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Capítulo 2

Autor: Dzel
last update Fecha de publicación: 2026-08-03 20:36:17

O som insuportável do alarme do celular parecia perfurar minha cabeça. Abri os olhos devagar, encarando o teto branco do meu quarto. Vinte e oito anos. Um diploma de Medicina novinho em folha, ainda cheirando a tinta e orgulho, e uma sensação sufocante de que o mundo tinha me vendido uma ilusão.

Minha mãe costumava dizer que o estudo era a única porta de saída para a nossa realidade. Meus pais nunca tiveram vida fácil; meu pai trabalhou a vida toda como mecânico, com as mãos manchadas de graxa e o lombo dolorido, enquanto minha mãe desdobrava-se em duas para fazer render o salário de costureira. Eles não podiam pagar uma faculdade particular. Cada livro caro que usei, cada jaleco que vesti, veio de noites em claro estudando para manter a bolsa de estudos de cem por cento. Eu não tinha direito de tirar nota baixa. Não tinha o luxo de vacilar.

E eu consegui. Formei-me. Mas o que ninguém te conta na formatura é o que vem no dia seguinte.

Há seis meses venho entregando currículos em todos os hospitais, clínicas e postos de saúde da Zona Sul e da Zona Norte. A resposta é sempre a mesma: "Procuramos alguém com mais experiência" ou simplesmente o silêncio. Sem ter quem me indicasse, sem o "Q.I." o famoso Quem Indica dos filhos de médicos renomados, o meu diploma parecia apenas um pedaço de papel bonito pendurado na parede de um apartamento pequeno no subúrbio. As contas não esperam a experiência chegar. A luz, o aluguel e a compra do mês continuavam batendo à porta.

Ontem à noite, a pressão parecia ter atingido o limite. Minha cabeça ia explodir se eu ficasse mais um minuto encarando a tela do notebook aberta no site de vagas. Foi quando Carlos um antigo professor mandou mensagem falando sobre uma oportunidade pra me oferecer, achei estranho que a conversa tivesse que acontecer numa balada. Mas sem questionar vesti o único vestido mais alinhado que tinha no armário, arrumei meus cabelos loiros em ondas e me deixei levar para aquela boate sofisticada na Zona Sul.

O lugar era um universo totalmente diferente do meu. Luzes baixas, champanhe fluindo, pessoas vestindo roupas que custavam o equivalente a seis meses do meu aluguel. Eu me sentia um peixe fora d'água, mas, depois do primeiro drink, relaxei. Decidi que aquela noite seria apenas para respirar.

-Maria Júlia? Carlos se aproximou me cumprimentando.

-Oi Carlos, tudo bem?

-Melhor agora linda, e você? e que papo estranho, ele nunca foi de me tratar com essa intimidade toda.

- tô bem, e a vaga de emprego?

-Eu tenho uma oportunidade muito boa, um emprego dos sonhos num hospital grande da zona sul.

-Que ótimo Carlos, e o que eu faço pra conseguir a vaga ?

-Sabe né Maria, nada nessa vida é de graça, uma noite comigo e eu consigo te colocar lá dentro.

Nessa hora meu estômago embrulhou, e eu fiquei com muito ódio, fui pra cima dele, quem ele pensa que é? Eu jamais me venderia por emprego nenhum.

Eu estava com muita raiva, fui até agressiva e eu nunca sou desse jeito e de repente Carlos tentou vim pra cima de mim, quando senti a atmosfera ao meu redor mudar.

Foi quando ele apareceu.

Um homem se aproximou. Ele não parecia com os caras fúteis que tentavam puxar assunto na pista. Usava um terno escuro impecável, sob medida, com uma postura tão imponente que parecia dono de cada centímetro daquele lugar. O tipo de homem que chama atenção sem dar um único pio.

Quando ele deu tomou minhas dores, e depois pediu um drink para mim e falou com aquela voz grave e aveludada, algo dentro de mim despertou. Ele me olhou de um jeito direto, como se estivesse me lendo por inteiro. Não sabia quem ele era, qual era o seu nome ou o que fazia da vida. E, sinceramente? Essa ignorância foi libertadora. Para ele, eu não era a médica recém-formada desempregada e cheia de dívidas; eu era apenas uma mulher intrigante em um bar.

A química não foi gradual; foi um estalo, um incêndio instantâneo.

Quando ele me puxou pela cintura, minha razão simplesmente desligou. O beijo dele foi intenso, faminto, e me levou a um lugar onde nenhum problema meu conseguia me alcançar. Passei as mãos pela nuca dele, sentindo o tecido fino da sua camisa, e me entreguei àquele momento com uma audácia que nem sabia que possuía. O gosto dele era viciante, uma mistura de whisky caro e perigo velado. Por alguns minutos, esqueci meu nome, minha realidade e minhas preocupações.

Mas a realidade sempre dá um jeito de cobrar a conta.

Quando nos afastamos, arfantes, vi de relance dois homens engravatados e de postura rígida na área VIP apontando discretamente para ele, falando no rádio comunicador com a expressão séria. O cara do terno tinha uma aura de poder que, na hora da adrenalina, me fascinou, mas o choque de realidade veio em seguida: um homem daquele nível não pertencia ao meu mundo. E o mais importante: eu não podia me dar ao luxo de me envolver em confusão ou distrações perigosas.

Falei que ia ao banheiro. Ele sorriu, me deu um selinho e pediu para eu não demorar.

Segurei a vontade de olhar para trás e caminhei a passos rápidos em direção ao corredor. Mas, em vez de ir ao banheiro, desviei direto para a saída de emergência que dava para a lateral da boate. A brisa fria da rua atingiu meu rosto e o remorso misturado com adrenalina fez meu coração disparar. Peguei o primeiro Uber que vi na avenida e fui embora, deixando apenas o mistério para trás.

Girei na cama, encarando a luz do sol que entrava pela fresta da cortina. O perfume dele ainda parecia impregnado na minha pele. Soltei uma risada fraca e nervosa.

— Que loucura, Maria Júlia... murmurei para mim mesma, cobrindo o rosto com as mãos.

Ele devia estar furioso. Nenhum homem com aquela presença devia estar acostumado a levar um perdido. Mas a vida real estava me chamando. Olhei para o celular na mesa de cabeceira: uma notificação de e-mail novinha.

Pulei da cama e peguei o aparelho. Era uma resposta de uma agência de recrutamento médico para a qual eu tinha mandado meu currículo na semana passada.

"Prezada Dra. Maria Júlia, identificamos o seu perfil para uma vaga de urgência em um posto de saúde comunitário na Zona Sul (Rocinha). Contratação imediata, salário acima da média do mercado e pagamento em dia. Aguardamos sua confirmação para entrevista hoje à tarde."

Senti um nó na garganta. Era a minha chance. Não importavam as condições ou a localização; eu precisava daquele trabalho. Mal sabia eu que o destino já tinha traçado as cartas para o nosso próximo encontro.

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