MasukBati na porta, abri e entrei.
Susan foi uma das primeiras funcionárias da empresa.
— Senhora Whitmore.
— Apenas Lucy, Susan, por favor.
— Sim, senhora.
Entreguei a ela minha carta de demissão. Vi seus olhos se arregalarem assim que baixou o olhar para o papel.
— Senhora, pense melhor. Eu preciso falar com o...
— Sou uma funcionária como qualquer outra, Susan. Faça o que deve ser feito. Não cumprirei aviso, pois acredito que a empresa não precise de mim. Pode descontar da rescisão.
Ela balançou a cabeça, ainda sem acreditar.
— Como pode ser isso, senhora? Tem muito suor da senhora aqui. Eu vi.
Sorri sem graça.
— É... muitas noites sem dormir. Mas as coisas mudam.
Ainda sentia o peito doer.
Saí da empresa e fui visitar minha mãe. Não disse nada a ela. Fazia pouco tempo que havia deixado o Kansas para morar em Nova York.
Passei o dia ao seu lado. Rimos, tomamos chá e eu a ajudei com o jardim. Quando cheguei em casa, no fim da tarde, havia um pacote sobre a mesa de centro.
Tinha meu nome.
Abri a embalagem e encontrei uma caixa de veludo azul.
Quando a abri, encontrei outra pulseira.
Não consegui conter o riso.
Não era alegria.
Era quase cômico.
Fechei a caixa, subi para o quarto, abri a gaveta da cômoda e coloquei a pulseira ao lado da outra.
Pareciam irmãs gêmeas.
Quando as luzes da rua começaram a se acender, Carl chegou.
Olhei para o relógio.
Eu terminava de colocar a mesa.
— Oi. — disse ele, deixando as chaves sobre o aparador.
— Oi. — respondi, levando a travessa de carne para a mesa.
— Vou tomar um banho rápido.
Não respondi.
Poucos minutos depois, ele voltou. Sentou-se à mesa e eu me acomodei do lado oposto.
— Lucy...
— Susan falou comigo.
Ele permaneceu em silêncio por um instante.
— Está decidido, Carl. A empresa não precisa de mim.
— Eu não disse isso. Só falei que você não precisa ir trabalhar. Você gosta de pintar. Pode se dedicar a isso...
Respirei fundo.
— Eu estudei para isso, Carl. Eu me formei para isso.
Minha voz ficou embargada. Doía tanto que eu não consegui terminar a frase. Não queria chorar na frente dele.
— Não vou mais incomodá-lo na empresa.
Mexi a comida de um lado para o outro no prato.
Carl abaixou os olhos, levou uma garfada à boca e murmurou:
— Está muito bom.
— Obrigada.
Ele voltou a me olhar.
— Você recebeu...
— Sim. Não precisa gastar com essas coisas.
— Não são "essas coisas". Você é minha mulher. É um presente.
Fez uma pequena pausa.
— Estive pensando... não saímos para comemorar nosso aniversário de casamento, mas seu aniversário está chegando. Podemos fazer uma festa, chamar nossos amigos... talvez seus colegas mais próximos da empresa.
— Não.
Minha resposta saiu imediata.
Carl deixou o guardanapo sobre a mesa.
— Estou tentando, Lucy. Mas você torna as coisas difíceis.
Olhei para ele por alguns segundos antes de responder.
— Não quero uma festa, Carl. Só isso. Se você quiser sair para jantar, podemos ir. Mas eu não quero ter que ver as pessoas olhando para mim com pena. Eu não preciso disso.
Levantei-me, recolhi meu prato e o deixei sobre a pia e subi.
Quando Carl entrou no quarto, encontrei seus olhos pelo reflexo do espelho.
Eu escovava os cabelos.
Ele entrou no banheiro e logo voltou. Quando me levantei, senti sua mão tocar meu ombro. Seus dedos deslizaram devagar até meu pescoço, apertando-o de leve. Seu hálito fresco roçou minha pele enquanto mordiscava minha orelha.
— Estou sentindo falta da minha doce Lucy.
As mãos grandes envolveram minha cintura. Senti quando desfez o nó do meu robe. O tecido de cetim deslizou lentamente pelos meus ombros. Ele soltou um leve riso.
— Você fica tão linda quando está emburrada.
Segurou meu rosto entre as mãos e me beijou.
Beijou como fazia antes.
Como me beijava quando eu ainda acreditava que ele me amava.
Naquela noite, Carl foi ainda mais atencioso. Parecia querer compensar tudo o que havia acontecido, como sempre fazia. Meu corpo estava ali, entre seus braços, mas minha mente vagava. Eu tentava trazê-la de volta para aquele momento, porém ela insistia em retornar aos últimos acontecimentos, às palavras que ele havia dito, ao projeto, à empresa.
Pela primeira vez, precisei fingir que tudo estava bem.
Permaneci em silêncio, esperando que aquele momento terminasse.
Quando ele me abraçou com força e descansou o rosto em meu pescoço e eu ouvi seu gemido rouco, minhas mãos percorreram suas costas quase por instinto, repetindo um gesto que durante anos havia sido natural.
Eu ainda o desejava.
Talvez fosse justamente isso que mais doesse.
Porque, apesar de ainda amar Carl, uma parte de mim já não conseguia acreditar que aquele carinho fosse suficiente para consertar o que estava quebrado entre nós.
Depois permaneceu em silêncio, eu em seus braços. podia ouvir seu coração acelerado e, sentindo o calor do seu corpo, acabei adormecendo. Estava exausta.
Carl acordou cedo. Sorriu ao me ver em seus braços e saiu da cama com cuidado para não me acordar. Se arrumou, preparou o café e deixou a cafeteira ligada antes de sair.
Quando chegou à empresa, encontrou Olivia. Ela caminhou apressada em sua direção, os saltos ecoando pelo piso de mármore.
— Carl, eu soube agora. Eu sinto muito. Não queria causar problemas entre você e sua esposa. Talvez eu devesse conversar com ela. Estou à disposição. Adoraria trabalhar com a Lucy.
Carl permaneceu em silêncio por alguns segundos.
— Lucy sempre foi muito competitiva e...
Parou no meio da frase.
A imagem dela trabalhando até tarde na sala, os fins de semana diante do computador e as madrugadas dedicadas ao projeto passaram rapidamente por sua mente.
Pela primeira vez, sentiu um leve peso na consciência.
Respirou fundo.
— Apenas deixe-a. Vai passar.
Entrou no elevador.
Quando as portas se abriram no andar de sua sala, encontrou Will esperando por ele. O amigo permanecia encostado na mesa da secretária, segurando uma folha de papel.
— Bom dia para você também, Will. O que foi desta vez? — perguntou Carl enquanto passava por ele.
Sem responder, Will entrou logo atrás.
Assim que Carl chegou à mesa, Will colocou o documento diante dele.
— Me explique isso.
Carl baixou os olhos.
Era o pedido de demissão de Lucy.
Tirou o paletó e o pendurou calmamente.
— Ela não quer ficar. O que eu posso fazer?
Will o encarou incrédulo.
— Ela não quer ficar? E por que será, Carl Whitmore?
— A empresa está indo muito bem. Em apenas dois anos já temos duas filiais. Lucy não precisa mais trabalhar.
— Quem tinha que decidir isso era ela.
Carl levantou os olhos.
— E foi exatamente isso que ela fez. Eu não a demiti. Ela pediu demissão. Nem sequer conversou comigo antes.
Will soltou uma breve risada, sem qualquer humor.
— E você aceitou.
Carl deu de ombros.
— Eu ofereci que ela continuasse como assistente da Olivia. Poderia continuar trabalhando no próprio projeto, mas ela recusou.
Will passou a mão pelo rosto num gesto cansado.
— Você realmente não consegue enxergar, não é?
Carl franziu a testa.
— Enxergar o quê?
— Você tira dela aquilo que ela conquistou, depois tenta compensar e ainda acredita que está sendo generoso.
O silêncio tomou conta da sala.
Então Will voltou a falar.
— Você sabe o que significa o cargo de assistente dentro de uma empresa, Carl?
— Claro que sei.
— Então me diga.
Carl respondeu sem pensar.
— É um faz-tudo. Quando você não sabe onde colocar alguém, transforma essa pessoa em assistente.
Will permaneceu olhando para ele.
Depois balançou a cabeça lentamente.
— Exatamente.
Carl ficou estarrecido com a revelação de Lucy. Era verdade que havia feito todas aquelas coisas, mas não era verdade que não tivesse dado pela falta dela. Naquele dia, parara para ajudar Olivia, que havia machucado o pé. Bem, agora já nem sabia se ela realmente havia se machucado. Já não sabia o que pensar.Quando ajudou Olivia a se sentar no banco e levantou os olhos, viu Lucy indo embora sozinha, molhada pela garoa que caía. Ele a viu. Ela não disse nada, apenas foi embora.Deveria ter corrido atrás dela, mas achou que poderiam conversar depois. Quando explicasse o que havia acontecido, Lucy entenderia. Quando a raiva, ou fosse lá o que ela estivesse sentindo, passasse, seria mais fácil conversar.Mas Lucy não estava em casa, e ele só descobriu isso no final do dia seguinte. O próprio Will considerara aquilo um absurdo.Onde ela estivera durante todo aquele tempo? Carl se fazia essa pergunta agora.— Onde você esteve naquele dia? Eu dei pela sua falta, sim, Lucy. Eu ia até você, ma
Os dois saíram de casa sem dizer nada. John abriu a porta do carro para Lucy e esperou que ela se acomodasse antes de dar a volta e assumir o volante. Assim que ele deu a partida, Lucy desbloqueou o celular e ligou para Carl.Ele estava tomando café quando o telefone tocou. Ao ver o nome dela na tela, atendeu imediatamente.— Lucy?— Encontre-me daqui a vinte minutos na empresa.— Estou indo agora.Carl deixou a xícara sobre a mesa, levantou-se e saiu apressadamente. Não queria correr o risco de fazê-la esperar.Chegou à empresa antes dela. Olhou para a entrada, mas Lucy ainda não havia aparecido.Enquanto isso, John dirigia mais devagar do que de costume. Lucy percebeu a diferença. Era como se ele não quisesse levá-la até lá, como se desejasse prolongar um pouco mais o caminho. Ela não comentou nada, apenas o observou discretamente.Quando finalmente pararam diante do edifício Whitmore, Lucy levou a mão ao cinto de segurança, preparando-se para soltá-lo. Nesse momento, John tocou sua
Carl permaneceu alguns instantes olhando para o celular, sem acreditar que Lucy havia desligado. Tentou ligar novamente, mas ela não atendeu. Fez outra tentativa, esperando enquanto o telefone chamava, até que a ligação caiu.— Droga, Lucy! — murmurou, passando a mão pelos cabelos.Saiu de perto do carro e começou a andar pelo estacionamento, de um lado para o outro. Parava, olhava para o telefone e voltava a caminhar. Não conseguia aceitar que, depois de tudo o que acontecera naquele dia, Lucy simplesmente tivesse encerrado a conversa.Ela estava viva. Era sua esposa. E, mesmo assim, ele não sabia onde ela estava, nem se voltaria a atender suas ligações.Enquanto isso, no bar, Lucy guardou o celular e voltou a atenção para Jessi, que a observava discretamente.— Está tudo bem? — perguntou a amiga, em voz baixa.Lucy assentiu.— Está. Depois conversamos.Jessi não insistiu. Quando John e David retornaram com as bebidas, as duas já conversavam normalmente. John colocou os copos sobre a
Carl permaneceu perdido em seus pensamentos, repassando tudo o que havia acontecido naquele dia. Eram muitos acontecimentos: seu ex-funcionário querendo se jogar de um prédio, Lucy aparecendo viva e ele finalmente enxergando uma Olivia que, durante tanto tempo, se recusara a ver.Puxou o notebook que estava sobre a mesa de centro e conectou o pendrive. Mais uma vez, assistiu àquelas imagens: Olivia rasgando a própria roupa, desarrumando os cabelos e fazendo a ligação.Carl fechou os olhos. Era como se tivesse voltado no tempo.Lembrava-se de atender ao telefone e encontrar os olhos de Lucy fixos nele. Enquanto conversava com Olivia, ela simplesmente o observava, indiferente. Quando anunciou que precisaria sair, não viu surpresa em seus olhos. Era como se Lucy já soubesse que ele faria aquilo.E ele fez.Naquele momento, ela já não confiava nele. Já estava desistindo dele. Não reclamou, não pediu que ficasse, e Carl foi embora sem olhar para trás, acreditando que ela finalmente estava
Começava a escurecer quando John e Lucy deixaram a casa e entraram no carro. No caminho, Lucy ligou para Jessi, que já estava em seu apartamento. Animada com o convite, a amiga correu para o quarto para se arrumar.— Ah, Jessi, um amigo de John também vai jantar conosco — avisou Lucy.— Então preciso caprichar! Se ele for bonito como o capitão...Lucy riu e olhou para John. A ligação estava no viva-voz, e ele também ouviu o comentário, soltando uma risada.— Vamos, deixe de ser assanhada! É apenas um jantar — brincou Lucy.— Nunca se sabe. Pode ser o amor da minha vida! — respondeu Jessi, rindo.Depois de combinarem que passariam para buscá-la, Lucy desligou. Seguiram até o hotel onde David estava hospedado e pararam para que ele entrasse no carro.Quando David se aproximou, Lucy abriu a porta e saiu.— Pode ir na frente. Vou sentar atrás para fazer companhia à Jessi.— Não precisa, Lucy. Posso ir atrás — respondeu David.— Eu prefiro. Assim vocês dois vão na frente, e eu fico com ela
Carl continuou olhando para a tela, tomado por uma sensação estranha.Era a ligação que o fizera abandonar Lucy no dia do aniversário dela.Recostou-se lentamente na cadeira, sem desviar os olhos do computador. Pela primeira vez, estava vendo com os próprios olhos o que Olivia havia feito naquela noite.Ela não havia sido assaltada. Havia preparado tudo.Carl voltou o vídeo e assistiu novamente, sem conseguir acreditar no que estava vendo. Não por Olivia, mas por ele mesmo, por ter sido enganado com tanta facilidade. Nunca acreditara que Olivia fosse uma santa, mas não esperava que ela fosse capaz de chegar tão longe.Quando viu as fotografias nas redes sociais e descobriu que Olivia havia pegado o projeto de Lucy e o inscrito naquele concurso, já não conseguia olhar para ela da mesma maneira. Ainda assim, relevou, tentando convencer a si mesmo de que ela era apenas jovem e impulsiva. Às vezes, chegou a encarar aquelas atitudes como ciúmes de Lucy.Olivia se sentia inferior porque Luc







