LOGINEm uma noite fatídica, Fernanda viu sua vida mudar para sempre. Após algumas bebidas, perdeu a virgindade com um homem misterioso. Na manhã seguinte, tudo o que encontrou foi uma quantia em dinheiro sobre o travesseiro ao seu lado. O desconhecido havia partido sem deixar rastros. O que Fernanda não imaginava era que, além do dinheiro, aquele estranho também lhe deixara uma lembrança inesperada: uma gravidez. Três anos depois, por uma ironia do destino, ela se vê contratada como secretária do mesmo homem que desapareceu naquela noite. Henrique é um CEO impiedoso, arrogante e acostumado a ter tudo sob seu controle. Mas Fernanda guarda um segredo capaz de abalar o mundo daquele homem: ele é o pai dos seus dois filhos. Agora, presa a uma situação que jamais pediu, ela precisa decidir até quando conseguirá esconder a verdade. Como contar a um homem que parece não ter coração que ele tem dois filhos? E o que acontecerá quando Henrique descobrir que a mulher que trabalha ao seu lado é a mesma que ele abandonou três anos atrás?
View MoreHenrique Campos
O peso não estava apenas nos meus olhos; estava nos meus ossos. Acordei com a sensação de que meu sangue havia sido substituído por chumbo derretido. O quarto estava mergulhado em um breu quase sólido, cortado apenas por uma lâmina de luz pálida que vencia a resistência da cortina de veludo, riscando o tapete impessoal do hotel.
Antes da visão, veio o olfato. O cheiro dela era uma mistura inebriante e confusa: notas de um perfume caro — algo como baunilha e sândalo — lutando contra o odor acre de suor recente e o cheiro metálico de bebida destilada que parecia emanar dos meus próprios poros. O calor do corpo dela, pressionado contra o meu flanco esquerdo, era a única coisa que me ancorava à realidade.
Tentei engolir em seco, mas minha garganta era um deserto de areia e arrependimento. Que porra aconteceu?
As imagens da noite anterior vieram em flashes desconexos, como um filme queimado. O neon azul da boate. O pulsar do grave no peito. E o Jorge. Sempre o Jorge, com aquele sorriso de lado que parecia dizer que ele era o dono do mundo e eu era apenas um convidado entediado.
— Relaxa, mano — a voz dele ecoou na minha memória, vibrando com aquela autoconfiança irritante. — Você vive trabalhando demais. Esquece as planilhas por uma noite. Hoje você vai se divertir, por bem ou por mal.
Lembrei do copo de uísque que ele empurrou na minha mão. O sorriso dele tinha um brilho de travessura infantil, mas perigoso. Ele tinha batizado a bebida. Tinha que ser. Eu conhecia meu limite, e aquele apagão não era obra apenas do álcool. Jorge sempre achou que eu precisava de um "empurrão" para viver. Mal sabia ele que o empurrão estava me jogando num abismo de desorientação agora.
Virei o rosto milímetro por milímetro. A penumbra revelava o contorno de uma estranha. O lençol havia escorregado até a cintura, expondo as costas nuas, pálidas sob a luz filtrada. O cabelo, uma cascata desordenada, estava jogado para o lado.
Foi então que eu vi.
No centro das costas dela, logo abaixo da linha das escápulas, havia uma pinta. Pequena, escura, perfeitamente redonda. Meus olhos, embaçados pela ressaca e pela droga, fixaram-se naquela marca. Era uma anomalia nítida em meio à paisagem borrada do quarto. Uma pequena esfera escura que parecia me encarar de volta. Eu não sabia o nome daquela mulher, não conseguia distinguir as feições do seu rosto na escuridão, mas aquela maldita pinta nas costas... aquilo parecia ser a única coisa real e definida em toda essa porra de situação.
Estiquei a mão, os dedos trêmulos hesitando a centímetros do interruptor do abajur. Eu precisava ver o rosto dela. Mas o movimento foi interrompido pelo choque elétrico do celular vibrando sobre a mesa de cabeceira. O ruído contra a madeira soou como uma britadeira no silêncio do quarto.
O visor brilhava com uma agressividade que machucava os olhos: Mãe.
O visor marcava pouco antes das cinco da manhã. Minha mãe não ligava a essa hora. Ela mal conseguia usar o celular sem pedir ajuda. Atendi com o coração dando um solavanco violento contra as costelas.
— Mãe? — Minha voz era um farrapo.
O silêncio do outro lado foi pior que qualquer grito. Ouvi uma respiração entrecortada, um soluço que foi sufocado antes de nascer.
— Henrique... sou eu. Peguei o celular da sua mãe. Ela... ela está em choque, não consegue falar.
Era minha tia. Sentei-me na cama de imediato, ignorando a vertigem que fez o quarto girar. A mulher ao meu lado se mexeu levemente, soltando um suspiro baixo durante o sono, mas não acordou.
— O que aconteceu? Ela está bem?
— É o Jorge, Henrique... — A voz dela quebrou. O mundo pareceu desacelerar, cada segundo se expandindo até o insuportável. — Ele... ele foi assassinado. Levou um tiro na saída de um restaurante... agora de madrugada.
O ar sumiu. Foi como se alguém tivesse aberto um vácuo no meu peito, sugando todo o oxigênio, toda a lógica, toda a minha história.
Jorge. O sorriso debochado. O uísque batizado. O "relaxa, mano".
Tudo aquilo tinha acontecido há poucas horas. Como ele podia estar morto se eu ainda sentia o gosto da bebida que ele me deu?
— Como assim? Onde? Quem fez isso? — As perguntas saíram mecanicamente, mas eu não ouvia as respostas. Minha mente estava presa na imagem dele me entregando o copo. Se eu não tivesse bebido... se eu não tivesse vindo para este hotel... se eu estivesse com ele...
— A polícia ligou agora. Foram três tiros, Henrique. Ele não teve chance.
— Tá bom — eu disse. A voz não era minha. Era de um estranho, fria e oca. — Estou indo para aí agora.
Desliguei. O celular continuou na minha mão, um pedaço de plástico e vidro que agora pesava uma tonelada. Olhei para a mulher ao meu lado. Ela continuava ali, mergulhada em um sono, talvez tenha bebido do meu copo também.
Levantei-me como um autômato. Cada movimento — vestir a calça, abotoar a camisa amassada, calçar os sapatos — parecia acontecer em outra dimensão. Peguei minha carteira. Vi o maço de notas de cem reais. Tirei quase tudo o que havia ali e deixei sobre o travesseiro, ao lado da cabeça dela.
Era um gesto sujo, eu sabia. Mas eu não tinha palavras, não tinha tempo e, naquele momento, não tinha humanidade. Deixei o dinheiro para que ela pudesse pagar o hotel, pegar um táxi, sumir da minha vida sem que eu precisasse explicar que o homem que estava com ela minutos atrás acabara de se tornar um náufrago.
Antes de fechar a porta, olhei para trás uma última vez. A penumbra ainda escondia o rosto dela, mas a pequena pinta escura parecia brilhar no escuro.
No corredor do hotel, o carpete abafava meus passos, mas o silêncio era ensurdecedor. Entrei no elevador e encostei a testa no espelho frio. O reflexo que me encarava era o de um homem que tinha saindo do controle, havia perdido o bom senso e como consequência…
— Porra, Jorge! — O grito saiu rasgando minha garganta, cru e disforme.
Soquei a parede de metal do elevador com toda a força que o ódio e a culpa me emprestaram. A dor no impacto dos nós dos dedos foi a única coisa capaz de silenciar, por um segundo, o eco daquela última risada dele na boate. Eu estava vivo por causa de uma traição dele.
Ao sairmos no hall luxuoso, o contraste foi violento. O silêncio do andar da diretoria era opressor, uma redoma de vidro onde o barulho não era permitido.— Fiquem aqui, atrás da minha mesa — sussurrei, sentando-os no carpete alto, escondidos pelo balcão de carvalho. — Não saiam, não falem, não respirem alto. A mamãe volta em um segundo.Eles se encolheram, segurando seus brinquedos como escudos. Peguei o relatório, ajeitei meu cabelo e caminhei em direção à porta de carvalho maciço. Eu estava a dez segundos do prazo final. Eu ia conseguir salvar meu pescoço.Mas o destino não gosta de vitórias fáceis.Um carrinho de metal que Diego tinha escondido no bolso do casaco escapou. O som do brinquedo rolando pelo mármore polido foi amplificado pelo silêncio sepulcral do hall. Tique, tique, tique. O som metálico ecoou como uma granada.Assustado e instintivo, Diego esqueceu a promessa. Ele saiu correndo de trás da mesa para recuperar o brinquedo. Douglas, interpretando aquilo como o sinal pa
FernandaA manhã de quarta-feira não começou com o sol; começou com o som agudo de porcelana se espatifando contra o piso da cozinha e o choro imediato de Diego. Eu ainda estava com a escova de dentes na boca quando corri. Douglas olhava para o chão com os olhos arregalados, e Diego, assustado com o barulho, soluçava. O copo de leite — o último da jarra — agora era um mapa de cacos e líquido branco sobre o azulejo frio.Eu estava atrasada. Terrivelmente atrasada.Meus olhos ardiam. Passei a noite em um estado de vigília febril, alternando entre as planilhas de logística da MedLife e pesquisas obsessivas sobre os irmãos Campos. Cada foto que eu encontrava de Jorge e Henrique era um labirinto novo. Eu não conseguia dormir porque, toda vez que fechava os olhos, via o rosto de Henrique se sobrepondo à memória borrada do homem no hotel. A dúvida era uma doença silenciosa.— Vamos, meninos! Por favor, a mamãe está com muita pressa! — minha voz saiu mais aguda do que eu pretendia.Ajoelhei-m
Henrique saiu para uma conferência no andar de baixo por volta das três da tarde. O hall da diretoria ficou mergulhado em um silêncio sepulcral. Sentei-me diante do computador, os dedos tremendo sobre o teclado. Eu não devia. Era falta de ética profissional. Era perigoso.Mas eu precisava saber.Digitei: Henrique Campos MedLife família.Os primeiros resultados foram previsíveis: revistas de negócios, fotos de apertos de mão, premiações. Mas comecei a cavar mais fundo. Fui para a quinta, sexta página de busca, procurando por registros mais antigos, de antes dele se tornar esse iceberg de terno.Foi quando encontrei uma foto de um baile de gala de cinco anos atrás. Meus pulmões pareceram colapsar.Na foto, havia dois dele.Não era uma montagem. Eram dois homens idênticos, ombro a ombro. A mesma estrutura óssea, o mesmo maxilar que parecia esculpido em granito, a mesma altura imponente. Mas enquanto o homem à esquerda — Henrique — tinha o olhar focado e distante que eu conhecia bem, o ho
Os primeiros dias na MedLife Pharma não foram apenas difíceis; foram um exercício de sobrevivência psicológica.Eu acordava às cinco e meia da manhã, quando a luz do sol ainda era apenas uma promessa pálida no horizonte de São Paulo. O silêncio do apartamento era quebrado apenas pelo som rítmico das mamadeiras sendo esterilizadas e pelo ressonar suave de Douglas e Diego. Olhar para eles era, ao mesmo tempo, minha maior força e meu maior pânico. Douglas tinha o arco das sobrancelhas idêntico ao dele; Diego tinha o modo de franzir o nariz quando estava concentrado em um sonho. Eu beijava aquelas testas quentes e sentia o peso do mundo nos meus ombros.Deixá-los na creche era um ritual de desapego que nunca ficava mais fácil.— Mamãe volta logo? — Douglas perguntava sempre, com os olhos grandes e castanhos me despindo de qualquer armadura.— Logo, meu amor. A mamãe vai trabalhar para a gente ter aquela casa com quintal, lembra?Eu mentia com um sorriso, mas por dentro, o que eu sentia er












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