MasukEla casou com o homem do morro. O que ninguém imaginava era o que ele escondia atrás do sorriso raro e das mãos calejadas. Clara Mendes chega à Rocinha determinada a salvar vidas. Idealista, ética e teimosa, a jovem médica acredita que pode fazer a diferença no lugar mais perigoso da cidade. Até o dia em que cruza o caminho de Rafael Costa. Rafa é o protetor silencioso da comunidade. Nascido e criado no morro, tem o respeito de todos e o olhar de quem já viu demais. Quando um tiroteio coloca a clínica em risco, ele se torna a sombra de Clara e o único homem capaz de abalar todas as suas certezas. Entre noites intensas, perigos reais e uma atração que desafia a lógica, os dois se casam em uma cerimônia simples no alto do morro. Clara veste o branco. Rafa jura protegê-la com a vida. Pela primeira vez, ela acredita ter encontrado um amor verdadeiro em meio ao caos. Mas Rafael guarda um segredo grande demais para caber em qualquer barraco. Por trás do homem do morro existe Gael: o herdeiro bilionário que o mundo deu como morto, o rei das sombras que construiu um império paralelo e o homem que nunca deveria ter se apaixonado. Quando o passado de Gael explode na porta da casa deles, Clara descobre que o marido que ela ama é também o homem mais perigoso que ela já conheceu. Agora, dividida entre a ética que jurou seguir e o amor que se recusa a abandonar, Clara precisa decidir: até onde é capaz de ir por um homem que mentiu sobre tudo menos sobre o que sente por ela? Em um jogo de poder, desejo e sobrevivência, o amor será forte o bastante para vencer o morro, o dinheiro e as mentiras?
Lihat lebih banyakClara Mendes
Eu nunca tinha sentido o cheiro da morte tão de perto quanto naquele fim de tarde na Rocinha. O ar era pesado, misturado com fumaça de pneu queimado, esgoto a céu aberto e o medo ácido que parecia suar das próprias paredes dos barracos. Eu, Clara Mendes, vinte e oito anos, médica formada há pouco mais de um ano, estava ali porque escolhi estar. Porque um dia, ainda na faculdade, jurei que não ia me esconder atrás de consultórios climatizados da Zona Sul enquanto gente morria sem atendimento a poucos quilômetros de distância. Minha mãe chamava isso de teimosia suicida. Meu pai chamava de idealismo idiota. Eu chamava de propósito. E agora, com a mala de roupa ainda no porta-malas do Uber que me abandonou na entrada da favela, eu estava prestes a descobrir se o propósito ia me matar antes do primeiro plantão terminar. O posto de saúde era pequeno, paredes descascadas, ventiladores barulhentos tentando empurrar o calor úmido de outubro. Eu tinha chegado havia menos de uma hora, ainda com a bata branca amassada da viagem e o cabelo castanho-escuro preso num coque alto que já estava desmontando. Sempre fui assim: organizada até demais com as coisas dos outros e um caos controlado com as minhas. Tinha mania de contar os passos quando ficava nervosa. Vinte e três passos da porta até o corredor. Quatorze até a sala de emergência. Eu contava para não pensar no medo que apertava minha garganta. Medo de falhar. Medo de não ser suficiente. Medo de descobrir que todo aquele discurso bonito sobre “fazer a diferença” era só vaidade disfarçada de altruísmo. Foi então que os tiros começaram. Não foram estampidos distantes. Foram estalos secos, próximos, que fizeram as janelas tremerem e o chão vibrar sob meus pés. Alguém gritou lá fora. Depois outro grito, mais agudo, de criança. O enfermeiro que me recebia, um homem magro chamado Jorge, empurrou-me com força para dentro da sala de emergência. — Fica no chão, doutora! É troca de tiro na ladeira de baixo! Eu obedeci por instinto, mas meu corpo inteiro gritava para fazer alguma coisa. Sempre fui assim. Incapaz de ficar parada quando alguém precisava de ajuda. Era meu maior defeito e minha única qualidade verdadeira. Enquanto os tiros ecoavam, eu já estava de joelhos abrindo o estojo de emergência, contando gaze, seringas, soro. Minhas mãos tremiam, mas eu forçava a respiração a ficar constante. — Inspira — repito para mim mesma. — Conta até quatro. Expira. Essa era a técnica que usava desde a residência, quando perdi o primeiro paciente e quase desisti da medicina. Foi então que a porta da frente bateu com violência. Eu levantei a cabeça no exato momento em que ele entrou. Era Rafael, ou Rafa, como passei a chamar. Na época eu ainda não sabia o nome dele. Só vi um homem alto, de ombros largos, pele morena marcada pelo sol, camiseta preta colada no peito suado. Ele carregava nos braços uma criança de no máximo oito anos, o corpo mole, a camisa do Flamengo encharcada de sangue. O olhar dele varreu a sala em um segundo e cravou-se no meu. Olhos escuros, profundos, do tipo que pareciam ter visto coisas demais e ainda assim não se quebraram. Por um instante ridículo e inapropriado, o mundo inteiro sumiu. Só existia aquele olhar. E a forma como ele me atravessou sem pedir licença. — Ela precisa de cirurgia agora — disse ele, a voz rouca, baixa, controlada demais para alguém que acabara de atravessar um tiroteio com uma criança nos braços. — Perfuração no abdômen. Perdeu muito sangue. Eu me levantei num impulso, o coração batendo tão forte que doía. Minha mania de controlar tudo entrou em modo automático. — Coloca ela aqui. Jorge, preciso de acesso, soro, compressão. Você, me ajuda a cortar a roupa. Ele obedeceu sem hesitar. Deitou a menina na maca com uma delicadeza que contrastava com a dureza do resto do corpo. Quando nossas mãos se tocaram ao puxar a camiseta ensanguentada, senti um choque elétrico subir pelo braço. Absurdo. Eu estava com as mãos sujas de sangue de uma criança e ainda assim meu corpo reagiu àquele contato como se fosse a coisa mais importante da sala. Trabalhei rápido. Sempre fui boa sob pressão. Era quando a ansiedade calava e só restava o treinamento. Consegui estabilizar a pressão, estancar o sangramento mais grave, preparar tudo para a transferência. A menina choramingava baixo, consciente. Eu falava com ela o tempo todo, voz macia, a mesma voz que usava com os pacientes assustados no hospital da universidade. — Já vai passar, princesa. Eu estou aqui. Não vai te acontecer mais nada. Foi então que os tiros voltaram. Mais perto. Vidros estilhaçaram na fachada. Alguém gritou lá fora. Jorge se jogou no chão. Eu fiquei parada por meio segundo a mais, o suficiente para o perigo me alcançar. Braços fortes me puxaram com violência. Costas batendo na parede fria. Um corpo grande e quente cobrindo o meu por completo. A cabeça dele curvada sobre a minha, o peito largo me prendendo contra a parede como um escudo humano. Eu senti tudo ao mesmo tempo: o coração dele batendo rápido contra o meu seio, o cheiro de sabão barato misturado com pólvora e suor limpo, a respiração quente queimando minha orelha. Meu coque desfez-se por completo. Meu cabelo caiu sobre os ombros e alguns fios grudaram no pescoço suado dele. Os tiros duraram eternidades. Ou segundos. Eu não sabia. Só sabia que estava presa entre a parede e aquele homem, e que meu corpo, traidor, não queria se mexer. Eu, que sempre tive medo de espaços fechados desde que fiquei trancada num elevador aos doze anos, agora não conseguia pensar em outra coisa além da forma como as mãos dele estavam plantadas na parede dos dois lados da minha cabeça, encarcerando-me sem me tocar de verdade. Quando o silêncio voltou, nenhum de nós se moveu imediatamente. Eu sentia cada respiração dele. Cada batida do coração. Minha própria respiração estava descompassada, e não era só por causa do medo. Ele baixou a cabeça um pouco mais. Os lábios quase roçaram a curva da minha orelha. A voz saiu baixa, rouca, perigosa e estranhamente íntima: — Você acabou de assinar sua sentença… e a minha. Depois se afastou. O frio da parede bateu nas minhas costas no mesmo segundo em que o calor dele desapareceu. Eu fiquei ali, ofegante, as pernas tremendo, o sangue da menina ainda nas minhas mãos, enquanto ele já estava de volta à maca, como se nada tivesse acontecido. Como se não tivesse acabado de me marcar com aquelas palavras. Eu olhei para ele. Ele não olhou de volta. Mas eu senti. E pela primeira vez desde que coloquei os pés na Rocinha, tive certeza de duas coisas: eu não ia embora tão cedo… e aquele homem ia destruir todas as paredes cuidadosamente construídas da minha vida. A menina soltou um gemido fraco. Eu forcei o corpo a se mexer, a voltar para o que eu sabia fazer. Salvar vidas. Controlar o caos. Fingir que meu coração não estava batendo descompassado por um completo estranho que cheirava a sabão barato e pólvora. Mas enquanto eu trabalhava, sentia o olhar dele queimar minha nuca. E sabia, com uma clareza assustadora, que nada nunca mais seria o mesmo.Rafael Costa "Rafa/Gael" O nome “Pai” na tela do celular era uma lâmina fria atravessando o calor que ainda queimava entre nós.Eu continuei dentro de Clara por mais alguns segundos, o corpo dela preso contra a parede do consultório, a respiração dela ainda descompassada contra a minha mão. O orgasmo tinha sido brutal, necessário, uma válvula de escape para toda a adrenalina do tiro e da fome acumulada. Mas o mundo lá fora não esperava. Eu tirei a mão da boca dela com lentidão, deslizei para fora do corpo quente com um esforço físico real e arregacei a calça. Clara ficou encostada na parede, as pernas ainda trêmulas, a bata amassada, os lábios vermelhos e inchados. Eu odiava a forma como ela parecia recém-fodida e vulnerável. Odiava ainda mais a vontade imediata de ajoelhar e recomeçar.Atendi o telefone no quarto toque.— Fala.A voz do outro lado era a do advogado antigo do meu pai, um homem que eu conhecia desde os treze anos e em quem eu não confiava desde os quatorze.— O tempo
Clara MendesO tiro ainda ecoava nos meus ouvidos quando Rafael me puxou para dentro do consultório dos fundos e trancou a porta com violência.Eu estava tremendo. Não só de medo. O corpo inteiro vibrava com a adrenalina do segundo em que ele me derrubara no chão, o peso dele me cobrindo, o vidro estilhaçando acima de nós. Eu, Clara Mendes, vinte e oito anos, médica que sempre se orgulhara de manter a calma sob pressão, sentia o controle escorregar pelos dedos como água. Meu coração batia tão forte que doía no peito. A respiração vinha em golpes curtos. E por baixo do medo puro havia outra coisa, mais escura, mais quente: a consciência aguda do corpo dele ainda colado ao meu, da forma como ele me segurava pelos braços, dos olhos escuros que me devoravam como se eu fosse a única coisa que importava naquele momento.— Você está bem? — perguntou ele, a voz rouca, baixa, o peito subindo e descendo rápido demais.— Eu… acho que sim. O tiro...— Passou longe. Por pouco.Ele me encarou por u
Rafael Costa "Rafa/Gael" Eu ainda sentia o gosto dela na boca quando voltei para a reunião.O beco tinha sido um erro. Um erro quente, molhado e viciante. Eu tinha arrastado Clara para longe dos homens armados com a intenção de assustá-la o suficiente para que ela parasse de aparecer onde não devia. Em vez disso, tinha acabado com a língua na boca dela e a mão subindo pela coxa como um adolescente sem controle. Eu odiava perder o controle. Era uma das poucas coisas que eu ainda conseguia manter intactas depois de anos dividindo a vida entre o morro e o fantasma de Gael Moreira Albuquerque. E aquela médica teimosa estava destrozando isso com uma eficiência que me deixava entre a vontade de foder ela contra a parede mais próxima e a necessidade de trancá-la num lugar seguro até que a guerra com a minha família terminasse.Eu entrei de novo no barracão. Os homens pararam de falar. Dudu levantou uma sobrancelha, mas não comentou o tempo que eu tinha ficado fora nem o estado da minha boca
Clara MendesRafael sumiu antes mesmo de eu terminar de me vestir.Eu saí do chuveiro improvisado ainda tonta do beijo, o corpo inteiro latejando com um desejo não resolvido que me irritava tanto quanto me excitava, e ele já estava de camisa limpa, o celular na mão, o olhar distante daquele jeito que significava que o mundo lá fora tinha batido na porta de novo. Eu, Clara Mendes, vinte e oito anos, médica teimosa que odiava ficar com meias verdades e beijos pela metade, tentei segurar o braço dele. Ele se esquivou com uma facilidade que doeu mais do que deveria.— Eu preciso sair — disse curto e grosso.— A gente precisa conversar. Sobre a mulher. Sobre o nome. Sobre São Paulo — eu insisto.— Depois — ela fala mais firme.Engulo seco.— Rafael... — insisto novamente, inutilmente.A porta bateu. O som ecoou no barraco pequeno como um ponto final. Eu fiquei parada no meio do cômodo, a camisa grande dele ainda colada na pele molhada, o gosto da boca dele na língua, a frustração subindo p












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