MasukValentina Monteiro"Eu saí do hospital ainda um pouco fraca.Mas, pela primeira vez… com uma pontinha de fé de que ele poderia me curar."Dois dias. Foram dois longos e exaustivos dias trancada naquele quarto de hospital, onde tudo o que eu mais desejava era o conforto da minha própria cama, mesmo sabendo que teria que voltar para a casa do Enrico.Foram quarenta e oito horas seguidas de soro correndo pelas minhas veias, cheiro forte de antisséptico, silêncios prolongados, conversas cautelosas e um medo constante de como seriam as coisas daqui para a frente.Mas ele… ficou.Enrico simplesmente não saiu do meu lado por um único segundo. Dormiu sentado naquela cadeira desconfortável e rígida de acompanhante. Trabalhou em um sofá nada aconchegante do quarto enquanto eu descansava. Acordou-me de manhã trazendo caixinhas de frutas frescas. Brigou feio com a supervisora de enfermagem só porque achou que o travesseiro oferecido ao meu leito era fino demais para o meu pescoço.E hoje… hoje e
Enrico Novaz"Ela abriu os olhos.E pela primeira vez na minha vida…Eu quis fechar os meus e agradecer a Deus por ainda poder olhar para ela."Fiquei a madrugada inteira ali. Naquela cadeira de metal desconfortável e dura ao lado do leito hospitalar. Mantive a cabeça encostada na beirada do colchão, sem soltar a mão dela por um único segundo. Cada vez que a enfermeira entrava na ponta dos pés para trocar a medicação venosa ou checar o monitor cardíaco, eu despertava em um estalo, atento a qualquer alteração.Eu, que sempre odiei hospitais com todas as minhas forças. Eu, que sempre fui um homem prático, frio e que nunca soube cuidar nem de mim mesmo.Mas agora? Eu não ia sair daquele quarto nem se o prédio inteiro pegasse fogo.Quando os primeiros raios de sol de um novo dia invadiram a vidraça da janela, Valentina abriu os olhos de novo. Ela ainda parecia fraca, com os cílios pesados e a pele um pouco pálida, mas estava ali. Respirando. Viva.Puxei uma caixinha de acrílico que tinha
Valentina Monteiro"Dizem que antes de acordar… a alma escuta.E se isso for verdade…A minha escutou ele."Luz branca.Cheiro inconfundível de antisséptico e hospital.O som ritmado de um monitor cardíaco apitando devagar ao fundo.Meu corpo parecia flutuar, incrivelmente leve e desprovido de qualquer força. A minha cabeça parecia distante, imersa em uma névoa espessa de cansaço extremo. Mas, aos poucos, os sons do mundo ao meu redor foram se aproximando, rasgando o silêncio do meu inconsciente.Vozes abafadas nos corredores. Passos leves.E… uma respiração.Pesada. Quente. Masculina.A voz dele.— Eu não sei amar, Valentina… — sussurrou a voz rouca e trêmula, bem perto do meu ouvido. — Mas… por você… eu quero tentar.Meus olhos ainda estavam pesados e fechados, recusando-se a abrir. Mas o meu coração… o meu coração acelerou no peito no mesmo segundo.Ele estava ali. Do meu lado. Segurando a minha mão como se o mundo fosse ruir se a soltasse. Falando baixo, quase sem fôlego, como se
Enrico Novaz"Ela caiu. Inferno, ela caiu…E junto com ela… caiu tudo o que eu era antes de conhecê-la."— Valentina?!Vi o corpo dela vacilar na minha frente. As pernas finas e fracas cederam de uma vez. Os olhos dela viraram para trás e as pálpebras se fecharam em um sobressalto.— VALENTINA!Corri. O desespero mais cego e violento que já senti na vida tomou conta de cada fibra do meu corpo. Projetei-me para a frente e a segurei nos braços um segundo antes que a cabeça dela se chocasse contra o piso frio do quarto.— Não. Não, não, não… não faz isso comigo, por favor! — sussurrei, a voz embargada enquanto meu coração martelava contra o peito a um ritmo ensurdecedor.O corpo dela estava completamente mole em meus braços. Frio. Assustadoramente pálido. Os lábios, outrora rosados e cheios de vida, agora tinham uma tonalidade arroxeada e seca.— PORRA! — gritei a plenos pulmões, a voz ecoando pelas paredes da mansão.Peguei-a no colo sem esforço, aninhando o corpo leve demais contra o
Valentina Monteiro"Você pode aguentar muita coisa, até aquelas que sangram o coração.Mas quando começa a não reconhecer nem o próprio rosto no espelho…É porque já passou de todos os limites."Subi para o meu quarto com a cabeça explodindo e as lágrimas caindo em turbilhões violentos. Eu tentei, com todas as minhas forças, engolir o choro e manter o pouco de dignidade que me restava, mas não adiantou. As palavras cruéis que o Enrico tinha cuspido na minha cara ainda ecoavam pelas paredes da mansão, rasgando o que tinha sobrado da minha alma.Fui até o closet, peguei minha mala no alto da prateleira e a coloquei sobre a cama. Comecei a arrumar minhas coisas em silêncio. Sem pressa. Sem pânico.Cada peça de roupa dobrada cuidadosamente parecia um pequeno ato de resistência, como se o ritmo lento das minhas mãos fosse me dar a coragem necessária para atravessar aquela porta e nunca mais olhar para trás. Mas, no fundo, eu sabia. Se ele me visse tentando sair… aquilo ia virar um verdade
Enrico Novaz"Ela pediu desculpas. Desculpas, e isso foi surpreendente.E por um segundo… eu acreditei que ainda dava tempo.Mas o destino não deixa a gente respirar."Ela terminou o café da manhã devagar, levantou-se da mesa, deu um leve aceno discreto e subiu para o seu quarto. Fiquei ali por alguns segundos encarando o lugar onde ela esteve. Dei um último gole no meu café já frio, me levantei e saí de casa.Entrei no meu carro com a mente girando a mil por hora. As palavras dela ainda estavam terrivelmente frescas na minha memória, reverberando no silêncio da cabine:"Eu não devia ter dito aquilo.""Se eu tivesse fugido… não teria conhecido você."Merda.Por que porra aquilo mexia tanto comigo? Por que um simples pedido de desculpas desarmava todas as minhas defesas? Porque era sincero. Porque, por um breve segundo naquela manhã, ela me viu sem as minhas armaduras. E eu vi a alma dela também.Cheguei à sede da empresa tentando enterrar aqueles pensamentos e focar nas obrigações do







