FAZER LOGINZara Nox
O final de semana passou rápido demais.
Entre risadas, pipoca e confissões que só o vinho permite, eu e Liz ficamos ainda mais próximas.
Ela tinha um jeito leve de ver o mundo, o oposto da minha visão prática e contida, e talvez por isso eu gostasse tanto de estar com ela.
Mas segunda-feira chegou como um soco no estômago - a lembrança de que minha vida agora tinha regras, horários, e um chefe que mexia comigo de um jeito que eu não queria admitir.
Hoje, eu precisava chegar mais cedo.
Lorenzo havia me enviado um e-mail na sexta à noite confirmando uma reunião importante com investidores estrangeiros, e eu seria responsável por preparar toda a documentação e acompanhá-lo.
A ideia de passar a manhã ao lado dele me deixava com o estômago revirando.
Saí de casa antes do amanhecer.
O ar frio cortava o rosto, e as ruas ainda estavam meio vazias. O som dos saltos ecoando no mármore do prédio me fez lembrar o primeiro dia - como tudo parecia novo, assustador, e ao mesmo tempo... certo.
Cheguei à empresa trinta minutos antes do horário.
A portaria estava silenciosa, apenas o som dos elevadores subindo e descendo. Cumprimentei o segurança com um sorriso rápido e entrei.
A sala da presidência estava vazia, como sempre nas primeiras horas da manhã.
Liguei as luzes, abri as cortinas, e o sol da manhã invadiu o ambiente, dourando o vidro da mesa e o couro das poltronas.
"Respira, Zara", pensei.
Tudo precisava estar perfeito.
Peguei as apostilas, organizei-as por tema, revisei os slides, e fui para a sala de reuniões. Preparei café fresco, organizei os copos, e pedi alguns lanchinhos pela copa.
O som da máquina de café era o único ruído confortável naquela manhã silenciosa.
Foi quando ouvi a voz.
Grave, calma, e inconfundível.
- Tão cedo aqui?
Meu corpo reagiu antes da mente.
Um arrepio percorreu minha espinha, e por um instante esqueci de respirar.
- Vim organizar as coisas antes da reunião, senhor Castellani - respondi, virando-me.
Ele estava ali, encostado na porta, o paletó escuro contrastando com o branco da camisa.
Os cabelos estavam levemente bagunçados, e o perfume - aquele aroma amadeirado e viciante - se espalhava pelo ar como um convite.
Andei até o outro lado da mesa, instintivamente tentando colocar uma barreira entre nós.
- O que eu disse sobre brilhar? - ele perguntou, arqueando uma sobrancelha, o tom meio provocante.
Meu coração deu um salto.
- Eu só estou fazendo meu trabalho. - respondi, voltando-me para a bandeja de café.
Ouvi o som dos passos dele se aproximando, lentos, seguros.
- Você tá fugindo de mim? - perguntou, num tom baixo, quase divertido.
- Fugindo? - repeti, sem coragem de encará-lo. - Não, claro que não.
- Engraçado... porque parece exatamente isso.
Senti o calor do corpo dele próximo ao meu, o cheiro do perfume misturado com o café recém-passado. Fechei os olhos por um segundo, tentando controlar a respiração.
- Eu só quero manter as coisas profissionais, senhor Castellani.
- Lorenzo. - Ele corrigiu, firme. - Aqui estamos sozinhos, pode me chamar de Lorenzo.
Meu olhar encontrou o dele, e foi como cair num abismo.
A intensidade em seus olhos me desarmava completamente.
Por um instante, esqueci que ele era meu chefe, esqueci de onde estava. Só havia aquele silêncio elétrico entre nós.
TrizO avião tocou o solo com uma suavidade que parecia simbolizar mais do que apenas o fim de um voo. Era o fim de uma fase, mas também o começo de algo ainda maior. Após um ano inteiro de intercâmbio, Hector e eu finalmente estávamos de volta. E, apesar da saudade que sentíamos da família, a ansiedade por reencontrá-los era maior ainda.- Finalmente... - murmurei, segurando a mão dele enquanto caminhávamos pelo terminal. O coração batia acelerado, misturando felicidade e nervosismo.- Eu sei... Triz - disse Hector, apertando minha mão. - Agora é hora de voltarmos para casa.Ao sairmos pelo portão de desembarque, fomos recebidos por uma cena que me fez o coração quase explodir. Lorenzo, Zara, Liz, Rômulo, Bianca e Vittorio nos esperavam, com sorrisos imensos, alguns chorando de emoção. Hector e eu corremos para eles, e foi como se nenhum dia tivesse passado.- Meus filhos! - gritou Zara, me abraçando com força. - Vocês estão finalmente de volta!- Nós sentimos tanta falta de vocês -
TrizO vazio que Hector deixou quando embarcou ainda doía dentro de mim. Cada canto da casa parecia ecoar a ausência dele, cada manhã sem o som da sua voz era um lembrete cruel de que a distância tinha chegado. Eu tentei me ocupar com estudos, amigos, passeios com a família... mas no fundo, nada conseguia preencher aquele espaço que era só dele.Sentada na sala, com as mãos sobre o livro que eu fingia ler, respirei fundo e decidi que era hora de ser honesta com todos. A verdade, por mais que me assustasse, precisava sair. Eles mereciam saber quem eu realmente era, quem eu amava.- Eu... eu preciso falar pra vocês - comecei, a voz trêmula. - Eu e Hector... nós nos apaixonamos. E namoramos por três anos. Mas ele... ele foi embora, e terminamos... e eu tinha decidido esperar para contar quando ele voltasse. Mas... eu não consegui mais esperar.O silêncio que se seguiu foi quase doloroso. Olhei para minha mãe, Zara, que estava encostada no batente da porta, com o olhar suave, mas atento.
HectorO dia finalmente chegou. Depois de três anos intensos, cheios de risadas, olhares roubados, segredos e promessas silenciosas, eu estava prestes a embarcar para um intercâmbio que mudaria a minha vida. Eu mal dormi na noite anterior, e mesmo assim, quando acordei, o nervosismo tomou conta do meu corpo como se eu fosse um iniciante num palco gigantesco, sem roteiro e sem ensaio.O sol da manhã entrava pelas cortinas do meu quarto, mas não conseguia aquecer o frio que sentia no peito. Triz estava na cozinha, preparando café com aquele jeitinho dela de sempre - tentando agir normal, mesmo sabendo que algo estava prestes a mudar. Eu tentei sorrir, mas era impossível. Cada passo em direção à porta parecia me puxar de volta, cada respiração me lembrava de que os próximos meses seriam longe dela. E eu não sabia se meu coração iria sobreviver a isso.- Bom dia, Hector. - Triz apareceu na porta, ainda com a camiseta grande que usava para dormir, e um sorriso tímido no rosto. - Dormiu bem
HectorMeses se passando... e o mundo virando de cabeça pra baixo.As coisas mudaram muito rápido. Rápido demais, pra ser sincero.Alguns meses atrás, eu e a Triz ainda estávamos escondendo nosso namoro, achando que ninguém desconfiava - embora todos provavelmente soubessem. Nós achávamos que éramos ótimos em disfarçar, mas éramos só dois adolescentes bobos, apaixonados, tentando não chamar atenção.Mas tudo isso ficou pequeno perto do que aconteceu com a minha mãe e com a tia Liz.As duas grávidas ao mesmo tempo - de novo - e agora com as barrigas tão enormes que parecia que carregavam o planeta Terra dentro delas. Às vezes eu olhava e pensava que, se elas espirrassem, iam entrar em trabalho de parto. Só que obviamente eu nunca falava isso em voz alta, porque eu gostava de ter meus dentes completos.Eu observava a minha mãe de longe naquele dia. Ela estava rindo de algo que a tia Liz tinha falado, segurando a barriga, como se rir já fosse difícil demais.- Hector... - Triz me cutucou
HectorNunca pensei que me sentiria assim. Confuso, animado, nervoso e ao mesmo tempo feliz. Tudo isso ao mesmo tempo. Eu e Triz tínhamos um segredo. Um segredo que nem Lorenzo, nem Zara, nem ninguém da família sabia: nós estávamos namorando escondidos.Tudo começou de forma inocente. Crescemos juntos, brincando, estudando, crescendo lado a lado. Sempre fomos muito próximos, mas nos últimos meses algo mudou. Eu comecei a perceber cada gesto dela, cada sorriso, cada risada, de uma forma diferente. Meu coração acelerava quando ela estava por perto, e eu sabia que não era apenas amizade.- Hector, você está estranho hoje - disse Triz um dia, com aquele sorriso provocador. - Parece que vai explodir a qualquer momento.- Eu... não sei do que você está falando - tentei disfarçar, mas minha voz traiu meu nervosismo.Ela riu, aproximando-se de mim na biblioteca da escola.- Ah, vamos, não se faça de bobo. Eu sei quando você está pensando em mim.Eu senti meu rosto esquentar, mas tentei manter
Zara NoxA manhã começou calma na mansão Castellani, mas dentro de mim havia um turbilhão de emoções. Hector brincava na sala com Triz, já acostumados com o mundo que nós, mães, estávamos construindo para eles. Liz estava ao meu lado, segurando minha mão, nervosa, ansiosa. Nós duas sabíamos que aquele momento seria especial - e também carregado de expectativa.- Então... é hoje - sussurrei, quase sem ar.Liz assentiu, mordendo o lábio, o gesto denunciando a ansiedade que também sentia.- Eles vão reagir... bem, espero - disse ela, tentando rir, mas seus olhos brilhavam de emoção.Respirei fundo. Hoje iríamos contar para Lorenzo e Rômulo que as duas estavam grávidas. Dois bebês chegando, quase ao mesmo tempo. A sincronia era inacreditável, e eu não poderia guardar segredo por mais tempo.- Vamos fazer isso agora? - perguntei. - Antes que a emoção nos derrube.Liz concordou. Levantamo-nos, e eu segurei Hector pelo braço, caminhando até a sala onde Lorenzo e Rômulo estavam trabalhando. O







