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Acordei com uma decisão clara na mente: não mais permitir que Harry Radcliffe, o seu passado ou a sua família ocupassem qualquer espaço na minha vida. Três anos já haviam se passado, e a cada semana que se iniciava, eu me encontrava repetindo os mesmos padrões. Lendo tabloides, comprando flores para o túmulo da irmã dele… Isso precisava acabar. Eu queria seguir em frente, e para isso, era necessário encerrar esses rituais que só me mantinham presa ao que já devia ter sido superado.
Levantei da cama com uma energia diferente, disposta a aproveitar o dia. Johnny vinha sendo paciente comigo, sempre compreensivo, mesmo quando eu guardava para mim certas dúvidas e ressentimentos que ainda nutria por Harry. Talvez tivesse chegado a hora de reconsiderar a proposta de Johnny de vivermos juntos. Era uma decisão que eu vinha adiando, mas se eu realmente queria seguir em frente, talvez fosse a hora de dar esse passo.
Depois de um banho rápido, vesti-me com algo confortável e fui até a cozinha, onde encontrei Sophia já desjejuando.
— Bom dia, dorminhoca — ela me cumprimentou com um sorriso travesso, enquanto tomava um gole do seu café. — Sorri de volta, sentindo uma leveza que há tempos não experimentava.
— Bom dia! Estava a pensar em dar uma volta hoje, que tal me acompanhar? Preciso de um vestido para o evento de logo mais à noite.
Sophia acenou com a cabeça enquanto cortava uma fatia de torrada. Ela adorava fazer compras, e sabendo que logo viajaria novamente para mais uma das suas aventuras fotográficas, parecia ansiosa para aproveitar o nosso tempo juntas.
— Claro. Além disso, eu também preciso comprar algumas coisas antes de viajar. Mais uma semana e estarei novamente em outro continente — Comentou, quase como se não pudesse acreditar no ritmo acelera que a sua vida tomara nos tempos.
Por mais que quisesse, não conseguia deixar de pensar em como tudo era diferente três anos atrás. Se alguém me dissesse que estaria nessa situação agora, talvez não acreditasse. Contudo, era reconfortante saber que Sophia e Milena sempre estaria por perto, mesmo que o trabalho de uma a levasse para longe, e o casamento da outra também.
Assim que terminamos o café da manhã, nos preparamos rapidamente e, em pouco tempo, já estávamos na rua, caminhando em direção ao shopping. Nova Iorque estava especialmente bonita naquela manhã, com a luz do sol refletindo nos arranha-céus e dando um brilho dourado às ruas movimentadas. Era um cenário que eu sempre amei, e que tantas vezes compartilhei com Edward para começar a gostar tanto quanto eu, mas o teimoso do meu irmão mais velho tinha sempre um comentário para contra-argumentar comigo.
O ar estava fresco e, embora fosse uma manhã típica, senti como se o dia carregasse algo especial. Sophia, sempre observadora, percebeu a minha introspeção e tentou puxar conversa, como costumava fazer para desviar os meus pensamentos.
— Você já decidiu como vai usar o cabelo hoje à noite? Esse evento será grande, não é? — Perguntou distraidamente enquanto entravamos no metro menos cheio que o costume.
— Acho que vou manter solto, talvez só ondulado nas pontas. Não quero nada muito exagerado. E sim, suponho que vai ser grande, por isso preciso de algo à altura — Respondi enquanto procurávamos um local para sentar.
— Você sempre sabe como brilhar nesses eventos — ela brincou, dando-me um leve empurrãozinho com o ombro enquanto andávamos.
Ao sairmos na estação certa, as ruas estavam agitadas como de costume, mas havia uma energia vibrante no ar, algo que me fez sentir grata por estar ali, naquele momento. A verdade era que, apesar de todas as reviravoltas dos últimos anos, eu ainda amava Nova Iorque. Cada esquina, cada prédio, cada momento passado ali me lembrava de coisas também boas, estar na Itália é bom, mas quando fiquei lá para me recuperar dos antigos acontecimentos, senti como se tivesse fugindo de algo, e eu nunca fui conhecida por fugir de nada.
Além do mais, eu sou uma mulher adulta que consegue claramente recuperar outro coração partido.
Chegamos ao shopping e fomos recebidas pelo habitual movimento de sábado. Pessoas indo e vindo, sacolas em mãos, conversas animadas ecoando pelos corredores elegantes.
Entramos em várias lojas, cada uma delas com as suas peculiaridades. Sophia era meticulosa nas suas escolhas, analisando cada detalhe antes de decidir se algo valia realmente a pena. Eu, por outro lado, estava mais focada em encontrar o vestido perfeito para o evento.
Passamos por várias lojas, experimentando peças, sapatos e acessórios. Sophia, como sempre, foi impecável nas suas escolhas. Ela tinha um jeito especial de me fazer sentir bem em qualquer coisa que eu vestisse. Entre uma prova e outra, trocávamos comentários, ríamos das nossas escolhas mais ousadas e nos ajudávamos a decidir o que realmente valia a pena levar.
Em uma das lojas, um chapéu exageradamente grande chamou a nossa atenção, e Sophia não resistiu a experimentá-lo, arrancando risadas de mim e de alguns outros clientes que passavam. Momentos assim eram preciosos, lembravam-me de que, apesar de tudo, ainda havia leveza e alegria na vida.
Depois de algumas horas de compras — e algumas sacolas acumuladas —, entramos em uma loja que eu particularmente adorava, conhecida por seus vestidos deslumbrantes.
Foi ali que o encontrei.
Na entrada, um vestido em tons de preto e vermelho chamou a minha atenção. Ele parecia gritar elegância e poder, tudo o que eu precisava para me sentir confiante e no controle. O modelo era sofisticado, com uma cor que começava em um preto profundo na parte superior e descia em um degradê para um vermelho intenso na parte inferior. O vestido era sem alças, destacando os ombros e o pescoço, e havia um cinto delicado que acentuava a cintura de forma perfeita. A saia fluía em uma linha reta, mas o que realmente o diferenciava era a longa fenda lateral que subia até a coxa, revelando um toque de ousadia que eu nunca me permiti antes.
Olhei para Sophia, que já estava com aquele sorriso de aprovação no rosto, mesmo antes de eu dizer qualquer coisa.
— Você precisa experimentar esse — ela disse, sem nem sequer esperar que eu manifestasse a minha opinião.
Eu sorri, pegando o vestido com cuidado, e o meu Deus do céu, ao ver-me refletida no espelho, não pude deixar de me sentir poderosa, como se estivesse realmente pronta para encarar qualquer coisa que viesse à minha frente. Quando saí para mostrar o resultado a Sophia, ela olhou-me de cima a baixo e não poupou elogios.
— Está perfeito, Ruby. É exatamente o que você precisa para esta noite. Uma mulher sexy e elegante em um combo só.
Eu me virei para o espelho novamente, observando cada detalhe do vestido. A forma como ele abraçava o meu corpo, o contraste do vermelho com a minha pele… Era a combinação perfeita. Por um instante, me perguntei o que Harry pensaria ao ver-me assim, mas afastei rapidamente o pensamento. Hoje não era sobre ele. Hoje era sobre mim, sobre tomar as rédeas da minha vida novamente.
Olhando para Sophia, senti uma onda de gratidão. Não era apenas o fato de ela estar ali comigo, mas o apoio constante que ela sempre me ofereceu. Ela sabia que eu ainda carregava cicatrizes do passado, mas nunca me pressionou para curá-las rapidamente. Ela dava-me espaço e tempo, e eu sabia que isso era algo raro e precioso, queria manifestar isso também com o meu atual namorado.
HARRY RADCLIFFEO ronco grave do motor era a única coisa que preenchia o silêncio pesado no carro. Steffan estava de braços cruzados, o corpo jogado contra o banco, encarando a paisagem como se pudesse arrancar respostas do asfalto. Eu sabia que ele remoía tudo — Lorena, Herodes, o inferno inteiro que passamos na época que convivemos com eles — mas, ao contrário dele, eu não tinha muita paciência para melodrama. — Não faz sentido, Harry — ele começou, a voz carregada de uma revolta quase infantil. — A gente estava matando para tolerar aquela escrota drogada, e esse maldito vivendo essa vidinha feliz de comercial com outra mulher? Ou seja, ele traia a drogada com uma filha de empresários? Que sentido isso faz? — Revirei os olhos. — Cala a boca, Steffan.— Não, eu não vou calar a boca — ele retrucou, virando-se para mim. — Você sabe?— Se eu soubesse, achas que estaria aqui contigo, ouvindo essa ladainha? — apertei o volante, sentindo os nós dos dedos ficarem brancos. — Herodes sempr
HARRY RADCLIFFEO barulho da chuva era o pano de fundo perfeito para um reencontro que nunca deveria estar acontecendo. A cidade estava muito úmida e cinzenta, o que parecia conspirar com o meu humor. Não havia nada de ensaiado na mensagem que recebi dois dias antes, nenhuma cerimônia, somente um convite direto e quase desesperado. Eu deveria ter ignorado, mas aqui estava eu, parado diante da porta de um café no centro de Brooklyn, com a estranha sensação de que cada gota que caía do céu era um prenúncio.Quando empurrei a porta, o calor do ambiente me atingiu como um soco. O cheiro de café recém-moído e madeira encerrada se misturava ao peso das memórias, e eu vi-o antes que ele me visse. Herodes Radcliffe.A primeira coisa que me chamou atenção foi que ele estava diferente. O cabelo mais curto, a barba bem-feita, roupas caras, postura ensaiada demais, era como se a vida tivesse se empenhado em reconstruir uma versão dele que não me lembrasse da infância, mas era inútil, bastava o
HARRY RADCLIFFEAcordei com o calor do corpo de Ruby colado ao meu, incluindo os dedos magros sobre os meus. O apartamento cheirava a café velho e lavanda, uma mistura estranha, mas curiosamente reconfortante, ainda mais em contraste com a madrugada que só cheirava a sangue.Abri os olhos devagar, ainda com a cabeça pesada, e percebi que ela já me olhava de canto com aquele sorriso sonolento que usava para disfarçar quando era pega me olhando.— Hoje não vou trabalhar — murmurei enquanto tentava endireitar-me melhor sobre o seu colchão que certamente era de péssima qualidade. — Quero passar o dia inteiro com você.Ela piscou, surpresa, mas logo assentiu com um entusiasmo doce.— Gosto dessa versão de você, sabias? — Disse, brincando. — Podíamos ver um filme e comer porcarias o dia todo. Você, com esse seu tamanho todo, perdido no meu apartamento minúsculo… gosto de ver você deslocado.Não respondi, apenas a olhei se divertindo caçoando de mim, tentando gravar cada detalhe do seu rosto
HARRY RADCLIFFEO grito da minha irmã veio primeiro.Agudo e rasgando todo o ar.Eu estava parado no meio da escada, como uma estátua rachada, os pés colados ao chão, e sabia, sabia com uma clareza cruel, que algo terrível estava prestes a acontecer.O corredor lá em cima estava engolido pela penumbra, a luz fraca oscilando como uma vela prestes a apagar, e após longos segundos a consegui ver. Minha mãe estava ajoelhada diante do balcão, os cabelos loiros soltos colados à pele pelo suor, a respiração ofegante; ela segurava a mão de Íris, que soluçava baixo e permanecia com o rosto escondido entre os seus ombros.Havia um homem que eu não reconhecia, uma simples sombra viva com o corpo disforme e o rosto mergulhado no breu, ele aproximou-se delas com uma lâmina longa demais para ser real.O tempo dilatou com cada passo seu marcado no carpete.— Não… — a palavra escapou de mim, mas não fez barulho algum e a minha garganta ardia, como se uma mão invisível a apertasse com força.O primeir
HARRY RADCLIFFE— Eu... juro que não sabia da lavagem — a sua voz tirou-me momentaneamente do transe. — Nunca soube de nada, Harry.Mantive-me em silêncio, esperando que continuasse. Ela respirou fundo, fechou os olhos.— Mas... havia coisas estranhas, de fato, havia reuniões... "sigilosas", sabe? Com executivos que eu nunca conheci, mas também, pouco me importava — ela engoliu seco, desviando o olhar. — Você não entende, meu pai só... só se reunia com eles porque precisava pagar umas dívidas antigas, não tem como a ver com o que aconteceu com Johnny.— Continua.— Tinha umas tais de floriculturas que sempre apareciam nas transações... eu achava que era uma piada, mas não era porque Robert ia lá o tempo todo, precisava "resolver alguma coisa".— E o que mais ele disse? — perguntei, ela assentiu, inquieta.— Sei lá, havia um juiz, sinceramente, sempre caguei para o nome dele, mas era "amigo da casa", encontrei extratos com depósitos vultosos e jantares pagos em dinheiro vivo, foi nessa
Eu certamente odiava ligações.Pessoas insistiam nelas como se uma voz no ouvido tivesse o poder de consertar o mundo, mas Ruby... era diferente, ela sempre seria a minha única exceção.O carro ficou rapidamente mergulhado num silêncio quando desliguei o rádio e disquei o seu número. Os faróis riscavam a estrada, e, apesar do caos na minha cabeça depois da conversa nada produtiva com Karl Humpert, eu via o rosto dela com clareza. Sabia que a morte do Johnny tinha mexido com a minha esposa, eu supunha — espera, especialmente — não porque ainda o amasse, mas porque além de ter feito parte da sua vida até alguns meses atrás, a forma como tudo aconteceu feria qualquer um.— Ruby.— Harry? — O tom soou frágil, quase um sussurro. — Onde você está? Por que demorou tanto para retornar as ligações? — Apertei o volante com mais força.— Estava resolvendo algumas coisas — O meu tom saiu mais neutro, como se as trivialidades de tais coisas não tivessem nenhuma importância.— Não vai me dizer o qu







