LOGINNa manhã seguinte, Ashley acordou com um misto de ansiedade e expectativa. A discussão com sua mãe ainda reverberava em sua mente, mas o tempo que passou com Eleonora havia sido como uma pausa, um intervalo de calma no meio do caos. Havia algo naquela garota que a fazia sentir um pouco mais ancorada, embora também fosse intrigante. Eleonora era um enigma que Ashley não conseguia decifrar completamente, e talvez isso fosse parte da atração.
Enquanto se preparava para ir à escola, Ashley decidiu que hoje seria um dia diferente. Ela precisava encontrar uma maneira de se adaptar à nova realidade, tanto na escola quanto em casa. Talvez, se desse uma chance real a tudo aquilo, as coisas começassem a se encaixar.
Chegando à escola, Ashley notou que Eleonora já estava esperando por ela no portão, como se soubesse exatamente quando ela iria aparecer. Isso não a surpreendeu mais. Era quase como se Eleonora estivesse sempre à espreita, pronta para surgir do nada, com aquele sorriso inabalável e aquele olhar intenso que parecia ver mais do que Ashley queria mostrar.
— Bom dia, ruivinha, — disse Eleonora, inclinando — se contra o portão com as mãos nos bolsos. — Dormiu bem?
Ashley revirou os olhos ao apelido, mas o sorriso que apareceu em seu rosto entregava que ela não se importava tanto assim.
— Mais ou menos. Mas acho que estou começando a me acostumar com isso aqui.
— Isso é um começo, — Eleonora respondeu, piscando para ela. — Vamos lá. Vamos conquistar mais um dia.
Elas caminharam juntas para dentro da escola, e Ashley sentiu que, aos poucos, estava se integrando àquele novo ambiente. Não que fosse fácil, mas com Eleonora ao seu lado, as coisas pareciam menos avassaladoras.
Na primeira aula, sentaram-se juntas mais uma vez. A professora de história começou a falar sobre a Idade Média e o período de caça às bruxas, um tema que fez Ashley se interessar. Ela sempre gostou de histórias sobre o sobrenatural e o misterioso, algo que a conectava ao inexplicável. Enquanto a aula prosseguia, ela notou que Eleonora estava curiosamente atenta, quase como se tivesse um interesse pessoal no assunto.
— Você acredita nessas coisas? — Ashley sussurrou para Eleonora, quando a professora virou de costas para o quadro.
— Em bruxas? Em magia? — Eleonora deu um sorriso enigmático. — Digamos que o mundo é cheio de coisas que a maioria das pessoas prefere ignorar. —
Ashley ergueu as sobrancelhas, intrigada. — Você fala como se soubesse de algo que os outros não sabem. —
Eleonora riu baixinho. — Talvez eu saiba. Ou talvez eu só goste de deixar as pessoas curiosas. —
Aquela resposta só fez Ashley querer saber mais. Mas, antes que pudesse pressionar Eleonora, a professora pediu que todos voltassem a prestar atenção, e a conversa foi interrompida.
Durante o intervalo, as duas decidiram passar o tempo na biblioteca. Ashley precisava pegar alguns livros para um trabalho, e Eleonora parecia confortável em qualquer lugar. A biblioteca era grande, com estantes que pareciam infinitas e uma atmosfera tranquila, quase sagrada. Ashley sempre se sentiu em paz entre livros, e naquele momento, era como se o mundo lá fora pudesse esperar um pouco mais.
Enquanto procurava os livros de que precisava, Eleonora vagava pelas estantes com uma expressão pensativa. De vez em quando, ela pegava um livro, folheava algumas páginas e o colocava de volta, como se estivesse procurando algo específico.
— O que você está procurando? — Ashley perguntou, curiosa.
Eleonora olhou para ela por cima do ombro.
— Nada em particular. Só... lembrando de algumas coisas.
— Do quê?
— De quando a vida era... diferente, — Eleonora respondeu de forma vaga, o que apenas aumentou o mistério.
Ashley franziu a testa, tentando entender. — Você sempre fala de um jeito que me deixa mais confusa do que antes. —
Eleonora riu, aproximando — se de Ashley e colocando um dedo nos lábios dela de maneira brincalhona. — Então acho que estou fazendo um bom trabalho. —
A proximidade repentina fez o coração de Ashley disparar. Havia algo na maneira como Eleonora a tocava, como se fosse natural, mas ao mesmo tempo carregado de significados que Ashley ainda não compreendia. Elas ficaram ali, por um momento que pareceu mais longo do que deveria, até que Eleonora finalmente recuou com um sorriso, pegando o último livro que Ashley precisava.
— Vamos voltar antes que percebam que estamos sumidas, — disse Eleonora, e, juntas, as duas saíram da biblioteca.
O resto do dia transcorreu sem grandes incidentes, mas algo entre Ashley e Eleonora parecia estar mudando. A atração que Ashley sentia por Eleonora estava crescendo, mesmo que ela ainda tentasse ignorar ou racionalizar. Havia uma intensidade nos olhares que trocavam, na maneira como suas mãos se tocavam casualmente, que deixava claro que havia algo a mais ali. Talvez fosse o começo de algo que ambas ainda não estavam prontas para admitir.
Quando o último sino do dia tocou, Ashley e Eleonora saíram juntas da escola novamente. Eleonora insistiu em acompanhar Ashley até em casa, como havia feito no dia anterior, e Ashley não protestou. Havia uma segurança na presença de Eleonora, algo que ela começava a valorizar mais a cada dia.
Caminhando lado a lado, elas conversaram sobre trivialidades, desde os professores até os lugares interessantes na cidade que Ashley ainda não conhecia. Eleonora prometeu que a levaria para explorar esses lugares no fim de semana, uma ideia que fez Ashley se sentir animada pela primeira vez desde que havia se mudado.
Quando chegaram à casa de Ashley, pararam mais uma vez na frente da porta, como se nenhuma das duas quisesse que aquele momento terminasse.
— Obrigada por hoje, — Ashley disse, sorrindo timidamente. — Foi... legal.
— Foi sim, — Eleonora respondeu, inclinando — se um pouco mais perto de Ashley, o que fez seu coração disparar novamente.
— Eu disse que faria essa cidade parecer menos assustadora. —
Ashley riu, sentindo o nervosismo tomar conta. — Você está conseguindo. —
Eleonora a observou por um instante mais longo, como se estivesse considerando algo, mas então apenas sorriu, recuando alguns passos.
— Nos vemos amanhã, ruivinha. —
Ashley acenou, observando enquanto Eleonora se afastava mais uma vez, desaparecendo na esquina. Quando entrou em casa, sua mãe estava sentada no sofá, folheando uma revista. Havia uma tensão no ar, algo não resolvido desde a discussão da manhã anterior.
Ashley se preparou para o confronto, mas sua mãe foi a primeira a falar.
— Ashley, sobre ontem...
— Está tudo bem, — Ashley interrompeu, sentindo que não queria prolongar mais aquilo. — Eu só... precisamos nos adaptar, certo?
Sua mãe sorriu, um sorriso cansado, mas genuíno.
— Sim, querida. Estamos tentando.
Ashley assentiu, sentindo que, pelo menos por enquanto, as coisas estavam sob controle. Mas, à medida que subia as escadas para o quarto, seus pensamentos voltaram para Eleonora. A garota era um mistério que ela estava cada vez mais ansiosa para desvendar. E, de alguma forma, sentia que, ao fazer isso, acabaria descobrindo mais sobre si mesma do que jamais imaginara.
Os primeiros raios de sol pintavam o céu em tons de laranja e dourado, afastando os últimos vestígios da noite. Na varanda, Ashley e Eleonora ainda estavam lado a lado, compartilhando o calor uma da outra. O mundo parecia mais calmo, mais seguro — mas não menos cheio de possibilidades. Ashley, envolta em um cobertor, olhava para o horizonte. — Nunca pensei que chegaria a sentir isso de novo, Eleonora. Paz. Eleonora segurou a mão dela, apertando com leveza. — Você lutou por isso, Ashley. Foi sua coragem, sua força, que nos trouxe até aqui. Elas permaneceram em silêncio por um momento, deixando o som da natureza preencher o espaço. Então, Ashley sorriu. — Quero fazer mais, Eleonora. Não apenas para nós, mas para os outros. Ensinar, proteger... mostrar que podemos enfrentar o que vier, juntos. Eleonora arqueou uma sobrancelha, divertida. — Está planejando criar uma escola de bruxaria? Ashley riu. — Talvez. Não uma escola tradicional, mas algo que ajude outros a se conectarem com
O céu estava escuro, coberto por nuvens espessas que ameaçavam desabar a qualquer momento. Ashley e Eleonora voltaram para casa exaustas após o confronto. O fracasso em capturar Vincent pesava em seus ombros, mas a esperança ainda brilhava. Elas sabiam que precisavam se reerguer rapidamente. Ashley estava sentada no chão da sala, rodeada por livros antigos e anotações espalhadas por todos os lados. Eleonora observava em silêncio, preocupada com o cansaço evidente de sua namorada. — Você precisa descansar, Ashley, — disse Eleonora, ajoelhando — se ao lado dela. — Não podemos derrotar Vincent se você se destruir antes disso. Ashley balançou a cabeça. — Não posso parar agora. Ele está mais fraco, Eleonora. Estamos perto, eu sei disso. Eleonora segurou suas mãos, forçando Ashley a olhar para ela. — E se ele usar isso contra nós? Ele sabe que está mexendo com sua mente. É exatamente o que ele quer. Por um momento, Ashley hesitou. Eleonora tinha razão, mas a ideia de deixar Vincent es
A manhã seguinte nasceu cinzenta e carregada de tensão. Ashley mal havia dormido. As palavras de Vincent ainda ecoavam em sua mente. Ela sabia que o tempo estava se esgotando, e que ele não demoraria a atacar novamente. No entanto, agora havia um plano. Um plano que poderia ser a única chance de derrota-lo.Eleonora entrou na cozinha com passos firmes, trazendo mapas e anotações.— Revisei tudo mais uma vez. O bosque é o lugar ideal para atraí-lo. Há clareiras cercadas por árvores altas, perfeitas para isolar a energia dele e dificultar sua fuga.Ashley, que estava encostada no balcão, olhando para o vazio, finalmente ergueu os olhos.— É arriscado, Eleonora. E se ele nos emboscar antes que possamos ativar o feitiço?Eleonora sentou-se ao lado dela, seus olhos encontrando os de Ashley.— Então vamos virar o jogo. Ele espera que sejamos as presas. Mas nós seremos os predadores.As duas passaram o dia montando armadilhas no bosque. Eleonora usou sua força sobrenatural para mover pedras e
Ashley segurava o papel amassado com a mensagem de Vincent. Seus olhos percorriam a caligrafia intensa, quase agressiva. Uma ideia começou a se formar em sua mente enquanto analisava cada detalhe. Ela respirou fundo, sentindo uma mistura de excitação e preocupação. — Eleonora, e se a caligrafia dele contiver mais do que palavras? — perguntou Ashley, girando o papel entre os dedos. Eleonora, que estava sentada no sofá revisando mapas do bosque que elas planejavam usar como armadilha, levantou os olhos. — Como assim? — Vincent é poderoso, mas ele também é arrogante. A maneira como ele escreve... É como se ele estivesse canalizando energia para cada palavra. Talvez eu possa usar isso contra ele. Eleonora levantou — se, aproximando — se de Ashley. — Você acha que pode reverter a energia dele? Ashley assentiu. — Não tenho certeza absoluta, mas vale a tentativa. Ele deixou isso aqui como um recado, mas pode ser uma ligação direta com sua magia. Se eu conseguir decifrar... talvez poss
O amanhecer trouxe um clima de inquietação para Ashley. A conversa com sua mentora ainda ecoava em sua mente, e cada palavra parecia se misturar ao som do vento do lado de fora. Ela desceu para a cozinha, onde Eleonora já estava de pé, preparando café com uma serenidade que contrastava com o turbilhão de pensamentos de Ashley. Eleonora olhou para ela com um sorriso caloroso, mas rapidamente percebeu o semblante tenso da namorada. — Você não dormiu bem, não é? — Eleonora perguntou, colocando uma xícara de café na frente de Ashley. Ashley suspirou, passando os dedos pelos cabelos. — Não é isso... quer dizer, dormi, mas tive outro encontro com minha mentora. Eleonora arqueou as sobrancelhas e se sentou à mesa. — O que ela disse desta vez? Ashley contou tudo, desde o feitiço de contenção até os requisitos necessários para realiza-lo. Cada palavra fazia Eleonora se inclinar mais para frente, como se estivesse pronta para absorver cada detalhe. — Um lugar de poder, algo que pertence
Ashley estava no quarto, a luz fraca do abajur lançando sombras nas paredes. O livro de bruxaria estava aberto sobre a cama, suas páginas gastas exibindo diagramas intricados e palavras em uma língua que ela começava a entender. Papéis cobriam o chão ao redor, repletos de anotações e desenhos que ela fizera durante as horas exaustivas de estudo. Ela passou as mãos pelo rosto, exausta. Tentara de tudo: traduzir os textos mais antigos, combinar ingredientes para feitiços experimentais e até meditar, buscando respostas dentro de si mesma. Nada parecia suficiente. Vincent era uma força implacável, um predador à espreita, e o tempo estava se esgotando. — Por que isso é tão difícil? — murmurou, jogando a cabeça contra o travesseiro. Foi quando sentiu algo diferente. Um arrepio percorreu sua espinha, como se o ar ao seu redor tivesse mudado. A sensação era familiar, mas ainda assim a deixava inquieta. Ashley sentou-se, olhando ao redor do quarto. A princípio, tudo parecia normal, mas entã







