LOGINHelena de Alencastro não escolheu se casar com Rafael de Montávora. A união foi decidida por suas famílias, e ela aceita o casamento impondo suas próprias condições: respeito, autonomia e lealdade. Amor nunca fez parte do acordo. Mas Rafael ainda guarda sentimentos por Beatriz de Valença, a mulher que um dia escolheu outro homem. Durante a viagem após o casamento, porém, a convivência transforma obrigação em desejo, cumplicidade e sentimentos que nenhum dos dois esperava viver. Até Beatriz reaparecer. Com ela, surgem documentos capazes de revelar que por trás daquele casamento existem interesses muito maiores e Helena pode perder justamente aquilo que mais deseja preservar: sua liberdade e o direito sobre o próprio futuro. Agora, Rafael terá de decidir se continuará preso ao amor que idealizou no passado ou lutará pela mulher que se tornou seu presente. E Helena precisará descobrir se é possível escolher permanecer em um casamento que começou sem que ela tivesse escolha.
View MoreA cadeira à direita de seu pai estava vazia quando Helena entrou no escritório. Sobre a mesa, havia três taças usadas e uma folha coberta por uma escrita que não reconheceu. Na borda do papel, seu próprio nome.
Augusto de Alencastro fechou a pasta antes que ela se aproximasse. Sente-se, minha filha. Helena permaneceu de pé. Naquela casa, pedidos feitos com tamanha delicadeza costumavam esconder decisões já tomadas. Aconteceu alguma coisa em Amoreiras? O pai ergueu os olhos. Desde a morte do avô, ela perguntava pela propriedade em quase todas as conversas. Tinha passado os verões da infância entre o pomar, o moinho e a biblioteca pequena da casa principal. Agora, aos vinte e três anos, conhecia Amoreiras sobretudo pelos relatórios que seu pai autorizava que lesse. A propriedade está bem. Recebi Aristides de Montávora e o filho esta manhã. Helena olhou novamente para a cadeira vazia. Rafael? Discutimos uma união entre nossas famílias. Da janela vinha o ruído das tesouras do jardineiro. Helena se deteve nele por um instante, no gesto cotidiano de alguém que continuava cortando uma cerca enquanto sua vida mudava de direção. Uma sociedade comercial? Augusto ajeitou o punho da camisa. Seu casamento. Ela se sentou porque os joelhos haviam perdido a firmeza, não porque enfim aceitasse o convite. Conhecia Rafael de vista. Um homem alto, discreto nos salões, que dançava quando precisava e saía antes que as festas terminassem. Cecília dizia que ele tinha a expressão de quem suportava um compromisso desagradável mesmo quando bebia excelente vinho. O senhor discutiu meu casamento sem mim. Discuti uma possibilidade muito favorável. Você terá posição, segurança e um marido de boa formação. Helena apoiou as mãos no colo. Queria evitar que ele visse seus dedos tremendo. Meus professores me ensinaram a calcular o preço de uma mercadoria. Qual é o meu? Não transforme isso numa ofensa. Então me explique de um modo que não seja ofensivo. Augusto se levantou e foi à janela. Quando se voltou, parecia mais cansado que irritado. Você sabe como as coisas funcionam. Sabia. Sabia também que os homens de sua família se orgulhavam de sua educação nos jantares e se incomodavam com ela no escritório. Quero conversar com ele antes que alguém faça um anúncio. Naturalmente. Na recepção de sábado. A sós. Sua mãe poderá permanecer no terraço. Helena aceitou com um movimento da cabeça. Era pouco, mas era o primeiro espaço que conseguira abrir numa decisão feita por outras pessoas. Quando saiu, encontrou Inês junto à escada. A mãe segurava um pedaço de renda que devia ter trazido da costureira. Seu pai lhe contou? A senhora já escolheu o tecido? Inês olhou para a renda como se só então lembrasse que a tinha nas mãos. Eu queria que você fosse feliz. Helena passou por ela sem responder. No quarto, abriu a gaveta onde guardava as cartas do avô e retirou a última. Havia uma frase escrita no verso, ao lado de um desenho do moinho: “Aprenda a ler tudo antes de assinar, inclusive aquilo que as pessoas preferem não lhe mostrar.” Naquela noite, pediu à criada papel novo. Sua primeira carta não foi para Rafael. Foi para o tabelião responsável pela herança de Amoreiras.Dois anos depois, a biblioteca de Amoreiras tinha mais livros do que prateleiras.Helena preferia aquele problema à sala vazia e úmida que encontrara quando assumira a propriedade.Naquela manhã, Matilde visitava duas alunas interessadas em aprender encadernação. A oficina de Aurora aceitara recebê-las por uma temporada, oferecendo alojamento e pagamento pelo trabalho.Helena estava examinando as despesas quando Rafael entrou carregando uma menina de quatro anos.A criança segurava um lápis com firmeza.“Ela diz que encontrou.”Helena olhou para Rafael.“Onde?”“Na sua mesa.”“Então não encontrou. Pegou.”A menina apertou o lápis contra o peito.“É meu.”Rafael colocou-a no chão.“Estamos diante de uma negociação difícil.”Pegou uma folha limpa e ofereceu à criança.“Se devolver o lápis depois, pode usar esta folha.”A menina analisou a proposta antes de concordar.Rafael voltou-se para Helena.“Considero comercialmente justo.”“Você está negociando com uma criança de quatro anos.”“E
No início do outono, Helena propôs que voltassem a Bellamar.Rafael estava sentado à mesa da biblioteca de Amoreiras, ajudando a conferir uma encomenda de livros.Levantou o rosto.“Quer voltar?”“Quero conhecer o farol. Nosso primeiro passeio foi muito curto.”“Você disse que nunca mais pisaria num barco.”Helena fechou o livro que segurava.“Disse sob circunstâncias adversas.”Rafael começou a rir.Helena gostava de poder provocá-lo novamente sem precisar medir cada palavra.Planejaram dez dias.A professora assumiria a biblioteca durante a ausência de Helena. Silvério enviaria notícias caso surgisse algum problema na propriedade.Nos armazéns, Rafael finalmente aprendera a distribuir funções suficientes para conseguir se ausentar sem transformar todos os empregados numa extensão de sua própria rotina.Antes da viagem, visitaram Leonor e Aristides.O encontro foi diferente dos anteriores.Não havia Gaspar.Não havia contratos sobre a mesa.Aristides explicou como avançavam os pagame
A ponte ficou pronta no fim do verão.Não era exatamente a construção elegante que Rafael desenhara em Serra Clara. Tomás modificara parte do projeto depois de observar o comportamento do rio durante duas chuvas fortes.O resultado era mais simples: uma passagem de madeira reforçada, alta o suficiente para suportar as cheias comuns e larga o bastante para permitir a passagem segura dos moradores.Helena atravessou primeiro ao lado de Silvério.Levava uma cesta de livros destinados às famílias que viviam na outra margem.Quando voltou, encontrou Rafael esperando perto do apoio de pedra.“Não precisava carregar tudo sozinha.”Helena ergueu uma sobrancelha.“Silvério carregou a outra metade.”“Quis dizer que poderia ter me chamado.”Ela estendeu a cesta.“Ainda pode ajudar.”Rafael a recebeu.“Isso foi uma armadilha?”“Uma oportunidade.”Ele sorriu.Nos dois meses desde a primeira visita a Amoreiras, Rafael aparecia sempre que o trabalho permitia.Continuava dormindo no quarto de hóspede
Dois dias depois da reunião, Rafael encontrou Helena no jardim da casa de Aurora.Ela o convidara para conversar às quatro da tarde.Rafael chegou cinco minutos antes.Não entrou procurando por ela nem pediu que a chamassem imediatamente. Esperou na sala até que Aurora informasse que Helena o receberia no jardim.Havia uma pequena mesa sob as árvores.Sobre ela estava o caderno azul comprado durante a viagem.Helena manteve-o fechado.“Álvaro disse que você pediu informações sobre uma separação formal.”Rafael sentou-se diante dela.“Pedi que explicasse todas as possibilidades.”“Para mim?”“Para nós. Principalmente para você.”Helena não esperava aquela resposta.“Você quer se separar?”“Não.”Rafael respondeu sem hesitar.“Mas também pedi que Álvaro registrasse que não vou contestar a residência que escolher nem sua administração de Amoreiras.”“Por quê?”“Porque achei errado esperar que decidisse sobre nosso casamento sem conhecer a saída.”Helena deixou os dedos sobre a capa do ca






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