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Sentado em um camarote reservado na balada VIP de uma das boates mais exclusivas da Zona Sul, escuto Beto reclamar sobre a rocinha precisar urgentemente de um médico para a comunidade, o grave do funk e da música eletrônica fazia o chão tremer. Copo de whisky puro na mão, eu apenas observava a multidão lá embaixo, buscando esvaziar a mente.
Foi quando eu a vi. Ela estava no balcão do bar. Um vestido ajustado ao corpo, cabelos loiros caindo em ondas perfeitas pelas costas e uma postura firme, inteiramente alheia aos olhares famintos do idiota a quem conversava. Ela emanava um brilho limpo, diferente de tudo e de todos naquele lugar. Saí do camarote sem pensar duas vezes. E me aproximei por trás, me deparando com ela furiosa enquanto discutia com o homem. — Você não tem muitas opções, garota, ele disse, com a voz baixa e invasiva, se aproximando demais dela, a mão pesada repousando sem autorização sobre o ombro dela. — Pode sair daqui sem nada... ou ser esperta e garantir essa "ajuda". Tudo tem um preço. A humilhação durou exatamente dois segundos, o tempo necessário para a dor da decepção se transformar em puro fogo. Ela não recuou. Em vez de ficar com medo, deu um passo à frente, os olhos queimando de puro ódio. Antes que ele pudesse reagir, ela desferiu um tapa certeiro na mão dele, o estalo ressoando pelas paredes. — Guarde o seu nojo e o seu dinheiro estragado! A voz dela tremeu, não de medo, mas de uma raiva tão visceral que fez o sujeito dar um passo para trás. — Eu posso estar desesperada por um trabalho, mas você não tem nada que me pague o direito de me faltar com o respeito! Falou, se aproximando e apontando o dedo na cara do imbecil assustando ele, sem que ele conseguisse reagir, e então ele partiu pra cima dela e eu aproximei evitando todo e qualquer contato que pudesse se quer machucar ela. -Se encostar um dedo nela eu te dou um tiro bem no meio da tua cabeça. Quando o homem se virou pra trás e viu quem eu era, recuou no mesmo instante, afinal, quem é louco de me afrontar nesse Rio de Janeiro? -Desculpa senhor. -Se eu ver você por aí se aproveitando de qualquer mulher, seja ela qualquer situação você tá morto? Entendeu? Agora pega essa tua bunda gorda e sai daqui antes que tu termine dentro de um caixão. O cara sai sem se quer olhar pra trás. Olho de relance para a loira enquanto ela me olha assustada e então me aproximo. — Um drink para a mulher mais intrigante e linda desta festa, pedi ao barman, mantendo meus olhos fixos nela, tentando cortar o clima de merda desse primeiro contato. Ela se virou devagar. Olhar desafiador, um sorriso de canto provocante. Ela não fazia ideia de quem eu era, e eu não fazia ideia de quem ela era. E essa ignorância mútua era a coisa mais libertadora que me acontecia em anos. — Você sempre chega oferecendo bebidas para desconhecidas? ela perguntou, a voz aveludada subindo por cima da música. — Só quando a desconhecida rouba toda a atenção do ambiente. Vejo suas bochechas ruborizando. -Fica ainda mais linda com vergonha, tá tudo bem, ele estava te incomodando? -Ta tudo bem, era só um idiota. -Quer me contar o que tava acontecendo? -Sua mãe não lhe ensinou que não se deve falar com estranhos e nem se meter na vida alheia? A pequena afrontosa falou com as palavras na ponta da língua. Dei um sorriso de canto, se ela soubesse que eu adoro esse jogo de gato e rato e adoro ainda mais uma afronta. -Se eu me apresentar eu deixo de ser um estranho, falei me aproximando, enquanto sentia ela ficar nervosa. - Obrigada, mas hoje eu só quero me divertir. -E quem disse que eu também não quero? Falei baixinho, sussurrando em seu ouvido, vendo ela se arrepiar e nessa hora. Não precisou de mais nada. A química entre nós foi instantânea, um incêndio sem aviso prévio. Puxei ela pela cintura rezando pra ela não recuar. Quando nossos lábios se tocaram, a sensação foi de pura descarga elétrica. O beijo começou urgente, faminto, com uma intensidade que me fez esquecer meu nome, o morro e qualquer problema que me esperava do lado de fora. Nós nos beijamos um beijo gostoso, lento, mas algo me dizia que ela estava armando algo. O gosto dela era viciante, uma mistura de doce com a audácia de quem sabe o poder que tem. A mão dela subiu para a minha nuca, me puxando para mais perto, e por alguns minutos o mundo inteiro desapareceu. — Preciso ir ao banheiro, ela murmurou contra a minha boca, arfante, com os olhos brilhando. — Me espera aqui? — Não demore, respondi, tocando seu rosto, ainda meio tonto com a sensação do beijo. Ela deu um sorriso misterioso, me deu um último selinho rápido e se desviou pela multidão. Esperei cinco minutos. Depois dez. Depois vinte. Procurei com os olhos por todo o andar, desci até a saída e percebi a jogada. Ela tinha me dado um perdido perfeito. Deixou apenas o rastro do seu perfume no meu terno e a lembrança de um beijo inesquecível. Passei a mão pelo pescoço, soltando uma risada fraca e incrédula. Ninguém dava um perdido no dono da Rocinha. Ninguém. — Você não sabe o jogo que começou, loira... murmurei para a noite carioca, ajustando o relógio no pulso. — Eu vou te achar. Nem que eu tenha que virar este Rio de Janeiro de cabeça para baixo. O silêncio do meu escritório na parte alta da Rocinha costuma ser quebrado apenas pelo zumbido do ar-condicionado e pelo bipe constante das telas que monitoram os acessos da comunidade. No papel, o mercado me enxerga apenas como um empresário de sucesso. No asfalto, a polícia me rotula como traficante. Mas a verdade é que, aqui dentro, eu sou o cara que mantém as engrenagens girando. Eu herdei isso tudo. Não foi uma escolha, foi um fardo. Quando meu pai tombou, a coroa de ferro caiu direto na minha cabeça. Quem olha de fora vê o luxo, os carros importados, o terno de alfaiataria e o poder. Acham que é sobre ostentação. Não fazem ideia da desgraça que é segurar a rédea de um império construído sobre o caos. Ninguém sabe o quanto é difícil comandar tudo. Se eu fraquejar por um segundo, o morro rui. Se eu for complacente, outra facção avança. E, apesar de toda a podridão que ronda esse negócio, eu me esforço todos os dias para ser justo com quem mora aqui. Garanto remédios, cesta básica e mantenho a violência longe de quem só quer trabalhar. É um equilíbrio sangrento, mas é o meu dever, eu estou aonde o estado não está, eu dou dignidade aonde o governo se isenta. Um estalo na porta interrompeu meus pensamentos. Beto entrou sem pedir licença. Ele é meu braço direito, meu homem de confiança é a pessoa que faz o trabalho sujo onde eu prefiro não sujar as mãos para resolver. — Chefe, a situação no posto do morro tá caótica. Beto disse, encostando na mesa e cruzando os braços. — Os médicos do estado não duram uma semana. O povo tá desassistido e qualquer emergência com os nossos caras vira um transtorno pra descer pro asfalto. — Eu sei, Beto,suspirei, massageando as têmporas. — Precisamos contratar médicos urgente. Alguém fixo, bem pago, que não faça perguntas e que realmente saiba o que tá fazendo. Vou resolver isso logo. Não dá mais pra adiar. — Deixa comigo. Já tô mexendo os paus para achar alguém de fora que aceite o cachê sem dar fofoca. Ele assentiu e saiu. Eu precisei de um respiro. A cabeça estava fervendo com o peso da responsabilidade e a pressão do dia e ainda precisava acha a peste daquela loira que não saia da minha cabeça.O ar no subsolo do galpão de suprimentos era denso, cheirando a mofo, gasolina e o suor frio do pavor. A única luz vinha de uma lâmpada nua pendurada por um fio descascado no teto de concreto. No centro do cômodo, amarrado a uma cadeira de ferro pesada, estava o Paulista. O garoto que comia na minha mesa, que recebia o meu salário e que jurara lealdade à bandeira do morro tremia da cabeça aos pés, a respiração desordenada rasgando o silêncio do cativeiro.Aproximei-me devagar. O som das minhas botas contra o chão batido era o único aviso de que a sentença chegara.— Marcos... por favor, Marcos... — ele implorou, as lágrimas sujeiras de poeira escorrendo pelo rosto. — Eu juro pela minha mãe que eu não sabia que era pra pegar a Doutora! Eles disseram que era só pra desligar o canal por três minutos! Disseram que era assunto de carga!Parei a meio metro dele. Não gritei. Não dei um soco. A raiva no meu peito já ultrapassara a fase do barulho; era uma pedra de gelo afiada e mortal. Puxei
O silêncio do meu quarto na casa do alto era absoluto, mas a minha mente rugia como uma tempestade. Enquanto Maria Júlia repousava na cama — o soro correndo devagar no acesso do seu braço sob o olhar vigilante do Dr. Roberto —, eu permanecia de pé junto à janela, observando o sol nascer sobre a Rocinha. A ameaça do descolamento de placenta nos obrigara a trancar a fortaleza, mas a calmaria externa era apenas uma ilusão. O fantasma daquele dia no galpão da Zona Portuária continuava a me assombrar, não apenas pela dor que causara, mas pelas perguntas sem resposta que deixara para trás.O SUV preto dos homens de Vianna não poderia ter subido o morro, dobrado as esquinas certas da comunidade e arrancado com Maju sem que as nossas contenções principais dessem o alarme. Para um carro inimigo furar a segurança sem disparar um único tiro, ele precisava de um mapa. Precisava de horários. Precisava de alguém do lado de dentro cobrindo a brecha.A porta do quarto se abriu num roçar suave. Beto p
O silêncio do quarto nas primeiras horas da manhã não me trazia paz; trazia um alerta constante. Desde o dia do resgate no galpão, a minha mente se transformara em uma torre de vigia ininterrupta. Cada estalo na estrutura da casa, cada ruído do vento na varanda me fazia tatear a coronha da pistola no criado-mudo. Mas, naquela terça-feira ensolarada, o perigo não viria com o som de projéteis ou o urro de blindados escalando a rampa do morro. O inimigo da vez era silencioso, invisível e imune a qualquer fuzil que eu pudesse empunhar.Voltei-me para o lado na cama. Maria Júlia continuava dormindo, mas o seu descanso era inquieto. A respiração dela saía curta, e pequenas gotículas de suor frio cobriam a sua testa macia. A mão direita dela, como se operasse por puro instinto materno, permanecia cravada sobre a curva do ventre de quase cinco meses.Pousei a minha mão calejada sobre a dela com extremo cuidado.— Maju... — chamei baixo, a minha voz grave cortando a penumbra do quarto. — Meu a
A segunda-feira trouxe uma calmaria quase irreal para a casa do alto. Depois do barulho da festa na quadra no dia anterior, o silêncio da manhã parecia um abraço demorado. O morro funcionava no seu ritmo próprio, em paz, e pela primeira vez em meses eu não precisei me levantar com o rádio estalando no ouvido ou com a pistola sobre o criado-mudo pronta para o combate. No início da tarde, a nossa sala de estar estava transformada. Dona Lourdes organizara uma mesa pequena de madeira ornamentada com ramos de oliveira e flores brancas que trouxera da feira da comunidade. Não era um evento para o morro inteiro, mas uma reunião íntima, reservada apenas para o núcleo mais sagrado da nossa vida. Beto estava sentado no sofá com uma xícara de café nas mãos, parecendo um pouco deslocado sem o colete tático, enquanto conversava baixo com o Dr. Roberto. O pai de Maju voltara ao morro, desta vez vestindo uma camisa social sem paletó, completamente integrado à atmosfera da casa. Lourdes ajeitava o
O domingo seguinte ao reencontro de Maria Júlia com o pai amanheceu com um clima que há muito tempo não se via na Rocinha. A poeira da guerra contra o asfalto finalmente baixara, e o som dos motores dos blindados deu lugar à música alta e ao burburinho festivo que subia pelas alamedas. A comunidade inteira sabia: a nossa rainha estava em segurança, o asfalto fora dobrado, e um menino estava a caminho para herdar este morro.Eu não queria uma celebração fechada na nossa casa do alto. A dor e o medo dos últimos dias tinham sido vividos por todos nós — pelos moradores que fecharam as portas, pelos meninos que mantiveram a guarda nas contenções e pelas famílias que rezaram pelo retorno da Dra. Maju. Por isso, ordenei que a quadra principal da comunidade fosse ornamentada. Bandeiras brancas cortavam o teto aberto, mesas compridas de madeira foram dispostas pelas laterais e o cheiro de churrasco e feijoada tomava o ar desde as primeiras horas da manhã.Eu vestia uma camisa de linho clara e
O domingo amanheceu com um céu limpo, sem nenhuma nuvem para interromper o azul que se estendia sobre a orla de São Conrado. Na varanda da nossa casa no alto do morro, a mesa do café da manhã estava posta como nas manhãs de paz, mas o ar carregava uma expectativa diferente. Não era a tensão de fuzis ou o pavor das invasões do asfalto; era a ansiedade miúda e silenciosa de quem esperava por um reencontro guardado a sete chaves pela história.Maria Júlia ajeitava o vestido claro de linho que marcava a curva agora mais evidente da sua gestação. Ela olhava para o relógio de pulso a cada três minutos, ajeitando uma mecha de cabelo escuro atrás da orelha com a mão levemente trêmula.— Ele tá quase chegando, Marcos... — ela disse baixo, virando-se para mim enquanto eu terminava de abotoar a minha camisa de linho branco.Aproiximei-me dela, envolvendo a sua cintura com os meus braços e pousando as minhas mãos sobre o nosso menino que crescia ali.— Respira, meu amor — sussurrei no ouvido dela







