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Uma médica para o morro
Uma médica para o morro
Penulis: Dzel

Capitulo 1

Penulis: Dzel
last update Tanggal publikasi: 2026-08-03 20:16:18

Sentado em um camarote reservado na balada VIP de uma das boates mais exclusivas da Zona Sul, escuto Beto reclamar sobre a rocinha precisar urgentemente de um médico para a comunidade, o grave do funk e da música eletrônica fazia o chão tremer. Copo de whisky puro na mão, eu apenas observava a multidão lá embaixo, buscando esvaziar a mente.

Foi quando eu a vi.

Ela estava no balcão do bar. Um vestido ajustado ao corpo, cabelos loiros caindo em ondas perfeitas pelas costas e uma postura firme, inteiramente alheia aos olhares famintos do idiota a quem conversava. Ela emanava um brilho limpo, diferente de tudo e de todos naquele lugar.

Saí do camarote sem pensar duas vezes. E me aproximei por trás, me deparando com ela furiosa enquanto discutia com o homem.

— Você não tem muitas opções, garota, ele disse, com a voz baixa e invasiva, se aproximando demais dela, a mão pesada repousando sem autorização sobre o ombro dela.

— Pode sair daqui sem nada... ou ser esperta e garantir essa "ajuda". Tudo tem um preço.

A humilhação durou exatamente dois segundos,

o tempo necessário para a dor da decepção se transformar em puro fogo.

Ela não recuou. Em vez de ficar com medo, deu um passo à frente, os olhos queimando de puro ódio. Antes que ele pudesse reagir, ela desferiu um tapa certeiro na mão dele, o estalo ressoando pelas paredes.

— Guarde o seu nojo e o seu dinheiro estragado! A voz dela tremeu, não de medo, mas de uma raiva tão visceral que fez o sujeito dar um passo para trás.

— Eu posso estar desesperada por um trabalho, mas você não tem nada que me pague o direito de me faltar com o respeito!

Falou, se aproximando e apontando o dedo na cara do imbecil assustando ele, sem que ele conseguisse reagir, e então ele partiu pra cima dela e eu aproximei evitando todo e qualquer contato que pudesse se quer machucar ela.

-Se encostar um dedo nela eu te dou um tiro bem no meio da tua cabeça.

Quando o homem se virou pra trás e viu quem eu era, recuou no mesmo instante, afinal, quem é louco de me afrontar nesse Rio de Janeiro?

-Desculpa senhor.

-Se eu ver você por aí se aproveitando de qualquer mulher, seja ela qualquer situação você tá morto? Entendeu? Agora pega essa tua bunda gorda e sai daqui antes que tu termine dentro de um caixão.

O cara sai sem se quer olhar pra trás. Olho de relance para a loira enquanto ela me olha assustada e então me aproximo.

— Um drink para a mulher mais intrigante e linda desta festa, pedi ao barman, mantendo meus olhos fixos nela, tentando cortar o clima de merda desse primeiro contato.

Ela se virou devagar. Olhar desafiador, um sorriso de canto provocante. Ela não fazia ideia de quem eu era, e eu não fazia ideia de quem ela era. E essa ignorância mútua era a coisa mais libertadora que me acontecia em anos.

— Você sempre chega oferecendo bebidas para desconhecidas? ela perguntou, a voz aveludada subindo por cima da música.

— Só quando a desconhecida rouba toda a atenção do ambiente.

Vejo suas bochechas ruborizando.

-Fica ainda mais linda com vergonha, tá tudo bem, ele estava te incomodando?

-Ta tudo bem, era só um idiota.

-Quer me contar o que tava acontecendo?

-Sua mãe não lhe ensinou que não se deve falar com estranhos e nem se meter na vida alheia? A pequena afrontosa falou com as palavras na ponta da língua.

Dei um sorriso de canto, se ela soubesse que eu adoro esse jogo de gato e rato e adoro ainda mais uma afronta.

-Se eu me apresentar eu deixo de ser um estranho, falei me aproximando, enquanto sentia ela ficar nervosa.

- Obrigada, mas hoje eu só quero me divertir.

-E quem disse que eu também não quero?

Falei baixinho, sussurrando em seu ouvido, vendo ela se arrepiar e nessa hora.

Não precisou de mais nada. A química entre nós foi instantânea, um incêndio sem aviso prévio. Puxei ela pela cintura rezando pra ela não recuar. Quando nossos lábios se tocaram, a sensação foi de pura descarga elétrica. O beijo começou urgente, faminto, com uma intensidade que me fez esquecer meu nome, o morro e qualquer problema que me esperava do lado de fora.

Nós nos beijamos um beijo gostoso, lento, mas algo me dizia que ela estava armando algo. O gosto dela era viciante, uma mistura de doce com a audácia de quem sabe o poder que tem. A mão dela subiu para a minha nuca, me puxando para mais perto, e por alguns minutos o mundo inteiro desapareceu.

— Preciso ir ao banheiro, ela murmurou contra a minha boca, arfante, com os olhos brilhando.

— Me espera aqui?

— Não demore, respondi, tocando seu rosto, ainda meio tonto com a sensação do beijo.

Ela deu um sorriso misterioso, me deu um último selinho rápido e se desviou pela multidão.

Esperei cinco minutos. Depois dez. Depois vinte.

Procurei com os olhos por todo o andar, desci até a saída e percebi a jogada. Ela tinha me dado um perdido perfeito. Deixou apenas o rastro do seu perfume no meu terno e a lembrança de um beijo inesquecível.

Passei a mão pelo pescoço, soltando uma risada fraca e incrédula. Ninguém dava um perdido no dono da Rocinha. Ninguém.

— Você não sabe o jogo que começou, loira... murmurei para a noite carioca, ajustando o relógio no pulso.

— Eu vou te achar. Nem que eu tenha que virar este Rio de Janeiro de cabeça para baixo.

O silêncio do meu escritório na parte alta da Rocinha costuma ser quebrado apenas pelo zumbido do ar-condicionado e pelo bipe constante das telas que monitoram os acessos da comunidade. No papel, o mercado me enxerga apenas como um empresário de sucesso. No asfalto, a polícia me rotula como traficante. Mas a verdade é que, aqui dentro, eu sou o cara que mantém as engrenagens girando.

Eu herdei isso tudo.

Não foi uma escolha, foi um fardo. Quando meu pai tombou, a coroa de ferro caiu direto na minha cabeça. Quem olha de fora vê o luxo, os carros importados, o terno de alfaiataria e o poder. Acham que é sobre ostentação. Não fazem ideia da desgraça que é segurar a rédea de um império construído sobre o caos.

Ninguém sabe o quanto é difícil comandar tudo. Se eu fraquejar por um segundo, o morro rui. Se eu for complacente, outra facção avança. E, apesar de toda a podridão que ronda esse negócio, eu me esforço todos os dias para ser justo com quem mora aqui. Garanto remédios, cesta básica e mantenho a violência longe de quem só quer trabalhar. É um equilíbrio sangrento, mas é o meu dever, eu estou aonde o estado não está, eu dou dignidade aonde o governo se isenta.

Um estalo na porta interrompeu meus pensamentos. Beto entrou sem pedir licença. Ele é meu braço direito, meu homem de confiança é a pessoa que faz o trabalho sujo onde eu prefiro não sujar as mãos para resolver.

— Chefe, a situação no posto do morro tá caótica. Beto disse, encostando na mesa e cruzando os braços.

— Os médicos do estado não duram uma semana. O povo tá desassistido e qualquer emergência com os nossos caras vira um transtorno pra descer pro asfalto.

— Eu sei, Beto,suspirei, massageando as têmporas.

— Precisamos contratar médicos urgente. Alguém fixo, bem pago, que não faça perguntas e que realmente saiba o que tá fazendo. Vou resolver isso logo. Não dá mais pra adiar.

— Deixa comigo. Já tô mexendo os paus para achar alguém de fora que aceite o cachê sem dar fofoca.

Ele assentiu e saiu. Eu precisei de um respiro. A cabeça estava fervendo com o peso da responsabilidade e a pressão do dia e ainda precisava acha a peste daquela loira que não saia da minha cabeça.

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