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2. Alice Benette

Autor: Laura Ricci
last update Fecha de publicación: 2026-04-16 21:58:56

Existe um tipo muito específico de silêncio que só aparece depois que a vida desmorona de um jeito feio e inesperado — e, para o meu azar, eu estava conhecendo esse silêncio intimamente nos últimos dias. Não era o silêncio confortável de uma manhã preguiçosa ou de uma noite tranquila. Era um silêncio cheio de ecos, como se cada canto do apartamento estivesse me lembrando, com uma delicadeza cruel, de tudo o que tinha acabado ali dentro.

E o pior era que ele vinha acompanhado de caixas abertas, roupas espalhadas e uma lista mental interminável de coisas para resolver… além de um bebê de três meses crescendo dentro de mim, completamente alheio ao caos.

Eu estava sentada no chão da sala, cercada por sapatos, documentos e cabides vazios, tentando decidir o que levar da minha antiga vida, quando passei a mão pela barriga quase sem perceber. Ainda não havia volume suficiente para denunciar a gravidez, mas eu sentia. Meu corpo sabia. E, de alguma forma, aquilo me mantinha firme.

— A gente vai ficar bem — murmurei, mais como promessa do que certeza.

A campainha tocou, alta demais para aquele clima silencioso que eu vinha cultivando. Quando abri a porta, Chloe entrou sem esperar convite, como sempre fazia, com dois cafés nas mãos e um olhar que misturava preocupação e julgamento.

— Trouxe café. Forte. Porque você está com cara de quem não dorme há dias.

— Eu não dormi — respondi, pegando o copo.

Ela abaixou os óculos escuros lentamente, me analisando.

— Você está com a mesma cara de quando tentou cortar franja sozinha aos quinze anos.

— Pelo menos dessa vez eu não vou precisar de presilha por três meses.

Chloe não riu. Mau sinal.

O olhar dela percorreu o apartamento, absorvendo cada caixa e cada espaço vazio, até voltar para mim com algo mais sério.

— Você está mesmo fazendo isso.

— Já fiz — respondi, dando um gole no café. — Assinei ontem.

Ela ficou em silêncio por alguns segundos.

— Alice… isso é loucura.

Encostei a cabeça na parede, cansada.

— Talvez seja.

— Talvez? Você está grávida de três meses, acabou de pegar seu noivo te traindo e decidiu se mudar para um rancho no meio do Texas.

— Snowfall Creek Ranch — corrigi automaticamente.

Ela fechou os olhos.

— Isso só piora.

Eu sorri, sem conseguir evitar.

— Eu preciso ir, Chloe.

Ela me olhou de verdade dessa vez, sem sarcasmo.

— Você está fugindo.

A palavra ficou entre nós.

Fugindo.

Eu poderia negar. Poderia inventar um discurso bonito sobre recomeços. Mas não tinha energia para mentir.

— Talvez eu esteja — admiti. — Mas ficar aqui não parece uma escolha melhor.

Ela cruzou os braços.

— Você pode ficar comigo. Eu tenho espaço.

E eu sabia disso. Chloe reorganizaria a vida inteira por mim se eu pedisse. Mas o problema não era espaço físico.

— Eu preciso de um recomeço de verdade — falei, passando a mão pela barriga de propósito. — Não quero que essa seja a primeira fase da vida dele… ou dela.

Chloe seguiu meu gesto, e algo no rosto dela suavizou.

— Você está com medo.

Soltei um riso baixo.

— Eu estou apavorada.

Ela sorriu de leve.

— Ótimo. Você só toma decisões importantes quando está com medo.

— Isso não é reconfortante.

— Não era pra ser.

Acabei rindo também, e aquilo foi suficiente para que ela desistisse de me impedir.

— Tá bom — suspirou. — Então vamos fazer isso direito.

E fizemos.

Passamos as horas seguintes embalando o resto da minha vida entre comentários sarcásticos, pausas para café e discussões sobre o que realmente valia a pena levar. Chloe insistiu em jogar fora metade das coisas que eu queria guardar por “valor sentimental”, o que basicamente incluía qualquer coisa ligada ao Daniel.

— Isso aqui? — ela ergueu uma foto nossa, sorrindo como dois idiotas apaixonados. — Lixo.

— Chloe…

— Alice.

Suspirei.

— Tá bom.

A foto foi para o fundo da caixa.

A venda do apartamento aconteceu rápido demais, como se o universo estivesse colaborando com a minha fuga. Assinei os papéis, entreguei as chaves e evitei olhar para trás quando saí pela última vez. Chloe ficou comigo até o carro, parada na calçada, braços cruzados, tentando parecer firme.

— Última chance — disse. — Eu ainda posso te sequestrar.

Eu sorri, colocando a mão na barriga.

— Eu não quero ficar.

Ela me observou por um longo segundo, como se estivesse procurando qualquer sinal de dúvida.

Não encontrou.

— Então me promete que, se não der certo, você volta.

— Eu volto.

O abraço dela veio forte, apertado, daqueles que desmontam qualquer tentativa de parecer bem.

— Você merece mais do que isso — ela sussurrou.

Fechei os olhos.

— Eu sei.

E, dessa vez, eu quase acreditei.

Dirigir para fora da cidade foi mais fácil do que eu esperava. Talvez porque, a cada quilômetro, a sensação de sufocamento diminuía. O trânsito deu lugar a estradas mais vazias, os prédios desapareceram e, aos poucos, o horizonte se abriu em algo maior, mais silencioso… mais possível.

Passei a mão pela barriga de novo, com um pequeno sorriso.

— Acho que agora somos só nós dois.

Ou três, dependendo do humor do universo.

O rádio tocava baixo, o sol começava a se pôr e, pela primeira vez em dias, eu não estava pensando no que tinha perdido.

Eu estava pensando no que poderia vir.

E foi exatamente nesse momento — porque, claro, a vida adora um timing dramático — que o carro fez um barulho estranho.

Um ruído seco, metálico, completamente fora de contexto com o silêncio da estrada.

Eu congelei.

— Não — murmurei, apertando o volante. — Não, não, não…

O carro deu um pequeno tranco.

Depois outro.

Olhei ao redor.

Nada além de estrada.

Campo.

E absolutamente ninguém.

Soltei um riso nervoso, daqueles que começam leves e terminam beirando o desespero.

— Tá de brincadeira comigo.

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