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Capítulo 2

Author: BNLabaig
last update publish date: 2026-06-30 23:51:14

Aura Keller

Cheguei em casa destruída. Meu corpo inteiro tremia enquanto eu subia as escadas. As lágrimas escorriam quentes pelo rosto, mas eu tentava não fazer barulho. Não queria que dona Sônia me ouvisse chorando de novo. Ela sempre me dizia que eu merecia mais do que aquilo, mas eu o amava tanto.

Joguei-me na cama, abraçando o travesseiro dele. O cheiro dele ainda estava ali. Fechei os olhos e tentei lembrar como era quando ele me abraçava forte e dizia que eu era tudo pra ele. Agora eu parecia ser nada. Só uma mulher chata, ciumenta e inútil. Uma dona de casa como ele mesmo dizia. Um peso na vida dele.

Fiquei ali por muito tempo, pensando no que fazer. Parte de mim queria desistir. Outra parte ainda lutava. Se eu me esforçar mais, se eu for mais paciente, ele vai voltar a me ver.

A porta da frente bateu. Levantei rápido, limpei o rosto e desci as escadas, tentando parecer normal. A gente precisava conversar, sem a Beatriz entre nós. 

Miguel estava na sala, ajustando a gravata no espelho.

"Miguel, podemos conversar sobre o que aconteceu hoje?" falei reunindo o pouco de coragem que ainda existia em mim.

"Hoje tem uma reunião importante com investidores." disse ele, sem nem me olhar. "Eu e Beatriz vamos representar a empresa. Quem sabe quando eu voltar."

Meu estômago revirou. Senti o peito apertar.

"Eu também quero ir." falei, tentando manter a voz firme.

Ele virou o rosto devagar, como se eu tivesse dito algo absurdo.

"Você? Não. Fica em casa."

"Miguel, eu sou sua esposa. Não pode levar outra mulher como se ela fosse sua acompanhante. As pessoas vão falar. Essa empresa também é minha. Eu é que vou com você."

Ele me encarou por alguns segundos. Depois soltou uma risada curta e seca.

"Tanto faz. Só não me humilhe com essa sua falta de noção em negócios. Fique de boca fechada o tempo todo. Entendeu?"

Eu concordei rápido, sentindo uma faísca de esperança acender no peito. Essa é minha chance. Vou mostrar pra ele que eu estudei. Que eu sou advogada agora. Que eu entendo de contratos e gestão de empresas. Talvez, só talvez, ele me olhasse com respeito de novo.

Subi correndo para o quarto. Escolhi o vestido preto que ele tinha gostado uma vez, fiz uma maquiagem suave e prendi o cabelo em um coque elegante. Quando desci, me senti bonita. Pela primeira vez em muito tempo, me senti digna de estar ao lado dele.

Mas Miguel nem olhou para mim. Passou direto e foi para o carro. O segui no mesmo instante.

"Você vai no banco de trás." ordenou, já sentado no volante.

"O quê?" perguntei, parando na porta do carro.

"Beatriz vai na frente. Ela fica enjoada no banco de trás. Só me obedece.

Senti o rosto queimar de vergonha. Entrei no banco de trás sem dizer mais nada, sentindo-me cada vez menor. Como se eu fosse uma criança sendo punida. Como se eu já não fosse mais sua esposa.

Passamos na casa de Beatriz. Ela saiu linda, com um vestido vermelho justo que marcava cada curva. Sentou no banco da frente como se aquilo fosse o lugar dela. No meu lugar. Com o meu marido.

Durante todo o caminho, os dois conversavam sobre negócios, riam, trocavam olhares carinhosos. Eu ficava calada atrás, apertando as mãos com tanta força que as unhas cravaram na pele.

Quando chegamos ao evento, meu coração afundou ainda mais. Miguel desceu e deu o braço para Beatriz. Os dois entraram juntos, como se fossem o casal perfeito. Eu fui deixada para trás, andando sozinha como uma sombra.

As pessoas cochichavam. Olhavam. Eu ouvia os murmúrios baixos:

"Coitada..." "Ele nem disfarça mais..." "Essa é a esposa? Parece uma empregada ao lado da outra."

Fiquei parada em um canto, me sentindo completamente invisível. Miguel e Beatriz circulavam entre os convidados importantes, sorrindo, apertando mãos, parecendo feitos um para o outro. Eu era só um adereço esquecido.

De repente, Beatriz apareceu ao meu lado com duas taças de champanhe. Me ofereceu uma com um sorriso doce demais.

"Sorria, Aura. Assim você só vai deixar o Miguel ainda mais irritado. E sabemos que não é isso que você quer. Então seja uma boa esposa, e sorria."

Peguei a taça com a mão trêmula. Estava com tanta raiva, tanta dor, que bebi quase tudo de uma vez. Queria afogar o que estava sentindo. Queria parar de doer.

Minutos depois, comecei a me sentir estranha. Tonta. A sala girava. Minha visão embaçava. Olhei ao redor e vi dois homens de terno me observando de longe. Um deles fez sinal para o outro.

Entrei em pânico.

Saí andando rápido, quase tropeçando. Os dois homens começaram a me seguir. Meu coração batia tão forte que parecia querer sair do peito. Eu queria procurar o Miguel, mas ele diria que eu estava exagerando. Então apenas corri.

Entrei em um corredor, depois em outro. Vi um elevador e apertei o botão várias vezes, desesperada. Assim que as portas abriram, entrei e bati nas portas até elas fecharem.

O elevador subiu. Saí em um andar qualquer, escuro e silencioso. Corri até uma porta e tentei abrir. Trancada. Bati com força. Outra porta. Nada. Meu corpo estava pesado, a cabeça girava, as pernas tremiam.

Finalmente uma porta se abriu. Entrei tropeçando e tranquei atrás de mim. Caí sentada no chão, ofegante, tentando respirar.

Um homem alto se abaixou na minha frente. Ele era bonito, mas sua expressão era dura, cético.

" Quem é você? O que você está fazendo aqui no meu quarto?" perguntou, a voz baixa e desconfiada.

"Beatriz... ela armou pra mim..." minha voz saía embolada, fraca. "Eu não estou me sentindo bem... tem dois homens me seguindo... por favor, me ajuda..."

Ele franziu a testa, claramente não acreditando em mim.

"Beatriz? Quem é Beatriz? Você tá bêbada? Drogada? Se isso é alguma armação ou pegadinha, não tenho tempo pra isso. Vou chamar a segurança, para resolver isso."

Senti o desespero subir pela garganta.

"Não é armação... eu juro... ela colocou algo na minha bebida... eles vão me pegar... Me ajud... me ajud, por favor."

De repente, batidas fortes soaram na porta.

O homem me olhou por um segundo, ainda desconfiado. Depois colocou a mão na minha boca com firmeza.

"Shhh. Fica quieta."

Ele me ajudou a levantar e me escondeu atrás da porta, abrindo uma fresta em seguida.

"Com licença, senhor. Você viu uma mulher de vestido preto, cabelo preso? Ela é a esposa do chefe e está bêbada. Ele pediu para levá-la para casa, mas não a estamos encontrando."

O homem negou calmamente.

"Não vi ninguém. Não me perturbem ou eu chamo a segurança."

Os dois estranhos olharam para dentro do quarto por cima do ombro dele. Depois agradeceram e foram embora.

Quando ele fechou a porta, minhas pernas finalmente falharam e tudo escureceu.

Eu apaguei.

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