INICIAR SESIÓNEu deveria saber que minha vida amorosa em ruínas não seria o único desastre deste dezembro.
Mas quando o GPS começou a girar a tela como se estivesse possuído e, segundos depois, congelou com aquele simpático “sem sinal”, eu tive a nítida sensação de que o universo inteiro estava assistindo à minha tentativa de recomeço com um balde de pipoca nas mãos.
— Ah, perfeito… maravilhoso… exatamente o que eu precisava — reclamo para o nada, apertando o botão do visor como se agressividade pudesse, por milagre, restaurar o sinal.
Nada.
Só a imensidão do interior do Texas se estendendo dos dois lados da estrada, com pastos infinitos, cercas de madeira que pareciam nunca terminar e algumas árvores tortas pelo vento frio de dezembro. Nenhuma casa. Nenhum posto. Nenhuma viva alma.
E, claro, nenhum sinal de celular.
Continuo dirigindo por alguns minutos, agarrada à esperança absurda de que alguma torre de internet resolva surgir no horizonte como uma miragem tecnológica.
Mas não é isso que aparece.
O que surge é um estalo seco.
Depois outro.
E então o carro puxa violentamente para a esquerda.
— Não… — sussurro, sentindo o coração disparar. — Não, não, não… você não vai fazer isso comigo.
O volante treme sob minhas mãos, o carro dá um tranco e mais outro, mas consigo encostar na beira da estrada antes que ele decida se desfazer por completo.
Desço e o vento frio atinge minhas pernas nuas antes mesmo que eu consiga fechar a porta. Dou a volta no carro e encaro o pneu.
Furado.
Perfeitamente, absolutamente, completamente furado.
Coloco as mãos na cintura e olho para o céu, que continua azul e indiferente.
— Ótimo. Excelente. Incrível. Universinho querido, se quiser mandar mais alguma coisa, pode mandar. Já tô no fundo do poço mesmo.
O vento responde por ele.
Pego o celular, levanto acima da cabeça, dou dois passos para a direita, três para a esquerda, caminho até o meio da estrada como se isso fosse alterar o destino.
Nada.
— Eu vou morrer aqui — murmuro. — E vão me encontrar mumificada usando o vestido mais inadequado da história das decisões ruins.
Olho para mim mesma: vestido floral leve demais, cardigan fino demais, salto alto completamente impraticável.
Perfeito para um brunch.
Péssimo para um colapso mecânico no meio do nada.
Ainda estou decidindo se choro ou se começo a gritar quando o som grave de um motor corta o silêncio.
Ao longe, uma caminhonete surge na curva, levantando poeira atrás de si.
Meu coração dispara.
— Por favor… para — sussurro. — Por favor.
Ela diminui.
Encosta.
A porta se abre.
E, honestamente, se existisse um catálogo chamado “Cowboy Perigosamente Atraente — Edição Limitada”, aquele homem teria acabado de sair da capa.
Jeans escuro, gasto nos lugares certos. Botas de couro marcadas pelo uso. Camisa xadrez dobrada nos antebraços, revelando músculos que claramente não vieram de academia. O chapéu projeta sombra sobre o rosto, mas não o suficiente para esconder os olhos.
Azuis.
Intensos.
Perigosamente atentos.
Ele se aproxima com passos firmes, e de repente eu me sinto… deslocada. Como se estivesse em um cenário que não foi feito para mim.
— Você tá bem? — a voz rouca parece saída de um filme.
O universo realmente se diverte às minhas custas.
— Meu pneu furou… e eu estou um pouco perdida — respondo, tentando parecer controlada, mas minha voz me trai.
— Percebi.
Aperto os lábios.
— Obrigada pela análise técnica.
Um canto da boca dele quase sobe. Quase.
— Quer que eu dê uma olhada?
— Sim. Por favor.
Ele se agacha, analisa o pneu com calma irritante, como se aquilo fosse rotina — e, considerando o lugar, provavelmente era.
— Você tem estepe?
Cruzo os braços.
— Talvez.
Ele levanta o rosto devagar.
— “Talvez”?
— Meu ex cuidava dessas coisas — deixo escapar, antes de conseguir evitar.
Ele solta um pequeno som pelo nariz, quase um riso sem humor.
— Aí complica.
Ele se levanta, limpando as mãos na calça, e me encara com mais atenção dessa vez.
— Pra onde você tá indo?
— Snowfall Creek Ranch.
Ele passa a língua pelos dentes, como se estivesse segurando uma reação… e então ri.
Ri de verdade.
— Qual é a graça? — pergunto, irritada.
O olhar dele desliza por mim, da cabeça aos pés, sem pressa.
— Nada. É só que você definitivamente não parece alguém indo pra lá.
— E isso quer dizer…?
— Que você não dura uma semana.
A frase vem simples. Direta. Como um diagnóstico.
Meu queixo se ergue.
— Engraçado. Porque eu fui contratada pra ficar mais do que isso.
Ele arqueia uma sobrancelha.
— Foi, é?
— Gerente de marketing.
Agora o silêncio muda de forma.
Ele me encara por um segundo a mais.
Depois solta uma risada baixa, desacreditada.
— Você é a nova gerente?
Cruzo os braços.
— Sou.
Ele balança a cabeça, ainda rindo.
— Isso vai ser um circo.
Sinto o calor subir pelo meu rosto.
— Olha, eu não sei qual é o seu problema—
— Meu problema — ele corta, seco — é que alguém achou que trazer alguém como você pra aquele lugar era uma boa ideia.
— Alguém como eu?
Ele aponta, sem cerimônia, para meu salto, meu vestido, meu cardigan.
— Cidade grande. Roupa errada. Sem noção do que te espera.
Dou um passo à frente.
— Eu posso me adaptar.
— Todo mundo acha isso antes de chegar lá.
— E você acha que me conhece?
— Não preciso. Já vi gente como você.
Aquilo acerta.
— E eu já vi gente como você — rebato, rápida. — Arrogante, grosseiro e convencido de que sabe tudo.
Ele cruza os braços, me estudando como se eu fosse um problema interessante.
— E ainda assim você precisa da minha ajuda.
Droga.
— Eu pedi ajuda, não um relatório sobre minha capacidade de sobrevivência.
Ele dá de ombros.
— Então se vira sozinha.
E se vira.
Começa a andar de volta para a caminhonete.
— Ei! — chamo, o desespero subindo rápido demais. — Você não pode simplesmente me deixar aqui!
Ele abre a porta, impassível.
— Posso sim.
— Não pode! Você é um cowboy! Cowboys ajudam pessoas!
— Eu não sou personagem de filme.
Respira, Alice. Engole o orgulho.
— Eu estou grávida.
Ele para.
Devagar, vira o rosto.
O olhar desce até minha barriga, ainda discreta.
— Sozinha?
— Muito — respondo, mais firme do que esperava.
Silêncio.
Ele passa a mão pelo rosto, claramente irritado… não comigo, mas com a própria consciência.
Depois abre a porta do passageiro.
— Entra.
Piscando, pergunto:
— Isso significa que você vai ajudar?
— Significa que eu não vou te deixar morrer aqui e ter que conviver com isso depois. Anda logo.
Quase sorrio.
Ele vai até meu carro, abre o porta-malas e puxa minha mala.
— O que tem aqui dentro? Pedra?
— Coisas essenciais.
— Deve ter uns vinte tijolos.
— É o básico.
Ele revira os olhos, mas j**a tudo na caminhonete.
— Sobe antes que eu me arrependa.
— Você é sempre assim?
Ele me encara.
— Só quando estou de mau humor.
— Então você está sempre assim?
Um sopro de riso escapa dele.
— Bem-vinda ao Texas, princesa.
Subo, sentindo meu coração bater mais rápido do que deveria.
Quando ele entra e liga o motor, o silêncio se instala por alguns segundos.
— Eu sou Alice — digo.
Ele engata a marcha.
— Eu sei.
Franzo a testa.
— Sabe?
Ele olha pra frente, sério.
— Gerente nova do rancho.
Pausa.
— Meu rancho.
Meu estômago despenca.
— Espera…
Ele nem olha pra mim quando diz:
— Marco Hill.
E então acelera.
O dia do aniversário de Luna amanheceu com um sol dourado que parecia ter sido colocado no céu especialmente para nós, e eu acordei cedo, antes de todo mundo, com o coração cheio de uma gratidão que eu não conseguia colocar em palavras.A casa estava decorada com balões coloridos e flores do campo que Alice tinha colhido no jardim. As mesas do gramado estavam cobertas com toalhas xadrez, e o cheiro de bolo assando vinha da cozinha, onde Rosa e Helena trabalhavam juntas, rindo e conversando como quando eram crianças. Luna corria pelo gramado com os primos, os gêmeos dormiam no carrinho ao lado da avó, e Marco estava na churrasqueira, preparando a carne com a habilidade de quem faz isso há décadas.Eu fiquei parado na varanda por um momento, observando tudo. A minha família. A minha vida. Tudo o que eu tinha construído, tudo o que eu tinha conquistado, tudo o que eu tinha lutado para ter.— Você está aí parado? — Rosa perguntou, aproximando-se com um sorriso. — Vem ajudar.— Estou obser
A manhã estava clara e dourada quando a minha mãe anunciou que ia embora, e eu fiquei ali, parado na varanda, com uma xícara de café na mão, sentindo o peso daquelas palavras se instalar no meu peito como uma pedra que eu não sabia se queria carregar.— Você vai voltar para a Europa? — eu perguntei, a voz mais baixa do que eu gostaria.— Vou. — ela respondeu, os olhos fixos no horizonte. — Eu preciso resolver algumas coisas. Questões pessoais. Coisas que eu deixei pendentes por tempo demais.— Que coisas?— A casa. Os negócios. A minha vida. Eu passei anos cuidando da família Abernati, do nome, da fortuna. E eu esqueci de cuidar de mim.Eu fiquei em silêncio por um momento, processando as palavras dela.— Você vai voltar? — eu perguntei, finalmente.— Vou. Eu prometo.— Quando?— Não sei. Talvez em alguns meses. Talvez em um ano. Mas eu vou voltar. Eu quero ver os meus netos crescerem. Eu quero fazer parte da vida deles.— Eles vão sentir a sua falta.— Eu também vou sentir a deles.E
A chegada de Helena ao rancho foi como um raio de sol em um dia nublado, uma explosão de energia e alegria que preencheu a casa de um jeito que só ela conseguia, e eu a vi descer do carro com as malas na mão e um sorriso que iluminava o rosto, os cabelos soltos ao vento, os olhos brilhando com aquele brilho que eu conhecia desde criança.— Rosa! — ela gritou, correndo em direção à varanda.— Helena! — eu respondi, tentando me levantar do sofá com os gêmeos nos braços, mas ela chegou antes que eu pudesse me mexer, me abraçando com uma força que quase me derrubou.— Eu senti tanto a sua falta. — ela disse, a voz falhando.— Eu também senti a sua, irmã.— E esses são os meus sobrinhos? — ela perguntou, olhando para os dois bebês nos meus braços.— São. Marco e Luna Helena.— Luna Helena. — ela repetiu, os olhos marejados. — Você deu o meu nome para ela.— Dei. Em homenagem à melhor irmã do mundo.Ela levou as mãos à boca, e as lágrimas escorreram.— Eu não mereço.— Merece. Você sempre e
Os dias depois do nascimento dos gêmeos passaram como um sonho do qual eu não queria acordar, um sonho onde o tempo parecia ter encontrado um ritmo mais suave, mais lento, mais generoso, como se o universo tivesse resolvido nos dar uma trégua depois de tantas tempestades.A casa estava cheia de vida, de som, de amor. Marco e Luna Helena choravam, dormiam, mamavam, e eu me dividia entre eles e Luna, que estava encantada com a ideia de ser irmã mais velha. Ela me ajudava a pegar as fraldas, a segurar as mamadeiras, a cantar para os bebês quando eles choravam. E eu olhava para ela e sentia o coração transbordar de orgulho.Miguel estava se desdobrando. Ele acordava cedo, preparava o café da manhã, ajudava com os bebês, ia para o restaurante, voltava para almoçar, voltava para o restaurante, e à noite, quando chegava em casa, ainda encontrava energia para brincar com Luna e para me ajudar com os gêmeos. Ele estava exausto, mas feliz, e eu via nos olhos dele a mesma alegria que eu sentia.
O quarto do hospital estava cheio de flores e balões quando a família começou a chegar, e eu fiquei ali, sentado ao lado da cama de Rosa, com Marco em um dos braços e Luna Helena no outro, sentindo o peso dos dois corpos pequenos contra o meu peito, a respiração deles contra a minha pele, a certeza de que a minha vida tinha mudado para sempre.Rosa estava exausta, os olhos pesados, mas o sorriso no rosto dela iluminava o quarto mais do que qualquer luz. Ela tinha passado por um parto longo e difícil, mas estava bem, e os bebês estavam saudáveis, e isso era tudo o que importava.A primeira a chegar foi Luna, trazida por Alice, que a segurava pela mão. A minha filha mais velha entrou no quarto com os olhos arregalados, olhando para os dois berços ao lado da cama, e eu vi a curiosidade e a emoção se misturarem no rostinho dela.— Pai? — ela chamou, aproximando-se devagar.— Oi, minha princesa. — eu respondi, inclinando-me para beijar a testa dela. — Vem conhecer os seus irmãos.Ela subiu
A dor começou no meio da noite, um aperto profundo que me acordou do sono e me fez sentar na cama com a respiração presa, as mãos instintivamente pousadas sobre a barriga enorme onde os gêmeos se moviam como se também soubessem que a hora tinha chegado.— Miguel. — eu chamei, a voz saindo baixa, mas urgente.Ele acordou em segundos, como se estivesse apenas esperando por aquele momento.— O que foi? — ele perguntou, sentando na cama, os olhos arregalados.— Acho que é a hora.— O quê?— Os bebês. Eles estão vindo.Ele ficou paralisado por um instante, o rosto pálido, e depois entrou em ação como se tivesse ensaiado aquele momento a vida inteira.— Vamos para o hospital. Agora.Ele me ajudou a levantar, pegou a bolsa que já estava pronta há semanas, e me levou até o carro. No caminho, ele dirigia em silêncio, mas eu via os nós dos dedos dele brancos no volante, e eu sabia que ele estava tão nervoso quanto eu.— Você está bem? — ele perguntava a cada poucos minutos.— Estou. — eu respon







