Mag-log inPOV Sophia Sinclair
Arfei. Não consegui evitar. E ele soube.
O salão principal da mansão era grande demais, branco demais, falso demais. Um palco disfarçado de evento diplomático, cheio de gente que sorria enquanto contava quantos cadáveres colecionava na agenda.
Matthias foi chamado por um grupo de senadores de terno escuro.
— Vai lá, Comandante. Prometo não explodir nada em sua ausência.
Ele me lançou um último olhar que gritava “não faça merda”. E sumiu.
Foi quando eu o vi. Alto, bronzeado, terno marrom-chocolate, sorriso canalha, sotaque francês que rasgava calcinha só no "bonjour". Louis Delacroix. Meu caos de verão em Cannes. Beijos em iates, dedos pressionando contra portas de hotel, promessas em francês que eu nunca planejei cumprir. Eu sumi. E agora? O karma resolveu cobrar.
— Mademoiselle Sinclair... Je t'ai reconnue de loin. ("Eu te reconheci de longe.")
— Louis... que surpresa. — Sorri, pegando uma taça de espumante.
— Você está deslumbrante. Como sempre.
— Obrigada. E a Riviera?
— Abandonada, desde que você sumiu.
Ri. Dei um gole. Ele estava mais bonito do que eu lembrava. Mais perigoso. Mais... provocante. Ele se aproximou. Demais. E, antes que eu percebesse, segurou minha mão.
— Você ainda está fugindo, Sophia?
A voz que cortou o ar atrás de mim foi um tiro.
— Ela não está fugindo. Está sob minha proteção.
Meu corpo congelou.
Matthias. Ombros tensionados, terno escuro impecável, olhar cinza carregado de tempestade. Ele não andava. Ele avançava.
Louis ergueu a mão livre, rindo.
— Kane! Já ouvi falar de você.
Matthias não apertou. Nem moveu. Só olhou. Baixo, lento. O olhar de um predador prestes a arrancar a garganta da presa.
— Aposto que sim.
— Estou apenas cumprimentando uma velha amiga.
— Segurando a mão dela? Isso não é cumprimento. Isso é insolência.
Louis deu um passo, apertando minha mão de propósito. Foi quando ouvi o clique. Matthias puxou a arma do coldre lateral. Engatilhou. Mirou direto no rosto de Louis. O salão congelou. O mundo prendeu a respiração.
— Solta. Agora. — A voz era fria. Um corte de navalha.
Louis sorriu, tentando manter a pose. — Kane... vai mesmo usar uma arma num salão cheio? Matthias avançou. Segurou a camisa de Louis com a outra mão, puxando-o tão perto que os narizes quase se tocaram.
— Você acha que eu me importo com quem assiste? — rosnou, o cano ainda pressionando o queixo de Louis. — Eu quebro você aqui mesmo. E depois sirvo o seu corpo no jantar.
Louis engoliu em seco. Sua mão se abriu. Minha ficou livre.
— Você... enlouqueceu — gaguejou.
— Não. Eu sou a sanidade que você nunca vai ter. — Matthias empurrou Louis pra trás, soltando a camisa com violência. O francês quase caiu.
Matthias guardou a arma, o peito subindo e descendo como um vulcão prestes a explodir. Ele se virou pra mim. Segurou meu queixo, forte, quase dolorido. O salão inteiro assistia. Mas pra nós? Só existia aquela bolha de ódio e desejo.
— Você me provoca porque acha que sou feito de pedra. — A voz dele queimava. — Mas um dia, você vai chorar por ter me testado.
Eu sorri. Um sorriso doente.
— E você acha que não vale a pena ver até onde vai antes de quebrar? Ele aproximou o rosto. Tão perto que o calor da respiração dele me queimou os lábios.
— Você não faz ideia do inferno que está convidando pra dançar.
— E você não faz ideia de quanto eu quero ser queimada.
Silêncio. Ele prendeu a respiração, os olhos cravados nos meus. Um músculo tremia no maxilar dele. Então ele me soltou. Virou-se. E, num passo só, desapareceu entre os convidados. Eu fiquei ali. Mãos frias. Pulso acelerado. O salão inteiro me observando como se eu fosse um animal selvagem que acabara de ser domado.
E, pela primeira vez, eu soube: Matthias Kane não era só perigoso. Ele era a morte com rosto bonito.
POV Matthias Kane
O nome dela nunca foi só um nome. Sophia Sinclair. Filha do único homem que já me salvou de mim mesmo. O único que me estendeu a mão quando eu era só um vulto com fome de poder e sede de sangue. Richard Sinclair. Ele me puxou do caos. Me deu um império. E fez um único pedido.
— “Ela não.”
Eu prometi. Jurei que não tocaria nela. Nem quando ela tinha quatorze anos e me olhava como se eu fosse um herói quebrado. Nem quando fez dezoito e passou por mim usando um vestido tão colado que parecia uma provocação pessoal. Nem quando, em Dubai, deixou cair a toalha do ombro e disse, sorrindo: “Você ainda é meu segurança pessoal ou já virou meu juiz?”
Eu prometi. E mantive. Mas promessas são frágeis quando a tentação veste salto agulha, perfume doce e sorri como se fosse inocente. E agora ela está sob o meu teto. No quarto ao lado. Respirando no mesmo ar que eu. Me desafiando com cada movimento. Com cada olhar. Com cada palavra jogada como faca na minha garganta. Ela é proibida. E por isso, ainda mais perigosa.
POV Sophia Sinclair
No carro, o silêncio era denso. O motor roncava baixo, como um animal adormecido prestes a morder. Eu olhava pra janela, mas via só um reflexo distorcido do inferno que eu mesma alimentei.
Então explodi.
— Você ficou maluco?! — soltei, virando de repente pra ele. — Uma arma?! Num salão cheio de diplomatas? De empresários?!
Ele não respondeu. Continuou dirigindo. Mãos brancas de tensão no volante.
— Eu sabia que você era um psicopata, mas puxar uma arma no meio de um evento internacional? Você quer começar a Terceira Guerra no tapete persa, é isso?!
Nada. O silêncio dele era um tapa.
— Você acha que eu sou sua posse? Que pode me ameaçar, ameaçar todo mundo, como se eu fosse uma boneca presa numa vitrine?!
Nada.
— Fala alguma coisa, porra!
Ele virou o rosto devagar. Olhar cortante.
— Terminou? — a voz dele era tão baixa que parecia vazar veneno.
Arfei.
— Ainda não! Eu sou uma Sinclair! Você acha que pode apontar uma arma pra qualquer homem que chega perto? Quer transformar minha vida num campo de guerra?
Ele bufou, desviando os olhos de volta pra estrada.
— Eu transformo sua vida no que eu quiser.
— NÃO! — bati no painel, com força. — Você não manda em mim! Não é meu dono!
Ele parou o carro. No meio da estrada. Faróis dos outros carros cortando o escuro como facas.
— Desce.
— O quê?! — arregalei os olhos.
— Agora.
Minha pulsação explodiu. Mas eu saí. Trêmula. Furiosa. Ele saiu também. Deu a volta. Me encurralou contra a lataria gelada.
— Você acha que eu não te toco porque sou bom. Porque sou moral. Ético.
Minha respiração falhou.
— E não é?
— Não. — A mão dele agarrou meu rosto. Forte. Quase dolorida. — É porque se eu encostar, Sophia… eu não paro. Eu rasgo. Eu marco. Eu destruo cada célula sua até você não saber onde começa e onde eu termino.
Eu tremi inteira.
— E se eu quiser ser destruída? — sussurrei.
Ele riu. Baixo. O rosto a um sopro de distância.
— Então me obrigue a quebrar a única promessa que fiz.
Eu ergui a mão, segurando o pulso dele. Passei os dedos pela pele quente. Então, ele colocou a mão sobre minha boca. Forte. Me calando.
Eu o encarei. Desafiadora. E então, lentamente, passei a língua na palma dele. Lenta. Profunda. Como um pecado que eu queria saborear até o fim.
Ele rosnou. O corpo inteiro dele ficou rígido. A mão na minha nuca puxou. A mão que estava em minha boca saiu. Nossas bocas a um milímetro. O peito dele colado no meu. A respiração dele misturada com a minha, como se estivéssemos dividindo o mesmo ar, o mesmo veneno. E então ele se afastou.
— Você quer ser marcada? — ele murmurou, a voz quebrada de tanto conter.
Eu sorri. Torta. Louca.
— Então me marca.
POV Sophia Sinclair KaneUm ano.Um ano desde a noite em que tudo quase desmoronou e, de certa forma, desmoronou mesmo. Porque nada do que vivemos poderia nos deixar intactos. O que restou foram cicatrizes, marcas invisíveis e lembranças que às vezes ainda ardiam em silêncio.Mas também foi um ano de reconstrução.Hoje, a manhã se abriu tranquila pelas janelas altas da nossa casa. Não mansão, não prisão dourada como a de meu pai, mas uma casa de verdade. Paredes que não guardavam segredos, apenas vozes. Corações. Amor.Levantei cedo, como sempre. O silêncio ainda me assustava, como se fosse prenúncio de algo ruim, mas aprendi a acolhê-lo. No quintal, o jardim florescia de um jeito que me fazia lembrar de minha mãe. Talvez fosse esse o jeito que ela teria me amado, vendo-me viver sem grades.Atrás de mim, passos firmes anunciaram sua presença. Não precisei olhar para saber.— Você acorda cedo demais, Sinclair — a voz grave de Matthias cortou o ar, carregada de uma ternura que ele jurav
POV Richard SinclairO poder nunca é silencioso. Ele lateja em cada decisão, em cada respiração. É uma arma que se aponta até mesmo contra quem segura o gatilho. Passei a vida inteira acreditando que o controle era suficiente para manter os meus vivos. Perdi a esposa. Quase perdi minha filha.Não de novo.Naquela noite, a cidade parecia respirar comigo. As luzes distantes refletiam no vidro escuro do carro, enquanto eu seguia sozinho. Nenhum motorista, nenhum segurança. A reunião era apenas minha. E ninguém precisava saber.Matteo acreditava que estava no controle. Que podia brincar com minha filha, colocá-la em listas, ameaçá-la com o sorriso de quem vende corpos como mercadoria. Ele acreditava que o sobrenome Sinclair ainda o protegia. Que eu era fraco, um homem rendido pelo amor a uma filha.Mas Matteo nunca entendeu: quando se trata de Sophia, não existe negociação. Só sentença.O armazém abandonado no porto era silencioso, exceto pelo som da água batendo contra as estruturas. Era
POV Sophia SinclairA primeira coisa que senti foi o peso.O corpo parecia chumbo, cada músculo latejando, cada respiração uma batalha. Depois veio a dor, espalhada, ardente, e o frio gélido da ausência. Abri os olhos com esforço, e a claridade do quarto me cegou por um instante.Hospital.O cheiro de antisséptico denunciava antes mesmo de eu ver o teto branco, as máquinas, o bip constante ao meu lado. Tentei me mover, mas um gemido escapou da garganta.— Não — ouvi a voz firme. — Fique quieta.Meus olhos buscaram o som e encontrei o rosto dele. Matthias. Sentado ao lado da cama, o braço enfaixado, o rosto marcado por hematomas, mas vivo. Os olhos escuros, cansados, fixos em mim.Meu coração, mesmo machucado, tentou correr.— Você… — murmurei, a voz falhando.— Estou aqui — ele interrompeu, segurando minha mão. O calor dele atravessou a minha pele como se fosse capaz de colar os pedaços quebrados.Fechei os olhos por um instante, sentindo lágrimas me queimarem. Ele estava vivo. Eu est
POV Matthias KaneOs grãos de noite atravessaram a pele do meu rosto como vento cortante. Quando Gabe me chamou, a respiração saía curta, o corpo ainda elétrico pela adrenalina do salão e pela visão do que fizera: Matteo sangrando, Vittoria escapando. Não havia tremor. Só foco.Vi Sophia no carro, pálida demais, o olhar colado a mim com uma mistura de medo e ferro. A mão dela procurou a minha; apertei de volta. Era promessa e âncora ao mesmo tempo. Ela estava tão frágil quanto um botão à flor da pele, e eu não permitiria que nada a arrancasse de mim.Gabe arrancou pela rua lateral com uma calma tensa. O motor rosnou e o carro cortou o trânsito em rota. Enzo transmitia coordenadas por um rádio improvisado, como se estivéssemos em operação antiga: corta aqui, vira ali, confunde a caçada. A cidade, que até algum momento se orgulhara de sua elegância, transformava-se em labirinto.Mas os homens do Matteo tinham recursos. Em questão de minutos, vozes no rádio anunciaram carros na retaguard
POV Sophia SinclairOs dias passaram correndo. Parece que foi ontem que enfrentei meu pai, escutei a declaração do Gabe e firmei meu relacionamento com o Matthias. Mas já se passaram dois meses.Dois meses e tudo tem estado bem. Meu pai está mais na dele, o que me deixa até assustada. Hoje, é um evento de empresas multinacionais, e como funcionária da empresa do Kane, tenho que estar aqui. Mas confesso que nunca tinha visto tanta segurança assim em um só lugar. Matthias estava realmente assustado com a possibilidade de acontecer comigo o que aconteceu com minha mãe e Lianna. O salão respirava poder e hipocrisia.Lustres enormes transformavam o teto em um céu fragmentado de luz; homens e mulheres em ternos e vestidos brilhantes deslizam entre canapés, formando uma corrente de sorrisos vendidos. Havia música, discursos e promessas de investimentos que mascaravam a sujeira que se movia nos subterrâneos de todos aqueles apertos de mão.Ali, na vitrine do mundo, eu me sentia uma peça em
POV Matthias KaneA madrugada tinha um gosto metálico, como pólvora antes do disparo. A sala de reuniões estava quase às escuras, iluminada apenas pelas lâmpadas frias sobre a mesa comprida. Mapas, armas, celulares descartáveis e pastas espalhavam-se por toda parte.O caos organizado de quem se prepara para a guerra.Gabe estava encostado na parede, os braços cruzados, ainda com o peso da nossa última conversa pairando entre nós.Eu via no olhar dele a sombra da dor que Sophia havia causado, mas também via a lealdade inquebrável. Ele podia estar em pedaços por dentro, mas não havia hesitação: estaria ao meu lado.Enzo, como sempre, já tinha organizado o plano em etapas. Estava de pé, apontando para o mapa digitalizado projetado na parede.— Matteo e Vittoria reforçaram a segurança — disse ele, a voz firme. — Dobro de homens, novo carregamento de armas. Eles estão se preparando para algo grande.— Ou para o desespero final — acrescentei, tomando um gole do uísque no copo à minha frente







