LOGINDavid Novack
Sou filho adotivo — sempre foi uma pressão silenciosa. Meus pais me amaram como a qualquer outro, eu e Thomas fomos criados iguais. O problema não era amor; era fama. Eles não entendiam o porquê das minhas atitudes. Achavam que era rebeldia tardia; a verdade estava mais embaixo. Lutei demais para chegar onde cheguei. Abandonei o sonho infantil de Engenharia Civil por Administração — aprendi a gerir pessoas, recursos e metas para guiar a Tec na direção certa. Anos de foco e agora vou ser expulso? Com o humor ruim habitual, entro na cabine de aço, digito o código e subo no elevador privativo. Não quero trombar com ninguém: já estou atrasado e não quero dar exemplo ruim. Assim que piso no corredor do meu andar, vejo Victor — meu amigo e advogado — encostado na mesa da assistente, com a cara fechada por ter me esperado. Ótimo, o aguardado espetáculo do nosso ridículo “processo seletivo”. Poucos segundos depois, ouço três toques na porta. Victor entra com sua postura impecável e cara de “vou te matar”. Justíssimo, considerando as três horas que o fiz esperar. Sei que ele vai me arrancar um valor absurdo em honorários como vingança — e eu pagarei com prazer. Ele já me tirou de enrascadas piores. E agora, conto totalmente com ele para me salvar das exigências absurdas do velho Ávila. — Calma — ele diz, ainda rindo. — Você vai infartar antes do casamento. Guarde energia para o grande dia. Ele está chegando. — Não começa — rosno. — Se pudesse, me casaria por procuração e mandava a mulher para o Polo Norte. Ou Marte. Quanto mais longe, melhor. — Eu juro que ainda vou desistir de você como cliente. — Victor se senta, massageando a testa. — Mas, pelo menos, vou poder cobrar caro. Muito caro. — Coloque quantos zeros quiser — respondo. — Só me tire desse pesadelo. Por favor, diga que encontrou as candidatas. — Encontrei. — Ele arqueia uma sobrancelha, satisfeito. — As melhores disponíveis no mercado. Você pode me agradecer depois. Tenho certeza de que, quando as vir, vai até ficar em dúvida sobre qual será a futura senhora Novack. — E o passado? — pergunto, lembrando da exigência ridícula. — Histórico limpo? E… virgens? — Todas. — Ele não desvia o olhar. — Contratei uma agência especializada. Fizeram exames, assinaram contratos de sigilo. Está tudo dentro das exigências. Confie no meu trabalho, mesmo que essa tenha sido a tarefa mais absurda que você já me passou. Assinto. Exausto. — Então onde elas estão? — Coloquei todas em uma sala separada. Não queria que seu primo cruzasse com elas. Ele faria qualquer coisa para te prejudicar. Já te avisei mil vezes: Eduardo não presta. — Eduardo é só um cão que late — respondo, com desdém. — Nunca mordeu ninguém. Victor suspira. Não responde. Talvez ele saiba que, um dia, aquele cão vai morder. — Bem — ele diz, levantando-se — vamos iniciar as entrevistas. Vamos encontrar sua noiva perfeita. Transformar você em um homem de família. — Certo. — Minha resposta sai seca. — Traga uma de cada vez. E todas devem assinar o termo de confidencialidade. Nada disso pode vazar. — Já providenciei. Multa astronômica, ameaça jurídica e caos garantido para quem ousar abrir a boca. — Perfeito. Traga a primeira. Victor sai, e fico ali, estralando os dedos — meu hábito quando estou irritado, cercado, sem saída. Nunca imaginei que a situação que exigiria todo meu controle mental seria… casamento. Eu não odeio o amor. Não tenho traumas. Simplesmente não vejo sentido nisso. Liberdade sempre foi a base da minha vida. Mas minha família decidiu que isso é primitivo. E eu tenho o dever de ser o filho perfeito. Meu rosto endurece. Preciso de alguém que veja isso como um acordo. Uma parceria fria. Dinheiro em troca de silêncio. Sem ciúmes. Sem apego. Sem amor. Uma batida corta meus pensamentos. Endireito a postura. Endureço a expressão. A porta se abre. Uma mulher alta, loira e vestida de vermelho sangue entra. Seus saltos parecem desafiar a gravidade. Caminha até minha mesa, nervosa. Meu olhar percorre seu corpo — profissionalmente. Alta, magra, quase frágil. Pernas longas e brancas demais. Cintura tão fina que poderia desaparecer se virasse de lado. No corpo, duas melancias enormes desafiando qualquer lógica de proporção. Perfeito. Começamos bem. Eu respiro fundo. O show vai ser longo. *** — Sente-se — ordeno, sem me esforçar para mascarar o desagrado. — Seu nome. — Simone — responde, cruzando as pernas com uma lentidão calculada, quase teatral. Nada em seu gesto desperta qualquer reação em mim. Muito forçado. Muito... vazio. — Victor, o documento. — Falo, sem tirar os olhos dela. Meu advogado parece lembrar de onde está, abre a pasta e me entrega o termo. Ele se senta ao meu lado. Eu havia pedido que permanecesse — não tanto como apoio emocional, mas como lembrança viva de que eu não podia estrangular ninguém naquele recinto. Ele era meu bote salva-vidas: o lembrete de que isso era necessário. — Simone, preciso que assine. — Empurro a folha para ela. — Termo de confidencialidade. Absoluto sigilo. Se algo dito aqui sair dessa sala, você será responsabilizada conforme cláusulas e multas já especificadas. Ela nem lê. Passa os olhos por cima como quem assina recibo de entrega de pizza e rabisca o nome cheio de firulas no final. Sorri. Um sorriso treinado demais. — Certo, Simone. Vou ser objetivo. — Entrelaço os dedos sobre a mesa. — Preciso de uma esposa. Estou selecionando a candidata ideal. Me diga por que você deveria ser escolhida. Os olhos dela se arregalam. Claro que se arregalam. Não é todo dia que se recebe uma proposta dessas. Sou o único tolo do planeta que está passando por isso. Ela pisca várias vezes, mas logo recupera a pose. Seus olhos brilham. Reconhecimento. Interesse. Ganância. É transparente como vidro polido. Sou conhecido. Sou notícia. Sou prêmio. E ela sabe. — Eu… posso dizer que sou a mulher perfeita. — Sua voz desliza melosa. — Tenho classe, educação. Saberia me comportar nos jantares e eventos. — Ela ajeita o decote, como se aquilo fosse argumento. — E também posso agradá-lo muito no quesito sexual... — Pare. — Interrompo. — Quais são suas experiências sexuais? Ela sorri. Lasciva. — Tive um namorado que me ensinou várias coisas. Inclusive como deixar um homem completamente louco só com a minha— — Saia. — Corto, frio como aço. — Você não atende aos requisitos. — Como? — Ela tenta fazer cara triste, mas o resultado é apenas irritante. — Eu disse. Para. Sair. Meu olhar é tão duro que ela levanta tão rápido que quase cai do salto. Sai com pressa. A porta se fecha. Victor suspira. — David, respire. Você foi... intenso. — Você disse que selecionou as melhores, e a primeira já falha no requisito principal. Além de vulgar, é burra. — Algo deu errado. Vou tratar com a agência. — O tom dele indica processo, quebra de contrato, destruição em massa. — Trago a próxima? — Fazer o quê? — Reviro os olhos. — Traga. O desfile de horrores começa. Uma a uma, elas entram. Assinam. Falam. E saem. Vulgares. Ambiciosas. Tolas. Outras tão frágeis que parecem quebrar ao vento. Nenhuma desperta nada em mim. Meu corpo permanece tão morto quanto um bloco de gelo. Se nem meu próprio instinto reage... eu estaria preso no inferno de um casamento sem amor. Não. Isso eu não aceito. — Essas eram as melhores do mercado? — pergunto, exausto. — Perdi duas horas da minha vida que não voltam nunca mais. — Sinto como se tivesse corrido uma maratona — Victor resmunga, afrouxando a gravata. — E vou garantir que essa agência seja fechada. Nunca mais passam um cliente para trás. — Temos que correr. — Esfrego o rosto, irritado. — Meu pai não deu prazo, mas ele vai aparecer a qualquer momento. E, quando vier, vai ser como um furacão. — Eu não quero estar aqui nesse dia — ele comenta, sincero. Não respondo. Só puxo o cabelo com força, pressionando o crânio como se pudesse impedir meu surto iminente. — Porra! — esmurrar a mesa é instinto. Objetos caem. Que se fodam. Então o telefone toca. — Sara, isso precisa ser importante — digo, entre dentes. — Senhor, há uma última candidata aguardando — responde minha assistente, impassível. Ela é uma rocha com batom nude. — Mande entrar — desligo, olho para Victor. — Mais uma? — Uma atrasada, provavelmente. — Ele endireita a postura. — Quem sabe ela é a certa. — Ou mais uma perda de tempo — respiro. A porta se abre. Sara aparece — impecável como sempre — e se afasta para deixar a candidata entrar. Ela é pequena. Menos de 1,60. Chega com a cabeça baixa, cabelos castanho-claros caindo como cortina sobre o rosto. A roupa é simples — jeans gasto, camisa amassada e grande demais, sapatilha comum. Ela troca o peso de um pé para o outro, desconfortável. Eu já estou preparado para dispensá-la. — Seu nome? — pergunto, imparcial. A garota levanta o rosto. E o mundo se rearranja. Olhos claros — verdes, azuis, ou algo entre os dois — brilhando com firmeza. Postura ereta. Queixo erguido. Ela caminha até a mesa sem pressa, sem hesitação. Sua voz não treme. Não hesita. Não se diminui. — Isabella. Eu me chamo Isabella Oliveira. E é a primeira vez no dia inteiro que algo no meu peito — e abaixo dele — desperta.Alguns meses se passaram, e eu mergulhei no trabalho. Já não sei mais como confiar em alguém. Fiz questão de não saber nenhuma notícia sobre Lucy ou Lucas. Não sei se os dois ficaram juntos. Não sei se sobreviveram ao que aconteceu. Não sei se o perigo do qual aquele árabe falou ainda existe ou se desapareceu junto com eles. A única informação que continuei perseguindo dizia respeito ao suposto irmão de Lucas. Meu pai... aparentemente, tinha outro filho. Não sabíamos se era mais velho ou mais novo. Na verdade, não sabíamos absolutamente nada. Coloquei minhas melhores equipes para investigar, mas, até agora, não havia respostas. Quanto a mim... nada mais aconteceu. Nenhum atentado. Nenhuma ameaça. Nenhum sinal de que alguém ainda estivesse me caçando. Talvez eu nunca tenha sido o verdadeiro alvo. Talvez tenham tentado me atingir apenas porque acreditavam que eu era importante para Lucas ou porque imaginavam que eu sabia alguma coisa sobre esse homem desconhecido. Mesmo assim, nã
Voltar para casa depois de tudo o que aconteceu foi mais difícil do que eu imaginava.Passei o caminho inteiro revivendo cada detalhe.Cada conversa.Cada olhar.Cada escolha.Eu não era o tipo de homem que corria atrás de uma mulher.Nunca fui.Passei a vida inteira acreditando que sentimentos eram uma fraqueza, algo que tirava o foco do que realmente importava.Mas eu corri atrás de Lucy.Corri mais do que jamais correria por qualquer outra pessoa.E aqui estou eu.Destruído.Eu sempre tive orgulho de ser alguém controlado. Alguém que mantinha a razão acima de tudo.Agora parecia uma piada.Porque bastou uma mulher para derrubar todas as minhas defesas.Mas Lucy não era qualquer mulher.No começo, eu acreditava que estava apenas cumprindo uma responsabilidade.Ela estava em perigo.Estava ao meu lado.E eu me sentia culpado por isso.Era minha obrigação protegê-la.Pelo menos foi assim que tudo começou.Mas as coisas mudaram.Lentamente.Sem que eu percebesse.Aquilo deixou de ser r
Eu poderia dizer que sou forte. Poderia fingir que nada me abala, que qualquer golpe da vida é apenas mais um obstáculo que eu atravesso sem olhar para trás. Mas isso... isso foi demais.Meu irmão não é um santo. Na verdade, nem sei por que ainda o chamo de irmão quando ele parece fazer de tudo para destruir o que é meu. Ainda assim, existe algo que me prende a ele. Talvez seja apenas a memória dos garotos que fomos um dia. Talvez seja o sangue.Mas, no fundo, ele não é meu irmão.Meus irmãos estão em Nova York. Minha família está em Nova York. Minha vida está em Nova York.E eu estou aqui.Preso neste lugar, lutando contra uma maré que nunca para de me arrastar para o fundo.Depois do que descobri, nada mais fazia sentido.O pior é que eu sabia. Em algum lugar dentro de mim, eu sempre soube que isso poderia acontecer. Mesmo assim, fui idiota. Cometi erro atrás de erro. Não sou santo também. Deveria ter sido mais cuidadoso. Mais desconfiado. Deveria ter me protegido.Mas não protegi.
Algo no olhar preocupado de Amyrah me deu a resposta antes mesmo que ela dissesse qualquer coisa.Ela nunca havia carregado um peso como aquele.Nunca precisara conviver com uma culpa capaz de consumir cada pensamento.Ainda segurando minha mão, ela se moveu para se ajoelhar diante de mim.— Você quer que eu chame um deles? — perguntou suavemente.Soltei uma risada curta e amarga.— Meus homens?A expressão séria dela vacilou.— Não. Não é isso.A mentira saiu fácil demais.— Eu estou bem.Não estava.Mas ela pareceu aceitar.Ou talvez apenas não soubesse como insistir.Seu olhar permaneceu sobre mim por alguns segundos antes que ela perguntasse:— Você matou alguém?Virei a cabeça tão rápido que quase senti o pescoço estalar.— O quê? Não!O alívio que atravessou seu rosto foi imediato.— Então pode ser consertado.Fechei os olhos.Ah, Amyrah...Se fosse tão simples.Porque talvez eu não tivesse matado uma pessoa.Mas tinha destruído algo.Algo precioso.Algo que Thomas jamais me per
Nem Thomas nem Lucas disseram uma palavra por vários segundos.O silêncio se prolongou até se tornar desconfortável.Foi mais do que eu consegui suportar.— Tem mais um?As três cabeças se viraram para mim.Dei de ombros.— Dois Hamilton já são mais do que suficientes para o mundo lidar.Pela primeira vez desde que a conversa começara, Lucas soltou uma risada.Thomas, porém, continuou sério.Pegou a fotografia das mãos do irmão e voltou a estudá-la.— Ao longo dos anos, várias pessoas apareceram alegando ser filhos de Rufus. — Sua voz era cautelosa. — Como sabemos que esse homem é quem diz ser? E como sabemos que suas informações estão corretas?Rashid apenas deu de ombros.— Se ele é realmente parente de vocês, não me interessa. O importante é que ele acredita que é.Thomas franziu a testa.— E como descobriu isso?Antes que Rashid respondesse, Lucas interrompeu.— Não pergunte.Ele continuava olhando para a fotografia.— Você sabe que ele vai responder alguma coisa misteriosa sobre
Pela primeira vez em muitos dias, adormeci sem lutar contra meus pensamentos.O cansaço acabou vencendo.Quando acordei, estava sozinha.A luz do sol atravessava as frestas da tenda, desenhando linhas douradas sobre os tapetes e tecidos espalhados pelo chão. Minhas roupas estavam jogadas próximas à cama improvisada, silenciosas testemunhas da noite anterior.Não havia sinal de Thomas.Ainda assim, sua presença permanecia.Eu sentia seu perfume na minha pele.Sentia o calor dele gravado na memória do meu corpo.Por um momento, fiquei sentada na cama, tentando organizar meus pensamentos. Então afastei as lembranças e me vesti rapidamente.Ao empurrar a aba da entrada, fui recebida por uma explosão de luz.Meus olhos demoraram alguns segundos para se acostumarem.Lá fora, o acampamento já estava desperto. Pessoas caminhavam entre as tendas, vozes ecoavam ao longe e o sol do deserto brilhava implacável sobre a areia dourada.— Não se preocupe. Ninguém o viu saindo da sua tenda.Dei um pul







