MasukA segunda-feira começou com aquele movimento bonito que enchia meu peito de orgulho. O novo anexo de funilaria e pintura parecia um coração pulsante nos fundos do galpão: os compressores modernos roncam baixo, o cheiro de tinta ecológica e metal limpo tomava o ar, e os quarenta alunos da nova turma dividiam-se entre as bancadas computadorizadas e os motores de teste.Eu estava no escritório do segundo andar, com a janela aberta para o pátio. Do meu ângulo, via o Marcos no centro de tudo, vestindo o macacão escuro com as mangas dobradas até os cotovelos. Ele explicava o manuseio da trena a laser para o Kauã, que absorvia cada instrução com os olhos brilhando. O garoto tinha um talento raro, uma precisão de quem aprendeu a respeitar a ferramenta.Foi por volta das dez da manhã que a atmosfera na travessa mudou.Eu estava descendo as escadas com a prancheta de frequência quando vi o Kauã travar no meio do pátio. O garoto segurava uma chave de fenda e, de repente, as mãos dele começaram a
O sábado amanheceu com aquele cheiro gostoso de rabanada e café recém-passado que invadia a casa toda. Do segundo andar, dava para ouvir o chiado macio da manteiga na frigideira e o som do rádio de pilha do meu pai tocando um chorinho antigo. Com as obras do anexo oficialmente concluídas e os equipamentos computadorizados acomodados no novo galpão de funilaria, o ar na nossa cozinha era de puro alívio e celebração.Sentamos todos ao redor da mesa redonda de madeira: eu, o Marcos, o meu pai e o pequeno Márcio Henrique, que já tentava alcançar a travessa de açúcar para melaço nos dedos antes da hora.— Sabe, pai... — comecei, rindo e limpando a bochecha do meu filho com o guardanapo —, ontem o pessoal da coordenação do posto de saúde me perguntou de onde veio essa minha força para a área de enfermagem e cuidar dos outros. Eu respondi orgulhosa que puxei a coragem do meu pai. Um homem que passou a vida inteira com a mão na graxa da oficina, mas que teve que virar parteiro de emergência n
A sexta-feira amanheceu com um céu limpo e aquele calor gostoso de fim de tarde antecipado que faz o Rio de Janeiro parecer mais vivo. Do segundo andar da nossa casa, o som que vinha dos fundos não era mais o estalo das picaretas na terra nem o ronco pesado da retroescavadeira, mas o bater ritmado das colheres de pedreiro arrematando os últimos retoques de massa nas colunas do novo anexo.Tirei o meu avental da cozinha, ajeitei o cabelo loiro num rabo de cavalo alto e desci para o pátio segurando uma prancheta com o cronograma de entrega do dia.Quando cheguei ao terreno dos fundos, parei por alguns segundos só para admirar o cenário. As paredes de tijolo baiano estavam completamente erguidas, com o contorno da grande porta de correr industrial já definido e a estrutura de ferro do telhado alto devidamente fixada. O mestre Tonho estava no topo de um andaime baixinho, passando a desempenadeira na última viga do teto.— Terminamos a alvenaria na risca do prazo, Dra. Maju! — gritou o vel
A segunda-feira despertou o bairro com aquela energia bonita de quem sabe para onde está indo. Depois do fim de semana restaurador em Penedo e do jantar abençoado em família no domingo, acordei antes do sol nascer. Olhei para o lado e vi o Marcos ainda dormindo sereno. Passei a mão suavemente pelos cabelos curtos dele e me levantei sem fazer barulho.Quando abri a janela da cozinha, o ar fresco da manhã trouxe o cheiro de café novo que o meu pai já tinha passado lá embaixo. Vesti minha calça jeans surrada, uma camiseta polo escura com a marca do *Sementes do Asfalto* e ajeitei meu cabelo loiro mel num rabo de cavalo prático. Quando desci as escadas, a oficina já estava operando na sua rotação máxima.No terreno dos fundos, o mestre Tonho e a equipe de pedreiros trabalhavam a todo vapor. As paredes de tijolo baiano do anexo de funilaria e pintura ecológica já tinham ultrapassado a altura dos ombros, e a estrutura de ferro para o novo telhado isolado começava a ser montada. O progresso
O cheiro de alho frito na manteiga de garrafa e o chiado do assado no forno tomavam conta de toda a cozinha do nosso apartamento. A viagem a Penedo tinha sido exatamente o remédio de que o Marcos e eu precisávamos, mas voltar para casa e sentir aquele calor familiar de domingo à noite tinha um sabor ainda mais especial.Chegamos do passeio no meio da tarde com a alma renovada, o corpo descansado e aquela cumplicidade gostosa estampada no olhar. Não deu nem uma hora e a porta da sala se abriu com o barulho alegre do meu pai e do Márcio Henrique voltando da viagem deles. O meu filho correu pelo corredor com um tratorzinho de plástico na mão e se jogou nos braços do Marcos, que o tirou do chão num abraço gigante, enchendo o rosto do moleque de beijos ruidosos.— Papai! A gente pescou no lago e o vovô deixou eu segurar a vara! — gritava o Márcio Henrique, rindo alto enquanto o Marcos o balançava no ar.— É mesmo, meu filho? E você pegou algum peixe grande ou só ficou tomando sorvete com o
Pela primeira vez em anos, o som do meu despertador no sábado de manhã não foi o roncado de um compressor de ar ou o barulho de ferramentas caindo no piso de concreto da oficina. Acordei devagar, sentindo a brisa suave da manhã entrar pela janela do quarto e o peso gostoso do braço do Marcos abraçando a minha cintura por baixo do lençol. A gente tinha combinado na noite anterior: o fim de semana seria só nosso. Nada de pranchetas do *Sementes do Asfalto*, nada de relatórios de obras do anexo, nada de reuniões com empresários ou problemas da travessa. O meu pai já estava curtindo o fim de semana com o Márcio Henrique na casa da minha tia na Região dos Lagos, e o Lucas com o Gabriel tinham ficado responsáveis por manter os portões do galpão trancados até segunda-feira. Virei de frente para o Marcos, observando o rosto do meu marido no silêncio da manhã. Sem a tensão do dia a dia estampada na testa, ele parecia até mais jovem. Passei a ponta dos dedos suavemente pelas mechas do cabelo







