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O Limiar do Desejo

ผู้เขียน: Enaile Pires
last update วันที่เผยแพร่: 2026-09-29 21:58:53

​A tempestade continuava a desabar sobre a Fazenda Sol Nascente com uma força avassaladora. O barulho dos pingos grossos contra as janelas de madeira e o clarão dos raios que iluminavam o escritório de tempos em tempos pareciam emoldurar o silêncio tenso que se instalou entre Lorena e Henrique.

​A proximidade era quase insustentável. O calor que emanava do corpo do fazendeiro contrastava com o ar frio que entrava pelas frestas. Lorena conseguia sentir a respiração descompassada dele contra o seu rosto, e a firmeza com que ele a encarava fazia seu peito subir e descer rapidamente.

​— Você não entende, Lorena... — repetiu Henrique em um tom quase inaudível, dando mais um meio passo à frente, prensando-a suavemente contra a borda da escrivaninha de madeira. — Algumas feridas são profundas demais para serem curadas apenas com boas intenções.

​— Mas se você continuar alimentando a dor e o isolamento, elas nunca vão fechar — rebateu Lorena, a voz firme, embora o coração estivesse martelando nas costelas. Ela ergueu a mão involuntariamente, parando a milímetros do peito dele, sentindo a rigidez dos músculos de Henrique sob a camisa xadrez. — Você tem uma filha maravilhosa que precisa ver o pai sorrir de novo. E você também merece uma segunda chance.

​Henrique olhou para a mão de Lorena, hesitante sobre o seu peito, e depois subiu o olhar para os olhos dela. A determinação e a compaixão que viu ali pareceram desarmar a última defesa que ele vinha construindo há anos. A raiva que sentira ao vê-la no escritório havia se dissipado por completo, dando lugar a uma atração irresistível que ele já não conseguia mais mascarar.

​Lentamente, como se estivesse pedindo permissão sem pronunciar uma única palavra, Henrique levantou a mão grande e calejada pelo trabalho no campo e tocou a face de Lorena. Os dedos dele, quentes e ligeiramente ásperos, contornaram a linha da bochecha dela com uma delicadeza surpreendente, fazendo-a estremecer de um jeito bom.

​— Você é perigosa, sabia? — murmuro Henrique, os olhos fixos nos lábios entreabertos de Lorena. — Chegou aqui sem avisar, com esse jeito doce e teimoso, e em poucos dias virou tudo de cabeça para baixo nesta casa.

​— Eu não fiz nada de propósito... — sussurrou ela, sentindo o hálito quente dele bem perto do seu rosto. — Só não consigo ver alguém sofrendo e fingir que não me importo.

​Henrique aproximou o rosto mais um pouco. O aroma de chuva, terra e o perfume amadeirado dele preencheram todos os sentidos de Lorena. Por um segundo eterno, o tempo pareceu parar. Os dois sabiam que estavam prestes a cruzar uma linha sem volta: a linha entre o patrão sério e a babá, transformando a relação em algo muito mais profundo e avassalador.

​No exato momento em que os lábios de Henrique roçaram suavemente os de Lorena em um primeiro toque hesitante e carregado de expectativa, um trovão mais alto retumbou no céu, fazendo a estrutura da casa tremer ligeiramente.

​Logo em seguida, uma voz infantil e assustada chamou lá do corredor:

​— Papai? Lorena? Onde vocês estão? Está escuro!

​A ilusão daquele momento mágico se desfez num piscar de olhos. Henrique recuou um passo rapidamente, limpando a garganta e ajeitando a postura, embora a respiração continuasse pesada e o olhar fixo em Lorena revelasse o quanto ele fora mexido por aquilo.

​Lorena deu um passo para o lado, recompondo-se e alisando a saia do vestido com as mãos trêmulas.

​— Estou aqui, meu amor! — respondeu Lorena com a voz o mais calma possível, saindo do escritório e encontrando Mel no meio do corredor abraçada ao seu ursinho.

​A garotinha correu e se agarrou às pernas de Lorena, assustada com o barulho dos trovões. Lorena abaixou-se e a abraçou com carinho, ninando-a em seus braços.

​Henrique saiu do escritório logo atrás, observando a cena. Ao ver a filha acolhida no colo de Lorena, o olhar do fazendeiro suavizou-se completamente. Ele caminhou até as duas e colocou a mão grande sobre a cabeça da pequena Mel, mas seu olhar cruzou com o de Lorena mais uma vez.

​Dessa vez, não havia frieza ou distância nos olhos de Henrique Valle. Havia uma promessa silenciosa de que aquilo que começara no escritório estava longe de terminar.

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