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Capítulo 4

Autor: Mara Santos
last update Fecha de publicación: 2026-08-03 01:26:22

Leonardo

Assim que o som dos passos da Camila desapareceu no topo da escada, encostei no carro tentando colocar minha cabeça no lugar. A pele do meu rosto ainda formigava. Aquele beijo tinha sido um terremoto.

​Rogério veio na minha direção, balançando a cabeça e abrindo um sorriso sacana.

​— Não acredito que você tá ficando com a minha cunhada, cara! Se a Liz descobre, ela te mata!

​Soltei uma risada abafada, tentando disfarçar a bagunça emocional no meu peito.

​— Não aconteceu nada demais, Rogério... Foi só um beijo.

​— Um beijo?! — ele debochou. — Um beijo só deixa o cara com essa cara de bobo? Menos, Leonardo. Bem menos!

​— É melhor eu ir embora — falei, pegando as chaves.

​— Vai mesmo, cuida da sua vida que o horário já avançou — brincou ele, me acompanhando até o portão.

​Liguei o motor e acelerei pela rua silenciosa. Minha mente não saía da borda daquela piscina. Nunca imaginei que a Camila me olhava diferente, ou que me via como homem, pensei, encarando o asfalto molhado. Eu sempre achei ela uma gata. Linda, inteligente. Só nunca tentei nada porque ela nunca me deu abertura... e tem a questão da idade. Eu com 36 anos, e ela na casa dos 20.

​Eu mal tinha engatado a terceira marcha quando o celular tocou no painel. Era a Lana. Tínhamos combinado de nos ver mais cedo, mas com a conversa e o churrasco, perdi totalmente a noção da hora.

​— Oi, Leo... Tudo bem? — a voz dela veio pelo viva-voz. — Tô te esperando. Você não vinha me buscar?

​Passei a mão pelo rosto, exausto.

​— Ah... Oi, Lana. É que acabou atrasando por aqui. Já tô cansado... Acho melhor deixarmos para outro dia.

​— Ah, não, Leonardo! Você já desmarcou tantas vezes! Não vamos desmarcar hoje, né? Onde você tá? Eu vou até você.

​Respirei fundo. A verdade? Depois de ter provado a boca da Camila, a última coisa que eu queria era encostar em outra mulher. Mas a Lana insisted tanto, jogando cobrança em cima de cobrança, que acabei cedendo por puro cansaço.

​— Tá bom... Tô passando aí agora.

​Passei para pegá-la e, sem cabeça nenhuma para levar alguém para o meu apartamento, dirigi direto para um hotel executivo no centro.

​Assim que entramos no quarto, Lana cruzou os braços e fez um biquinho mimado.

​— Você devia me levar pra sua casa, Leo... Na sua casa não mora ninguém, né?

​— Não é assim que as coisas funcionam, Lana — respondi, seco, tirando o relógio e jogando sobre a cômoda.

​Transamos, mas minha mente estava a mil quilômetros dali. Cada toque parecia mecânico, vazio. Em todos os momentos, a única imagem que invadia minha cabeça era o rosto da Camila, a maciez do cabelo dela entre os meus dedos e o tremor do seu corpo quando a puxei para o meu colo.

​Quando o dia amanheceu, a sensação de incômodo e remorso virou uma pedra no meu estômago. Sem esperar a Lana acordar, fui até a recepção do hotel, deixei a diária e o café pagos no meu cartão e rodei direto para o consultório.

​Não tive tempo nem de passar em casa para tomar um banho. Cheguei ao consultório vestindo exatamente o mesmo terno e a mesma camisa amassada do churrasco da noite anterior.

​Camila já estava lá, organizando a recepção. Quando me viu entrar, os olhos dela varreram minha roupa e um sorriso irônico surgiu em seus lábios.

​— Hum... O doutor passou a noite na rua, é? — comentou, cruzando os braços. — Tá até com a mesma roupa de ontem...

​Sentindo o rosto esquentar de vergonha, dei um sorriso amarelo, sem saber onde meter a cara.

​— Foco no trabalho, Camila... — murmurei, me esquivando e fechando a porta da minha sala o mais rápido que pude.

​Atendi o primeiro paciente no automático. Minha cabeça era um nó de ressaca moral. Mas o pior ainda estava por vir.

​Pouco tempo depois, ouvi o som alterado de saltos altos ecoando do corredor. A porta da recepção foi aberta com força. Era Lana.

​— Querida, chame o Leonardo pra mim. Agora! — ouvi a voz estridente dela exigir lá fora.

​— O Doutor Leonardo está em atendimento no momento — a voz firme da Camila respondeu. — A senhora precisa aguardar...

​— Eu não quero saber! Chame ele agora!

​Segundos depois, duas batidas rápidas soaram na minha porta. Camila colocou a cabeça para dentro, com a expressão séria e incomodada.

​— Leonardo... Tem uma mulher lá fora. O nome dela é Lana. Ela tá alterada e exigindo falar com você.

​Fechei os olhos, sentindo uma pontada de dor de cabeça. Soltei um suspiro pesado.

​— Diga a ela que eu já atendo. Deixa eu só concluir esse caso.

​Terminei a consulta às pressas e abri a porta para resolver a situação antes que piorasse. Mas não tive tempo nem de abrir a boca. Assim que pisei na recepção, sob o olhar atento da Camila, Lana caminhou a passos largos na minha direção e desferiu um tapa violento na minha cara.

​O estalo ecoou por todo o consultório. Meu rosto queimou instantaneamente.

​— Como é que você faz isso comigo, Leonardo?! — Lana gritou, fora de si, sem se importar com a presença da Camila. — Você transa comigo a noite toda e depois me deixa sozinha num quarto de hotel pra sair escondido?! Você pensa que eu sou o quê?!

​Senti o chão sumir sob meus pés. Olhei de relance para Camila e vi o choque e a decepção estampados no rosto dela.

​Sem pensar duas vezes, segurando o rosto queimando da pancada, peguei Lana pelo braço com firmeza e a arrastei para dentro da minha sala, batendo a porta com força.

​— Você enlouqueceu?! — esbravejei, mantendo a voz baixa, mas tomada pela raiva. — Eu nunca te prometi nada, Lana! E eu saí cedo porque precisei vir trabalhar!

​— Eu não aceito isso! As coisas não funcionam assim comigo!

​— Não aceito eu! Você passou de todos os limites vindo até o meu local de trabalho fazer esse espetáculo! — respondi, apontando o dedo para a porta. — Nós não temos nada. Sério, nunca tivemos nada sério! E você vem aqui criar essa cena?

​Lana me encarava com o peito ofegante, os olhos ardendo de raiva.

​— Por favor, Lana... se retire. Vai embora agora antes que eu mande a segurança te colocar para fora.

Lana ajeitou a bolsa no ombro, lançou-me um último olhar cheio de raiva e bateu a porta da minha sala ao sair, cruzando a recepção sem olhar para trás.

​Fiquei alguns segundos parado no meio da sala, de olhos fechados, tentando absorver o estrondo do tapa, a vergonha do barraco e o peso da lambança que eu mesmo tinha criado.

​Abri a porta devagar e olhei para a recepção. Camila estava de pé atrás do balcão, a postura rígida, a expressão indecifrável e o olhar sério fixo em mim.

​— Camila... Vem aqui, por favor — pedi, com a voz falhada pelo cansaço.

​Ela não hesitou. Caminhou a passos firmes, entrou na minha sala e esperou que eu fechasse a porta atrás de nós.

​Passei a mão pelo rosto, sentindo o local do tapa ainda formigar.

​— Me desculpa por isso... Me desculpa de verdade — comecei, sem conseguir olhar nos olhos dela direito. — Isso não vai mais acontecer, eu te garanto.

​— Olha, Leonardo... O que aconteceu ontem foi muito bom, certo? Mas não vai se repetir.

​Aquelas palavras bateram no meu peito como um soco.

​— Mas... se foi tão bom, por que não vai se repetir? — perguntei, dando um passo na direção dela, desesperado para consertar as coisas.

​ela deu um meio passo para trás, estabelecendo uma distância invisível, mas inabalável entre nós.

​— Nós vamos ser apenas secretária e patrão, tá? — disse, mantendo a voz firme. — Eu não quero me envolver nisso. Isso não vai acontecer de novo.

Respirei fundo, engolindo o orgulho e o desapontamento.

​— Certo... Eu entendo — murmurei, assentindo devagar.

​Ela ajeitou a postura, deu as costas e saiu da sala, fechando a porta com suavidade.

​Fiquei ali, sozinho no silêncio do consultório. Passei as mãos pelo rosto amassado, soltei um suspiro derrotado e me sentei na minha cadeira, tentando me forçar a focar no trabalho e a fingir que meu coração não tinha acabado de levar uma rasteira.

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