mãos dela e me virei para o espelho.— É uma confraternização num hotel, Marina. Não vou de camisa social.— Você tem outros vestidos. Escolheu justamente o que passou vinte minutos experimentando quando soube que ele estaria lá.Não respondi porque seria difícil discordar sem mentir.O vestido era preto, de alças finas, ajustado à cintura e curto o suficiente para exigir alguma atenção ao sentar. Deixei o cabelo solto e coloquei brincos pequenos. Quando terminei, Marina me observou pelo espelho.— Você está linda. Só tenta se divertir também.Peguei a bolsa.— Essa é a intenção.Ela fez uma expressão de quem não acreditava, mas teve a gentileza de não insistir.A Leme alugara o terraço de um hotel na Paulista. Havia música baixa, garçons circulando entre os
LorenzoEu tinha dezoito reuniões naquela semana e um elevador prestes a me lembrar que nem tudo obedecia à minha vontade.Isabella entrou quando as portas começavam a fechar, o crachá torto e um bloco apertado contra o peito. Prendera o cabelo com uma caneta, deixando algumas mechas soltas junto ao rosto. Eram quase oito, e o estúdio já estava vazio. Eu ficara para revisar o manifesto da Leme. Ela, pelo que Caio me dissera, resolvera procurar referências no arquivo antigo da agência depois de descartar as que encontrara na internet.— Desce? — perguntou, recuperando o fôlego.— Desce.Ela apertou o botão do térreo, embora já estivesse aceso, e se acomodou ao meu lado. No espelho, vi a mancha de café no punho da blusa branca e a marca que a alça da bolsa deixara em seu ombro. Não havia nada de especial naquela roupa. Mesmo assim, precisei me obrigar a olhar para o painel.O elevador desceu dois andares antes de parar.A luz piscou, e um aviso sonoro interrompeu o silêncio. Isabella ol
IsabellaA casa de Ricardo cheirava a frango com alecrim quando chegamos para o almoço de domingo. Minha mãe tinha insistido em cozinhar, talvez porque ocupar aquela cozinha a fizesse se sentir um pouco mais em casa. Desde cedo, estava animada demais para perceber que eu conferia o celular sem esperar mensagem nenhuma.Lorenzo chegou ao meio-dia em ponto, de camisa branca e mangas dobradas. Cumprimentou minha mãe, conversou com o pai e só então olhou para mim.— Isabella.— Lorenzo.Helena pareceu satisfeita com aquela troca civilizada e nos ofereceu vinho. Aceitei. Durante o almoço, respondi sobre a faculdade, ouvi os planos do casamento e tentei não prestar atenção em tudo o que ele fazia. Falhei algumas vezes. Numa delas, Lorenzo me pegou olhando para sua boca. Desviei os olhos para o prato, mas ainda percebi quando ele apertou o maxilar.Depois do café, Ricardo mencionou que o filho queria conversar comigo sobre a agência.— Podem usar a biblioteca. Lá fica mais tranquilo.Minha m
IsabellaMinha mãe já estava na cozinha de Ricardo quando chegamos para o almoço de domingo. Tinha insistido em preparar o frango com alecrim que costumava fazer nas ocasiões especiais e, desde a manhã, falava da sobremesa, da roupa, do trânsito, de qualquer coisa que a impedisse de perguntar outra vez se eu estava mesmo feliz por ela.Eu estava. Só não sabia como explicar que minha dificuldade com aquela nova família tinha nome, sobrenome e uma habilidade irritante de me fazer perder a paciência.Lorenzo chegou ao meio-dia em ponto. Usava uma camisa branca com as mangas dobradas e parecia à vontade naquela casa de um jeito que eu ainda não conseguia ficar. Cumprimentou minha mãe com um beijo no rosto, conversou brevemente com o pai e, quando olhou para mim, fez um pequeno movimento de cabeça.— Isabella.— Lorenzo.Helena sorriu, satisfeita com o que provavelmente considerou uma evolução. Eu aceitei a taça que ela me ofereceu e resolvi colaborar. Não mencionaria as cartas, não faria
LorenzoAs cartas de Isabella estavam no fundo do cofre do meu escritório, junto da aliança da minha mãe e de um relógio que eu não usava havia anos. Eu poderia ter guardado os envelopes em qualquer gaveta. Poderia ter jogado fora. Escolhera um lugar que ninguém abria além de mim e, durante muito tempo, evitei pensar no que isso significava.Na agência, eu sabia o que fazer com qualquer coisa que chegasse às minhas mãos. Havia um responsável, um prazo, uma decisão a tomar. Com aquelas cartas, nunca tinha conseguido passar da leitura.Eram sete. Algumas folhas tinham marcas das dobras, outras ainda conservavam a pressão da caneta no papel. Isabella escrevia como falava: começava num assunto, se lembrava de outro no meio e acrescentava alguma observação que provavelmente me faria rir se ela estivesse por perto. A letra ficara mais firme com o passar dos anos, mas o modo de escrever meu nome no alto da página continuara igual.Enzo.No jantar, bastara ouvir aquele nome na voz dela para d
Capítulo 1IsabellaEu tinha ensaiado aquele reencontro umas quarenta vezes no banco de trás do carro da minha mãe. Em algumas versões, Lorenzo Valle sorria assim que me via; em outras, fingia surpresa e fazia algum comentário sobre como eu continuava baixinha. Mas, em todas, ele dizia meu nome daquele jeito antigo, arrastando o “s” de Isabella, antes de me chamar de Bella pelo resto da noite. Era uma lembrança tão nítida que, por alguns minutos, consegui acreditar que oito anos não fariam tanta diferença.Nenhuma das versões incluía um terno preto. Muito menos um jantar na casa do pai dele, com talheres demais ao redor do prato e uma sala tão impecável que eu me sentia inconveniente só por estar ali.— Para de puxar o vestido — minha mãe murmurou, inclinando-se discretamente na minha direção. — Está ótimo.Soltei o tecido, embora continuasse achando que a barra tinha subido durante o caminho.— Você disse que seria um jantar de família.— E é.Olhei para a mesa posta, depois para o h







