LOGINA manhã em Alphaville nasceu com um sol pálido, filtrado pela neblina que subia dos lagos artificiais do condomínio. Sophie mal conseguira pregar os olhos. Cada vez que tentava descansar, a sensação da palma de Henrique contra a sua voltava com uma força avassaladora, provocando aquele calor líquido que a deixara inquieta até o amanhecer. Para o compromisso no cartório, ela escolheu um vestido envelope de seda off-white. O tecido era fluido, abraçando suas curvas com uma delicadeza perigosa, e o decote em "V" revelava apenas o suficiente para ser elegante, mas o suficiente para que ela se sentisse vulnerável sob certos olhares.
Quando Sophie surgiu no topo da imensa escadaria de mármore, Enzo já a esperava no hall lá embaixo. Ele estava impecável em seu terno cinza-claro, mas ao ouvir o som dos saltos dela contra o degrau, ele finalmente desviou os olhos do celular. Um sorriso genuíno iluminou seu rosto de "bom moço". — Nossa, Soph... — Enzo exclamou, acompanhando-a com o olhar enquanto ela descia. — Você está realmente linda. Esse vestido ficou perfeito em você. O elogio foi doce, carregado de uma admiração estética quase como se ele estivesse elogiando uma obra de arte em um museu. Ele não deu um passo à frente para recebê-la com um beijo apaixonado; apenas esperou que ela terminasse de descer para lhe dar um tapinha amigável no braço. — Pronta? — ele perguntou, voltando a guardar o celular no bolso. — O cartório nos espera para a habilitação do casamento. Meu avô já ligou duas vezes cobrando a confirmação da entrada nos papéis. — Bom dia, Enzo. Estou pronta — Sophie respondeu, tentando forçar uma normalidade que não sentia. Nesse momento, a porta do escritório se abriu com um clique seco. Henrique Dumont surgiu sob o umbral, e a atmosfera do hall pareceu mudar instantaneamente, tornando-se mais densa. Ele vestia um terno azul-marinho de corte inglês, mas dispensara a gravata, deixando o colarinho aberto. O cabelo grisalho nas têmporas e a barba curta e bem aparada davam a ele um ar de autoridade absoluta. Henrique parou. Seus olhos de aço polido não apenas a viram; eles a percorreram com uma lentidão deliberada, começando pelos pés, subindo pela fenda do vestido que se abria levemente, detendo-se na curva do quadril e parando nos mamilos que, mais uma vez, teimavam em marcar o tecido fino sob o ar-condicionado central. Sophie sentiu como se ele estivesse removendo cada camada de seda apenas com a visão. Ele não fez nenhum elogio verbal. Ele apenas girou a chave do SUV de luxo nos dedos, o metal batendo contra a palma da mão em um ritmo hipnótico. — Vamos — a voz de Henrique ecoou no hall, um comando que não admitia réplicas. Eles caminharam em silêncio em direção à garagem interna. O som dos passos de Henrique era firme e decidido, enquanto Enzo ia ao lado de Sophie, já tendo sacado o celular novamente para conferir uma última notificação. Ao chegarem na garagem, que abrigava uma frota de carros reluzentes, Henrique caminhou direto para o lado do motorista do SUV blindado. Ele assumiu o volante, sua postura exalando um controle absoluto sobre o ambiente. Enzo, num gesto automático de cortesia, abriu a porta traseira para Sophie e sentou-se ao lado dela. No entanto, assim que as portas se fecharam com aquele som abafado de vedação perfeita e o motor potente rugiu baixo, Enzo voltou instantaneamente para o seu mundo digital. — Preciso resolver uns detalhes com o pessoal do fundo, Soph. O vovô está sendo irredutível com uma cláusula sobre a herança antecipada — Enzo justificou, já mergulhado em mensagens. Ele encostou-se no banco, o corpo voltado ligeiramente para a janela, deixando um vácuo de atenção entre ele e a noiva. Sophie assentiu, sentindo-se um acessório descartável. Ela olhou para a frente e, no mesmo instante, seus olhos encontraram o espelho retrovisor central. Henrique estava olhando diretamente para ela. Não era um olhar casual. Através do reflexo, os olhos cinza-metálicos de Henrique brilhavam com uma malícia silenciosa e uma compreensão profunda. Ele via tudo: via como o próprio filho a ignorava para tratar de negócios (ou falar com outra pessoa) e via a frustração latente no rosto dela. O trajeto por Alphaville transcorria em um silêncio quebrado apenas pela voz ríspida de Enzo, que agora começara a gravar áudios de voz. A cada curva que Henrique fazia, seus olhos no retrovisor voltavam a buscar os de Sophie. Ela tentou desviar, mas o magnetismo daquele metal escovado nos olhos dele a prendia. Em um dado momento, Sophie cruzou as pernas, e o movimento fez o vestido de seda deslizar, revelando a parte superior de suas coxas. No retrovisor, ela viu os olhos de Henrique escurecerem e as pupilas dilatarem. Ele não desviou. Ele sustentou o olhar enquanto levava a mão que estava no câmbio para trás, passando-a por entre os bancos dianteiros. Enzo continuava falando ao telefone, gesticulando com a mão livre, mergulhado em uma discussão sobre prazos e dividendos. Ele não percebeu quando a mão de Henrique alcançou o joelho de Sophie. O choque térmico foi instantâneo. A palma de Henrique era grande, firme e terrivelmente quente. Ele não disse uma palavra, mantendo a atenção na estrada à frente, mas sua mão começou a subir lentamente pela coxa dela. Sophie sentiu a respiração travar nos pulmões. O polegar de Henrique começou a desenhar círculos pequenos e rítmicos na pele sensível por baixo da seda, subindo milímetro por milímetro em direção ao topo de suas pernas. O calor que ela sentira na noite anterior voltou com uma força triplicada. Era uma sensação proibida e visceral: estar sendo tocada daquela forma pelo pai do seu noivo, enquanto o próprio noivo estava a centímetros de distância, ignorando-a por completo. Sophie fechou as pernas por instinto, tentando conter o estremecimento, mas a mão de Henrique era uma força da natureza; ele pressionou a palma contra a carne macia de sua coxa, impedindo-a de se fechar totalmente, forçando-a a aceitar a invasão. — Está tudo bem aí atrás? — Henrique perguntou. Sua voz saiu profunda, estável, perfeitamente normal, o que tornava a situação ainda mais pecaminosa. — Sim, pai. Só esse advogado que é um imbecil — Enzo respondeu, sem sequer olhar para o lado, irritado com a ligação. Henrique deu um sorriso quase imperceptível que apenas Sophie viu pelo retrovisor. Seus dedos subiram um pouco mais, roçando a lateral da calcinha de renda de Sophie. Ela soltou um suspiro trêmulo, que disfarçou como um ajuste no banco, enquanto seu corpo reagia violentamente. Ela estava ficando úmida, a pulsação entre suas pernas tornando-se um eco do batimento acelerado de seu coração. Henrique estava apenas começando a mostrar a ela que, enquanto Enzo jogava com papéis e fundos de garantia, ele jogava com realidades muito mais carnais. Quando chegaram ao cartório, Henrique retirou a mão segundos antes de Enzo guardar o celular e abrir a porta. O cartório de Alphaville era um ambiente sóbrio, com ar-condicionado no máximo e o som constante de carimbos e teclados. Enquanto aguardavam a chamada para a mesa de habilitação, Enzo continuava inquieto, conferindo o relógio a cada minuto. — Soph, assina aqui por favor. É a autorização para a verificação de bens — ele disse, empurrando uma pasta em sua direção enquanto falava ao telefone com alguém. — Sim, eu já estou aqui! — exclamou ele para a pessoa do outro lado, afastando-se alguns passos para ter mais privacidade. Sophie pegou a caneta, sentindo-se um fantasma naquela relação. Henrique se aproximou, parando logo atrás dela. Ela podia sentir o calor emanando do corpo dele, o cheiro de madeira e whisky que parecia ter se tornado um gatilho para seu desejo. — Você assina tudo o que ele te pede sem ler, Sophie? — a voz de Henrique surgiu rente ao seu ouvido, um sussurro carregado de uma autoridade que a fazia querer obedecer. — Eu confio no Enzo — ela murmurou, sentindo os pelos da nuca se arrepiarem com o hálito dele. — Confiança é uma virtude perigosa nesta família — Henrique disse. Ele estendeu a mão para pegar o papel da mesa para conferir, mas, ao fazê-lo, seu braço roçou deliberadamente contra o seio de Sophie. Foi um contato firme, lento, que fez o mamilo dela reagir instantaneamente sob a seda. — Especialmente quando o homem que deveria te proteger está ocupado demais olhando para uma tela. Ele se inclinou sobre ela para assinar como testemunha. A proximidade era torturante. Sophie podia sentir a pressão do corpo de Henrique contra o seu, o terno dele roçando em sua pele. Quando ele terminou de assinar, ele não se afastou imediatamente. Ele virou o rosto, os olhos cinza-metálicos queimando os dela a poucos centímetros de distância. Ele não cobrou nada, não pediu nada, mas o olhar dizia que ele sabia exatamente o quão excitada ela estava. — Agora você é, oficialmente, a futura esposa dele — Henrique disse, e por um segundo, a máscara de discrição caiu, revelando uma posse crua. — Vamos almoçar. Eu conheço um lugar onde a privacidade é... respeitada. O almoço foi em um restaurante com vista para o skyline, frequentado pela elite. Enzo, agora mais relaxado por ter resolvido as pendências, agia com a habitual doçura. Ele segurava a mão de Sophie sobre a mesa de vez em quando, fazendo planos para o jantar de noivado. — O vovô quer que seja na semana que vem. O que você acha, Soph? — O que você decidir está bom, Enzo — ela respondeu, mas sua atenção estava totalmente voltada para Henrique, sentado à frente deles. Henrique estava em silêncio, observando a mão de Enzo sobre a de Sophie. O desdém no olhar dele era evidente. Quando o garçom trouxe o vinho, Henrique fez questão de servir Sophie. No processo, seus dedos envolveram os dela na base da taça, uma pressão quente que durou mais do que o necessário. Sob a toalha de linho branco, Henrique foi mais longe. Ele encontrou o pé de Sophie com o seu, subindo a perna do calçado dele pela panturrilha dela. Sophie estremeceu, tentando manter o foco na conversa de Enzo sobre a lista de convidados. — Você está gostando do vinho, Sophie? — Henrique perguntou, a voz aveludada, enquanto seus olhos prateados a desafiavam. — Sim... é muito bom — ela respondeu, sentindo o calor subir novamente entre suas pernas. Enzo se levantou por um momento para cumprimentar um conhecido em outra mesa. Sophie ficou a sós com Henrique por menos de um minuto, mas foi o suficiente. Henrique não disse nada sobre o casamento ou sobre Enzo. Ele apenas inclinou-se para frente, a mão mergulhando por baixo da mesa com uma velocidade predatória. Ele encontrou a coxa de Sophie e subiu sem hesitação, seus dedos pressionando com força o centro da intimidade dela por cima da seda fina. Sophie arqueou as costas, abafando um gemido com um gole de vinho. O prazer foi um choque elétrico, agudo e imediato. Henrique não parou; ele continuou a pressão, observando as pupilas dela se dilatarem e sua respiração se tornar curta. Ele não perguntou se ela queria; ele simplesmente tomou o que o filho ignorava. Ele retirou a mão exatamente quando Enzo começou a voltar para a mesa. Henrique recostou-se na cadeira, pegando sua taça de vinho com uma calma que beirava o sadismo. Sophie estava em frangalhos, o corpo tremendo. — Está tudo bem, Soph? — Enzo perguntou, sentando-se. — Você está um pouco vermelha. Deve ser o sol dessa varanda. — É... o sol — ela conseguiu dizer, sem conseguir olhar para Henrique. — Precisamos proteger a pele da Sophie — Henrique comentou, o brilho prateado em seus olhos prometendo que ele pretendia fazer muito mais do que protegê-la. — Ela é sensível demais para ser exposta sem cuidado. Quando voltaram para a mansão, Sophie correu para o seu quarto. Ela precisava de um banho, precisava pensar. Mas, ao passar pelo corredor, ela viu Henrique parado à porta do próprio escritório. Ele não disse nada, apenas a observou passar, um olhar de quem sabia que, por trás de cada papel assinado, era ele quem estava realmente no comando. Sophie fechou a porta do quarto e encostou-se nela, o coração ainda martelando. Ela viera para salvar Enzo, mas estava começando a perceber que Henrique era quem iria consumi-la — e ela estava desesperada para que o incêndio continuasse. A semana do simpósio avançou como um jogo de xadrez de alta velocidade, e a sala de reuniões do Grêmio Estudantil tornou-se o epicentro de um embate que já havia deixado de ser meramente institucional. Para o restante do comitê organizador, os encontros diários entre Theo Dumont e Helena Vance eram um espetáculo de alto nível: dois intelectuais brilhantes disputando cada centímetro de orçamento e cada minuto da grade horária.No entanto, para quem prestasse atenção de verdade, o que estava acontecendo ali era uma colisão de órbitas muito mais perigosa. O ar entre eles começava a se saturar de uma eletricidade pesada, um magnetismo cru que surgia toda vez que as vozes se calavam e as posturas se aproximavam.Naquela quinta-feira à noite, a biblioteca do campus já estava praticamente vazia quando os dois se isolaram em uma das salas de estudo reservadas. O restante da equipe havia cedido ao cansaço, mas Theo e Helena se recusavam a deixar o trabalho pela metade. Pilhas de relatórios,
Dias antes de a primeira reunião do simpósio acontecer em Boston, o quarto de Aurora na Mansão Dumont havia se transformado em uma verdadeira central de operações secretas. Ela e Luna sabiam que não podiam simplesmente ligar para Theo e sugerir uma namorada; o tiro sairia pela culatra. A aproximação precisava parecer completamente orgânica e partir do lado mais imprevisível: de Helena Vance.— Nós precisamos de um perfil real, mas que não tenha o sobrenome Dumont na cara para ela não desconfiar — Luna arquitetou, enquanto digitava rapidamente no tablet. — O Grêmio Estudantil de Boston abriu uma caixa de perguntas no Instagram sobre as propostas para o Simpósio de Jovens Líderes. É a nossa chance.Aurora, usando uma conta secundária focada em literatura e debates acadêmicos que mantinha há tempos, destrinchou o perfil de Helena. Elas descobriram que Helena era a líder do comitê de Relações Internacionais e que estava publicamente frustrada com a falta de orçamento para trazer pale
Com o retorno de Theo para os Estados Unidos, o ar na Mansão Dumont pareceu finalmente perder a densidade que a vigilância dele impunha. Sem carros de apoio a dois quarteirões de distância ou olhares gelados interrompendo as conversas na varanda, o namoro com Felipe ganhou o espaço necessário para florescer de verdade.Na escola e nos fins de semana, a proximidade entre os dois aprofundou-se de uma maneira que Aurora nunca havia experimentado. Eles se buscavam a todo momento. Onde antes havia apenas o toque tímido de mãos dadas, agora havia uma necessidade física e doce de estarem colados. Felipe a cercava em abraços demorados logo após o sinal das aulas, escondendo o rosto no pescoço dela, respirando o seu perfume e apertando-a contra o peito como se o mundo ao redor pudesse desaparecer.Felipe, com seu jeito atencioso e a maturidade que surpreendia a todos para os seus dezessete anos, gostava de demonstrar o que sentia. Eram beijos repletos de saudade e urgência, trocados nos cor
Peças do TabuleiroO resto da semana de Theo em São Paulo passou em um ritmo milimetricamente calculado. Fiel à bronca que levara de Enzo no carro, o universitário evitou novos confrontos diretos no jardim ou comentários ácidos sobre Felipe. Ele mantinha a postura polida de sempre, mas o olhar vigilante continuava lá, frio e analítico, toda vez que Aurora pegava o celular para sorrir para uma mensagem de texto.Aurora, por sua vez, não conseguia tirar a ideia de Luna da cabeça. Naquela quarta-feira à tarde, aproveitando que estava no quarto com a irmã mais nova fingindo estudar, ela decidiu dar o primeiro passo prático.— Luna, sobre aquela sua ideia... — Aurora começou, fechando o livro de história e virando-se para a irmã. Luna tirou um dos lados do fone de ouvido, com um sorriso esperto que indicava que estava apenas esperando por aquele momento. — Eu andei pensando. Se vamos encontrar alguém que consiga desestabilizar o Theo, não pode ser qualquer menina da nossa escola. Tem
O silêncio que se instalou no carro de Enzo na viagem de volta para casa era tão denso quanto a neblina que começava a subir nas avenidas de São Paulo. No banco de trás, os pensamentos de Theo pareciam colidir com a mesma força do treino exaustivo que fizera antes de viajar.A viagem de volta para a casa de Enzo e Sophie foi feita sob um silêncio cirúrgico. Sophie, conhecendo bem a intensidade dos homens da sua vida, manteve os olhos fixos na paisagem urbana através da janela, enquanto Dante apenas observava o movimento das luzes da cidade pelo vidro oposto. No banco da frente, Enzo mantinha as duas mãos firmes no volante, mas seu olhar pelo retrovisor interno estava fixado em Theo.Assim que estacionaram o carro na garagem da residência, Sophie e Dante desceram na frente, deixando espaço para o diálogo que sabiam ser inevitável. Theo fez menção de abrir a porta, mas a voz calma e imponente do pai o deteve.— Espere um momento, Theo.O jovem universitário soltou a maçaneta e rec
Após a sobremesa ser servida, o ambiente na sala de estar tornou-se ligeiramente mais fluido. Beatriz e Sophie puxaram Felipe para uma conversa mais leve sobre os torneios escolares, e o rapaz, visivelmente mais relaxado após passar pelo crivo inicial de Theo, respondia com entusiasmo, gesticulando e sorrindo.Aurora observava o namorado com os olhos brilhando, uma admiração tão genuína e exposta que começou a incomodar a ala masculina dos Dumont que vigiava o recinto do canto da sala.Theo estava de pé perto da lareira desativada, com as mãos nos bolsos do blazer. Seus olhos não saíam da tia. Ele via como ela tocava sutilmente no braço de Felipe para pontuar uma piada, como o corpo dela se inclinava naturalmente na direção do rapaz e, principalmente, como o mundo ao redor parecia desaparecer para ela quando Felipe falava.— Ele se saiu bem — Dante comentou baixo, aproximando-se do irmão mais velho com seu copo de água tônica. — Até o vovô Henrique achou que ele resp







