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Capítulo 4

작가: Washing Wheat
Afinal, o simples fato de sair de casa já consumia quase todas as minhas forças. Depois desse esforço, era bem provável que eu não conseguisse mais passar da porta da rua.

Por sorte, por volta da uma da tarde, o celular tocou. Era Samuel avisando que eles já estavam lá embaixo.

Minha mãe estava furiosa com o atraso. Precisei conversar muito e acalmá-la para que ela não demonstrasse o quanto estava irritada.

Assim que entrei no carro, Vanda me lançou um sorriso cheio de malícia.

— Ai, me desculpa pelo atraso, Sabrina. É que o Samuel não me deixou dormir ontem à noite... acabamos passando dos limites, e eu não consegui levantar da cama cedo hoje.

Minhas mãos se fecharam sozinhas no colo.

Samuel, que terminava de guardar minha cadeira de rodas no porta-malas, assumiu o volante. Ele me olhou pelo espelho retrovisor e cortou a namorada com uma frieza absurda:

— Para que ficar dando tanta explicação para ela?

Uma pontada de amargura me atingiu, mas eu apenas levantei a mão e acenei para a minha mãe, que nos observava da calçada através da janela do carro.

Ele arrancou com o veículo em alta velocidade. A direção era tão agressiva que o balanço me deixou enjoada, com vontade de vomitar. Mesmo assim, engoli em seco e suportei tudo em silêncio.

Aquela turbulência me fez viajar no tempo. Oito anos atrás, logo depois de tirar a carteira de motorista, Samuel pegava o carro do pai para passearmos. Ele sabia o quanto eu enjoava fácil em veículos, então dirigia com a maior suavidade do mundo. Eu sempre passava mal em ônibus ou táxis, mas no banco do carona dele, nunca senti sequer uma tontura.

Mas o presente não perdoa. Samuel freou de forma brusca. Sem forças para me segurar, meu corpo foi jogado com violência contra o encosto do banco traseiro. O impacto fez meu estômago revirar tanto que a ânsia de vômito subiu pela garganta.

Não consegui segurar e deixei escapar um gemido de dor. Ao ouvir meu choro contido, ele soltou uma risada cheia de deboche.

— Não me diga que você achou que eu ia pisar em ovos e te tratar como uma princesa igual há oito anos? — Ele zombou. — Sem trocar de marcha rápido, sem frear do nada?

Limpei as lágrimas no canto dos olhos com discrição e respondi com a voz mais firme que consegui encontrar:

— Não achei nada disso. Agora quem merece ser tratada com todo o cuidado é a Vanda. Afinal, ela é a sua namorada.

A risada sarcástica dele preencheu o carro mais uma vez.

— Você tem toda a razão.

E então, ele pisou fundo no acelerador. Fui jogada de novo contra o banco, e uma dor aguda se espalhou pelas minhas costas. Apesar disso, um sorriso fraco se formou nos meus lábios.

"Que bom que ele ainda sente raiva... Pelo menos, enquanto eu ainda estiver viva, isso prova que ocupo um pedacinho minúsculo no coração dele.", pensei, em silêncio.

A viagem torturante não durou muito tempo. Logo chegamos ao nosso destino.

Na hora de sair do veículo, foi Samuel quem me pegou nos braços. Ao ser acolhida contra o peito dele daquele jeito, por uma fração de segundo, quase deixei o choro escapar.

Mas a ilusão durou pouco. Ele me tirou dali às pressas e me largou na cadeira de rodas como se eu fosse um fardo. O nojo era tão óbvio que ele exigiu que Vanda pegasse lenços umedecidos para limpar as próprias mãos com desespero, como se quisesse apagar qualquer rastro meu.

Vanda me lançou um olhar constrangido e tentou justificar a cena:

— Foi mal, Sabrina. É que o Samuel tem mania de limpeza. Ele sente nojo de qualquer outra mulher encostando nele que não seja eu.

Abaixei a cabeça e mordi o lábio inferior. Fingi que não vi a cena degradante e que a voz dela nunca chegou aos meus ouvidos.

Em seguida, deixei que os dois me empurrassem de braços dados para dentro de um restaurante de culinária baiana.

Mal nos acomodamos à mesa, Samuel puxou o cardápio e pediu vários pratos carregados no azeite de dendê e cheios de pimenta malagueta.

Ouvir aqueles pedidos me trouxe um gosto amargo. No passado, eu nunca suportei comida apimentada, e ele também detestava. Era óbvio para quem ele estava fazendo aqueles pedidos.

Mas eu não ia me torturar ainda mais. Minha saúde já estava por um fio, até mastigar era um esforço, quem diria engolir uma refeição tão pesada. Por isso, chamei o garçom e pedi um caldo de legumes bem suave.

No entanto, sem motivo aparente, Samuel explodiu de raiva ali mesmo.

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