INICIAR SESIÓNCAIOEu sempre achei que, quando algo realmente importante acontecesse na minha vida, eu saberia exatamente o que fazer. Dentro de campo, estava acostumado a tomar decisões em segundos, a encontrar soluções sob pressão e a seguir em frente mesmo quando tudo parecia dar errado. Fora dele, porém, eu estava descobrindo que não existia treinamento capaz de me preparar para a notícia que Amanda havia me dado.Eu seria pai.Desde que deixei a cafeteria, aquela frase não saía da minha cabeça. Eu havia passado meses pensando na mulher que tinha ido embora do meu quarto em São Paulo sem me dar a chance de entender o que aquela noite tinha significado para ela, e agora eu tinha acabado de descobrir que, enquanto eu tentava encontrar uma explicação para sua partida, Amanda enfrentava sozinha uma mudança que transformaria nossas vidas para sempre.Não sabia o que me incomodava mais: imaginar tudo o que ela havia vivido sem mim ou perceber que, durante meses, eu estivera perto dela sem desconfiar
AMANDADurante meses, imaginei inúmeras maneiras de contar a Caio que ele seria pai. Em algumas, ele ficava furioso, em outras, simplesmente ia embora e em todas elas, eu terminava sozinha. Nenhuma delas se parecia com o homem que estava sentado diante de mim naquele momento.Caio me observava em silêncio enquanto eu segurava a xícara de chá entre as mãos.— Você não precisa ter medo de me contar.Senti meu peito apertar.— Eu sei.— Seja o que for, você pode falar comigo.Uma lágrima escapou antes que eu pudesse impedir.— E se for uma coisa que mude tudo?Caio não hesitou.— Então a gente lida com isso.Quase ri porque ele não fazia ideia do quanto aquelas palavras significavam. Porque o que eu contaria mudaria tudo. Mudaria a vida dele e a minha também.— Você fala como se fosse simples.— Não acho que seja simples se não já teria falado. — Ele estendeu a mão sobre a mesa. — Só... acho que você não deveria enfrentar sozinha.Olhei para a mão dele e depois para o rosto que eu havia
CAIOEu tinha convidado Amanda para tomar um café.Um café.Duas pessoas sentadas em uma mesa, provavelmente bebendo alguma coisa e conversando.Simples.Então por que eu estava no vestiário, depois do treino, trocando de camiseta pela terceira vez?— Essa também está ruim.Parei.Olhei para Murilo, sentado no banco do outro lado do vestiário.— Ninguém pediu sua opinião.— Mas você precisa dela.— Não preciso.Ele analisou minha camiseta preta como se fosse um especialista em moda.— Essa aí parece que você está se esforçando para parecer que não se esforçou.Franzi a testa.— Isso não faz sentido nenhum.— Faz, sim.— É uma camiseta preta.— Exatamente.Peguei a toalha e joguei na direção dele.Murilo desviou, gargalhando.— Você está nervoso!— Não estou.— Caio, eu já vi você entrar em campo numa final com cinquenta mil pessoas gritando seu nome e você estava mais tranquilo do que agora.Abri o armário.— É só um café.— Claro.Ele se levantou.— E eu só jogo futebol nos fins de s
AMANDANão consegui dormir.Mesmo depois de chegar ao apartamento da minha mãe, tomar um banho quente e garantir três vezes que ela realmente estava bem, o sono simplesmente não veio.Meu corpo estava exausto.Minha mente, não.Enquanto minha mãe dormia no quarto ao lado, fiquei sentada na varanda com uma caneca de chá já frio entre as mãos.A cidade estava silenciosa.Pela primeira vez em meses, eu me permiti pensar no futuro.E foi exatamente esse o problema.Porque, até então, eu vivia um dia de cada vez.Escondia a gravidez.Trabalhava.Voltava para casa.Ia às consultas.Repetia tudo outra vez.Agora...Caio fazia parte da minha rotina.E isso mudava completamente as regras.Levei a mão à barriga.O bebê deu um movimento tão leve que, por um instante, achei que fosse apenas impressão.Sorri automaticamente.— Você escolheu uma hora curiosa para aparecer...Murmurei.As lágrimas vieram sem que eu percebesse.— Seu pai é um idiota...Ri baixinho.— Um idiota bonito.Gentil.Engraça
CAIOFiquei parado no corredor enquanto Amanda entrava no quarto da mãe.A porta permaneceu entreaberta.Não o suficiente para ouvir a conversa.Só o bastante para enxergar, de vez em quando, o sorriso aliviado das duas.Respirei fundo.Pela primeira vez desde que ela entrou correndo no meu carro, senti meu peito aliviar.A mãe dela estava bem.Era isso que importava.Uma enfermeira passou ao meu lado empurrando uma maca, e aproveitei para me afastar um pouco da porta. Não queria que Amanda pensasse que eu estava tentando escutar alguma coisa.Encostei na parede do corredor e tirei o celular do bolso.Havia mais de vinte mensagens.O treinador perguntando como tinha sido a ação beneficente.Murilo enviando uma foto minha cercado pelas crianças com a legenda:"Papai do ano."Revirei os olhos e ri sozinho.Digitei uma única resposta."Idiota."A resposta chegou quase instantaneamente."Leva a fisioterapeuta para jantar logo e para de enrolar."Balancei a cabeça.Aquele cara realmente nã
AMANDAMeu coração parecia querer escapar pela garganta.Eu mal conseguia prender o cinto de segurança.As mãos tremiam tanto que precisei tentar duas vezes.Caio percebeu.Sem dizer nada, inclinou-se na minha direção.— Posso?Assenti.Ele puxou o cinto com cuidado e o encaixou no fecho antes de fechar a porta do carro.Um gesto simples.Mas feito com tanta delicadeza que meus olhos arderam.Ele deu a volta pelo capô, entrou no banco do motorista e ligou o carro.— Para onde?Respirei fundo.— Hospital Santa Helena.Assim que saímos do estacionamento, peguei o celular e liguei para minha mãe.Chamou.Chamou de novo.Nada.Minha ansiedade aumentou.— Atende...Murmurei.Caio olhou rapidamente para mim antes de voltar a atenção para a rua.— Ela mora sozinha?Assenti.— Desde que meu pai morreu.— O que aconteceu?Balancei a cabeça.— Não sei direito.Ela só disse que estava passando mal.A ligação caiu.Meu peito apertou.— Ela parecia assustada.Caio aumentou um pouco a velocidade, s







