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Capítulo 89

Author: Dzel
last update publish date: 2026-09-10 00:47:17

O sábado amanheceu abafado, carregado por uma névoa cinzenta que pairava sobre os muros altos de Bangu 1. Na sala de visitas comuns do pavilhão de segurança máxima, o som ambiente era uma mistura crua de passos pesados, choro contido e o estalo constante das trancas de ferro. As paredes de alvenaria desbotada e o cheiro forte de desinfetante impregnavam o ar, lembrando a cada segundo a distância brutal que o Estado impunha entre os homens trancados ali e o resto do mundo.

Eu estava sentado em
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    O cheiro de café requentado e cigarro apagado tomava conta da sala pequena nos fundos de uma gráfica antiga, no meio de uma galeria comercial em Copacabana. O lugar estava parado no tempo, com paredes descascadas, calendários velhos na divisória de compensado e o barulho fraco dos carros passando lá fora na Nossa Senhora de Copacabana. Eram seis horas da manhã. O sol mal tinha saído no Rio de Janeiro, mas a gente já estava de pé, sentado ao redor de uma mesa de formica gasta.O Beto chegou sozinho, vestindo um casaco esportivo escuro para esconder o volume da pistola na cintura. Ele trouxe um envelope pardo debaixo do braço e uma cara de quem não dormia há pelo menos dois dias. Quando entrou e viu a Maria Júlia sentada do meu lado, com uma xícara de plástico nas mãos e o olhar atento, o meu antigo homem de confiança deu uma travada rápida antes de fechar a porta de alumínio com cuidado.— Bom dia, Dra. Maria Júlia. Fala, chefe — o Beto disse, puxando uma cadeira de ferro e sentando na

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    O cheiro de feijão fresco temperado com alho e louro preenchia a sala de jantar no sobrado acima da oficina do Seu Roberto. Na mesa de madeira maciça, arranhada pelos anos e marcada por apoios de panelas quentes, pratos fundos e talheres simples estavam dispostos com o rigor de quem não aceita desperdício. O teto baixo de alvenaria abafava o barulho constante do trânsito na avenida principal, trazendo uma atmosfera quase irreal de calmaria familiar.Eu estava sentado na ponta, vestindo uma camisa polo e de braços cruzados sobre a mesa, observando a rotina daquela casa. Ao meu lado, Maria Júlia ajeitava a cadeirinha alta do Márcio Henrique, alimentando nosso filho com pequenas colheradas de papinha de legumes. No outro extremo, o Seu Roberto mastigava em silêncio, a postura rígida de quem ainda mantinha o olhar atento sobre cada movimento meu. Ele limpara a graxa das mãos antes de sentar, mas as marcas pretas sob as unhas continuavam ali, como a assinatura indelével de uma vida inteira

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    O cheiro de gasolina, óleo queimado e fluido de freio me atingiu no peito assim que dobrei a esquina da travessa que ligava a rua principal da São Conrado ao início da subida da montanha. Ali, sob a estrutura modesta de telhas de zinco e paredes de tijolo aparente, funcionava a oficina do Seu Roberto.Na comunidade, e até nos corredores do asfalto onde ele prestava serviços de lanternagem para frotas antigas, todo mundo se acostumara a chamá-lo de "Dr. Roberto". Uma alcunha que nasceu de uma mistura de ironia e respeito profundo. Respeito porque ele era o único mecânico daquela área que lia jornais de ponta a ponta, discutia política com propriedade e conquistara o feito histórico de formar a própria filha na faculdade de Medicina trabalhando dezoito horas por dia no macaco hidráulico. E ironia porque, na linguagem da favela, qualquer homem velho que falava com postura firme e não se curvava para o crime virava "Doutor".Mas ali, no chão de cimento queimado encardido de graxa, não hav

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    O silêncio do apartamento no Leblon sempre fora um luxo, mas naquela noite de terça-feira ele parecia um predador oculto na escuridão. O relógio digital na parede da cozinha marcava oito e quinze da noite. O cheiro de café passado pela manhã já tinha evaporado quase por completo, substituído pelo aroma distante da maresia que atravessava as frestas da varanda.Pousei a chave do SUV sobre o aparador de madeira da entrada. O som metálico ecoou pelo espaço amplo e impecavelmente decorado.— Maju? — chamei, a voz saindo com a firmeza habitual, mas sem obter resposta.Caminhei até o quarto do Márcio Henrique. A porta estava encostada. Ao empurrá-la devagar, encontrei o berço de madeira clara vazio. O móbile de nuvens no teto estava estático. A poltrona de amamentação, onde Maria Júlia costumava passar horas ninando o nosso filho ao som do mar, guardava apenas uma manta dobrada com esmero.O meu peito contraiu num movimento instintivo, o mesmo espasmo de alerta que o meu corpo emitia quando

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    O cheiro de lavanda do amaciante das roupas do Márcio Henrique impregnava a sala do nosso apartamento, mas a sensação de que o ar continuava pesado não me abandonava. Eu estava dobrando o último macacãozinho de algodão sobre o sofá quando o Marcos fechou a porta de entrada. Ele trazia aquela expressão serena que vinha cultivando desde que nos mudamos para o Leblon, um sorriso calmo nos lábios e os braços abertos para me abraçar.Mas eu sou médica. Eu passei anos estudando a anatomia humana, aprendendo a ler os mínimos sinais do corpo: uma pupila ligeiramente dilatada, a respiração sutilmente mais curta, a tensão imperceptível nos músculos do pescoço, o cheiro característico de adrenalina queimada que a pele solta quando um homem acaba de sair de uma situação de vida ou morte.Quando o Marcos me abraçou e disse que "estava tudo sob controle" na garagem, o meu coração afundou no peito. O tom da voz dele era perfeito, quase convincente para qualquer pessoa comum. Mas não para mim. Eu con

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