LOGINCAPÍTULO 194 TRANSFORMADO PELA DOR Eu continuava sem conseguir reagir. A notícia ainda me mantinha preso naquele instante, como se o meu corpo tivesse deixado de obedecer à minha vontade. Tel colocou-se ao lado de Isabel, observando-me com uma hostilidade mal disfarçada. — Afasta-se dela, Ariel. A ordem fez-me finalmente erguer os olhos para ele. Havia arrogância na sua voz. Uma segurança que, naquele momento, me pareceu quase insuportável. Era como se estivesse a marcar território. Um território que, até há pouco tempo, eu acreditava ser o meu. — O que foi, Isabel, o que aconteceu? Você está bem? — perguntou ele, virando-se imediatamente para ela. Antes que eu pudesse dizer alguma coisa, Tel empurrou-me para abrir espaço e passou o braço à volta dela. O gesto foi rápido, mas suficiente para me despertar da espécie de paralisia em que me encontrava. Olhei para ele, sentindo uma onda de revolta atravessar-me o peito. Por instantes, tive vontade de agarrá-lo pela camisa e
CAPÍTULO 193 A VERDADE ERA PIOR DO QUE PENSEI ARIEL GOUVEIA Eu faço o que for preciso para voltarmos a ser felizes. Só não me deixes continuar a viver como se já estivesse perdido, você, para sempre. Ela ergueu o rosto molhado firmando seus olhos verdes nos meus. Durante alguns segundos, ficamos apenas a olhar um para o outro. E foi ali, naquele instante, que julguei ver as defesas dela começarem a ruir. Havia dor nos seus olhos, uma tristeza tão profunda que me fez desejar poder retirar-lhe dos ombros todo o sofrimento que carregava. Estendi a mão e toquei-lhe delicadamente no rosto. — Eu sou inocente, Isabel. Não tive nada a ver com aquilo que aconteceu. Nunca te traí, nunca te enganei e nunca deixei de te escolher. Tu és a mulher com quem quero casar, a mulher com quem quero construir uma família. És tu. Sempre foste tu. Ela fechou os olhos por um instante, deixando que as minhas palavras a alcançassem. Então, abraçou-me, chorando ainda mais. Foi um gesto breve,
CAPÍTULO 192 O peso da culpa ARIEL GOUVEIA Caio pareceu reparar na postura dela. — Aceitas um pouco de vinho, Isabel? Ela abanou a cabeça. — Não, obrigada, Caio. Observei-a em silêncio. A recusa foi simples, mas algo dentro de mim se contraiu. Isabel nunca recusava vinho daquela maneira. Não naquela casa, não diante da família, não quando todos esperavam que aquela noite representasse uma espécie de recomeço. E, de repente, todos os pequenos detalhes do jantar voltaram à minha mente. A comida intocada. A água entre os dedos. A demora no toalete. A palidez. O modo como ela mantinha uma das mãos pousada sobre o ventre, quase sem perceber. O meu coração começou a bater mais depressa. Não... Aquilo não podia significar o que eu estava a pensar. A ideia surgiu tão absurda e tão dolorosa que tentei afastá-la imediatamente. Isabel não faria isso. Não podia estar ,esconder algo daquela dimensão de mim. Não depois de tudo o que tínhamos vivido, não depois de ter passado mese
CAPÍTULO 191 Havia algo profundamente errado ARIEL GOUVEIA Porra, havia alguma coisa errada com Isabel. Eu sentia isso. Havia algo profundamente errado, algo que ela estava escondendo de mim, e aquela sensação começava a me corroer por dentro, como se meu instinto tentasse me alertar para uma verdade que eu ainda não conseguia enxergar. Depois do que ela disse, a fome simplesmente desapareceu. Não conseguia pensar em comida, muito menos fingir que estava tudo bem enquanto a mulher que eu amava se mantinha tão distante de mim. Eu precisava conversar com ela. Precisava de alguns minutos a sós, longe dos olhares da família, para esclarecer tudo antes que aquela angústia me derrubasse de vez. Eu estava por um fio. Era insuportável olhar para Isabel e não poder abraçá-la, puxá-la para os meus braços e sentir que, apesar de todas as dificuldades, ainda havia um lugar para mim na vida dela. Antes, bastava um olhar para que nos entendêssemos. Agora, até mesmo a proximidade en
CAPÍTULO 190 O Cenário Estava Pronto LEONEL CARMONA Todos na sala se voltaram para olhar na mesma direção. A interação entre os dois resumia-se a palavras quase sussurradas, uma frequência que pertencia apenas a eles. Eu estava observando tudo minimamente. E testemunhei o momento exato em que a postura da minha filha enrijeceu ao registrar a presença de Ariel e de toda a família Gouveia. Contudo, eu conhecia o sangue que corria em suas veias; sabia que ela se manteria divinamente de pé. Mesmo sabendo que eu tinha feito tudo de propósito. Isabel possuía a rara virtude de saber sobressair-se em meio ao caos. Minha filha sempre foi espetacular nisso, eu sempre falava que ela tinha herdado isso da minha mãe. Ainda assim, Ariel teria de sustentar o roteiro daquela noite com maestria. Afinal, era ele o mais interessado nisso tudo. Eu só tive o trabalho de alinhar à emboscada social entre as duas famílias Atento à eletricidade silenciosa que orbitava a dinâmica entre ela e o
CAPÍTULO 189 ELA ESTAVA MUITO DIFERENTE ARIEL GOUVEIA Por um instante, nenhum de nós se moveu. – Tanto ela quando eu, paralisamos no mesmo lugar. Ela olhava diretamente para mim, e havia alguma coisa naquele silêncio que me atingiu com mais força do que qualquer acusação. O meu corpo reconheceu-a antes que a razão conseguisse acompanhar o impacto. O coração bateu violentamente contra as costelas, e todos os pensamentos que eu tinha ensaiado durante o trajeto desapareceram de uma só vez. Isabel estava deslumbrante. O vestido verde-esmeralda desenhava-lhe a silhueta com uma elegância impecável, valorizando a postura altiva e a segurança de uma mulher que já não precisava pedir licença para ocupar o lugar que lhe pertencia. O cabelo estava preso num coque polido, e as joias discretas, mas preciosas, refletiam a luz dos lustres. Havia nela uma sofisticação que não dependia das roupas, do sobrenome ou da fortuna dos Carmonas. Era a maneira como mantinha o queixo erguido. Como







