FAZER LOGINEvelyn
Os dias passam rápido demais, como se alguém tivesse apertado o modo acelerado da vida sem me avisar, e quando percebo já é sexta-feira. Saio da última aula com a cabeça cheia de prazos, ideias de campanha e conceitos de branding rodando na mente. O caminho até o refeitório é feito no automático. Meu corpo está cansado, mas minha rotina não dá muita escolha com aula, estágio na System, trabalhos, vida social… e Edward. Pego uma salada porque sei que deveria comer algo leve antes do estágio, só que na segunda garfada, meu estômago revira de um jeito estranho. Não é exatamente dor, e sim, uma náusea chata, insistente. Respiro fundo e forço mais uma garfada. Eu não tenho me sentido bem nos últimos dias. Talvez eu realmente precise ir ao médico se isso continuar. Pode ser gastrite, uma vez que ando exagerando nos energéticos e na Coca-Cola para dar conta da rotina. — Evelyn — Samantha chama, me tirando do meu foco forçado na salada. Ergo o olhar e vejo que ela aponta discretamente com o queixo. Sigo a direção e encontro Valerie perto da máquina de refrigerante, sorrindo toda boba enquanto conversa com Dean. Eles estão próximos demais para quem diz que é só amizade. — Eu não entendo por que ela não dá o braço a torcer — digo, balançando a cabeça. — Eles podem dar certo, mesmo com ele na Itália. — Eu já cansei de falar isso — Samantha responde. Abro minha garrafa de água com gás. O ploc do lacre ecoa e eu tomo um gole grande, tentando assentar o estômago. — Tenho algo pra contar — Samantha diz, e o tom dela muda para animado. Olho para ela. — O Rafael vai fazer intercâmbio aqui no próximo ano. Meu rosto se ilumina na hora. — Sério?! Samantha, isso é incrível! — A animação vem genuína, quente. Seguro a mão dela por cima da mesa. — Eu tô muito feliz por você. De verdade. Ela dá um sorriso largo, daquele jeito que só quem está apaixonada consegue sorrir. Valerie se aproxima, e Samantha repete a novidade. Valerie comemora alto, abraçando a amiga. — Tá vendo? — digo para Valerie. — Devia seguir o exemplo da Samantha e tentar com o Dean. — A gente não tem nada além de amizade — ela responde rápido demais. Samantha então olha para um ponto específico do refeitório e faz uma careta sutil. Eu conheço aquela expressão. É a mesma que ela faz quando vê algo que acha problemático. Eu não gosto nada disso, mesmo assim, olho e encontro Megan. Ela está ao lado da melhor amiga, Shantal, chamando atenção sem precisar fazer esforço. Seu cabelo loiro está preso em um rabo de cavalo alto e usa um vestido xadrez curto na medida certa para não ser vulgar, mas sexy e elegante. Ela parece saída de um catálogo com seu corpo de Barbie, postura de supermodelo, confiança de quem sabe exatamente o efeito que causa. Rainha da fraternidade feminina. Número Um do curso de Arquitetura. Minha autoestima é boa. Eu me gosto. Eu me aceito. Mas ainda assim é desconfortável saber que a sex symbol da faculdade é a ex do meu namorado. Até onde eu estava sabendo, ela estava em um intercâmbio em Toronto há dois meses. E as fofocas diziam que esse tinha sido o motivo do término com Edward. Eu nunca quis saber o motivo real, nunca pressionei Edward sobre seu passado com ela, não queria ser invasiva. Um dia, ele só comentou que tinham ideologias diferentes. Mas uma coisa é clara agora, Megan não gostou nem um pouco de saber que estou com ele. O olhar que ela lança na minha direção é rápido, mas afiado. — Eu não sabia que ela tinha voltado — Valerie comenta. Samantha já está no celular. — Ela não só voltou como vai dar uma festa de despedida depois do jogo, lá na fraternidade. — Ela vira a tela para nós, mostrando o convite. Meu estômago dá um nó estranho e um calafrio percorre meu corpo. Pego o celular quase por impulso e vejo se Edward mandou mensagem. Tem uma. “Te encontro no refeitório antes do seu estágio.” Engulo em seco. Olho para a salada à minha frente e, de repente, ela parece a coisa menos atraente do mundo. Empurro o prato, desistindo. — Esse seu mal-estar tá estranho — Valerie observa. — Você precisa ir ao médico. — Vou semana que vem — respondo. Mas, no fundo, não sei se estou convencida de que é só físico. Às vezes a sensação é outra, como se algo estivesse prestes a mudar. Eu fico olhando para a tela do celular sem realmente ver nada, minha cabeça está em outro lugar. Penso se eu devo falar com Edward como ficaremos depois da sua formatura, o que vem depois desse campus, desses corredores, dessa rotina que parece eterna mas não é. Se ele vai ficar em São Francisco, se eu vou. Como ficaremos. Porque tudo o que eu mais quero é estar na vida dele. E quero Edward no meu futuro também. A ideia vem tão natural que me assusta um pouco. Talvez seja bobagem. Talvez eu esteja sonhando como uma adolescente apaixonada assistindo a comédias românticas demais. Talvez eu esteja sendo intensa. Ou meio maluca por pensar nessas coisas com só três meses de namoro. Mas o que eu sinto é tão bom. É leve, seguro e quente. Tudo que ele me faz sentir parece certo demais para ser ignorado. Mordo o lábio inferior, pensativa. Será que fui precipitada levando-o para conhecer meus pais em Denver no último feriado? Talvez. Mas meus pais gostaram muito dele. Minha mãe ficou encantada e meu pai aprovou rápido demais para o meu gosto. Clark… bom, Clark ficou no modo irmão superprotetor, educado, mas em alerta. Já Owen não vai muito com a cara dele, embora, sendo honesta comigo mesma, eu sei que parte disso é interesse na empresa da família Spencer. Negócios. Sempre negócios. Edward, por outro lado, não fala muito sobre a própria família. Sei do pai, sei que a mãe é falecida, e só. Ele nunca mencionou me apresentar ao pai dele. Nunca tocou no assunto. Isso causa um pequeno desconforto dentro de mim. Um pontinho de dúvida que cutuca em silêncio. Mas eu não quero deixar a insegurança estragar o que é bom. O que é real entre nós. Só que também não dá para ignorar que ele praticamente se formou e nós nunca conversamos sobre o futuro. Nem uma vez. Nem por alto. — Droga — Samantha murmura, mexendo na bolsa. — O que foi? — Valerie pergunta. — Meus absorventes acabaram. Você tem? — Esqueci de colocar na bolsa hoje. Abro minha bolsa quase no automático e tiro um pacote fechado. — Toma. — Entrego para Samantha. Ela agradece, e minha mente trava. Menstruação. A palavra ecoa na minha cabeça. Meu coração dá um pulinho estranho quando percebo que a minha não desceu esse mês. Fico parada por um segundo longo demais. Lembro-me da piada de Samantha dias atrás. “Ou você tá grávida.” Me repreendo mentalmente na mesma hora. Isso é loucura. Eu me cuido, faço uso do anticoncepcional certinho. Deve ser só atraso, por estresse, rotina maluca e alimentação bagunçada. Normal. Totalmente normal. Respiro fundo. Então percebo que a expressão de Samantha muda. O rosto dela fecha um pouco, a atenção presa em algo atrás de mim. Um burburinho começa a se formar pelo refeitório, aquele tipo de som coletivo quando algo ou alguém chama atenção.Evelyn O sol da tarde está morno na minha pele quando eu abaixo a câmera. Hina corre pela grama com aquela energia caótica que só uma criança de dois anos consegue ter, os cachinhos escuros balançando enquanto ela tenta pegar uma borboleta que claramente não tem nenhuma intenção de ser capturada.Eu rio.— Hina, cuidado!Ela olha para trás só por um segundo e sorri como se tivesse acabado de ouvir a melhor piada do mundo… e continua correndo. Eu não consigo evitar, meu coração simplesmente transborda.Ela é perfeita. Perfeita do jeito bagunçado, curioso, barulhento e absolutamente adorável que só uma criança pode ser. Minha filha. Minha pequena Hina. Eu a amo de um jeito que não sabia que era possível amar alguém. Um amor que parece viver dentro do meu peito o tempo todo, pulsando junto com meu coração.Eu me levanto da grama quando Edward se aproxima e pega Hina no colo. Ela imediatamente envolve os braços no pescoço dele e começa a falar coisas completamente desconexas sobre
Edward O sol da tarde atravessa as folhas das árvores e pinta o parque com uma luz dourada suave. O vento passa devagar, balançando os galhos e espalhando pelo ar aquele cheiro fresco de grama e terra úmida que sempre me lembra de dias tranquilos. Eu estou sentado em um banco de madeira, com os cotovelos apoiados nos joelhos, apenas observando. Observando-as. Evelyn está alguns metros à frente, agachada na grama com a câmera nas mãos. O cabelo dela está preso de qualquer jeito em um coque bagunçado que ameaça desmoronar a qualquer momento. Algumas mechas escapam e caem sobre seu rosto, e ela sopra o ar impaciente para afastá-las enquanto ajusta o foco da lente. Ela está completamente concentrada, exatamente como fica quando está trabalhando. — Hina, olha para a mamãe! — ela diz, com aquele tom doce que só usa com a nossa filha. E ali está ela. Hina. Nossa menina. O amor da minha vida. Ela está de pé na grama, com um vestido amarelo cheio de pequenas flores brancas, o cabelo escuro
Evelyn Já faz um mês desde a noite do lançamento. Um mês desde aquela festa que parecia apenas o encerramento de um grande projeto, mas acabou se tornando o início de algo muito maior para mim.Hefes 3.0 já está nas lojas, e como diretora de marketing eu não paro um segundo. Porque é exatamente isso que eu sempre digo para Owen e Clark: marketing não é só divulgação. Marketing é o que faz vender. É o que faz as pessoas desejarem algo que ainda nem sabem que precisam.E Hefes 3.0 está vendendo. Muito.As campanhas estão funcionando, os números estão subindo e os investidores estão felizes. Owen anda com aquele sorriso satisfeito de quem acabou de conquistar o mundo, e Clark já está pensando no próximo passo. Na verdade, no próximo produto.Eles querem trazer de volta os MP4, só que em uma versão moderna, com streaming offline, integração com assistentes inteligentes e uma estética retrô. Eu já sei que vou trabalhar muito nos próximos meses.Mas existe uma grande diferença agora.
Edward Eu acordo devagar. Por um instante ainda fico meio perdido entre sonho e realidade, sentindo apenas calor e um peso confortável sobre o meu peito. Então percebo Evelyn deitada sobre mim, com o cabelo espalhado pelo meu braço e pelo travesseiro, o rosto tranquilo de quem finalmente dormiu sem medo. A respiração dela é lenta e quente contra a minha pele. Meu coração desacelera só de olhar para ela. Durante anos eu imaginei como seria acordar assim novamente. E agora ela está aqui. De verdade. Comigo.Passo a mão devagar pelos cabelos dela, com cuidado para não a acordar. Quero memorizar cada detalhe: a curva da bochecha, os cílios longos, a forma como a boca dela se abre levemente enquanto respira. Mas assim que me mexo um pouco mais, ela se remexe e seus olhos se abrem lentamente. Ela pisca algumas vezes, ainda sonolenta.— Bom dia. — A voz dela sai baixa e rouca de sono.Meu peito aquece. Eu inclino a cabeça e beijo os lábios dela com carinho.— Bom dia. — Passo o polegar
EvelynEu ainda sinto o gosto dele na boca, quente e salgado, enquanto subo por seu corpo, beijando cada centímetro de pele suada. Meu coração bate tão forte que parece que vai sair do peito. Edward me puxa para cima, suas mãos grandes segurando minha cintura com urgência, os olhos verdes escuros de desejo e algo mais profundo, algo que me assusta e me acalma ao mesmo tempo.— Eu te amo — ele sussurra contra meus lábios, sua voz rouca, quebrada. — Porra, Evelyn, eu te amo tanto.Eu não respondo com palavras, somente o beijo com fome, língua dançando com a dele, gemendo quando ele vira nossos corpos e me coloca de costas na cama. O peso dele sobre mim é perfeito. Suas mãos percorrem meu corpo como se quisessem memorizar cada curva, apertando meus seios, roçando os piercings dos mamilos até eu arquear as costas e gemer alto.— Esses peitos… caralho, eles estão ainda mais gostosos — ele rosna, chupando um mamilo com força enquanto a mão desce entre minhas pernas. Dois dedos grossos d
Edward O silêncio dentro do elevador é pesado. O tipo de silêncio que parece ocupar espaço físico entre duas pessoas. As portas se fecham atrás de nós com um som metálico suave, e o elevador começa a subir lentamente pelos andares do prédio. Estou encostado no fundo, olhando para o chão polido, enquanto as luzes frias refletem vagamente nos painéis de aço. Minhas mãos ainda estão fechadas em punhos. Não de raiva, mas de algo muito pior. Decepção.Derek. O nome dele ainda ecoa na minha cabeça como um golpe mal dado. Derek. Meu amigo, pelo menos eu achei que fosse. Anos. Anos de amizade. Risos, viagens, festas, planos. E tudo aquilo era mentira.Solto um pequeno suspiro e passo a mão pelo rosto. Meu lábio ainda dói onde ele acertou o soco, mas a dor física é irrelevante comparada ao que está aqui dentro. Eu nunca fiz nada contra ele. Nunca.Levanto os olhos por um segundo e olho para Evelyn. Ela está ao meu lado, linda em seu vestido azul, mas seu rosto ainda está um pouco tenso. Se







