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Capítulo 5

Auteur: Mara Santos
last update Date de publication: 2026-08-14 22:42:45

Camila

A minha noite inteira tinha sido consumida por aquela lembrança. Enquanto ele estava por aí, eu tinha ficado acordada até tarde, rolando na cama, relendo mentalmente cada segundo daquele beijo na borda da piscina. A sensação dos lábios dele nos meus, o calor das mãos do Leonardo na minha cintura... Eu havia me pego sorrindo sozinha no escuro do meu quarto, sentindo-me quase como uma adolescente boba, culpando a mim mesma por dar tanta importância a um único gesto.

​E, enquanto eu gastava meus pensamentos idealizando aquilo, ele estava passando a noite com outra.

​A imagem daquela mulher — com o vestido chamativo, o cabelo escuro meio despenteado e a postura escandalosa — invadiu minha mente de novo. Ela não tinha a menor classe, mas exibia a marca clara de quem havia compartilhado a cama dele até o amanhecer. A cortina da ilusão caiu com força diante dos meus olhos.

​Eu fui só mais uma distração para ele.

​O tapa estalado e a discussão na recepção foram o choque de realidade que eu precisava. Enquanto eu idealizava um romance proibido, para ele eu era apenas a jovem cunhado de seu amigo e apenas sua secretária. enquanto a vida real dele era um emaranhado de confusões com outras mulheres.

Cruzei os braços, sentindo o orgulho ferido queimar mais do que qualquer humilhação. Ergui o queixo. Eu sabia muito bem qual era o meu lugar. E definitivamente não era o de ser segunda opção — nem de servir de passatempo para um homem enrolado.

​Poucos minutos depois, a porta da sala de atendimento se abriu. Leonardo apareceu no corredor, vestindo o jaleco branco, com o rosto ainda marcado pela tensão e o canto da bochecha levemente avermelhado pelo tapa. Ele parou diante do balcão, hesitando por um instante antes de falar.

​— Camila... Eu tô indo pra cirurgia agora — disse ele, a voz baixa, carregada de um peso evidente. — Qualquer coisa urgente, pode me mandar mensagem no celular.

​Encarei-o com a expressão mais fria e profissional que consegui convocar. Mantive as mãos firmes sobre o balcão.

​— Sim, senhor. Pode deixar.

​Ele sustentou meu olhar por alguns segundos, procurando algo nos meus olhos que eu fiz questão de não revelar. Diante da minha parede de gelo, ele apenas abaixou a cabeça, respirou fundo e seguiu em direção à saída da clínica.

​Assim que a porta da rua se fechou atrás dele, encostei as costas na parede atrás do balcão e fechei os olhos, deixando escapar o fôlego preso no peito. O estômago embrulhado não era mais de raiva, mas de exaustão.

​Passei o resto do dia no automático, atendendo ligações, organizando a agenda e respondendo pacientes com a máxima eficiência. Mas a decisão já estava tomada, martelando implacável na minha cabeça a cada minuto que passava.

​Quando o expediente finalmente chegou ao fim e desliguei o computador, olhei ao redor da recepção vazia.

​Eu preciso arrumar outro emprego, pensei, sentindo uma lufada de alívio por colocar um ponto final naquilo. Preciso sair daqui de perto dele o mais rápido possível.

Peguei minha bolsa, senti o peso das chaves da minha moto no bolso e caminhei até a porta da clínica. Ao sair, senti o ar da noite bater no rosto. Era um alívio quase físico deixar aquele ambiente para trás. Tranquei a porta, verifiquei duas vezes se estava tudo certo e caminhei até onde minha motinha estava estacionada. Ela era minha fiel companheira, minha "égua" — como eu costumava chamar — que me levava para todo canto com a liberdade que eu tanto precisava naquele momento.

​Coloquei meu capacete, subi na moto e acelerei em direção à faculdade. O vento no rosto ajudava a clarear os pensamentos, e, à medida que a distância do consultório aumentava, sentia que estava um passo mais perto de recuperar a minha paz.

​Chegando lá, estacionei a moto e logo vi a Stefany me esperando perto da cantina.

​— Boa noite, amiga! Como é que você tá? — ela perguntou, os olhos curiosos já me escaneando.

​— Tô bem, sim... — forcei um sorriso.

​Ela cruzou os braços, estreitando os olhos.

— E essa carinha? Tá meio triste, né?

​— Ah, esquece... A semana foi pesada.

​Stefany fez uma careta solidária, mas logo os olhos dela brilharam com uma ideia, abrindo um sorriso empolgado.

​— Amiga, já ia te contar! Sábado vai ter aquele intercâmbio aqui com o pessoal de Belo Horizonte, da faculdade de lá. E o melhor: vai rolar uma festinha depois! Você tem que ir comigo!

​Olhei para ela, surpresa. Todo mundo sabia que eu era super caseira. Eu até gostava de conversar e sair com os amigos mais próximos, mas esse tipo de festa nunca tinha sido muito a minha praia. Só que, pensando no nó que estava a minha vida e na necessidade urgente de ocupar a cabeça com outra coisa, decidi que talvez fosse o momento de quebrar a rotina.

​— Ah, quer saber? Vou sim, Stefany! Acho que eu tô precisando sair um pouco da minha toca.

​Stefany arregalou os olhos, claramente chocada por eu ter aceitado de primeira.

— Sério?! Menina, tô passada! Mas amei! Então faz assim: eu passo na sua casa de carro, assim você não precisa vir com a sua égua.

​Olhei para o capacete na minha mão e não resisti, caindo na risada junto com ela.

​— É, eu também acho bem melhor do que arriscar a carenagem dela de salto alto.

​— Então pronto, combinado!

​O sinal avisando o início da aula tocou, e fomos apressadas para a sala.

​O Direito era a minha verdadeira paixão. Houve uma época em que todo mundo achava que eu seguiria o caminho da saúde. Com o meu cunhado sendo um médico brilhante e tendo o Antony como grande referência na medicina dentro da família, a área da saúde parecia o caminho natural. Mas foi o Direito que realmente me escolheu, e eu amava cada segundo daquela faculdade. Quando passei no vestibular, cheguei a ser aprovada em Belo Horizonte também, mas resolvi ficar por aqui, perto da minha irmã e dos meus sobrinhos, que eram a minha base.

​Sentamos nos nossos lugares habituais enquanto o professor começava a organizar os slides. Stefany se virou para mim, fazendo uma careta dramática.

​— Amiga, eu odeio Direito Tributário com todas as forças...

​Abri um sorriso genuíno, sentindo a tensão do dia finalmente começar a se dissolver.

​— Ah, eu também não gosto tanto assim, mas vamos lá, né? Pior do que tá não fica.

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Tatiane
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