Masuk— Não.
— Usa algum medicamento contínuo? — Não. — Última menstruação? Isabella ergue o queixo e respira fundo. — Ah, isso eu não vou responder — diz, firme. — E muito menos na frente desse sujeito que se acha dono do mundo. — Ela aponta para mim. — Ele não precisa saber nada da minha intimidade. Aliás, estou me sentindo perfeitamente bem e acho todo esse teatro desnecessário. Não estou doente e quero ir embora. De preferência esquecendo que botei os pés nessa empresa de homem indomesticável. Eu estreito os olhos. — Você entrou porque quis. E só sai quando eu permitir — digo, firme como concreto. — Olhar feio ou insulto nenhum vai mudar isso. — E seus coices não vão me intimidar — ela devolve, sem tremer um músculo. Victor se coloca entre nós antes que algo exploda. — Chega. — Ele ergue uma mão para cada lado. — Estão transformando uma consulta em guerra civil. David, dê privacidade para o médico continuar. Quanto mais você discutir, mais tempo perde. E nós não temos tempo. Bufo. Odeio admitir que ele tem razão. Eu perdi um mês inteiro fingindo que nada estava acontecendo. Um mês me enganando. Um mês ignorando a cobrança do meu pai. E agora eu estava aqui, perdendo mais tempo discutindo com uma garota que fala mais do que respira. Meu telefone toca. — Diga, Sara — atendo, já enrijecido. — Senhor David, o senhor Harvey acaba de passar pela portaria. Acredito que o destino seja sua sala. Avisei para que pudesse se preparar. — Faz — digo, sem filtro. Sara se despede e desligo. Meu dia já estava ruim. Agora iria descer direto para o inferno. Antes que eu possa voltar ao sofá, vejo a sombra se aproximando do vidro da porta. Noah. Minha assistente olha para mim, preocupada. Tomo a decisão imediata de sair antes que ele entre e veja Isabella, doutor e caos. Abro a porta e encontro meu irmão no corredor. — Irmão — digo, forçando um sorriso que não engana ninguém. — O que faz aqui? Noah me observa de cima a baixo. O olhar é tranquilo por fora, mas eu o conheço — ele já sabe que algo está errado. — Espero que o seu processo seletivo tenha dado certo — ele diz baixo. — Porque nosso pai está com fogo nos olhos. Meu sorriso desfaz. Noah percebe. Noah sempre percebe. — Então não deu certo — ele conclui. Não preciso responder. Isabella Meu desus. Eu juro por tudo que é sagrado: nunca mais sigo homem nenhum vestido de preto. Nunca. Nem se for para pedir informação, nem se for para salvar minha vida, nem se for para ganhar um milhão. “Isso é uma regra, Isabella.” — repito para mim mesma como mantra. Eu devo ter nascido com o azar escrito na testa. Provavelmente passei embaixo de sete escadas, quebrei todos os espelhos existentes na casa da minha mãe e ainda nasci com a bun-dinha apontada para Marte. Ou para a casa do demônio, onde quer que seja mais longe da boa sorte. Sério… quando é que os humilhados vão ser exaltados? Quero saber. Já posso entrar na fila? Enquanto o médico fala, eu só penso em uma coisa: como sair desse lixo sem me estabacar no chão. Olho para a porta. Cálculo a distância. Não parece muito. O problema é que, do jeito que estou, vou tropeçar nos próprios pés, cair de cara e perder todos os dentes da frente. Não estou a fim de virar Isabella Gengivinha hoje. — Nenhuma chance de gravidez? — ele pergunta. Sou obrigada a largar meus planos de fuga. — N-nenhuma — respondo, quase engasgando. — Não tenho namorado. Nunca tive namorado. Acabou o interrogatório ou vai querer meu tipo sanguíneo também? Ele me olha como se fosse possível me analisar até a alma. — Só mais uma pergunta… quando foi sua última refeição? Ah, puta que pariu. Qual é a desse doutor? Desvio o olhar para onde o cavalo selvagem — vulgo David, o Armageddon em forma de gente — rosna ordens no telefone. Ele não parece irritado. Parece à beira da guerra nuclear. Quando ele b**e o telefone na base, eu quase pulo no sofá. Ele avança até Victor, e os dois começam a discutir. Não dá para entender muita coisa, mas dá para perceber que é ruim. Bem ruim. Tipo furacão chegando e você sem porão. Então os dois viram para mim. Victor desvia, David continua olhando. E olha. E olha. O ar na sala muda. Minhas pernas viram gelatina. O tipo de gelatina que ficou fora da geladeira e está meio molenga. Eu sei que deveria levantar e correr, mas meu corpo não lembra como se levanta. Como fugir de um furacão correndo na minha direção? Exato. Não foge. Só aceita. Ele se aproxima. — Isabella, venha comigo — ele ordena, a voz dura, como se estivesse comunicando uma sentença. — Preciso conversar com você em particular. Ele se vira para o médico: — Carlos, termine aqui com Victor. Ele fará o pagamento. O médico concorda, se despede. Eu continuo sentada, olhando para David como se ele tivesse acabado de dizer que eu sou um móvel da sala. — Não ouviu, garota? — ele rosna. — Levante. Ou eu levanto você. E aí garanto que você entende o significado da minha selvageria. — Ah, vai se ferrar, cavalo — rebato, sem paciência para o teatro. — Não tenho que te obedecer. Estou indo embora dessa sua baia de luxo. Fique com sua grosseria e seu… feno. Me levanto, mas não dou dois passos. Porque ele aparece na minha frente como uma parede humana. Bato no corpo dele — e dói. Nele, não em mim. Óbvio. — Vai sair da frente ou vou ser obrigada a usar minhas artes marciais? — levanto a mão como se fosse dar um tapa. — Seria uma pena quebrar essa sua cara de tolo. Ele apenas prende minha mão em seu pulso como se eu fosse uma boneca de pano. — Você vem. — a voz dele baixou, e isso é pior do que quando está alta. — Caminha, ou eu te arrasto. Você escolhe. Não me deu tempo de escolher. Claro que não. Ele me puxa pelo corredor, acena para a ruiva como quem diz não se mete, e me j**a dentro do elevador. Finalmente me solta. — Isso é sequestro — digo, com os dentes trincados. — Você vai descobrir em um minuto — é tudo o que ele responde. Quando as portas se abrem, ele me arrasta de novo, até uma sala enorme com mesa de vidro preto e cadeiras brancas. Me solta e fecha a porta com força. Ele se apoia nela, passa a mão pelo rosto e puxa o cabelo, claramente perdido entre a raiva e… outra coisa. Ele está furioso. Mas eu também estou. E eu não vou abaixar a cabeça. — Saia da minha frente. — começo tentando ser civilizada, coisa que claramente não combina com a situação. Sempre ouvi dizer que responder grosseria com grosseria só piora… mas a minha paciência chega ao fim. — Eu não quero estar aqui com você. Já falei o quanto me desagrada ficar na presença de um cavalo selvagem sem sela. E, veja bem, eu não tenho talento, nem vocação, para domar animal bravo. David para na minha frente, respira fundo, e começa a andar de um lado para o outro. Ele está irritado, nervoso, orgulhoso — um caos completo. E por algum motivo lindo. A calça preta marca as pernas fortes, o terno aberto mostra a camisa branca ajustada ao corpo e a gravata solta balança junto com seus passos. Meu olhar desce pelo pescoço, segue o pomo de Adão movendo enquanto ele engole seco… e eu odeio, ODEIO, o fato de estar admirando. Maldição. Por que ele precisa ser tão bonito? Tipo… criminoso para o coração bonito? Ele para. Me olha. E, como se minha cabeça tivesse sido mergulhada em água gelada, eu lembro: Foco, Isabella. Esse homem é o desastre. — Juro, garota — ele rosna, passando a língua pelos dentes — que se eu não precisasse da sua ajuda agora, já teria dado um jeito de calar essa sua boca. Só tenta, por favor, ficar em silêncio por dois minutos. Tenho uma proposta. E posso ser muito generoso na recompensa. — Não prometo nada — aviso, cruzando os braços. — Minha mãe não queimou minha língua com mingau e eu não tenho costume de engolir desaforo. Mas você tem cinco minutos antes de eu te tirar da minha frente à força. Ele me encara. E eu o encaro de volta. Ninguém pisca. Só o ar fica mais pesado. Finalmente, ele suspira, como se estivesse prestes a confessar um crime. — Não sei como dizer isso. Com você, tudo é… imprevisível. — Fala com a boca, então — aponto para a dele. — A ferramenta funciona, né? Ele fecha os olhos por UM segundo, claramente considerando me esganar. — Preciso que finja ser minha noiva. — O QUÊ?! — grito. — Perdeu a sanidade?! Virou piada agora?! — Eu preciso de uma noiva. Agora.Alguns meses se passaram, e eu mergulhei no trabalho. Já não sei mais como confiar em alguém. Fiz questão de não saber nenhuma notícia sobre Lucy ou Lucas. Não sei se os dois ficaram juntos. Não sei se sobreviveram ao que aconteceu. Não sei se o perigo do qual aquele árabe falou ainda existe ou se desapareceu junto com eles. A única informação que continuei perseguindo dizia respeito ao suposto irmão de Lucas. Meu pai... aparentemente, tinha outro filho. Não sabíamos se era mais velho ou mais novo. Na verdade, não sabíamos absolutamente nada. Coloquei minhas melhores equipes para investigar, mas, até agora, não havia respostas. Quanto a mim... nada mais aconteceu. Nenhum atentado. Nenhuma ameaça. Nenhum sinal de que alguém ainda estivesse me caçando. Talvez eu nunca tenha sido o verdadeiro alvo. Talvez tenham tentado me atingir apenas porque acreditavam que eu era importante para Lucas ou porque imaginavam que eu sabia alguma coisa sobre esse homem desconhecido. Mesmo assim, nã
Voltar para casa depois de tudo o que aconteceu foi mais difícil do que eu imaginava.Passei o caminho inteiro revivendo cada detalhe.Cada conversa.Cada olhar.Cada escolha.Eu não era o tipo de homem que corria atrás de uma mulher.Nunca fui.Passei a vida inteira acreditando que sentimentos eram uma fraqueza, algo que tirava o foco do que realmente importava.Mas eu corri atrás de Lucy.Corri mais do que jamais correria por qualquer outra pessoa.E aqui estou eu.Destruído.Eu sempre tive orgulho de ser alguém controlado. Alguém que mantinha a razão acima de tudo.Agora parecia uma piada.Porque bastou uma mulher para derrubar todas as minhas defesas.Mas Lucy não era qualquer mulher.No começo, eu acreditava que estava apenas cumprindo uma responsabilidade.Ela estava em perigo.Estava ao meu lado.E eu me sentia culpado por isso.Era minha obrigação protegê-la.Pelo menos foi assim que tudo começou.Mas as coisas mudaram.Lentamente.Sem que eu percebesse.Aquilo deixou de ser r
Eu poderia dizer que sou forte. Poderia fingir que nada me abala, que qualquer golpe da vida é apenas mais um obstáculo que eu atravesso sem olhar para trás. Mas isso... isso foi demais.Meu irmão não é um santo. Na verdade, nem sei por que ainda o chamo de irmão quando ele parece fazer de tudo para destruir o que é meu. Ainda assim, existe algo que me prende a ele. Talvez seja apenas a memória dos garotos que fomos um dia. Talvez seja o sangue.Mas, no fundo, ele não é meu irmão.Meus irmãos estão em Nova York. Minha família está em Nova York. Minha vida está em Nova York.E eu estou aqui.Preso neste lugar, lutando contra uma maré que nunca para de me arrastar para o fundo.Depois do que descobri, nada mais fazia sentido.O pior é que eu sabia. Em algum lugar dentro de mim, eu sempre soube que isso poderia acontecer. Mesmo assim, fui idiota. Cometi erro atrás de erro. Não sou santo também. Deveria ter sido mais cuidadoso. Mais desconfiado. Deveria ter me protegido.Mas não protegi.
Algo no olhar preocupado de Amyrah me deu a resposta antes mesmo que ela dissesse qualquer coisa.Ela nunca havia carregado um peso como aquele.Nunca precisara conviver com uma culpa capaz de consumir cada pensamento.Ainda segurando minha mão, ela se moveu para se ajoelhar diante de mim.— Você quer que eu chame um deles? — perguntou suavemente.Soltei uma risada curta e amarga.— Meus homens?A expressão séria dela vacilou.— Não. Não é isso.A mentira saiu fácil demais.— Eu estou bem.Não estava.Mas ela pareceu aceitar.Ou talvez apenas não soubesse como insistir.Seu olhar permaneceu sobre mim por alguns segundos antes que ela perguntasse:— Você matou alguém?Virei a cabeça tão rápido que quase senti o pescoço estalar.— O quê? Não!O alívio que atravessou seu rosto foi imediato.— Então pode ser consertado.Fechei os olhos.Ah, Amyrah...Se fosse tão simples.Porque talvez eu não tivesse matado uma pessoa.Mas tinha destruído algo.Algo precioso.Algo que Thomas jamais me per
Nem Thomas nem Lucas disseram uma palavra por vários segundos.O silêncio se prolongou até se tornar desconfortável.Foi mais do que eu consegui suportar.— Tem mais um?As três cabeças se viraram para mim.Dei de ombros.— Dois Hamilton já são mais do que suficientes para o mundo lidar.Pela primeira vez desde que a conversa começara, Lucas soltou uma risada.Thomas, porém, continuou sério.Pegou a fotografia das mãos do irmão e voltou a estudá-la.— Ao longo dos anos, várias pessoas apareceram alegando ser filhos de Rufus. — Sua voz era cautelosa. — Como sabemos que esse homem é quem diz ser? E como sabemos que suas informações estão corretas?Rashid apenas deu de ombros.— Se ele é realmente parente de vocês, não me interessa. O importante é que ele acredita que é.Thomas franziu a testa.— E como descobriu isso?Antes que Rashid respondesse, Lucas interrompeu.— Não pergunte.Ele continuava olhando para a fotografia.— Você sabe que ele vai responder alguma coisa misteriosa sobre
Pela primeira vez em muitos dias, adormeci sem lutar contra meus pensamentos.O cansaço acabou vencendo.Quando acordei, estava sozinha.A luz do sol atravessava as frestas da tenda, desenhando linhas douradas sobre os tapetes e tecidos espalhados pelo chão. Minhas roupas estavam jogadas próximas à cama improvisada, silenciosas testemunhas da noite anterior.Não havia sinal de Thomas.Ainda assim, sua presença permanecia.Eu sentia seu perfume na minha pele.Sentia o calor dele gravado na memória do meu corpo.Por um momento, fiquei sentada na cama, tentando organizar meus pensamentos. Então afastei as lembranças e me vesti rapidamente.Ao empurrar a aba da entrada, fui recebida por uma explosão de luz.Meus olhos demoraram alguns segundos para se acostumarem.Lá fora, o acampamento já estava desperto. Pessoas caminhavam entre as tendas, vozes ecoavam ao longe e o sol do deserto brilhava implacável sobre a areia dourada.— Não se preocupe. Ninguém o viu saindo da sua tenda.Dei um pul







