Mag-log inDois dias. Haviam se passado dois dias desde que Lívia havia deixado a propriedade. E Matteo ainda não havia aberto a porta daquele quarto uma única vez para descobrir. Nos primeiros momentos, havia dito a si mesmo que precisava de distância. Depois, convenceu-se de que não queria vê-la. No atual quinto dia, começou a fingir que ela sequer estava naquela casa. Era mais fácil. Ou pelo menos deveria ser. Passava quase todo o tempo no escritório. Documentos. Telefonemas. Negócios. Uísque. Qualquer coisa que impedisse sua mente de retornar àquele estábulo. Até que alguém bateu na porta. — Entre. Maria apareceu. Trazia alguns documentos. Colocou-os sobre a mesa. — Aqui estão os relatórios da cidade. E virou-se para sair. Matteo ergueu os olhos. Aquilo era estranho. Maria nunca fazia aquilo. Ela sempre explicava os documentos. Fazia comentários. Reclamava de alguma coisa. Provocava-o. Naquele dia, nada. — Algum bicho te mordeu? Maria parou. — O quê? — O que a
Victor estava acostumado a observar. Era uma das coisas que sua profissão havia lhe ensinado. Antes de tocar em um paciente, ele observava. Antes de fazer um diagnóstico, observava. Antes de tomar uma decisão, observava. Talvez por isso tivesse percebido aquela garota antes de qualquer um dos homens dentro do carro. O veículo estava parado em um dos inúmeros sinais daquela região movimentada da cidade. O trânsito parecia não ter fim. Carros ocupavam as faixas, motos passavam entre eles, buzinas soavam de todos os lados. Victor fechou o notebook que estava apoiado sobre as pernas. Suspirou. Mais uma reunião. Mais documentos. Mais um hospital que precisava de sua assinatura. Era assim praticamente todos os dias. Embora não gostasse particularmente da vida de negócios, havia responsabilidades que não podia ignorar. Victor pertencia a uma família que carregava um sobrenome conhecido. Vasconcelos. Um sobrenome que, em determinados círculos, não precisava de apresentação. E
Lívia acordou com o som de buzinas.Primeiro, distante.Depois, mais próximo.Uma voz masculina gritando alguma coisa na rua.Outra respondendo.Passos.Motores.O barulho constante de uma cidade começando mais um dia.Ela abriu os olhos lentamente.Por alguns segundos, não soube onde estava.Então sentiu as costas.— Ai...Levou a mão à região dolorida.Dormir no chão havia sido uma péssima ideia.O papelão que encontrara não tinha feito praticamente nenhuma diferença. Seu corpo inteiro parecia reclamar. As costas doíam, o pescoço estava rígido e até os quadris pareciam machucados.Ela se sentou devagar.Por um instante, fechou os olhos.Mesmo depois de tudo o que Matteo havia feito nos últimos dias, havia uma coisa que ela precisava admitir.Pelo menos a cama.Ele poderia tê-la trancado naquele quarto.Poderia ter colocado barras na janela.Poderia ter se recusado a falar com ela.Mas ainda havia permitido que ela dormisse em uma cama confortável.Agora, algumas horas sobre papelão
A madrugada havia engolido completamente a mansão. Tudo estava silencioso. Silencioso demais. Lívia dormia profundamente, encolhida sobre a cama, quando sentiu alguém segurando seus ombros. — Lívia. Nada. — Lívia, acorda. A voz parecia distante. Ela se mexeu, mas não abriu os olhos. Então foi chacoalhada novamente. — Lívia! Os olhos dela se abriram lentamente. Por alguns segundos, não conseguiu enxergar direito. A luz fraca da madrugada entrava pelas frestas da janela. Uma silhueta estava diante dela. Lívia piscou. — Maria...? — Sou eu. Maria estava ajoelhada ao lado da cama. A expressão dela era séria. Preocupada. Lívia tentou sorrir. Tentou mesmo. Mas seu rosto não obedeceu. Não havia força sequer para fingir que estava bem. — Oi... Foi tudo o que conseguiu dizer. Maria sentiu o peito apertar. — Meu Deus... Ela imediatamente abraçou a amiga. Lívia foi puxada contra o peito dela. E, naquele instante, algo dentro dela finalmente relaxou. O cheiro do per
Três dias.Era o terceiro dia desde aquela manhã.Três dias desde que Matteo havia entrado naquele antigo estábulo e olhado para ela como se não reconhecesse mais a mulher que tinha diante dos olhos.Três dias desde que Lívia fora trancada naquele quarto.E, desde então, ninguém havia levado comida.Teresa entrou no escritório naquela manhã com uma expressão diferente.Não era apenas preocupação.Era indignação.Matteo estava sentado atrás da mesa, analisando alguns documentos, embora tivesse passado os últimos minutos olhando para a mesma página sem realmente absorver o conteúdo.A batida na porta o fez erguer os olhos.— Entre.Teresa abriu.— Matteo.— O que foi?Ela hesitou.— Posso levar alguma coisa para a Lívia?A caneta parou entre os dedos dele.— Não.A resposta veio imediatamente.Teresa respirou fundo.— Matteo...— Eu disse não.— Ela está sem comer há três dias.— Eu sei.— Então sabe que isso é cruel demais.Os olhos dele se levantaram lentamente.— Cruel?Teresa susten
Matteo entrou no escritório e fechou a porta com tanta força que os vidros das janelas vibraram.Por alguns segundos, permaneceu parado.A mão ainda segurava a pistola.O peito subia e descia lentamente, mas a respiração estava longe de ser tranquila.Ele havia acabado de atirar.E, mesmo depois de guardar a arma na cintura, ainda conseguia ouvir o som do disparo dentro da cabeça.Mas não era o tiro que o atormentava.Era a imagem que o havia precedido.Lívia.Deitada naquele colchão.Ao lado de outro homem.O corpo parcialmente coberto por um tecido improvisado.A blusa jogada no chão.A camisa do segurança aberta.Matteo fechou os olhos.— Não...Passou a mão pelo rosto.Não.Aquilo não podia estar acontecendo.Não com ela.Não com Lívia.Ele abriu os olhos novamente e encarou o próprio escritório.O cavalete estava ali.A pintura dela ainda permanecia sobre a tela.O rosto de Lívia.Os olhos dela.A expressão delicada que ele havia tentado capturar durante horas.Aquela pintura rep







