FAZER LOGINEla se aproximou e sentou-se no sofá. Radael pegou a caixa de primeiros socorros e começou a limpar o ferimento no pé dela:
— Posso levá-la ao hospital, se achar necessário.
— Estou sem documentos — respondeu Darla, cabisbaixa.
— Se cuidar direitinho, acho que logo melhora.
Ele assentiu:
— Vou ver se ainda tenho antibiótico em casa, tenho quase certeza de que sobraram duas cartelas quando me machuquei no estábulo.
Darla permaneceu sentada na sala enquanto ele saiu. Logo ele voltou com as cartelas e um copo de água, entregando-lhes:
— Vamos calcular o horário da medicação. Como não fico aqui o tempo todo, vou anotar num papel e deixar na geladeira. Fique de olho no relógio da cozinha, quando estiver perto do horário, tome o remédio certinho.
Ele mexia no celular enquanto falava:
— Então… já pensou melhor no que vai fazer? Se tiver alguém esperando por você, posso leva-la.
Darla, pensativa, olhou o próprio pé antes de erguer o rosto, respondeu:
— Não… Eu só tinha minha antiga professora, mas ela já é idosa. Isso não vai dar certo. Eu não sei o que vou fazer.
Radael ficou parado à frente dela, ajeitou o chapéu, esfregou o rosto e falou sério:
— Pode ficar aqui até decidir o que fazer e melhorar, não me perdoaria se algo acontecesse com você. Menina, você não tem um pingo de juízo! Dormindo num ponto de ônibus… qualquer um podia passar e fazer maldade com você. Não pensou nisso?
Constrangida, ela assentiu:
— Pensei… mas o que eu podia fazer? Eu só não queria voltar. Achei que aqui ninguém me faria mal. Estamos no interior, não é? Quase todo mundo se conhece.
Ele olhou para o quintal, pensativo:
— É… quase todos. Mas você não me conhece. Eu mesmo poderia fazer mal a você. Não vou, não se preocupe… mas poderia.
Darla sentiu vontade de rir, conteve-se, levantou-se mancando, aproximou-se da porta e, olhando o quintal, disse:
— Tomara que não mesmo. Já estou aqui… fazer o quê?
Ele ficou olhando para ela e deu um sorrisinho malicioso, pensando no quanto ela parecia ingênua e divertida. O cabelo dela estava molhado, mais sem volume, levemente ondulado.
— Preciso ir trabalhar — disse ele.
— E você pode ficar à vontade, desde que não saia da casa grande. Deixe as portas fechadas e não vá para o quintal de jeito nenhum, não quero que a vejam, e lá fora há muitos funcionários.
Ela ficou levemente intrigada, mas concordou:
— Está bem. Obrigada outra vez.
Radael encerrou:
— Pode comer o que quiser. Mais tarde volto para almoçar.
Ele saiu, fechou a porta e montou na moto, foi seguindo para longe, dentro da fazenda. Darla espiou pela fresta da cortina enquanto ele se afastava. Na sala tinham várias fotos de família: os filhos dele ainda pequenos, parentes reunidos em festas. Ela observou tudo, curiosa para saber por que ele morava sozinho, sendo tão bonito, rico e, à primeira vista, um homem legal.
Sem ter muito o que fazer, voltou para o quarto exausta e acabou adormecendo, finalmente sentindo-se em segurança. Dormiu com a porta trancada por horas.
Quando deu o horário de almoço, Radael voltou, trazendo ovos do galinheiro e verduras para a salada. Sabia fazer de tudo na casa, embora raramente precisasse: a funcionária encarregada da cozinha estava doente, então ele se virava sozinho havia alguns dias. Entrou, chamou pelo corredor:
— Darla, tudo bem?
Sem ouvir nenhuma resposta, deduziu que ela dormia. Preparou o almoço, depois, bateu na porta do quarto de novo, e ouviu:
— Oi, já vou! — respondeu ela, sonolenta.
Darla levantou-se às pressas, ajeitou o vestido e o cabelo desgrenhado. Radael a ouviu destrancar a porta, ficou curioso sobre como ela se sentia, esperou. Ela abriu a porta, falou desconcertada:
— Desculpe, peguei no sono e não acordei. Nem sei que horas são… estou perdida. Desculpe mesmo, eu estava muito cansada.
Radael sorriu sutilmente e, virando-se em direção à cozinha, disse:
— Sem problemas. Imagino que não descansou nas últimas duas noites. Vamos almoçar? Não fiz grande coisa, não sou lá essas coisas na cozinha, mas minha funcionária está doente, então você vai ter que comer minha comida. Não é tão ruim. Está com fome?
Ela assentiu e o seguiu, mancando. Na cozinha, viu a mesa posta: macarronada com frango desfiado, ovos fritos, salada de rúcula e tomate, além de uma jarra de suco de limão.
— Estou surpresa — disse Darla.
— Lá em casa, meu irmão não sabe nem fritar um ovo, e é admirável ver um homem como o senhor, com boas condições, sabendo fazer tudo isso.
Eles se sentaram. Radael riu:
— Um homem como eu, menina? Por que acha que me conhece só porque me viu algumas horas? Você não sabe nada sobre mim. É feio julgar um livro pela capa, sabia? Eu poderia fazer isso com você, e você não ia gostar.
O tom de desdém a deixou inferiorizada. Ela começou a comer em silêncio, usando a colher que ele havia posto apenas para servir. Ele percebeu o quanto ela era simples, embora educada. Olhou-a comendo e perguntou:
— O que aconteceu com seus pais? Por que seu irmão cuida de você? Quantos anos você tem, afinal?
Capítulo 67 - LIVRO 2Ela respondeu, séria:— Sim? Aconteceu alguma coisa?Ela falou tentando intimidá-lo, para reverter o constrangimento que estava sentindo, porque sabia que, com certeza, ele a havia encontrado bêbada.Alessio respondeu:— Não, tudo certo. Eu só preciso que você faça alguns pagamentos, mas eu já te mandei tudo no celular. A hora que você puder, por favor, você paga e me manda o comprovante, que eu mando pra eles.Ela respondeu, se afastando da janela:— Ok, vou pagar.Alessio se aproximou mais, encostou na janela e falou apreensivo:— Eu passei a noite aqui com o Jorge. É que...Silenciou,
Capítulo 66 - LIVRO 2Alessio chegou bem cedo e já foi logo se disponibilizando a ajudar a carregar o caixão. Inclusive, ele estava com os olhos bem vermelhos, marejados, como quem havia chorado e, na hora de levar o caixão e realmente enterrar Fabrizio, ficou bastante emotivo.Cayenne reparou nisso e na quantidade de pessoas que estavam verdadeiramente tristes. Ela ficou imaginando que um dos motivos de Alessio estar tão abalado era por ele ser viúvo e, com certeza, velórios, enterros e essas coisas sempre mexiam com ele, fazendo-o lembrar da própria perda.Depois que Fabrizio foi enterrado, novamente as pessoas começaram a dar os pêsames e dizer coisas de apoio para Cayenne, foram se despedindo. Ela estava mais lúcida do que no velório, agradeceu a todos, foi muito educada, disse que Fabrizio havia pensado em tudo e que agora ela ia ter que se acostumar a viver
Capítulo 65 - LIVRO 2Ela voltou para o quarto, entrou e comentou que Renzo estava lá fora, que devia ter ido para visitar. Fabrizio começou a rir e ficou pensativo.Alessio disse que ia sair para o irmão entrar. Deu tchau para Cayenne e para Fabrizio de uma vez só e foi embora pensativo, refletindo tudo que ficou sabendo sobre o relacionamento dos dois.Quando Alessio saiu, ele não falou com Renzo, foi embora direto. Renzo logo entrou para visitar. Cayenne estava sentada na poltrona, mexendo no celular, já de cara fechada, já sabendo que a presença dele iria ser incômoda.Quando ele entrou, deu boa noite, se aproximou de Fabrizio e começou a conversar. Também foi muito educado, gentil, e Fabrizio falou com ele sobre negócios. Não falaram muito sobre vida pessoal porque Cayenne estava ali.Renzo, enquanto conversava, deu algumas
Capítulo 64 - LIVRO 2Fabrizio respondeu exultante, com a voz arrastada:— É, casei. Gosto dela, amo, admiro demais. É uma parceira de vida, ela cuida de mim, me deu tudo sem pedir nada, mas é complicado.Alessio ficou olhando e perguntou, meio sem entender:— Ah, sim, mas... como que... Desculpa perguntar, primo, mas quando vocês ficaram juntos?— Como que isso aconteceu? Eu não acho que ela seja interesseira, nada disso, eu só queria saber mesmo, porque fiquei meio curioso, porque passaram muitos anos e, como você nunca contou nada, eu só queria saber mesmo, por curiosidade à toa, com todo respeito. Se quiser me falar.Fabrizio começou a rir, percebendo aonde ele queria chegar, e respondeu:— É, passou muito tempo mesmo. A verdade é que nós fomos fazendo uma amizade, construindo uma
Capítulo 63 - LIVRO 2Chegou ao hospital nervosa e demorou mais de meia hora para conseguir entrar, porque não conseguia parar de chorar aos prantos, sozinha, com tudo o que estava acontecendo.Ela tentou se recompor e, quando entrou, tentou se mostrar mais calma, serena, e disse para Fabrizio que estava tudo bem na casa, tudo limpo, até demais, por incrível que parecesse, ela disse, disfarçando, tentando não levar mais problemas para ele.Como Fabrizio estava sem celular, ele ficou internado sem saber de nada.Cayenne continuou como acompanhante dele, percebendo que ele estava piorando, e não sabiam o que fazer.O médico chegou a conversar com ela, dizendo que não tinha mais o que fazer, mas que Fabrizio entraria em um estado de ficar mais sob o efeito de medicamentos fortes e que poderia começar a delirar, confundir as pessoas. Se alguém quisesse
Capítulo 62 - LIVRO 2Alessio respondeu com má vontade, porque os dois estavam sem conversar direito havia dias. Ele disse que Fabrizio estava internado.Renzo ficou olhando e perguntou invocado, já caçando confusão:— Tá, ele está internado, mas e aí? Eu quero saber o que está acontecendo. Custa você falar, bab.aca? Você é assim mesmo, só fala o que te convém.Alessio respondeu no mesmo tom, com afronta, sem muita paciência para as cobranças do irmão:— Eu falo o que eu tenho que falar. Por que você está falando isso?— Nem está conversando comigo há dias. Pedi para você me ajudar com o Jorginho, e você não ajudou. Agora você quer conversar?— Quer saber do Fabrizio? Pergunta para ele ou para a esposa dele. Eu n&







