FAZER LOGINLaura demorou alguns segundos para deixar o prédio onde o divórcio havia sido oficializado.
A pasta com os documentos pesava em suas mãos, mas era o coração que parecia carregar toneladas.
O vento frio bagunçou seus cabelos enquanto ela descia os degraus da entrada principal. Pessoas passavam apressadas pela calçada, ocupadas com os próprios compromissos, completamente alheias ao fato de que, naquele exato momento, uma vida inteira acabava de ser desmontada.
— Laura.
Ela reconheceu a voz antes mesmo de se virar.
Rafael caminhava em sua direção com a mesma tranquilidade de sempre.
O terno escuro lhe caía perfeitamente, mas o que chamava atenção era o olhar gentil. Não havia pena. Nem curiosidade exagerada.
Apenas preocupação.
— Achei que você já tivesse ido embora.
Ela ergueu levemente a pasta.
— Ainda estou tentando entender que agora sou oficialmente divorciada.
Rafael sorriu de forma discreta.
— Isso leva um tempo.
Laura soltou um suspiro.
— Nem sei para onde ir.
— Vai voltar para casa?
Ela permaneceu em silêncio.
Casa.
A palavra parecia não fazer mais sentido.
— Acho que não consigo entrar lá hoje.
Rafael percebeu a hesitação.
— Seus pais moram na cidade?
Laura balançou a cabeça.
— Minha mãe faleceu há quatro anos. Meu pai mora em Portugal com a esposa dele.
— Irmãos?
— Não.
Rafael cruzou os braços.
— Amigos?
Laura pensou em Marina.
Ela certamente abriria as portas de casa, mas tinha dois filhos pequenos e um apartamento apertado.
Não queria transformar o lar da amiga em um refúgio improvisado.
— Não quero incomodar ninguém.
Rafael soltou uma pequena risada.
— Você continua com esse costume de carregar o mundo inteiro nas costas.
Laura sorriu sem perceber.
Ele ainda lembrava.
Desde criança, ela evitava pedir ajuda.
Preferia resolver tudo sozinha.
Mesmo quando isso significava sofrer em silêncio.
— Meu escritório administra alguns imóveis.
Ela ergueu os olhos.
— Um deles acabou de ficar vazio.
Laura franziu a testa.
— Está tentando me alugar um apartamento?
— Estou tentando impedir que você volte para um lugar onde talvez não queira estar hoje.
Ela o encarou durante alguns segundos.
Havia sinceridade em cada palavra.
Nenhum interesse escondido.
Nenhuma intenção de se aproveitar da situação.
Era apenas Rafael.
O mesmo garoto que dividia o lanche com ela na escola quando esquecia o próprio.
O mesmo adolescente que enfrentava colegas maiores para defendê-la.
O mesmo amigo que sempre aparecia quando ela precisava.
Até o dia em que desapareceu da vida dela.
Não porque quis.
Porque ela permitiu.
Laura baixou os olhos.
— Obrigada.
— Nem agradeça antes de conhecer o lugar.
Ela respirou fundo.
— Tudo bem.
Enquanto isso, do outro lado da cidade, Gustavo deixava o estacionamento do escritório sorrindo para o celular.
Bianca havia enviado uma sequência de mensagens.
"Agora você é oficialmente livre."
"Estou morrendo de saudade."
"Vem almoçar comigo."
Ele respondeu imediatamente.
"Estou indo."
Guardou o telefone e acelerou.
Sentia uma estranha sensação de alívio.
Finalmente não precisava mais esconder nada.
Não haveria desculpas.
Mentiras.
Mensagens apagadas.
Podia viver aquele relacionamento da forma que desejava.
Exatamente como planejara.
Bianca escolheu um restaurante sofisticado.
Assim que Gustavo entrou, ela correu para abraçá-lo.
— Parabéns pela liberdade.
Ele riu.
— Parece até aniversário.
— Para mim é.
Ela o beijou demoradamente, sem se preocupar com os olhares ao redor.
Depois segurou sua mão.
— Então...
Os olhos dela brilhavam.
— Como foi?
— Ela assinou.
Bianca sorriu satisfeita.
— Eu disse que ela acabaria aceitando.
O garçom aproximou-se.
Fizeram os pedidos.
Assim que ficaram sozinhos novamente, Bianca apoiou o rosto na mão.
— Agora podemos viajar.
— Viajar?
— Claro.
Sempre quis passar alguns dias em Fernando de Noronha.
Gustavo riu.
— Calma.
— Por quê?
— Ainda existem algumas coisas para resolver.
Ela fez um bico.
— Você prometeu que estaria totalmente disponível.
— E estou.
Bianca segurou a mão dele sobre a mesa.
— Então esquece sua ex-esposa.
A palavra soou estranha.
Ex-esposa.
Era verdade.
Legalmente, Laura deixara de ser sua mulher havia menos de duas horas.
Mesmo assim, Gustavo corrigiu automaticamente:
— É temporário.
Bianca retirou lentamente a mão.
— Ainda está pensando nisso?
— Não.
— Então por que insiste em repetir que é temporário?
Ele demorou alguns segundos para responder.
— Porque esse sempre foi o combinado.
Ela desviou o olhar.
Aquilo não fazia parte do plano dela.
Bianca aceitara o acordo porque acreditava que, durante aqueles trinta dias, Gustavo perceberia que não conseguiria viver sem ela.
Nunca imaginou que ele continuaria falando da ex-esposa com tanta naturalidade.
Ela forçou um sorriso.
— Daqui a um mês você nem vai lembrar desse casamento.
Gustavo concordou com um movimento de cabeça.
Mas, curiosamente, não respondeu.
No início da tarde, Rafael estacionou diante de um edifício moderno.
— É aqui.
Laura desceu do carro.
O prédio ficava em um bairro arborizado, distante da região onde morava com Gustavo.
Entraram.
O apartamento era amplo, iluminado e completamente mobiliado.
As janelas enormes deixavam o sol invadir a sala.
Havia uma varanda cheia de plantas.
Uma cozinha integrada.
Dois quartos.
Tudo impecavelmente organizado.
Laura caminhou lentamente pelo imóvel.
Sentia algo que não experimentava havia muito tempo.
Silêncio.
Não aquele silêncio pesado de um casamento desgastado.
Era um silêncio tranquilo.
Capaz de acalmar.
— Gostou?
Ela assentiu.
— É lindo.
— O proprietário mora fora do país.
Ainda não decidiu vender.
Enquanto isso, prefere alugá-lo.
Laura olhou novamente ao redor.
— Não deve ser barato.
Rafael sorriu.
— Posso negociar um bom desconto.
Ela cruzou os braços.
— Rafael...
— O quê?
— Não quero privilégios.
Ele deu de ombros.
— Você sempre foi péssima em aceitar gentilezas.
Laura acabou rindo.
— Continua insistente.
— E você continua teimosa.
Os dois riram juntos.
Por alguns segundos, pareciam dois adolescentes revivendo uma amizade interrompida.
Rafael caminhou até a varanda.
— Lembra daquela praça perto da escola?
Ela sorriu imediatamente.
— Onde você tentou aprender a andar de skate.
Ele levou a mão ao ombro.
— Ainda tenho uma cicatriz daquela queda.
Laura gargalhou.
— Você caiu porque queria me impressionar.
— Funcionou?
Ela fingiu pensar.
— Não muito.
— Que crueldade.
Os dois voltaram a rir.
A leveza daquela conversa surpreendeu Laura.
Depois de dias mergulhada em tensão, era estranho descobrir que ainda conseguia sorrir.
Sem esforço.
Sem fingimento.
Rafael observou discretamente a expressão dela.
Havia conhecido muitas versões de Laura.
A menina curiosa.
A adolescente sonhadora.
A mulher apaixonada no dia do casamento.
Agora via uma mulher machucada tentando permanecer de pé.
E fez uma promessa silenciosa.
Não permitiria que ela enfrentasse tudo aquilo sozinha.
No fim da tarde, Laura voltou ao antigo apartamento apenas para buscar algumas roupas e objetos pessoais.
Assim que abriu a porta, encontrou Gustavo sentado na sala.
Ele parecia surpreso.
— Achei que você demoraria mais.
— Vim pegar minhas coisas.
Ela passou por ele sem esperar resposta.
Subiu para o quarto.
Abriu o guarda-roupa.
Começou a colocar roupas dentro da mala.
Gustavo apareceu na porta.
— Vai para onde?
— Ainda não sei.
Era mentira.
Mas ele não precisava conhecer seu novo endereço.
— Não precisa sair de casa.
Ela continuou dobrando as roupas.
— Preciso.
— Podemos dividir os espaços durante esse mês.
Laura parou.
Olhou diretamente para ele.
— Você realmente acredita que eu conseguiria morar na mesma casa enquanto você passa as noites com outra mulher?
Gustavo abaixou os olhos.
— Não pensei por esse lado.
Ela sorriu com tristeza.
— Esse sempre foi o problema.
Você nunca pensou pelo meu lado.
As palavras permaneceram ecoando no quarto.
Gustavo não encontrou resposta.
Laura fechou a mala.
Pegou uma pequena caixa de madeira que guardava fotografias antigas.
Ao abri-la, encontrou uma imagem desbotada.
Ela, Rafael e Marina, ainda adolescentes, cobertos de tinta durante uma gincana da escola.
Sorriu involuntariamente.
Guardou a fotografia na bolsa.
Sem notar, Gustavo observou a imagem antes que ela desaparecesse.
Reconheceu Rafael imediatamente.
Sentiu um leve desconforto.
Estranho.
Inexplicável.
Mas preferiu ignorá-lo.
Laura passou por ele carregando a mala.
Parou apenas diante da porta de entrada.
Olhou uma última vez para o apartamento.
Ali estavam cinco anos de lembranças.
Boas.
Ruins.
Sonhos.
Promessas.
Tudo agora fazia parte do passado.
Ela respirou fundo.
Abriu a porta.
E saiu sem olhar para trás.
Gustavo permaneceu sozinho na sala.
O silêncio daquela casa parecia diferente.
Grande demais.
Vazio demais.
Ele caminhou até a cozinha.
As duas canecas favoritas de Laura ainda estavam no escorredor.
O perfume dela continuava impregnado no sofá.
A manta que ela usava para assistir filmes permanecia dobrada sobre a poltrona.
Sorriu consigo mesmo.
"São apenas trinta dias."
Repetiu essa frase como quem tenta convencer a própria consciência.
Só não percebeu que, naquele mesmo instante, Laura cruzava a cidade em direção a um novo lar.
E, sem saber, também caminhava de volta para uma amizade que jamais deveria ter perdido.
Laura permaneceu parada na varanda.O celular continuava em sua mão.A mensagem ainda estava aberta na tela."Você quer saber quem matou seu avô?"E, logo abaixo:"Pergunte a Rafael onde ele estava naquela noite."Ela leu novamente.Depois levantou os olhos.Rafael continuava diante dela.O mesmo homem que havia segurado sua mão durante os momentos mais difíceis.O homem que a ajudara a enfrentar Gustavo.O homem que havia prometido não deixá-la sozinha.O homem por quem seu coração havia escolhido bater novamente.Agora alguém estava tentando colocar uma dúvida entre eles.— Laura?Ela não respondeu.Rafael percebeu imediatamente que havia algo errado.— O que aconteceu?Laura estendeu o telefone.Ele leu.Seu rosto mudou.Não por culpa.Por reconhecimento.Laura percebeu.— Você sabe alguma coisa.Rafael levantou os olhos.— Sei.Ela sentiu o coração apertar.— Então é verdade?— Não do jeito que essa pessoa quer que você pense.— Onde você estava naquela noite?Rafael ficou em silê
O carro avançava pela estrada em velocidade máxima.Laura permanecia no banco traseiro ao lado de Rafael, segurando a pasta contra o peito.O avô estava no veículo com eles.Eduardo dirigia.Gustavo seguia logo atrás com Otávio.Todos estavam indo para a antiga sede da Montenegro Holdings.O prédio estava pegando fogo.E Maria estava lá.Laura olhava pela janela, tentando controlar a respiração.— Mãe, por favor...Rafael segurou sua mão.— Vamos chegar até ela.— E se for tarde demais?— Não vai ser.— Como pode ter tanta certeza?Rafael virou o rosto para ela.— Porque ainda temos uma coisa que eles não têm.— O quê?— Você.Laura franziu a testa.— Eu?— Você é o motivo de todos estarem se movimentando.Seu avô olhou para ela.— Rafael está certo.Laura encarou o homem.— Então me diga a verdade.Ele suspirou.— Que verdade?— A que Helena mencionou.A verdadeira identidade do homem que criou o império Montenegro.O avô de Laura ficou em silêncio.Eduardo apertou o volante.— Pai.
Laura ficou encarando o doutor Henrique.As palavras dele pareciam não fazer sentido.O avô de Laura estava escondido na antiga casa de Gustavo.A casa onde ela havia vivido durante o casamento.A casa que havia deixado depois do divórcio.A casa onde tantas lembranças dolorosas ainda estavam guardadas.Laura olhou para Gustavo.— Você sabia disso?Gustavo parecia tão surpreso quanto ela.— Não.— Tem certeza?— Laura, eu juro que não sabia.Henrique interrompeu:— Ele não sabia.— Como você pode ter certeza?— Porque seu avô escolheu aquela casa justamente por causa disso.Laura franziu a testa.— Por causa do quê?Henrique respirou fundo.— Porque ninguém procuraria alguém ligado à sua família dentro da casa do seu ex-marido.Gustavo passou a mão pelos cabelos.— Então ele esteve lá esse tempo todo?— Não exatamente.— Explique.— Seu avô utilizava um cômodo subterrâneo que não aparece na planta da casa.Laura sentiu o coração acelerar.— O porão.Gustavo olhou para ela.— Eu nunca
Laura permaneceu em silêncio depois das últimas palavras de Teresa.A casa que ninguém mencionava.A casa que não aparecia nos registros.A casa conhecida apenas por Eduardo, Maria e seu avô.E, segundo Teresa, era exatamente ali que poderia estar o homem que todos acreditavam estar morto.Eduardo parecia perdido em pensamentos.Laura se aproximou.— Pai, você conhece essa casa.Não era uma pergunta.Ele respirou fundo.— Conheço.— Onde fica?— A cerca de uma hora daqui.— Por que nunca ouvi falar dela?— Porque seu avô mandou apagar qualquer registro.— Por quê?Eduardo olhou para a filha.— Porque era um lugar de emergência.— Emergência para quem?— Para nossa família.Laura franziu a testa.— Você já levou alguém para lá?Eduardo demorou a responder.— Sim.— Quem?— Você.Laura ficou imóvel.— Eu?— Quando era criança.— Eu estive naquela casa?— Sim.— E não me lembro.— Você tinha apenas alguns anos.Laura passou a mão pelos cabelos.— Então talvez meu avô tenha escondido algu
Laura permaneceu com a pequena chave entre os dedos.Era tão pequena que quase parecia insignificante.Um objeto simples, antigo, sem qualquer detalhe chamativo.Mas agora ela sabia que aquela chave havia sido escondida dentro do relógio do pai por uma razão.Daniel estava procurando por ela.Teresa sabia da existência dela.E alguém havia passado anos garantindo que aquele objeto permanecesse longe das mãos erradas.Laura levantou os olhos.— Eu quero saber o que essa chave abre.Eduardo assentiu.— Então precisamos voltar ao lugar onde seu pai guardava as coisas mais importantes.— A casa antiga?— Não.Eduardo pensou por alguns segundos.— Existe outro lugar.Rafael cruzou os braços.— Onde?Eduardo olhou para a pequena chave.— O escritório de Augusto.Gustavo ficou surpreso.— O escritório subterrâneo?— Sim.— Mas nós já estivemos lá.— Não no compartimento principal.Laura franziu a testa.— Existe outro?Eduardo assentiu.— Seu tio Daniel não sabia da existência dele.Gustavo
Laura continuou olhando para a tela.A imagem congelada mostrava o rosto do homem que acabara de entrar no carro de Teresa.Daniel Ribeiro.Seu tio.Um homem cuja existência havia sido escondida dela durante toda a vida.Um homem que, segundo os documentos encontrados, tinha ligações com a família Montenegro.Um homem que agora estava vivo.Rafael percebeu que Laura não conseguia reagir.— Laura...Ela levantou a mão.— Não.Preciso entender.Eduardo aproximou-se da tela.Seu rosto estava tomado por uma expressão que Laura nunca havia visto.— É ele.Gustavo olhou para o pai de Laura.— Você tem certeza?— Eu conheci Daniel antes de tudo acontecer.— E ele realmente estava envolvido?Eduardo demorou a responder.— Daniel era inteligente.Muito inteligente.E sabia esconder o que fazia.Laura sentiu a garganta apertar.— Você sabia que ele estava vivo?Eduardo virou-se para ela.— Não.— Mas sabia que ele existia.— Sim.— Então por que nunca me contou?— Porque sua mãe pediu.Laura so







