Compartilhar

Capítulo 2

last update Data de publicação: 2026-02-09 18:30:56

Quando voltei a abrir os olhos, o sol ainda nem tinha conseguido se firmar no céu. A luz da manhã entrava tímida pelas frestas da cortina, pintando o quarto com tons suaves de dourado. Por alguns segundos, permaneci imóvel, tentando aproveitar aquele raro instante de silêncio antes que o dia começasse de verdade.

Ilusão.

Senti um peso leve cair sobre mim e, logo em seguida, pequenos pés começaram a pular sobre a cama com energia suficiente para acordar um quarteirão inteiro.

— Acorda, papai! — a voz animada de Lívia ecoou pelo quarto. — Hoje é dia de escola e de balé!

Ela pulava sem coordenação, o cabelo completamente bagunçado e o sorriso tão largo que era impossível não sorrir de volta. A empolgação dela era contagiante, quase palpável.

— Ei, ei, calma aí! — agarrei suas pernas e a puxei para baixo, fazendo com que ela caísse sentada no colchão em meio a gargalhadas.

Envolvi-a em um abraço apertado e depositei um beijo demorado no topo de sua cabeça.

— Bom dia, minha gatinha.

— Bom dia, papai! — respondeu, ainda rindo, antes de me abraçar pelo pescoço.

— Você dormiu bem?

— Dormi! E sonhei que eu dançava igual uma bailarina de verdade!

— Então hoje é o grande dia — falei. — Mas antes disso, vamos tomar um café da manhã bem reforçado.

— Vamos! — respondeu de imediato. — Quem chegar por último na cozinha é a mulher do sapo!

Antes que eu pudesse questionar a lógica daquela regra, Lívia desceu da cama em disparada e saiu correndo pelo corredor, rindo alto. Balancei a cabeça, divertido, e fui atrás dela.

Quando cheguei à cozinha, Lívia já comemorava a vitória como se tivesse ganhado uma medalha olímpica, pulando ao meu redor e anunciando em alto e bom som que eu havia perdido. Para minha sorte, Tânia já estava ali, com a mesa do café arrumada e um sorriso divertido no rosto.

— Bom dia, Gustavo — ela me cumprimentou.

— Bom dia.

— Tatá! — Lívia se virou para ela imediatamente. — Sabia que hoje eu vou fazer balé?

— É mesmo? — Tânia fingiu surpresa, embora já tivesse ouvido aquilo diversas vezes desde a noite anterior.

— Sim! — Lívia respondeu, tentando fazer uma pirueta improvisada no meio da cozinha.

— Então vai ser um dia muito especial — comentou Tânia, servindo cereal com leite no prato dela.

Enquanto Lívia comia sem parar de falar, observei aquela cena com uma mistura de gratidão e cansaço. A rotina era intensa, mas havia algo reconfortante naquele caos organizado.

Depois do café, veio a parte mais complicada da manhã: o cabelo.

Eu já estava preparado para a batalha, mas nem assim deixava de ser frustrante. Lívia não conseguia ficar parada, e minhas habilidades com penteados infantis eram praticamente inexistentes.

— Fica quietinha só um pouquinho — pedi pela terceira vez.

— Mas você tá demorando demais! — respondeu, se mexendo ainda mais.

Suspirei fundo.

— Tânia! — chamei, rendido.

Ela apareceu à porta do quarto de Lívia e caiu na gargalhada ao ver o estado do cabelo da minha filha.

— Isso é algum tipo de arte moderna?

— Muito engraçada — resmunguei. — Você pode arrumar o cabelo dela enquanto eu me troco?

— Claro.

— Ainda bem que meu pai não é menina — Lívia comentou, rindo. — Ele é péssimo com cabelo!

— Ei! — protestei, fingindo indignação.

Deixei as duas discutindo animadamente sobre marias-chiquinhas enquanto fui tomar banho. A água quente ajudou a despertar de vez, mas minha mente já estava cheia de compromissos e horários.

Quando voltei à cozinha, Lívia estava impecável, com o cabelo preso e um sorriso orgulhoso no rosto. Peguei sua lancheira preparada com todo o cuidado por Tânia e seguimos para a escola.

O trânsito estava surpreendentemente tranquilo. Estacionei em frente à escola no horário exato, ajudei Lívia a se soltar da cadeirinha e lhe entreguei a mochila de rodinhas. Antes que ela saísse correndo, me abaixei para ficar à sua altura.

— Um beijo e um abraço antes de ir.

Ela obedeceu prontamente.

— Tenha um ótimo dia, meu amor.

Fiquei observando por alguns segundos antes de entrar no carro. Sempre havia aquele aperto no peito ao deixá-la ali, mesmo sabendo que ela estava segura.

Da escola, fui direto para a editora. O dia passou em um turbilhão de reuniões, contratos e leituras. Pulei o almoço sem perceber e só me dei conta do horário quando o celular vibrou com o alarme para buscar Lívia.

Ao estacionar em frente de casa, vi Tânia abrir a porta e, logo em seguida, Lívia surgir correndo. Ela parecia saída de uma caixinha de música: collant rosa, meia-calça clara, sainha delicada, coque perfeitamente preso na redinha e sapatilhas novinhas.

— Papai!

Ela correu até mim e pulou em meus braços. Beijei sua testa e agradeci Tânia pela ajuda.

No caminho até a escolinha de balé, coloquei sua música preferida para tocar. Eu já sabia Hakuna Matata de cor — algo que jamais imaginei ser possível.

— Animada? — perguntei.

— Muito! — respondeu, quase pulando na cadeirinha.

O prédio da escola de balé era iluminado e cheio de movimento. No corredor do quinto andar, meninas vestidas de rosa aguardavam com suas mães. Por um instante, me senti deslocado por ser o único homem ali, mas afastei aquele pensamento rapidamente. Aquilo era sobre Lívia, não sobre mim.

A fila começou a se formar, e a professora passou a receber cada aluna com atenção e carinho. Quando chegou a vez da minha filha, a mulher se agachou à sua frente.

— Qual é o nome da nova bailarina?

— Lívia — respondeu timidamente.

Quando a professora ergueu o rosto, senti o chão desaparecer sob meus pés.

Aqueles olhos verdes.

O tempo pareceu desacelerar.

— Gustavo?

— Vivian?

Por um segundo, tudo ao redor deixou de existir.

Vivian estava ali, à minha frente, vestida de rosa claro, o cabelo preso de forma elegante, mas com o mesmo olhar que eu conhecia tão bem. O olhar da menina que cresceu comigo, que dividiu tardes inteiras sentada no meio-fio da rua, planejando futuros impossíveis.

— Quanto tempo… — ela murmurou.

— Muito tempo — respondi, ainda atordoado.

Ficamos nos encarando por alguns segundos, tentando assimilar aquele reencontro improvável, até que senti um leve puxão na minha mão.

— Você conhece ela, papai?

Me abaixei imediatamente.

— Conheço sim, meu amor.

— A tia Vivian é amiga do papai desde quando a gente era pequeno — expliquei.

— Sério? — Lívia arregalou os olhos.

— Muito sério — Vivian respondeu, sorrindo.

— Que incrível!

— Eu preciso entrar pra dar a aula — Vivian disse, se levantando. — Depois a gente conversa?

— Claro.

Observei minha filha entrar na sala e, quando voltei o olhar para Vivian, senti algo apertar no peito. Não era apenas nostalgia. Era a estranha sensação de que aquele reencontro não tinha sido por acaso.

Continue a ler este livro gratuitamente
Escaneie o código para baixar o App

Último capítulo

  • Uma Namorada para o Papai   Capítulo final

    O dia começou diferente.Não tinha nada de extraordinário acontecendo do lado de fora — a mesma luz atravessando as cortinas, o mesmo silêncio antes da casa acordar de vez, o mesmo cheiro de café que, de algum jeito, sempre parecia mais forte nas manhãs mais importantes.Mas, por dentro…Alguma coisa tinha mudado.Eu acordei antes do despertador. Fiquei alguns segundos encarando o teto, com as mãos apoiadas no peito, sentindo o próprio coração bater mais rápido do que o normal.Não era ansiedade ruim.Era expectativa.Daquelas que a gente tenta ignorar, mas não consegue.Passei a mão pelo rosto, respirei fundo e me levantei.A casa ainda estava silenciosa, do jeito que eu gostava — aquele intervalo curto entre a calmaria e o caos que sempre vinha com a Lívia acordando.Caminhei pelo corredor, ainda meio sonolento, até a cozinha.E antes mesmo de entrar, eu soube.Ela já estava lá.Vivian.Encostada na bancada, com uma xícara de café nas mãos, olhando pela janela como se estivesse perd

  • Uma Namorada para o Papai   Capítulo EXTRA

    LÍVIAEu gosto quando a tia Vivian vem aqui em casa. Tipo… muito mesmo. Porque antes era só eu e o papai. Às vezes a vovó e a tia aparecem, mas elas são tipo… visita. A tia Vivi já não é mais visita. Ela chega e fica, senta no sofá e ri com a gente. Ela também me ajuda na lição e as vezes briga comigo quando faço bagunça.E me chama de bailarina.E faz coisas de gente que fica.Eu gosto disso.No começo eu achei meio estranho.Porque ela falava comigo assim, toda certinha.— Oi, Lívia.— Tudo bem, Lívia?Como se eu fosse importante.Mas eu sou importante.Só que ninguém fala assim comigo.Aí eu fiquei só olhando ela.Porque eu gosto de observar.Eu não falo nada, mas eu fico vendo.Meu pai acha que eu não vejo as coisas.Mas eu vejo tudo.Eu vi que ela ficava nervosa.Eu vi que ela olhava pro papai diferente.Eu vi que o papai também olhava diferente.E eu pensei: hmmmm.Tem coisa aí.Agora não tem mais isso.Agora é normal.Agora quando ela chega, eu só falo:— Oi, Vivian!E abraço e

  • Uma Namorada para o Papai   Capítulo 41

    VIVIANAlguns meses depois…Se alguém tivesse me contado, lá atrás, que a minha vida estaria assim, eu provavelmente teria rido. Não por desacreditar completamente, mas porque parecia improvável demais. Distante. Como uma daquelas histórias que funcionam melhor na teoria do que na vida real.E, ainda assim… Ali estava eu. Vivendo exatamente isso.Sentada no sofá da sala do Gustavo, com as pernas dobradas sob o corpo, um balde de pipoca apoiado no colo e um desenho animado passando na televisão — alto, colorido, caótico.E, surpreendentemente…Perfeito.— Vivian, presta atenção! — Lívia reclamou, indignada.Eu ri, pegando mais um punhado de pipoca.— Eu tô prestando!— Não tá não!— Tô sim!Ela cruzou os braços, me encarando com aquela expressão dramática que parecia grande demais pro tamanho dela.— Você perdeu a melhor parte!— Então me explica.Foi o suficiente.O rosto dela se iluminou na mesma hora.— Tá! Então… — começou, se ajeitando no sofá, completamente animada.E lá foi ela.

  • Uma Namorada para o Papai   Capítulo 40

    Depois daquele jantar… alguma coisa finalmente se encaixou.Não foi um encaixe perfeito, desses que parecem planejados, como se cada peça tivesse sido colocada exatamente no lugar certo. Foi mais sutil do que isso. Mais real. Como quando você encontra algo que nem sabia que estava procurando… e, de repente, faz sentido.Eu deixei Vivian em casa mais tarde do que tinha planejado. O caminho até lá foi tranquilo, mas carregado de uma sensação diferente. A gente conversou, riu, falou de coisas leves, mas havia algo por baixo de tudo — uma consciência silenciosa de que aquilo não era mais só amizade.Quando parei o carro em frente à casa dela, o motor desligou, mas nenhum de nós fez menção de sair imediatamente.Ficamos ali.Em silêncio.Não um silêncio desconfortável, mas aquele tipo de pausa que parece cheia de coisas que ainda não foram ditas.— Boa noite — ela disse, por fim, virando levemente o rosto na minha direção.— Boa noite.Ela sorriu de leve, aquele sorriso tranquilo, mas aind

  • Uma Namorada para o Papai   Capítulo 39

    Eu não consegui pensar em mais nada depois daquela festa.A casa já estava em silêncio quando tudo terminou. O jardim, que horas antes estava cheio de vida, agora parecia só mais um espaço comum. Os balões ainda presos aqui e ali, algumas fitas soltas, copos esquecidos… vestígios de um dia feliz.Mas dentro de mim, nada estava calmo.Eu recolhia algumas coisas na cozinha sem realmente prestar atenção no que fazia. Meus movimentos eram automáticos, quase mecânicos, porque minha cabeça estava presa em outro lugar.Na cozinha.No beijo.Nela.Vivian.Parei por um instante, apoiando as mãos na bancada, soltando o ar devagar. Fechei os olhos por um segundo, como se isso fosse suficiente para afastar a lembrança.Não foi.O toque dela ainda parecia recente demais. A forma como ela não recuou. Como respondeu. Como… ficou.Passei a mão pelo rosto, tentando me recompor.Antes de qualquer coisa, fui até o quarto da Lívia. Como sempre. Empurrei a porta devagar, encontrando ela dormindo profundam

  • Uma Namorada para o Papai   Capítulo 38

    VIVIANEu encarei o celular por tempo demais.A tela apagava.Eu ligava de novo.Desbloqueava.Abri a conversa.Nenhuma mensagem.Nada novo.Fechava.Bloqueava a tela outra vez.E repetia tudo de novo, como se, em algum momento, alguma coisa fosse mudar por pura insistência.Soltei um suspiro longo, deixando o corpo afundar mais no sofá.— Isso já tá ficando ridículo… — murmurei.Mas não parei.Porque, por mais que eu tentasse manter a postura, agir como uma adulta resolvida, segura, independente…Não estava funcionando.Já fazia dias.Dias desde a última vez que eu tinha visto Gustavo.Dias desde aquela conversa que abriu uma porta que eu levei anos tentando manter fechada.E, desde então…Silêncio.Nenhuma mensagem.Nenhuma ligação.Nenhum sinal.Nada.E eu não sabia o que fazer com isso.Se era um espaço necessário.Se era distância.Se era cuidado…Ou se era um jeito silencioso de dizer que talvez fosse melhor deixar aquilo onde estava.Passei a mão pelo rosto, frustrada, apoiando

Mais capítulos
Explore e leia bons romances gratuitamente
Acesso gratuito a um vasto número de bons romances no app GoodNovel. Baixe os livros que você gosta e leia em qualquer lugar e a qualquer hora.
Leia livros gratuitamente no app
ESCANEIE O CÓDIGO PARA LER NO APP
DMCA.com Protection Status