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O ECO DOS TROVÕES

Auteur: Enaile Pires
last update Date de publication: 2026-09-29 22:11:26

​A presença da pequena Mel nos braços de Lorena parecia ancorar novamente aquela casa à realidade, mas o ar no corredor ainda permanecia denso, carregado da eletricidade que ficara retida no escritório. Henrique ainda estava ali, a poucos passos, a mão repousada suavemente nos cabelos da filha, mas o olhar fixo em Lorena carregava um peso imenso. Era uma mistura de desejo contido, culpa e uma incerteza avassaladora que fazia o peito de Lorena oscilar entre o alívio e a frustração.

​— O trovão foi muito alto, papai... a luz apagou toda — murmurou Mel, escondendo o rosto no pescoço de Lorena, alheia ao turbilhão que acabara de ser interrompido entre os dois adultos.

​Henrique pigarreou, a voz saindo um pouco mais grave do que o normal, tentando recuperar a postura de proprietário e pai protetor que sempre ostentava.

​— A tempestade derrubou a rede da fazenda, minha filha. Mas não precisa ter medo, o papai e a Lorena estão aqui — disse ele, abaixando-se ligeiramente para ficar na altura das duas. Ao fazer isso, seu ombro roçou suavemente no de Lorena, e o simples contato fez a pele dela arder, como se a tempestade externa estivesse transbordando para dentro de suas veias.

​— Vou pegar umas velas na cozinha — disse Lorena rapidamente, precisando desesperadamente de um motivo para se afastar daquele campo magnético que Henrique exercia sobre ela. — Mel, você quer vir comigo ou prefere ficar com o seu pai?

​A menina olhou de um para o outro, sentindo que havia algo de diferente no ar, embora não soubesse decifrar o quê. Ela soltou o pescoço de Lorena e estendeu os braços para Henrique.

​— Vou com o papai... mas a gente pode tomar chocolate quente? O vento tá fazendo barulho na minha janela.

​Henrique pegou a filha no colo com uma facilidade habilidosa. O gesto de carinho paterno, tão genuíno e protetor, fez o coração de Lorena se apertar ainda mais. Havia tanta humanidade e dor escondidas sob a carcaça dura daquele homem.

​— Chocolate quente parece uma boa ideia — respondeu Henrique, mas seus olhos azuis não deixavam os de Lorena. — Vamos todos para a cozinha. Lá é mais seguro se a tempestade apertar.

​Eles caminharam pelo corredor escuro da Casa Grande, iluminados apenas pelas labaredas esporádicas dos raios que cortavam o céu lá fora. A Fazenda Sol Nascente, que durante o dia transbordava a energia da terra e o som do gado, à noite parecia um castelo antigo cercado por sombras e segredos. A madeira do assoalho rangia sob os passos pesados de Henrique, criando uma sinfonia melancólica acompanhada pelo barulho da chuva implacável nas telhas de barro.

​Na ampla cozinha de estilo colonial, o cheiro de madeira antiga e ervas secas era aconchegante. Lorena acendeu duas velas grossas de cera de abelha e as colocou sobre o centro da grande mesa de ipê. A luz amarelada e vacilante das chamas ganhou vida, desenhando sombras longas nas paredes de tijolo à vista e trazendo um conforto imediato para o ambiente.

​Enquanto Lorena se ocupava em pegar o leite e o cacau na despensa, tentando manter as mãos trêmulas sob controle, Henrique sentou-se na cabeceira da mesa com Mel no colo. A menina brincava com os botões da camisa xadrez dele, alheia ao jogo de olhares que se desenhava a cada movimento.

​— O seu peito tá batendo rápido, papai — comentou a garotinha ingenuamente, deitando a cabeça contra o tórax do pai.

​Henrique congelou por um segundo. Ele levantou o olhar devagar para Lorena, que havia parado de mexer a colher na panela no mesmo instante. Um sorriso sutil e quase imperceptível surgiu nos lábios de Lorena, mas ela logo disfarçou, voltando a atenção para o fogão a gás.

​— É por causa do susto com o trovão, meu amor — mentiu Henrique, com a voz rouca, passando a mão pelas costas da filha. Mas o olhar que lançou para Lorena dizia exatamente o contrário.

​Aquela quase entrega no escritório não fora um acidente. Não fora apenas o calor do momento ou o isolamento da tempestade. Havia um desejo represado há meses, talvez anos, naquele homem que se fechara para o mundo após tantas perdas. E Lorena, com sua teimosia e doçura, havia derrubado as vigas que sustentavam aquela fortaleza.

​Lorena serviu a caneca colorida para Mel e colocou duas xícaras de café quente na mesa — uma para ela e outra para Henrique.

​— O chocolate está quente, Mel. Assopra antes de beber — orientou Lorena, sentando-se na cadeira oposta à de Henrique, mantendo a distância prudente que a mesa enorme oferecia.

​— Obrigado, Lorena — disse a menina, dando um pequeno gole e deixando um bigode de espuma nos lábios, o que fez os dois adultos rirem baixinho. O riso compartilhado quebrou um pouco a tensão, criando um momento de rara paz no meio do caos da noite.

​Por alguns minutos, o único som na cozinha era o de Mel bebericando seu chocolate e o barulho ritmado da chuva do lado de fora. No entanto, o silêncio entre Henrique e Lorena não era incômodo; era prenhe de significados. Cada vez que os olhos dele buscavam os dela sobre a chama da vela, Lorena sentia um arrepio percorrer sua espinha.

​Quando Mel terminou de beber, seus olhos já estavam pesados pelo cansaço e pela sensação de segurança que o ambiente e a presença dos dois transmitiam.

​— Papai... você canta aquela música pra mim dormi? — pediu a menina, esfregando os olhos pequenos.

​— Canto sim, meu amor. Vamos para o quarto — disse Henrique, levantando-se com a filha adormecendo em seus braços.

​Antes de sair da cozinha, ele parou na porta. Virou-se para Lorena, a luz da vela refletindo no contorno de seu rosto firme e marcado pelo tempo e pelo sol do Pará.

​— Não vá para o seu quarto ainda, Lorena — pediu ele, num tom baixo, quase como uma ordem disfarçada de súplica. — Precisamos conversar sobre o que aconteceu no escritório.

​Lorena apenas assentiu com a cabeça, sentindo o peito acelerar novamente. Ela sabia que, assim que a pequena Mel dormisse, ela e Henrique ficariam sozinhos outra vez sob o mesmo teto, e a tempestade lá fora seria o menor dos seus problemas.

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