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Aura Keller
Passei a manhã inteira na cozinha, preparando o prato favorito dele. O cheiro de alho dourado e carne grelhada enchia a casa, me trazendo lembranças de quando ele me abraçava por trás e dizia que meu arroz era o melhor do mundo. Coloquei tudo com cuidado na marmita nova que comprei semana passada, azul, a cor favorita dele. Dentro, deixei um bilhetinho pequeno, dobrado com carinho:
"Feito com todo o meu amor. Que seu dia seja leve. Te amo desde sempre."
Meu coração batia com uma esperança boba. Fazia tempo que Miguel não me olhava como antes de eu perder o nosso bebê, mas eu ainda acreditava que, se eu me esforçasse mais, se eu fosse mais compreensiva, as coisas voltariam a ser como no começo. Quando ele me protegia de tudo. Quando eu era o mundo dele.
Dona Sônia me observava da porta, com o cenho franzido.
"Senhora Aura... não vá não. O senhor Miguel disse que ia almoçar fora. Você vai se magoar de novo. Ele não merece todo o seu cuidado."
Eu forcei um sorriso, mesmo sentindo o peito apertado.
"Ele esqueceu a marmita ontem e não almoçou, Sônia. Vou só entregar rapidinho. Ele gosta quando eu faço essas surpresas..."
"Não sei, senhora. Ele anda ainda mais irritado. Talvez seja melhor..."
"Eu o conheço. Sei que ele vai gostar."
Ela suspirou, mas não insistiu. Sabia que eu não desistiria.
Dirigi até a empresa com as mãos suadas no volante. O coração batia forte, uma mistura de ansiedade e esperança. Estacionei, peguei a marmita ainda quente e subi. As secretárias me cumprimentaram com pena disfarçada e ignorei. Entrei no elevador sentindo o cheiro gostoso da comida que eu tinha feito com tanto amor.
Ele ia gostar da surpresa, tinha que gostar. Eu tinha preparado outras para ele. Eu precisava do meu marido de volta, não suportava mais essa distância. Eu já tinha me punido demais pelo que tinha acontecido ao nosso filho. Ele não podia mais me culpar por algo que os médicos disseram que estava além do nosso controle.
Quando cheguei ao andar da presidência, o corredor parecia mais longo que o normal. A porta da sala dele estava entreaberta. Ouvi a risada dele, baixa, sensual.
Empurrei a porta devagar.
E o mundo inteiro desabou sobre mim.
Miguel estava sentado na cadeira grande, relaxado, com aquele sorriso charmoso que um dia era só meu. Na frente dele, sentada na beirada da mesa com as pernas cruzadas de forma provocante, estava Beatriz Garbon, nossa amiga de infância e primeiro amor do Miguel.
Saia justa, blusa decotada, cabelo loiro perfeito. Ela estava inclinada para frente, quase tocando o braço dele, falando algo baixinho que o fazia rir.
Meu corpo inteiro gelou. A marmita escorregou das minhas mãos trêmulas e caiu no chão com um barulho seco. O molho quente espirrou no piso caro, manchando tudo. O cheiro de comida se misturou com o perfume caro dela.
Os dois viraram o rosto ao mesmo tempo.
Miguel franziu a testa, irritado.
"Aura? O que você está fazendo aqui?"
Beatriz se levantou devagar, com um sorriso falso de surpresa que não chegava aos olhos.
"Aura! Nossa, quanto tempo, amiga! Eu acabei de chegar na cidade e vim visitar o Miguel. Estava mesmo perguntando de você..."
Eu não conseguia respirar direito. Meu peito subia e descia rápido, como se alguém tivesse enfiado a mão dentro de mim e apertado meu coração. Olhei para Miguel, procurando qualquer sinal de culpa, de vergonha. Mas ele estava impassível. Como se eu fosse a intrusa ali.
"O que... o que está acontecendo aqui?" minha voz saiu rouca, quase quebrada.
Beatriz deu um passo à frente, fingindo preocupação.
"Não pense nada errado, Aura. Estamos apenas conversando de negócios. Miguel quer que eu venha trabalhar com ele. Não é ótimo? Vamos formar uma dupla e tanto."
Senti um gosto amargo subir pela garganta. As lágrimas queimavam meus olhos, mas eu lutava para não deixar cair. Olhei para o homem que eu amava desde os quinze anos.
"Eu te pedi tantas vezes pra me deixar ajudar aqui... Você sempre disse que eu não entendia nada. E ela mal chegou e você já está abrindo as portas?"
Miguel soltou uma risada baixa, debochada. Ele se levantou e veio andando devagar na minha direção, como se eu fosse uma criança fazendo birra.
"Sou eu quem decido isso, Aura. Não você. Uma simples dona de casa que não sabe nada de empresa. Você só me atrapalharia, diferente da Beatriz."
Cada palavra foi como uma facada. Meu corpo inteiro tremia. As pernas pareciam gelatina. Eu me sentia pequena, ridícula, com a marmita caída aos meus pés, símbolo patético do meu amor não correspondido.
"Eu sou sua esposa, Miguel..." sussurrei, a voz falhando.
Ele parou bem na minha frente, olhando de cima para baixo.
"Sim. E eu continuo sabendo o que é melhor pra mim. Beatriz é qualificada. Estudou nas melhores faculdades. Ela vai me ajudar de verdade."
Atrás dele, Beatriz sorria com cinismo. Quando Miguel virou um pouco o rosto, ela se inclinou e sussurrou só para mim:
" Você pode ter ficado com ele por um tempo... mas agora eu vim buscar o que é meu."
"Miguel, diga que isso é mentira. Que você não vai colocar essa mulher no cargo que é meu, se eu te mostrar..." tentei falar que tinha continuado a estudar, mas ele me cortou.
"Chega, Aura, pare de fazer cena."
Miguel apontou para o chão sujo.
"Limpe essa bagunça que você fez e nos deixe em paz. Se causar escândalo de novo, eu vou ficar muito irritado com você, Aura. E você sabe que não vai gostar das consequências.
Fiquei ali, parada, enquanto as lágrimas finalmente escorriam pelo meu rosto. Me abaixei devagar e comecei a recolher os pedaços da marmita que eu tinha preparado com tanto amor. Minhas mãos tremiam tanto que cortaram em um pedaço de plástico.
Eles passaram por mim, ainda abaixada, e continuaram rindo e conversando até chegarem ao elevador, me deixando sozinha no corredor frio.
Naquele momento, algo dentro de mim se quebrou de verdade.
E, junto com a dor, nasceu uma raiva silenciosa.
Eu não aguentava mais ser invisível.
ArthurDuas semanas na prisão foram suficientes para me fazer entender que minha situação era muito pior do que eu imaginava.No começo, tentei acreditar que tudo se resolveria. Rafael tinha dinheiro, influência e contatos suficientes para me tirar daquela situação. Bastava esperar que ele organizasse alguma coisa, contratasse um advogado decente e me ajudasse a sair dali antes que as acusações se tornassem definitivas.Mas Rafael estava morto.E eu estava sozinho.A cada dia, minha situação parecia piorar. Assédio sexual, tentativa de sequestro, invasão de privacidade, participação em um esquema de desvio financeiro e, agora, homicídio doloso. Eu havia atirado em Rafael, e o ferimento que deveria ter me dado tempo para escapar acabou tirando a vida dele. Não importava que eu não tivesse planejado matá-lo. Eu havia puxado o gatilho, e ele estava morto.A gravação feita por Clara era uma prova difícil de contestar, e o vídeo em que eu tentava arrastá-la para o carro tornava minha situa
Lucas HendrickEu estava sentado no sofá da sala quando recebi a ligação de John. Aura estava ao meu lado, com as pernas esticadas sobre uma almofada e uma das mãos apoiada na barriga. Desde que eu começara a caminhar com o andador, ela tinha desenvolvido o hábito de me observar sempre que eu me levantava, tentando disfarçar a preocupação. Eu fingia não perceber, embora soubesse que cada passo meu ainda fosse motivo de tensão para ela.Atendi à ligação e coloquei o celular no viva-voz."Lucas, tenho notícias."Pelo tom de John, percebi que alguma coisa havia acontecido. Endireitei o corpo no sofá, e Aura imediatamente retirou a mão da barriga para segurar a minha."Pode falar.""Arthur foi preso. A polícia já está com ele, e as provas que reunimos foram entregues às autoridades. Ele não vai mais circular livremente por aí, ele tem vários agravantes na ficha criminal."Soltei o ar devagar. Era uma notícia que eu esperava havia muito tempo, mas ouvir aquilo tornou tudo mais real. Arthur
Miguel StalingHendrick tinha nos tirado a Keller, nos encurralado financeiramente e impedido que Rafael se recuperasse. Cada tentativa de recomeçar terminava em outro problema, outra derrota, outra humilhação. Agora, meu irmão estava morto, e eu não conseguia deixar de pensar que tudo aquilo havia começado por causa dele.Eu não queria considerar a possibilidade de Rafael ter cometido um erro. Não queria pensar que meu irmão poderia ter tomado uma decisão que o colocara naquela situação.Era muito mais fácil culpar Lucas.Muito mais fácil acreditar que tudo poderia ter sido diferente se ele não tivesse cruzado nosso caminho.Bati as mãos no volante."Você acabou com tudo!"Minha voz ecoou dentro do carro, e eu precisei respirar fundo para não continuar gritando. Não havia ninguém ali para me ouvir, ninguém para me responder ou me dizer que eu estava errado.Rafael estava morto.E Lucas continuava vivo.A ideia era insuportável.Imaginei-o em sua casa, ao lado de Aura, cercado por seg
MiguelEu já estava escondido do lado de fora do hospital havia quase duas horas, e minha paciência começava a se esgotar.Eu tinha visto Rafael ser levado de ambulância, mas só descobri que ele havia sido baleado quando a notícia apareceu na televisão. Desde então, não conseguia pensar em outra coisa. Precisava saber como ele estava, mas não podia simplesmente entrar no hospital e perguntar pelo meu irmão. Se alguém me reconhecesse, eu corria o risco de ser preso antes mesmo de descobrir se ele ainda estava vivo.Por isso, permaneci afastado da entrada principal, observando cada pessoa que entrava e saía, na esperança de encontrar alguém que pudesse me dar alguma informação. Eu precisava de uma resposta. Qualquer uma. Porque, enquanto continuasse sem notícias, minha cabeça insistiria em imaginar o pior. Eu precisava acreditar que ele estava bem.Meu irmão já havia enfrentado situações difíceis antes. Mesmo quando tudo parecia estar desmoronando, ele encontrava uma maneira de continu
JohnNa delegacia, Arthur continuava tentando transformar a própria prisão em uma injustiça.Quando cheguei à sala onde ele prestaria depoimento, encontrei-o sentado à mesa, com as mãos algemadas e uma expressão que misturava indignação e falsa tranquilidade. Ele havia parado de gritar, mas isso não significava que tivesse desistido de tentar controlar a situação.Pelo contrário.Agora parecia ter decidido que seria mais inteligente fingir que estava disposto a colaborar."Finalmente", disse ele ao me ver entrar. "Estava esperando por você."Puxei uma cadeira e me sentei diante dele."Que coincidência. Eu não estava esperando por você."Arthur sorriu."Você sempre foi engraçado, não é? Deve ser fácil fazer piadas quando está acostumado a mandar nos outros."Não respondi.Ele se inclinou para a frente, estudando meu rosto como se procurasse alguma reação que pudesse usar contra mim."Quero fazer um acordo.""Você não está em posição de exigir nada.""Não estou exigindo. Estou oferecend
JohnArthur continuava falando quando o colocaram dentro da viatura.Insultos, ameaças, acusações. Ele parecia incapaz de compreender que a situação havia saído completamente do seu controle. Mesmo algemado, cercado por policiais e sem qualquer possibilidade de escapar, ainda se comportava como se pudesse intimidar alguém até conseguir o que queria.Eu observava tudo a poucos metros de distância, com a arma dele já recolhida e entregue às autoridades. Precisava garantir que a prisão fosse conduzida corretamente, que as provas fossem preservadas e que nenhum detalhe daquele confronto desaparecesse no meio da confusão.Principalmente porque Arthur não era o único problema.Rafael havia sido levado ao hospital em estado grave, e eu ainda não sabia se sobreviveria. Miguel continuava desaparecido, e, enquanto não o encontrássemos, Clara, Aura e Júlia ainda poderiam estar em perigo."Você vai se arrepender disso, John!", Arthur gritou quando um dos policiais o empurrou para dentro da viatur







