FAZER LOGIN༺ Scarlett Winslow ༻
— Como assim, você deixou o cara sozinho no hotel e saiu sem nem se despedir? — Linda me olhou, incrédula, enquanto tomava um gole de seu café, quase cuspindo a bebida de tanto rir. Dei uma gargalhada, ainda me recuperando da ressaca e tomando um longo gole de água. — Foi melhor assim — respondi, dando de ombros. — Foi só uma noite de prazer e nada mais. Linda balançou a cabeça, divertindo-se com a situação. — Nossa, garota! Se eu fosse ele, me sentiria totalmente usado! Você é cruel. — Talvez ele tenha entendido que foi só sexo. — Sorri de forma tranquila, certa de que ele devia estar acostumado a esse tipo de encontro. Homens como ele raramente se apegam, pensei. Linda me olhou com uma sobrancelha levantada, cheia de curiosidade. — E aí… foi bom, né? Afinal, foi sua primeira vez, então deve ter sido doloroso ou… Dei um sorriso relaxado, lembrando dos momentos intensos da noite anterior. — Ele foi tão… intenso e habilidoso. — Suspirei, me lembrando do toque dele, como ele parecia conhecer cada detalhe do meu corpo. — Não senti muita dor. Na verdade, ele fez com que tudo fosse tão gostoso que nem parecia minha primeira vez. Foi muito melhor do que qualquer coisa que tenha sentido sozinha nesses últimos anos. Ela riu, batendo os dedos na mesa. — Amiga, agora você está vivendo de verdade! E isso é só o começo. Sorri, tentando ignorar o calor subindo no meu rosto. Linda não estava errada; pela primeira vez, sentia que minha vida estava tomando um rumo novo. Por uma noite, deixei todas as minhas preocupações para trás e fui só Scarlett, uma mulher que buscava prazer e liberdade, sem pensar nas consequências. — E aí? — Linda me cutucou com um olhar provocador. — Quem sabe na próxima você não encontre esse cara de novo? Já imaginou? — Duvido. Foi só uma noite, Linda — respondi, fingindo desinteresse, embora uma pequena parte de mim se perguntasse como seria encontrá-lo outra vez. Estamos na cozinha, e eu conversava animadamente com Linda, ainda rindo de nossas lembranças da noite passada. Ela insistia em saber cada detalhe, curiosa e divertida, enquanto eu tentava resumir o encontro sem me entregar demais. Era bom finalmente poder falar disso sem reservas, sem o peso da responsabilidade que sempre me cercava. De repente, o som da campainha ecoou pela casa, interrompendo nossa conversa. Gertrudes, minha governanta leal e praticamente parte da família, foi até a porta atender. Continuei minha conversa com Linda, sem me importar muito, até que Gertrudes retornou com um semblante sério. — Senhora Scarlett, tem visita para você — ela avisou, com um tom cuidadoso. — E, pelo visto, não são das boas. Suspirei fundo, antecipando o incômodo que estava por vir. Sem dúvidas, não seria ninguém que eu gostaria de ver em pleno sábado. Revirei os olhos, tentando manter o pouco de paciência que ainda me restava. — Quem é, Gertrudes? — perguntei, prevendo a resposta. — Sua ex-madrasta e o seu irmão, senhorita. Eles querem falar com você. Fechei os olhos por um instante, soltando o ar devagar. Aquela mulher não tinha limites. Vivian estava cada vez mais irritada com a proximidade da minha posse oficial na presidência da empresa, e sempre arrumava alguma desculpa para tentar me fazer mudar de ideia, vindo na minha casa. Engoli a irritação e me preparei para o que estava por vir. Olhei para Linda, que ergueu as sobrancelhas em um misto de curiosidade e empatia. — Parece que seu sábado tranquilo acabou de desmoronar — comentou, levantando-se devagar. Linda riu de leve e fez um gesto de apoio. — Boa sorte, amiga. Essa aí é uma cobra, mas tenho certeza de que você sabe como lidar com ela. Sorri de canto, tentando reunir forças. Vivian estava determinada a se infiltrar em qualquer aspecto da minha vida, mas não facilitarei para ela. Caminhei em direção à sala com passos firmes, tentando mentalizar que não deixaria Vivian e Lucas me afetarem. Nos últimos meses, ela vinha tentando me persuadir, insistindo que o testamento de meu pai era injusto. Mas não cederia; faltavam poucos meses para eu assumir o controle da empresa, e ela não tiraria isso de mim. Ao entrar na sala, me deparei com ela, sentada no sofá, segurando sua bolsa com um ar de superioridade, enquanto Lucas estava ao seu lado, com o olhar entediado, mas pronto para apoiar a mãe em qualquer provocação. — Que surpresa, Vivian — comecei, tentando soar o mais neutra possível. — E Lucas. O que posso fazer por vocês? Vivian ergueu o queixo, seus olhos frios e calculistas, enquanto lançava um sorriso afetado. — Scarlett, querida, precisamos conversar sobre essa… situação — disse ela, sua voz pingando falsidade. — Penso que você já deve saber o quanto essa divisão foi injusta. Afinal, como o Lucas pode ficar com uma parte tão pequena? Ele é seu meio-irmão, sangue do seu pai. Respirei fundo, cruzando os braços. Já conhecia de cor o discurso manipulador dela. — Vivian, meu pai foi bem claro em seu testamento. A empresa e a maioria dos bens ficará comigo, porque era isso que ele queria. Você sabe que existe a parte da minha mãe como herança também? Lucas recebeu o que lhe é de direito, assim como você. Lucas, que até então parecia mais interessado em outra coisa, soltou uma risada sarcástica. — Você fala como se estivesse fazendo um favor, Scarlett. Mas nós também somos parte dessa família. E meu pai me deixou só 15%? — ele balançou a cabeça, indignado. — Isso não é justo. — Justo? — rebati, mantendo a calma. — Penso que justo é respeitar a última vontade do nosso pai, Lucas. Ele construiu a empresa desde o início com a minha mãe e sabia bem o que estava fazendo. Vivian suspirou exageradamente e levantou-se do sofá, andando em minha direção com o olhar incisivo. — Sinceramente, Scarlett — disse ela, tentando soar ameaçadora. — Você pode querer ser a menininha do papai, mas isso não te dá o direito de tirar de nós o que merecemos. Entraremos com um pedido de revisão do testamento. Garantirei que o Lucas receba o que lhe é devido, e, se necessário, ir à Justiça por isso. Dei um meio sorriso, mantendo minha postura. — Vivian, fique à vontade para fazer o que quiser. Se quer mesmo essa batalha, estou pronta. A tensão no ar era palpável. Vivian, com seu olhar desafiador, não estava disposta a recuar. — Você sabe, Scarlett — começou ela, com um tom cheio de desdém — Meu filho Lucas tem mais direito à presidência da empresa do que você. Ele é o mais velho, e sua posição de herdeiro deveria ser respeitada. Suspirei fundo, tentando manter a calma diante de suas provocações. — É verdade, Lucas é o mais velho — respondi, — Mas não se esqueça de que ele é fruto de uma traição, quando meu pai era casado com a minha mãe. Contudo, um bastardo… Vivian se contorceu, indignada. — Eu só quis dar um herdeiro ao Eduardo — disse, defensiva. — Ele merecia isso! E eu o amava naquela época. Afinal, sua mãe era uma seca, incapaz de dar um filho a ele. Uma risada sarcástica escapou de meus lábios. — Olha, para mim, o que importa é que mesmo com o “útero seco” da minha mãe, ela conseguiu gerar um filho e veja aqui estou eu… Você não vai me convencer do contrário, Vivian. A empresa e minha. A raiva dela se tornava visível. — E quanto a essa casa também? — ela disparou. — Era para ser minha! Você pode até pensa que tem direito a tudo isso, mas eu era casada com seu pai. Essa mansão deveria ser minha! — Essa mansão é da minha mãe, uma herança da família dela — retruquei, segura de mim. — Nunca colocará suas mãos no que pertenceu a ela. Vivian pareceu se recuperar rapidamente, como uma cobra prestes a atacar. — Mas seu pai tinha direito sobre essa casa! Ele estava aqui quando se casou comigo, e isso dá a mim e a Lucas o que é direito nosso! A exaustão me atingiu como uma onda. Não queria mais discutir. A frustração subiu à minha cabeça. — Olha, estou cansada dessa conversa, Vivian. Por favor, vá embora. Sua presença aqui já é insuportável o suficiente. — Apontando para a porta, acrescentei — Procure seus direitos onde quiser, até no inferno se for preciso. Ela me lançou um olhar mortal, mas a raiva que vi em seu rosto não me intimidava. Estava decidida. Essa casa, a empresa e tudo o que era meu e são minhas responsabilidades, não deixaria que ninguém os tirasse de mim.༺ Scarlett Winslow ༻Dois anos se passaram.A paz que antes parecia impossível agora fazia parte da nossa rotina. A casa vivia cheia de risadas, passos apressados e a energia de um lar completo.Thomas crescia forte e saudável, Grayson era o pai mais presente e amoroso que eu podia imaginar, e tudo, por fim, parecia estar no lugar.Mas hoje, algo me inquietava.Hoje, eu precisava fazer uma visita. Uma que talvez ninguém entendesse. Eu mesma não sabia ao certo por que sentia essa obrigação, mas sentia. Talvez fosse o último favor ao Lucas. O último elo entre o passado e o que sobrou dele.Assim que me acomodei no carro, ajustei o cinto e virei para o banco de trás. Zoe estava ali, nervosa, com a pequena Dakota no colo. A filha do Lucas. Uma menina linda, de olhos grandes e o mesmo sinal no pescoço que ele tinha.— Está pronta? — perguntei.Ela respirou fundo, balançando a cabeça.— Estou. Mas… fico pensando. Como será que a Vivian vai reagir quando souber da Dakota? Que é avó…— Espero
༺ Grayson Fonseca ༻Meses se passaram desde que tudo mudou. Desde que a sombra da tragédia se dissipou e a luz da rotina encontrou morada nas nossas vidas.A paz reinava.Era uma paz diferente e não daquelas silenciosas, vazias. Mas repleta de pequenos barulhos que preenchiam o coração: o tilintar dos talheres na cozinha, as risadas abafadas de Scarlett quando via algo irônico no celular, e, claro, os balbucios doces de Thomas, que começava a descobrir o mundo com os olhos mais atentos que eu já vi em um bebê.Estávamos na sala, uma tarde comum de domingo. A brisa entrava leve pela janela, e Thomas estava no tapete com seus brinquedos, jogando cubos para todo lado, enquanto eu me fingia de monstro e fazia ele rir com meus rugidos forçados.Scarlett, sentada na poltrona, estava com os óculos no rosto e o notebook no colo, digitando com a concentração de quem resolve o mundo.— Não vai me salvar desse pequeno tirano? — brinquei, fazendo uma careta enquanto Thomas tentava subir no meu co
༺ Scarlett Winslow ༻O barulho dos passos no cascalho ecoa enquanto caminho para fora do cemitério. Cada som parece um lembrete incômodo da finitude das coisas.Do quanto tudo pode acabar num piscar de olhos. A vida… é um sopro. E se não vivemos direito, se não cuida das escolhas que faz, ela cobra. Com juros. Às vezes, o preço é a própria existência.Lucas.Tão jovem e cheio de promessas. E agora, jaz ali, coberto de flores. Vinte e sete anos. Nada além de lembranças. Uma juventude desperdiçada por ambição, orgulho e decisões erradas.Suspiro fundo. Um vento frio passa por mim, como se tentasse levar embora os últimos vestígios do peso que carrego no peito. Grayson se aproxima em silêncio, e sua mão repousa no meu ombro com leveza.— Acabou… — diz ele, com a voz calma. — Agora, finalmente, poderemos viver a nossa vida em paz.Olho para ele. Seu rosto sereno, os olhos esperançosos. Não respondo de imediato. Somente balanço a cabeça, sentindo o peso de tudo se dissolver pouco a pouco.
༺ Vivian Álvaro ༻A viatura segue seu curso pelas avenidas da cidade, mas para mim o mundo parou. Cada metro percorrido é um grito abafado dentro do meu peito.Me encolho no banco traseiro, os braços envolvendo os joelhos como se isso fosse suficiente para conter a dor que dilacera tudo aqui dentro.As algemas prendem meus pulsos com um frio incômodo, mas nada se compara ao vazio que se abre em mim.Perdi tudo.Dinheiro, reputação, poder… Nada disso importava de verdade. Nada chega perto do que significa perder o Lucas. Meu menino. Meu filho.O único que me chamava de mãe sem julgamento no olhar. Aquele que, mesmo cheio de mágoas, sempre voltava com o sorriso torto e aquele perfume caro que invadia a casa inteira.Respiro com dificuldade, como se os pulmões também quisessem desistir.A imagem dele de joelhos, com as mãos manchadas de vermelho, seus olhos em pânico tentando dizer que me amava, se repete sem parar na minha cabeça.Eu berrei, supliquei, tentei impedir, mas o destino foi
༺ Scarlett Winslow ༻Minha respiração estava rasa, o coração batia como um tambor descompassado no peito. Posso sentir o cano frio da arma pressionando minha têmpora, e por alguns segundos tudo passou diante dos meus olhos. O rosto do meu filho, seu sorriso. Grayson. Tudo o que vivi, tudo o que lutei para conquistar. Não podia acabar assim.— Quanto você quer para me soltar? — soltei, minha voz trêmula, mas firme.Vivian riu. Uma gargalhada insana, carregada de desprezo e loucura.— O suficiente para viver bem, Scarlett. Esse é o preço da sua cabeça.Fechei os olhos por um segundo, reunindo coragem.— Eu não tenho como passar esse valor… o banco não vai liberar tudo de uma vez.— Você sempre dá um jeito para tudo, não é? — retrucou, apertando mais o braço contra meu pescoço. — Não vai ser diferente dessa vez.Olhei ao redor. Grayson estava parado, olhando para mim como se pudesse me salvar com os olhos. O delegado mantinha os policiais em alerta, esperando uma brecha. E foi então que
༺ Grayson Fonseca ༻Assim que vi aquele maldito veículo preto arrancar com Scarlett lá dentro, senti o estômago despencar. Mas não sou do tipo que assiste de braços cruzados. Girei nos calcanhares, corri até meu carro, praticamente pulei para dentro e bati a porta com força.Liguei o motor e, com a outra mão, encaixei o celular no suporte. Meus dedos tremiam de raiva e desespero quando disquei o número do delegado Oliveira.Ele atendeu no segundo toque.— Grayson! Boa noite, tudo bem? — disse ele com aquele tom sempre cordial.— Eu não tenho tempo para conversa agora, Oliveira — rosnei. — Sem cordialidade. Preciso de sua ajuda.Do outro lado, ele ficou em silêncio por um segundo. A voz mudou completamente quando perguntou:— O que foi que aconteceu?— Foi a Vivian. Ela acabou de sequestrar a Scarlett. Está com uma arma apontada para cabeça dela. Entraram num carro preto e estão em fuga. Estou seguindo eles.— Merda… — ele murmurou, e a estática da viatura soou ao fundo. — Me passa a







