Compartir

Capítulo 4

last update Fecha de publicación: 2026-02-09 18:47:50

Depois de sonhar tão nitidamente com Letícia, acordei sobressaltado, com o coração acelerado e a respiração curta, como se tivesse acabado de emergir debaixo d’água. Demorei alguns segundos para entender onde estava. O quarto ainda estava escuro, silencioso demais, e por um instante tive a sensação cruel de que nada tinha mudado, de que ela ainda deveria estar ao meu lado.

Mas não estava.

Passei a mão pelo rosto, esfregando os olhos, tentando afastar aquela sensação incômoda que sempre vinha depois desses sonhos. Eles eram traiçoeiros. Não vinham com frequência, mas quando apareciam, pareciam reais demais, detalhados demais. O sorriso de Letícia, a forma como me chamava pelo nome, o jeito como estendia a mão… tudo parecia palpável.

Não consegui voltar a dormir.

Levantei devagar, calçando as pantufas, e saí do quarto com cuidado para não fazer barulho. Antes de qualquer coisa, fui até o quarto de Lívia. A porta estava entreaberta, e a luz fraca do abajur deixava o ambiente em um tom aconchegante. Ela dormia profundamente, abraçada ao coelho de pelúcia, com a boquinha levemente aberta e o peito subindo e descendo num ritmo tranquilo.

Fiquei ali parado por alguns segundos, observando. Sempre ficava.

Era nesses momentos que eu tinha certeza de que, apesar de tudo, estava fazendo algo certo. Lívia era a minha âncora. A razão pela qual eu levantava todos os dias, mesmo quando o cansaço parecia maior do que eu.

Fechei a porta com cuidado e segui para o escritório. O ambiente tinha cheiro de papel, tinta de impressão e café velho. Sentei-me diante da pilha de originais que precisava avaliar, peguei o primeiro manuscrito e li rapidamente as anotações de Lilian presas à capa. Suspirei antes de começar a leitura.

As palavras avançavam, o enredo se desenrolava, mas minha mente insistia em vagar. Parte de mim ainda estava presa ao sonho, outra parte… em Vivian. No reencontro inesperado. No olhar surpreso. No silêncio desconfortável entre duas pessoas que já dividiram tudo, menos aquilo que realmente importava.

— Bom dia, papai!

A voz animada me tirou do assassinato fictício que acontecia no livro.

— Bom dia, meu anjinho — respondi, fechando o manuscrito e sorrindo.

Lívia apareceu à porta, ainda de pijama, o cabelo bagunçado e os olhos brilhando de energia, como se não existisse cansaço no mundo.

— O que você tá fazendo?

— Eu estava lendo um livro muito bom que uma moça mandou para a editora onde o papai trabalha.

— Eu também quero ler!

— Primeiro você precisa aprender a ler direitinho — expliquei com paciência. — Depois crescer um pouco mais.

— Não é livro de criança?

— Esse aqui é de adulto. Mas, se você quiser, posso comprar livros de criança pra você.

— Aí a gente pode ler antes de dormir? — perguntou, já animada.

— Pode sim.

— Promete?

— Prometo.

Ela sorriu satisfeita, como se tivesse acabado de ganhar o melhor acordo do mundo.

— Agora vem — falei, levantando. — Que tal um café da manhã especial?

— Panquecas? — pediu, juntando as mãozinhas. — Por favorzinho!

— Você sabe que com essa carinha eu não resisto — respondi, apertando suas bochechas.

Enquanto eu preparava a massa, ouvimos a porta de entrada se abrir. Tânia tinha chegado. Lívia saiu em disparada pela casa, tentando pegá-la de surpresa, e logo a cozinha se encheu de risadas. Minha filha começou a rodopiar pelo ambiente, demonstrando, com orgulho exagerado, os passos que tinha aprendido no balé.

— Tatá, sabia que a tia Vivian é amiga do meu pai?

Levantei os olhos na mesma hora.

— Ah, é? — Tânia fingiu surpresa, mas eu conhecia bem aquele sorriso.

— Siim! E ela é muito bonita, né, pai?

— Boneca, por que você não vai se arrumar para o colégio enquanto preparo as panquecas? — tentei mudar de assunto.

— Tá bom, papai!

Assim que Lívia saiu da cozinha, senti o peso do olhar de Tânia sobre mim. Ela me conhecia desde garoto. Conhecia minhas histórias, meus silêncios… e minhas antigas paixões.

— A Vivian está mesmo de volta à cidade?

— Está — respondi. — E vai ser a professora de balé da Lívia.

— E como você está se sentindo com isso?

Parei de mexer a massa e me virei para ela, apoiando as mãos na pia.

— Estranho. Surreal. Um pouco desconfortável — admiti. — Não era algo que eu esperava.

— Mas mexeu com você, né?

Suspirei.

— É inevitável que mexa. Ela fez parte da minha vida por muito tempo.

— E vocês conversaram?

— O básico. Sobre o balé. Nada além disso.

Tânia assentiu, compreensiva.

— Você sabe que pode conversar comigo sobre isso.

— Eu sei. Obrigado.

Lívia voltou vestida com o uniforme e puxou Tânia pela mão, pedindo ajuda com o cabelo. Observei as duas saindo do cômodo e, por um instante, a ausência de Letícia voltou a doer. Ela teria amado essas manhãs, esses detalhes simples.

Quando voltaram, Lívia estava linda. Parte do cabelo solto, uma trança delicada na lateral.

— O que achou, papai?

— Está linda.

— Viu? A Tatá sabe fazer penteados legais!

Tomamos café juntos e, pouco depois, seguimos para a escola. No carro, Lívia cantarolava Frozen até o celular vibrar no painel.

— Papai, é a vovó!

— Atende pra mim, diz que estou dirigindo.

Entreguei o celular para ela, que deslizou o dedo com toda a seriedade que só uma criança pode ter.

— Oi, vovó! — disse animada. — O papai tá dirigindo, mas eu tô aqui!

Sorri, ouvindo apenas metade da conversa.

— Aham… eu tô indo pra escola… — fez uma pausa. — Sério? — os olhos dela se arregalaram. — Não vou contar, prometo!

Meu coração deu um leve salto.

— Papai, ela disse que é segredo — sussurrou, cobrindo o microfone com a mão.

— Então é segredo — respondi, piscando.

Pouco depois, estacionei em frente à escola. Dei um beijo em Lívia, observei-a correr até as amiguinhas e fiquei alguns segundos parado no carro, respirando fundo. Então retornei a ligação da minha mãe.

— Oi, mãe.

— Meu filho! — a voz dela veio carregada de carinho e alívio. — Ainda bem que você me retornou.

— Deixei a Lívia na escola agora há pouco.

— Ela atendeu o telefone toda animada — comentou, rindo. — Aquela menina é a coisa mais doce da minha vida.

Sorri automaticamente.

— Ela estava empolgada hoje.

— Gustavo… — o tom dela mudou, mais cuidadoso. — Seu pai e eu queríamos saber se podemos ir para sua casa alguns dias antes do aniversário dela.

— Claro que podem. Vocês nunca precisam pedir permissão — respondi, sincero.

— Eu sei, mas é que não queremos atrapalhar sua rotina.

— A presença de vocês nunca atrapalha — garanti. — A Lívia vai amar ter os avós por perto.

— Só não conte nada a ela, queremos fazer surpresa.

— Prometo manter segredo — disse, lembrando da conversa no carro e entendendo, finalmente, o entusiasmo da minha filha.

Continúa leyendo este libro gratis
Escanea el código para descargar la App

Último capítulo

  • Uma Namorada para o Papai   Capítulo final

    O dia começou diferente.Não tinha nada de extraordinário acontecendo do lado de fora — a mesma luz atravessando as cortinas, o mesmo silêncio antes da casa acordar de vez, o mesmo cheiro de café que, de algum jeito, sempre parecia mais forte nas manhãs mais importantes.Mas, por dentro…Alguma coisa tinha mudado.Eu acordei antes do despertador. Fiquei alguns segundos encarando o teto, com as mãos apoiadas no peito, sentindo o próprio coração bater mais rápido do que o normal.Não era ansiedade ruim.Era expectativa.Daquelas que a gente tenta ignorar, mas não consegue.Passei a mão pelo rosto, respirei fundo e me levantei.A casa ainda estava silenciosa, do jeito que eu gostava — aquele intervalo curto entre a calmaria e o caos que sempre vinha com a Lívia acordando.Caminhei pelo corredor, ainda meio sonolento, até a cozinha.E antes mesmo de entrar, eu soube.Ela já estava lá.Vivian.Encostada na bancada, com uma xícara de café nas mãos, olhando pela janela como se estivesse perd

  • Uma Namorada para o Papai   Capítulo EXTRA

    LÍVIAEu gosto quando a tia Vivian vem aqui em casa. Tipo… muito mesmo. Porque antes era só eu e o papai. Às vezes a vovó e a tia aparecem, mas elas são tipo… visita. A tia Vivi já não é mais visita. Ela chega e fica, senta no sofá e ri com a gente. Ela também me ajuda na lição e as vezes briga comigo quando faço bagunça.E me chama de bailarina.E faz coisas de gente que fica.Eu gosto disso.No começo eu achei meio estranho.Porque ela falava comigo assim, toda certinha.— Oi, Lívia.— Tudo bem, Lívia?Como se eu fosse importante.Mas eu sou importante.Só que ninguém fala assim comigo.Aí eu fiquei só olhando ela.Porque eu gosto de observar.Eu não falo nada, mas eu fico vendo.Meu pai acha que eu não vejo as coisas.Mas eu vejo tudo.Eu vi que ela ficava nervosa.Eu vi que ela olhava pro papai diferente.Eu vi que o papai também olhava diferente.E eu pensei: hmmmm.Tem coisa aí.Agora não tem mais isso.Agora é normal.Agora quando ela chega, eu só falo:— Oi, Vivian!E abraço e

  • Uma Namorada para o Papai   Capítulo 41

    VIVIANAlguns meses depois…Se alguém tivesse me contado, lá atrás, que a minha vida estaria assim, eu provavelmente teria rido. Não por desacreditar completamente, mas porque parecia improvável demais. Distante. Como uma daquelas histórias que funcionam melhor na teoria do que na vida real.E, ainda assim… Ali estava eu. Vivendo exatamente isso.Sentada no sofá da sala do Gustavo, com as pernas dobradas sob o corpo, um balde de pipoca apoiado no colo e um desenho animado passando na televisão — alto, colorido, caótico.E, surpreendentemente…Perfeito.— Vivian, presta atenção! — Lívia reclamou, indignada.Eu ri, pegando mais um punhado de pipoca.— Eu tô prestando!— Não tá não!— Tô sim!Ela cruzou os braços, me encarando com aquela expressão dramática que parecia grande demais pro tamanho dela.— Você perdeu a melhor parte!— Então me explica.Foi o suficiente.O rosto dela se iluminou na mesma hora.— Tá! Então… — começou, se ajeitando no sofá, completamente animada.E lá foi ela.

  • Uma Namorada para o Papai   Capítulo 40

    Depois daquele jantar… alguma coisa finalmente se encaixou.Não foi um encaixe perfeito, desses que parecem planejados, como se cada peça tivesse sido colocada exatamente no lugar certo. Foi mais sutil do que isso. Mais real. Como quando você encontra algo que nem sabia que estava procurando… e, de repente, faz sentido.Eu deixei Vivian em casa mais tarde do que tinha planejado. O caminho até lá foi tranquilo, mas carregado de uma sensação diferente. A gente conversou, riu, falou de coisas leves, mas havia algo por baixo de tudo — uma consciência silenciosa de que aquilo não era mais só amizade.Quando parei o carro em frente à casa dela, o motor desligou, mas nenhum de nós fez menção de sair imediatamente.Ficamos ali.Em silêncio.Não um silêncio desconfortável, mas aquele tipo de pausa que parece cheia de coisas que ainda não foram ditas.— Boa noite — ela disse, por fim, virando levemente o rosto na minha direção.— Boa noite.Ela sorriu de leve, aquele sorriso tranquilo, mas aind

  • Uma Namorada para o Papai   Capítulo 39

    Eu não consegui pensar em mais nada depois daquela festa.A casa já estava em silêncio quando tudo terminou. O jardim, que horas antes estava cheio de vida, agora parecia só mais um espaço comum. Os balões ainda presos aqui e ali, algumas fitas soltas, copos esquecidos… vestígios de um dia feliz.Mas dentro de mim, nada estava calmo.Eu recolhia algumas coisas na cozinha sem realmente prestar atenção no que fazia. Meus movimentos eram automáticos, quase mecânicos, porque minha cabeça estava presa em outro lugar.Na cozinha.No beijo.Nela.Vivian.Parei por um instante, apoiando as mãos na bancada, soltando o ar devagar. Fechei os olhos por um segundo, como se isso fosse suficiente para afastar a lembrança.Não foi.O toque dela ainda parecia recente demais. A forma como ela não recuou. Como respondeu. Como… ficou.Passei a mão pelo rosto, tentando me recompor.Antes de qualquer coisa, fui até o quarto da Lívia. Como sempre. Empurrei a porta devagar, encontrando ela dormindo profundam

  • Uma Namorada para o Papai   Capítulo 38

    VIVIANEu encarei o celular por tempo demais.A tela apagava.Eu ligava de novo.Desbloqueava.Abri a conversa.Nenhuma mensagem.Nada novo.Fechava.Bloqueava a tela outra vez.E repetia tudo de novo, como se, em algum momento, alguma coisa fosse mudar por pura insistência.Soltei um suspiro longo, deixando o corpo afundar mais no sofá.— Isso já tá ficando ridículo… — murmurei.Mas não parei.Porque, por mais que eu tentasse manter a postura, agir como uma adulta resolvida, segura, independente…Não estava funcionando.Já fazia dias.Dias desde a última vez que eu tinha visto Gustavo.Dias desde aquela conversa que abriu uma porta que eu levei anos tentando manter fechada.E, desde então…Silêncio.Nenhuma mensagem.Nenhuma ligação.Nenhum sinal.Nada.E eu não sabia o que fazer com isso.Se era um espaço necessário.Se era distância.Se era cuidado…Ou se era um jeito silencioso de dizer que talvez fosse melhor deixar aquilo onde estava.Passei a mão pelo rosto, frustrada, apoiando

Más capítulos
Explora y lee buenas novelas gratis
Acceso gratuito a una gran cantidad de buenas novelas en la app GoodNovel. Descarga los libros que te gusten y léelos donde y cuando quieras.
Lee libros gratis en la app
ESCANEA EL CÓDIGO PARA LEER EN LA APP
DMCA.com Protection Status