INICIAR SESIÓNCapítulo 3
Bruno Tavares Subi pro quarto com passos firmes, mas a cabeça ainda estava na cozinha. No jeito como Sofia ajeitou a mesa, no cuidado com que colocou o prato à minha frente, no sorriso contido que ela sempre tenta esconder quando me olha. Abri o armário e peguei meu uniforme. A rotina de vestir aquela farda era quase um ritual: calça, camiseta, coturno, cinto. Cada peça no lugar, como se me blindasse do mundo. Como se, ao vestir o uniforme, eu deixasse de ser homem e virasse só o capitão. O bombeiro. O que resolve tudo. O que não sente. Ouvi passos leves no corredor. Era ela. Sofia apareceu na porta, com os cabelos presos num coque bagunçado e o olhar cansado, mas bonito. Sempre bonito. — Bruno... — disse, hesitante. — Eu queria te avisar que vou procurar uma fisioterapeuta pra minha mãe. Ela me pediu hoje cedo. Disse que quer tentar voltar a andar. Assenti, puxando o zíper da jaqueta. — Claro. O que ela precisar, Sofia. Pode ver isso com calma. Ela pareceu surpresa com a minha resposta, como se esperasse resistência. Como se não soubesse que, por ela, eu faria qualquer coisa. — Obrigada — disse baixinho, com aquele sorriso que não chega a se abrir, mas que ilumina o rosto dela mesmo assim. Atrás dela, o quarto da Bruna estava com a porta entreaberta. O som suave de uma canção de ninar escapava de lá, e eu soube que minha filha ainda dormia. O berço moisés ficava ao lado da cama da Sofia, e só de imaginar as duas ali, dividindo o mesmo espaço, o mesmo silêncio, o mesmo afeto... meu peito apertou. Sofia voltou para o andar de baixo, e eu fiquei ali, parado, encarando meu reflexo no espelho. Ela está cada vez mais presente. Em tudo. No cheiro da casa. No riso da minha filha. No cuidado com a minha mãe. E, principalmente, nesse espaço aqui dentro que eu jurei que ninguém mais ia ocupar. Mas ela entrou. Sem pedir licença. E eu não sei o que fazer com isso. Porque, por mais que eu admire a força dela, por mais que eu deseje aquele olhar só pra mim, tem algo que me trava. Algo que ficou depois da Camila. Depois da traição. Depois do abandono. Depois de ouvir que eu era pouco. Que eu era frio. Que eu não bastava. Agora, com uma filha pequena nos braços e o coração blindado no peito, amar de novo parece perigoso. Parece arriscado demais. E, ainda assim, toda vez que olho pra Sofia, sinto que já estou caindo. Só não sei se ela vai me segurar... ou se vai embora também. Sofia Bragança Bruno saiu há pouco, com a farda impecável e aquele olhar sério que ele carrega até nos dias calmos. Assim que a porta se fechou, a casa pareceu respirar diferente. Mais leve. Fiquei na sala com minha mãe, sentada ao lado dela no sofá. Dona Rose estava tranquila, os olhos atentos, mas o corpo cansado. Eu já tinha cumprido todos os meus deveres da manhã, então peguei o notebook e me acomodei ao lado dela. — O que você vai fazer, filha? — perguntou, se aconchegando um pouco mais pra ver a tela. — Tô procurando uma terapeuta pra senhora — respondi com um sorriso. — Nas redes sociais. Quero alguém que seja mulher. Não é preconceito, é só que... sei que a senhora vai se sentir mais à vontade assim. Ela assentiu, com aquele olhar tímido que aparece quando o assunto é sobre ela. — Entendo... me mostra as fotos delas. Quero escolher a melhor pra mim. — Claro que sim, mamãe — respondi, tentando esconder a emoção que sempre me invade quando ela fala com esse carinho. Comecei a navegar pelos perfis, olhando formações, especializações, depoimentos de pacientes. Queria alguém que fosse gentil, firme, experiente. Alguém que tratasse minha mãe com respeito, mas também com esperança. Enquanto ela observava as fotos e lia os nomes em voz baixa, Bruna acordou no quarto. Ouvi o chorinho suave e me levantei rápido, deixando o notebook com minha mãe. — Vai olhando com calma, tá? Depois a gente escolhe juntas. Ela assentiu, já concentrada na tela, como se estivesse escolhendo uma amiga e não uma profissional. Fui até o quarto e encontrei Bruna deitada no moisés, os olhinhos abertos e a música de ninar ainda tocando baixinho. Peguei-a no colo, sentindo aquele calorzinho do corpinho dela. Ela se aninhou no meu peito, como sempre faz. Enquanto voltava pra sala com a Bruna nos braços, olhei pra minha mãe concentrada no notebook, e senti uma coisa boa crescer dentro de mim. Um tipo de esperança. Um tipo de amor que não se explica. E, lá no fundo, mesmo com o coração ansioso por Bruno, mesmo com o medo de perder o emprego se tudo desandar... eu sabia que estava fazendo a coisa certa. Porque cuidar delas — da minha mãe, da Bruna — é o que me mantém inteira. Minha mãe olhava atentamente para a tela do notebook, passando pelas fotos das fisioterapeutas que eu havia selecionado. Ela analisava cada rosto com cuidado, como se procurasse algo além da aparência — talvez um traço de gentileza, talvez um olhar que inspirasse confiança. — Essa aqui... — disse, apontando com o dedo trêmulo. — Doutora Sarah Muniz. Ela parece boa. Tem um sorriso tranquilo. Sorri, satisfeita com a escolha. — Então vai ser ela — respondi, levantando para trocar a fralda da Bruna, que já começava a resmungar no cercadinho. Fiz tudo com agilidade: troquei a fraldinha, limpei seu rostinho e a coloquei de volta no cercado com os brinquedos. Liguei a televisão com músicas infantis e ela logo se distraiu, batendo palminhas e balbuciando sons que só ela entendia. Voltei para o sofá, peguei o celular e procurei o número da doutora Sarah. Respirei fundo antes de ligar. Eu não sabia como seria a conversa, mas precisava tentar. O telefone chamou duas vezes antes de ser atendido. — Alô? Doutora Sarah Muniz? — perguntei, tentando manter a voz firme. — Sim, sou eu. Quem fala? — Aqui é Sofia Bragança. Estou procurando uma fisioterapeuta para minha mãe, Dona Rose. Ela é cadeirante e gostaria de tentar voltar a andar. Vi seu perfil e... queria saber se a senhora faz atendimentos em domicílio. Do outro lado da linha, a voz dela era suave, profissional e acolhedora: — Faço sim, Sofia. Atendo pacientes em casa, principalmente em casos como o da sua mãe. Podemos agendar uma avaliação inicial, sem compromisso, pra eu conhecê-la e entender melhor a situação. Senti um alívio imediato. Olhei para minha mãe, que me observava com expectativa. — Isso seria ótimo. Ela está animada com a ideia. Podemos marcar ainda esta semana? — Claro. Me manda seu endereço por mensagem e a disponibilidade de vocês. A gente organiza tudo. — Muito obrigada, doutora. De verdade. — Eu que agradeço. Até breve. Desliguei com um sorriso no rosto. Minha mãe me olhou com os olhos marejados, e eu soube que aquele pequeno passo significava muito pra ela. Bruna riu alto no cercadinho, e eu me abaixei para beijar sua testa. A casa estava cheia de vozes. De esperança. De cuidado. E, mesmo com o coração ainda confuso por Bruno, mesmo com os sentimentos que crescem e me assustam, naquele momento eu soube: estou fazendo o que é certo.Capítulo 127 Quatro meses depois, finalmente chegou o grande dia. Sofia estava cheia de dores, respirando com dificuldade, enquanto Bruno permanecia ao seu lado, nervoso e chorando de emoção. O senhor Léo Bragança, firme e preocupado, dirigia o carro em alta velocidade até o hospital. No caminho, Sofia apertava a mão de Bruno com força, gritando entre as contrações. — Ai, Bruno! Isso é culpa sua… você é gostoso demais, e agora eu estou aqui sofrendo por sua causa! — reclamava, mal-humorada, arrancando um sorriso nervoso do marido. Pouco tempo depois, ainda pela manhã, chegaram à maternidade. Bruno ajudou Sofia a descer do carro, segurando-a com cuidado. Ela, ainda entre dores e reclamações, olhou para ele com raiva misturada a amor. — Você tem culpa de tudo isso, Bruno Tavares! Culpa por me engravidar e me deixar desse jeito. Já dentro da sala de parto, o médico examinou Sofia com calma e anunciou: — Desta vez será parto normal. Sofia está saudável, tem passagem, e os beb
Capítulo 126 Os dias seguintes foram de pura correria na mansão Tavares-Bragança. Sofia, já com a barriga crescendo, organizava com Bruno e os avós os preparativos para o enxoval dos trigêmeos. As compras: Carrinhos de bebê triplos e cadeirinhas especiais. Roupinhas delicadas em cores diferentes para identificar cada um. Mamadeiras, chupetas e pilhas de fraldas que enchiam o depósito da mansão. Três berços novos, escolhidos com carinho por Sofia e Paloma. Bruno, ainda meio assustado, caminhava pelos corredores da loja com uma lista enorme. — Isso aqui parece mais uma missão de quartel do que compras de bebê. Preciso de reforço! — dizia, arrancando risadas de todos. Na mansão, o quarto dos trigêmeos começou a ser montado. As paredes foram pintadas em tons suaves, com desenhos de nuvens e estrelas. Os três berços ficaram lado a lado, formando uma fileira que emocionava Sofia cada vez que entrava no cômodo. Paloma ajudava na organização, dobrando as roupinhas e colocando et
Capítulo 125 As babás da manhã e da tarde haviam pedido demissão, após receberem propostas de emprego mais altas.Sofia, sem se preocupar, já tinha uma solução: contratou Paloma, agora casada com Danilo, amigo e advogado de Bruno.Paloma tinha jeito com crianças e possuía certificado de babá.Ela aceitou feliz, cuidando de Milena, Miguel e também de Breno, que assim passava mais tempo com os irmãos.Bruna, ao voltar da creche, sempre brincava com os irmãos e conversava com Paloma.Naquele dia, chegou animada e contou:— Paloma, o Arthur me deu um chocolate e uma flor!Paloma sorriu, achando graça da inocência da menina.Foi nesse momento que Bruno e Sofia chegaram do trabalho.Ao ouvir a filha falar do tal Arthur, Bruno arregalou os olhos e ficou com ciúmes de pai.— Como é que é, Bruna? Quem é esse Arthur que já está dando presente pra minha filha? — disse, cruzando os braços e fingindo seriedade.Bruna riu e respondeu com inocência:— É meu amigo da creche, papai. Ele disse que eu
Capítulo 124 Ao final da tarde, Sofia retornou para casa. Bruno estava descansando na sala, cercado pelo silêncio da mansão. Ela se aproximou com um sorriso e sentou-se ao lado dele. — Bruno, o prédio é enorme… moderno, cheio de possibilidades. O papai e o senhor Tavares me mostraram cada andar. Vai ser a sede perfeita para unir os dois impérios. Bruno olhou para ela com orgulho. — Eu sabia que você ia se encantar. Esse prédio será parte da nossa história, Sofia. Você vai liderar com a mesma força que lidera nossa família. Sofia passou a mão na barriga e sorriu. — Eu fiquei emocionada. Pensei em você, nos nossos filhos… esse prédio é mais do que uma empresa, é o legado da nossa família. Bruno segurou sua mão com ternura. — E eu estarei ao seu lado em cada passo. Você será uma CEO brilhante. Naquele instante, o casal sentiu que o futuro estava se desenhando diante deles: Sofia como líder da corporação, e Bruno prestes a assumir seu novo posto no quartel. Duas semanas depoi
Capítulo 123 Sofia olhou para o pai e para o sogro, ainda insegura. — Eu não sei se dou conta… E enquanto a reforma acontece, o pessoal das duas empresas vai ficar sem trabalho? — perguntou, com a voz preocupada. José Tavares sorriu com calma, tentando tranquilizar a nora. — Não, minha filha. Seu pai e eu já pensamos em tudo. Vamos vender os terrenos e os prédios da Tavares Corp e da Bragança Corp. Estamos comprando outro prédio, muito maior, para que os dois impérios se tornem um só. Já estamos em negociação com os compradores. Sofia respirou fundo, começando a entender o plano. — Ah… agora eu estou entendendo. Mas eu quero que os senhores me ensinem e me mostrem a empresa depois, já que serei a nova CEO. Léo Bragança colocou a mão no ombro da filha e disse com orgulho: — É claro, Sofia. Você não estará sozinha. Nós vamos te orientar em cada passo. E quando chegar a hora, você estará preparada para assumir. Dona Rose completou com ternura: — Minha filha, você sempre foi fo
Capítulo 122 — “Que bom que você voltou, Bruno. Eu não te deixei em nenhum momento. Eu tive muito medo de te perder… agora eu entendo o que você passou. Mas o que importa é que você voltou para mim e para os nossos filhos. Eu te amo demais” — disse Sofia, com os olhos cheios de lágrimas. Bruno a olhou, ainda fraco, mas com a mão repousada sobre a barriga dela. — “Eu… tam… bém… te… amo… muito” — murmurou, com a voz rouca e arrastada. Sofia sorriu entre lágrimas e revelou, com emoção: — “Você vai ser papai de novo, meu amor! Nossa família vai aumentar mais.” A felicidade tomou conta dela. O seu amor estava de volta, vivo, consciente, e agora havia uma nova vida crescendo dentro dela. Nesse momento, o médico entrou e pediu com firmeza: — “Precisamos que todos se retirem. O capitão Bruno ainda precisa descansar para se recuperar mais rápido.” Os familiares e amigos se despediram com abraços e lágrimas de alegria. Cada um voltou para casa com o coração leve, feliz por s







