FAZER LOGINA música alta da boate ainda zumbia no meu ouvido quando a porta do elevador se fechou, cortando qualquer ruído da rua. Deixei a pista VIP logo após perceber a palhaçada: a loira tinha evaporado. Nem rastro. Ninguém dava um perdido em mim, mas ali estava eu, de pé no meio do salão, com cara de idiota e o perfume dela impregnado na lapela do meu terno.
A vontade de continuar naquela festa morreu no mesmo segundo. Saí sem olhar para trás e mandei o motorista acelerar para o centro do Rio. Meu destino não era o morro, mas o topo de um dos edifícios empresariais mais caros da cidade. Para a polícia, para a imprensa e para a alta sociedade carioca, eu sou apenas Marcos Vance: um empresário jovem, bem sucedido, herdeiro de um investimento imobiliário. Ninguém no asfalto liga a minha imagem ao comando da Rocinha. O esquema de segurança é cirúrgico; entro e saio da comunidade por rotas estratégicas, sem alarde, sem comboio e sem levantar a menor suspeita. O segredo do poder não é fazer barulho, é ser invisível. Entrei no meu escritório no quadragésimo andar, tirei o paletó e joguei-o sobre o sofá de couro italiano. A vista panorâmica da cidade iluminada não conseguia me distrair. A imagem daquela mulher, a audácia no olhar, a boca macia e a forma como ela se entregou ao beijo antes de me dar uma rasteira elegante, não saía da minha cabeça. Puxei o celular do bolso e fiz uma ligação direta. — Chefe? a voz do meu especialista em inteligência e segurança da informação atendeu no segundo toque. — Quero o relatório de uma mulher. Ela estava na boate Lumière há menos de uma hora. Loira, branca, por volta de vinte e oito anos, vestido preto ajustado. Ela usou a saída lateral por volta das duas da manhã. Quero nome, CPF, endereço e até o tipo sanguíneo. Pra ontem. — Deixa comigo. Desliguei e fui até o bar do escritório, servindo-me de duas doses de whisky puro. O relógio de parede marcava duas e meia da manhã. Não deu nem trinta minutos. O aviso de e-mail criptografado apitou na minha tela. Meu pessoal de inteligência não brinca em serviço: quando eu quero uma resposta, eles reviram os servidores da cidade. Abri o arquivo e dei um gole na bebida. Nome: Maria Júlia Ramos. Idade: 28 anos. Profissão: Médica (CRM ativo, recém-formada). Origem:Família humilde do subúrbio, bolsista integral. Passei os olhos pelas fotos do documento e pelas redes sociais. Era ela. A mesma mulher do bar, sem a maquiagem carregada, mas com a mesma beleza limpa e desconcertante. A história dela era impecável: zero passagens, vida acadêmica brilhante, filha de um mecânico e de uma costureira. Uma garota de garra que ralou para ter o diploma no peito, mas que esbarrava na falta de oportunidades do mercado. Continuei descendo o relatório e, ao chegar no último parágrafo, quase engasguei com o whisky. Uma gargalhada curta e desacreditada escapou da minha garganta. Entre as últimas atividades digitais dela, constava a confirmação de candidatura para uma vaga de emergência. A agência de RH que gerenciava a triagem para o posto de saúde comunitário da Rocinha uma das minhas empresas de fachada mantidas para apoiar a comunidade,tinha acabado de receber o currículo de Maria Júlia. Ela estava desesperada por um emprego. E o emprego pertencia a mim. A ironia do destino era tão perfeita que parecia piada. A loira misteriosa que fugiu da minha boca na Zona Sul estava prestes a entregar o próprio futuro nas minhas mãos no morro. Caminhei até a janela, observando o horizonte onde o sol começava a dar os primeiros sinais de vida. O perfume dela ainda estava em mim, mas o jogo agora tinha mudado de figura. Ela achou que tinha me deixado para trás, mas mal sabia que tinha acabado de entrar no meu domínio. Peguei o celular e liguei para o Beto. — Beto, cancela a triagem da agência para a vaga de médica do posto. — O quê? Mas chefe, você disse que era urgente... — E é. Já escolhi a médica,dei um sorriso de canto, saboreando cada palavra. — O nome dela é Dra. Maria Júlia. Mande a agência entrar em contato com ela agora e agendar a entrevista para as duas da tarde. — Boa, chefe. Quer que o RH da empresa faça a entrevista lá no escritório do Centro? — Não, respondi, arrumando a gola da camisa diante do reflexo do vidro. — Quero que agendem a entrevista no escritório do morro. E pode deixar que a entrevista quem vai fazer sou eu pessoalmente. Quer saber? Não diga quem é o contratante. Deixe que seja uma surpresa. Desliguei o telefone e me encostei na mesa, girando o copo de cristal na mão. Maria Júlia queria uma oportunidade. Eu daria a ela o emprego, o salário e a estrutura que ela precisava. Mas, acima de tudo, eu queria ver a cara dela quando percebesse que o homem de quem ela fugiu na boate era exatamente o mesmo homem que assinaria o seu contracheque, e o dono do lugar onde ela iria pisar. — Vamos ver até onde vai a sua fuga, doutora... murmurei para o vazio, ansioso para que as duas da tarde chegassem logo.A segunda-feira começou com aquele movimento bonito que enchia meu peito de orgulho. O novo anexo de funilaria e pintura parecia um coração pulsante nos fundos do galpão: os compressores modernos roncam baixo, o cheiro de tinta ecológica e metal limpo tomava o ar, e os quarenta alunos da nova turma dividiam-se entre as bancadas computadorizadas e os motores de teste.Eu estava no escritório do segundo andar, com a janela aberta para o pátio. Do meu ângulo, via o Marcos no centro de tudo, vestindo o macacão escuro com as mangas dobradas até os cotovelos. Ele explicava o manuseio da trena a laser para o Kauã, que absorvia cada instrução com os olhos brilhando. O garoto tinha um talento raro, uma precisão de quem aprendeu a respeitar a ferramenta.Foi por volta das dez da manhã que a atmosfera na travessa mudou.Eu estava descendo as escadas com a prancheta de frequência quando vi o Kauã travar no meio do pátio. O garoto segurava uma chave de fenda e, de repente, as mãos dele começaram a
O sábado amanheceu com aquele cheiro gostoso de rabanada e café recém-passado que invadia a casa toda. Do segundo andar, dava para ouvir o chiado macio da manteiga na frigideira e o som do rádio de pilha do meu pai tocando um chorinho antigo. Com as obras do anexo oficialmente concluídas e os equipamentos computadorizados acomodados no novo galpão de funilaria, o ar na nossa cozinha era de puro alívio e celebração.Sentamos todos ao redor da mesa redonda de madeira: eu, o Marcos, o meu pai e o pequeno Márcio Henrique, que já tentava alcançar a travessa de açúcar para melaço nos dedos antes da hora.— Sabe, pai... — comecei, rindo e limpando a bochecha do meu filho com o guardanapo —, ontem o pessoal da coordenação do posto de saúde me perguntou de onde veio essa minha força para a área de enfermagem e cuidar dos outros. Eu respondi orgulhosa que puxei a coragem do meu pai. Um homem que passou a vida inteira com a mão na graxa da oficina, mas que teve que virar parteiro de emergência n
A sexta-feira amanheceu com um céu limpo e aquele calor gostoso de fim de tarde antecipado que faz o Rio de Janeiro parecer mais vivo. Do segundo andar da nossa casa, o som que vinha dos fundos não era mais o estalo das picaretas na terra nem o ronco pesado da retroescavadeira, mas o bater ritmado das colheres de pedreiro arrematando os últimos retoques de massa nas colunas do novo anexo.Tirei o meu avental da cozinha, ajeitei o cabelo loiro num rabo de cavalo alto e desci para o pátio segurando uma prancheta com o cronograma de entrega do dia.Quando cheguei ao terreno dos fundos, parei por alguns segundos só para admirar o cenário. As paredes de tijolo baiano estavam completamente erguidas, com o contorno da grande porta de correr industrial já definido e a estrutura de ferro do telhado alto devidamente fixada. O mestre Tonho estava no topo de um andaime baixinho, passando a desempenadeira na última viga do teto.— Terminamos a alvenaria na risca do prazo, Dra. Maju! — gritou o vel
A segunda-feira despertou o bairro com aquela energia bonita de quem sabe para onde está indo. Depois do fim de semana restaurador em Penedo e do jantar abençoado em família no domingo, acordei antes do sol nascer. Olhei para o lado e vi o Marcos ainda dormindo sereno. Passei a mão suavemente pelos cabelos curtos dele e me levantei sem fazer barulho.Quando abri a janela da cozinha, o ar fresco da manhã trouxe o cheiro de café novo que o meu pai já tinha passado lá embaixo. Vesti minha calça jeans surrada, uma camiseta polo escura com a marca do *Sementes do Asfalto* e ajeitei meu cabelo loiro mel num rabo de cavalo prático. Quando desci as escadas, a oficina já estava operando na sua rotação máxima.No terreno dos fundos, o mestre Tonho e a equipe de pedreiros trabalhavam a todo vapor. As paredes de tijolo baiano do anexo de funilaria e pintura ecológica já tinham ultrapassado a altura dos ombros, e a estrutura de ferro para o novo telhado isolado começava a ser montada. O progresso
O cheiro de alho frito na manteiga de garrafa e o chiado do assado no forno tomavam conta de toda a cozinha do nosso apartamento. A viagem a Penedo tinha sido exatamente o remédio de que o Marcos e eu precisávamos, mas voltar para casa e sentir aquele calor familiar de domingo à noite tinha um sabor ainda mais especial.Chegamos do passeio no meio da tarde com a alma renovada, o corpo descansado e aquela cumplicidade gostosa estampada no olhar. Não deu nem uma hora e a porta da sala se abriu com o barulho alegre do meu pai e do Márcio Henrique voltando da viagem deles. O meu filho correu pelo corredor com um tratorzinho de plástico na mão e se jogou nos braços do Marcos, que o tirou do chão num abraço gigante, enchendo o rosto do moleque de beijos ruidosos.— Papai! A gente pescou no lago e o vovô deixou eu segurar a vara! — gritava o Márcio Henrique, rindo alto enquanto o Marcos o balançava no ar.— É mesmo, meu filho? E você pegou algum peixe grande ou só ficou tomando sorvete com o
Pela primeira vez em anos, o som do meu despertador no sábado de manhã não foi o roncado de um compressor de ar ou o barulho de ferramentas caindo no piso de concreto da oficina. Acordei devagar, sentindo a brisa suave da manhã entrar pela janela do quarto e o peso gostoso do braço do Marcos abraçando a minha cintura por baixo do lençol. A gente tinha combinado na noite anterior: o fim de semana seria só nosso. Nada de pranchetas do *Sementes do Asfalto*, nada de relatórios de obras do anexo, nada de reuniões com empresários ou problemas da travessa. O meu pai já estava curtindo o fim de semana com o Márcio Henrique na casa da minha tia na Região dos Lagos, e o Lucas com o Gabriel tinham ficado responsáveis por manter os portões do galpão trancados até segunda-feira. Virei de frente para o Marcos, observando o rosto do meu marido no silêncio da manhã. Sem a tensão do dia a dia estampada na testa, ele parecia até mais jovem. Passei a ponta dos dedos suavemente pelas mechas do cabelo







