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Capitulo 7

Autor: Dzel
last update Data de publicação: 2026-08-11 11:10:28

O calor da mão de Marcos na minha cintura atravessava o tecido fino do meu vestido azul, anulando instantaneamente a brisa fria da madrugada naquela varanda. Meus pés pareciam cravados no piso de madeira. A razão, dentro da minha cabeça, gritava em desespero: lembra do teu CRM recém-tirado, lembra do teu pai acordando às cinco da manhã na oficina, lembra das fardas e das armas pesadas que guardavam as entradas deste morro. Mas o olhar dele, denso, faminto e completamente despido de qualquer máscara social, simplesmente paralisou todas as minhas defesas.

Ele diminuiu o último centímetro de distância entre nós com uma lentidão calculada, desenhada para me desarmar. Quando a boca dele tocou a minha, não foi uma aproximação hesitante ou curiosa; foi um reencontro inevitável, carregado da urgência que ficou acumulada desde a nossa noite na boate.

O beijo começou com uma sede contida, mas em questão de segundos virou um incêndio incontrolável. Marcos me puxou para mais perto, colando meu corpo ao dele de um jeito que não deixava espaço para dúvidas ou recuos. Minha mão, traindo qualquer intenção de manter o profissionalismo, subiu involuntariamente para o seu pescoço, entrelaçando os dedos na sua nuca, sentindo o calor firme da sua pele. O gosto dele, uma mistura marcante de café forte, o toque amargo do álcool, perigo e aquela intensidade crua, tomou conta de todos os meus sentidos. A sensação daquela dança na pista da boate voltou multiplicada por dez, porque agora eu não estava beijando um desconhecido atraente num bar sofisticado da Zona Sul. Eu sabia exatamente quem ele era, o poder que exercia e o peso absurdo do mundo que ele carregava nas costas.

Ele soltou um rosnado baixo contra meus lábios, intensificando o aperto na minha cintura e me pressionando suavemente contra o parapeito. Por alguns minutos que pareceram uma eternidade suspensa no tempo, o barulho distante da favela lá embaixo, o som abafado dos bailes, o ronco das motos nas vielas e o vento que batia no topo da comunidade ,simplesmente sumiu. Não existia mais o dono do morro, não existia a médica recém-formada e desempregada. Éramos apenas duas pessoas consumidas por uma atração avassaladora, perigosa e proibida.

Quando ele finalmente desacelerou o beijo, não me soltou. Encostou a testa na minha, mantendo nossos rostos a milímetros de distância. Nossas respirações estavam completamente descompassadas, cortando o silêncio do escritório.

— Você devia ter corrido de mim quando teve a chance, doutora... ele murmurou, a voz rouca roçando na minha pele, acompanhada daquele meio sorriso provocante que me irritava e me fascinava na mesma proporção.

— Agora é tarde demais.

As palavras dele caíram sobre mim como um balde de água gelada, desfazendo o transe em um estalo.

A realidade voltou com a força de um soco no estômago. Dei dois passos largos para trás de golpe, quebrando o contato das nossas mãos e do nosso corpo. Coloquei a mão sobre o peito, sentindo meu coração disparado, batendo contra as costelas como se quisesse fugir do meu corpo. O que diabos eu estava fazendo? Eu tinha acabado de beijar o homem mais perigoso daquela comunidade, o cara que controlava tudo ao redor, meu novo chefe e a pessoa que tinha um exército armado sob suas ordens.

— Não Marcos... falei, a voz falhando e saindo quase como um sussurro sufocado, enquanto eu passava as duas mãos pelos cabelos para tentar me recompor.

— Isso foi um erro. Um erro enorme.

O sorriso provocante de Marcos desapareceu instantaneamente, dando lugar a uma expressão séria, fria e calculista. Ele desencostou do parapeito, ajustou a postura e cruzou os braços, observando minha reação sem dar um único passo na minha direção, apenas me estudando.

— Um erro, Maria Júlia? ele perguntou, a voz descendo uma raiva, firme e pausada. — Pela forma como você me correspondeu e se entregou agora pouco, não me pareceu nem um pouco um engano.

— Eu sou sua funcionária, Marcos! rebati, aumentando o tom de voz na tentativa desajeitada de erguer um escudo profissional e disfarçar o pavor da minha própria vulnerabilidade.

— Eu vim aqui para trabalhar. Eu passei anos me matando de estudar para salvar vidas, para construir uma carreira limpa. Eu não posso... nós não podemos misturar as coisas dessa forma. Se meu pai descobre isso, se alguém do asfalto ou da polícia descobre que eu tenho qualquer tipo de intimidade com você...

— Ninguém neste morro me questiona, e ninguém lá fora encosta um dedo em você enquanto estiver sob o meu nome, ele interrompeu, usando uma autoridade tão natural e fria que me fez estremecer da cabeça aos pés.

— Mas se você quer fingir que o que aconteceu aqui foi só um lapso ou um momento de fraqueza, por mim tudo bem. Pode tentar enganar a si mesma o quanto quiser, doutora.

Ajustei a alça da minha bolsa no ombro com as mãos visivelmente trêmulas. O remorso, a vergonha e uma ressaca moral devastadora já começavam a me sufocar por dentro. Eu não podia me deixar levar pela aura de poder dele.

— Eu preciso ir para casa, disse, mantendo o queixo erguido a custo.

— Amanhã cedo eu começo meu primeiro turno oficial no posto de saúde e preciso estar com a cabeça no lugar.

Marcos me encarou por longos e torturantes segundos em silêncio. Ele parecia ler cada incerteza, cada medo e cada faísca de desejo que eu tentava esconder desesperadamente atrás da minha postura ereta. Por fim, ele não forçou a barra. Desencostou da mureta, caminhou até a mesa e pegou as chaves do carro.

— O Beto vai te levar até a porta da sua casa no subúrbio, ele disse, com a voz voltando ao tom estritamente controlado do empresário.

— E fique bem tranquila, Dra. Maria Júlia. Dentro daquele posto, você terá meu respeito absoluto e a estrutura necessária como médica. Não vou interferir no seu trabalho. Mas não espere que eu vá esquecer o gosto da sua boca ou a forma como você me olhou hoje.

Ele caminhou até a porta e a abriu para mim, fazendo um gesto cortês, porém carregado de domínio.

O trajeto de volta para o subúrbio no SUV blindado foi um tédio silencioso e torturante. O segurança no volante não deu uma única palavra, e eu passei todo o caminho encarando a janela, vendo as luzes da cidade grande darem lugar às ruas simples do meu bairro. Cheguei em casa perto das três da manhã, tirando os sapatos na entrada e pisando no chão frio para não acordar meus pais, que dormiam no quarto ao lado.

Deitei na minha cama ainda vestindo o vestido azul, encarando o teto no escuro absoluto. Minha pele parecia queimar exatamente nos pontos onde as mãos de Marcos tinham me tocado. A linha vermelha entre a ética e a tentação tinha sido irremediavelmente cruzada. E o pior de tudo não era o perigo que Marcos representava, era o pavor secreto de saber que, no fundo da minha alma, eu queria exatamente mais daquele incêndio

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