LOGINA fechadura girou, mas a porta não abriu. Em vez disso, o tranco da madeira batendo contra o batente ecoou pelo corredor como um tiro.
Eu estava encolhida no canto, as pernas abraçadas, sentindo o frio das pedras atravessar meus ossos. E então, o som de garras raspando o chão: rítmico, seco, de algo que se move sem a delicadeza de calçados
A porta escancarou e três mulheres entraram.
Predadoras vestidas em seda cara, mas que traziam a sujeira da floresta nos olhos. A primeira era alta, com um rosto que parecia esculpido em gelo, a pele tão pálida que as veias sob o pescoço pareciam sombras escuras. A segunda tinha os cabelos pretos cortados de forma desigual, rente à nuca, expondo uma cicatriz que subia até a orelha. A terceira era uma garota que não parecia ter mais de vinte anos, mas os olhos... os olhos eram velhos. Amarelos, intensos, como brasas sopradas pelo vento.
O cheiro de pinheiro e sangue velho impregnou o ar.
— Então essa é a safra deste ano? — A da cicatriz parou diante de mim. Ela não olhava para o meu rosto; olhava para os meus braços, para a forma como meus dedos tremiam. — Parece que se quebra com um espirro.
— O Rei não quer uma boneca de porcelana — a de olhos amarelos disse, agachando-se na minha frente. O movimento foi fluido, um predador reduzindo a distância entre ele e a presa. Ela cheirou meu pescoço, o nariz roçando a minha pele. Sua pele era quente. Quente demais. — Ela fede a medo. O medo azeda o sangue, sabia disso, garotinha?
Eu tentei me afastar, mas a da cicatriz cravou os dedos no meu ombro. O aperto não era de uma humana. Era de uma morsa, uma pressão que parecia querer pulverizar minha clavícula.
— Deixa ela. O cheiro de pânico é o tempero favorito dele — a primeira, a de rosto de gelo, disse com um desdém cortante. Ela deu a volta, examinando-me como se eu fosse um cavalo num leilão. Ela tocou na capa militar que eu vestia e a arrancou com um puxão seco, rasgando o tecido. O frio me atingiu como um soco. — Tirem esse lixo. Ela precisa estar limpa para ser devorada.
— Por favor... — eu sussurrei, a voz saindo como uma súplica de uma coisa morta.
A de olhos amarelos soltou uma risada que começou no peito e terminou num som de garganta fechada, um rosnado disfarçado.
— "Por favor"? — ela olhou para as outras duas. — A ovelhinha aprendeu a falar. Que gracinha.
Ela se levantou e, com um movimento rápido, segurou minha blusa. Não foi um puxão. Foi um corte. Ela simplesmente rasgou o tecido, expondo meu peito ao ar gélido do castelo. Eu tentei me cobrir, mas a que estava atrás de mim agarrou meus pulsos e os prendeu nas minhas costas. A dor foi imediata.
— Olhem para isso — a da cicatriz zombou, passando uma unha longa e afiada pelo meu braço, deixando uma trilha branca que demorou a sangrar. — Pele de camponesa. Cheia de marcas de trabalho, de sol, de miséria. Você acha que ele vai ter dó, humana?
— Ele vai ter fome — a de olhos amarelos respondeu, puxando-me pelos cabelos até que eu ficasse de pé. Eu cambaleei, meus pés descalços sentindo cada irregularidade da pedra fria. — Vamos. A tina está pronta. Se ela entrar em choque térmico, o problema é dela.
Elas me arrastaram para um salão de banho anexo. O ambiente era um contraste cruel: paredes de pedra bruta, escuras, iluminadas apenas pelo vapor que subia de uma tina de ferro fundido. A água fervia, borbulhando um som sibilante.
— Enfia a cabeça dela aí dentro — a de rosto de gelo ordenou, encostada na parede, lixando as unhas com uma pequena lasca de osso. — Quero que saia toda a sujeira de Oakhaven. Não quero que o Rei sinta cheiro de porco.
A que segurava meus cabelos me empurrou. Senti a água quente rasgar minha pele, o choque térmico sendo uma dor tão real que eu soltei um grito abafado, engolindo água.
— Não esperneia — a de olhos amarelos sussurrou, a voz carregada de um divertimento cruel. Ela esfregou uma escova de cerdas de metal na minha pele, com tanta força que o sangue começou a brotar em linhas finas. — Se você sangrar demais agora, vai estragar o banquete.
— Quanto tempo vocês acham que ela dura? — a da cicatriz perguntou, observando o trabalho da outra. — A última chorou tanto que ele perdeu a paciência em dez minutos.
— Essa aqui é diferente — a de rosto de gelo interveio, aproximando-se. Ela tocou meu queixo, forçando-me a encará-la. Os olhos dela eram como dois poços sem fundo. — Ela tem algo nos olhos. Um tipo de ódio escondido. É uma pena, na verdade. O ódio demora mais tempo para morrer, mas quando morre... o som que faz é muito mais doce.
Elas me tiraram da tina, me empurrando com força para o chão frio. Eu não conseguia mais tremer. Estava entorpecida, uma boneca feita de carne esfolada e vergonha.
Vestiram-me com a seda preta. Ela era tão leve que parecia não estar ali, e tão fria que parecia me abraçar como um espectro. O tecido caía sobre meus ombros, deixando tudo exposto.
— Pronta para o abate — a da cicatriz sussurrou, alinhando os fios do meu cabelo com uma força desnecessária. — Tente não ser chata, humana. O Rei gosta de silêncio antes do desastre.
Elas me levaram pelo corredor. O mármore parecia absorver a luz das tochas. Paramos diante da porta que eu sabia que nunca deveria ter visto. As dobradiças em forma de lobos pareciam estar rosnando para mim.
A de olhos amarelos soltou meu braço. O toque final dela foi um arranhão no meu ombro, um aviso de que elas estariam vigiando.
— O resto é com você, pequena carne — ela disse, e o sorriso dela mostrou dentes que definitivamente não pertenciam a uma mulher.
Elas se viraram e caminharam de volta para a escuridão. O silêncio que ficou era pior do que qualquer grito. Eu estava ali, sozinha, os pés sangrando na pedra, o vestido de seda sendo a única coisa entre mim e a minha morte.
Eu não bati na porta. A porta, sentindo meu desespero ou obedecendo ao mestre, abriu-se por conta própria.
Uma escuridão lá dentro me convidava. Um cheiro de pinho e sangue velho, mais forte agora, como se estivesse me puxando para dentro de uma armadilha que eu mal podia ver. Eu dei o primeiro passo. E o mundo de fora deixou de existir.
A água quente na bacia de cobre tingia-se lentamente de um vermelho escuro e cinzento, lavando a fuligem, a neve derretida e o sangue inimigo que impregnava a minha pele.Os aposentos da Luna Suprema eram um santuário de silêncio e pedra polida, aquecidos por lareiras colossais que mantinham o frio do inverno banido daquelas paredes. Eu estava sentada numa banqueta estofada, vestindo apenas uma camisola limpa de linho branco que as criadas haviam providenciado. Os meus músculos tremiam, exaustos pela corrida insana através da floresta de pinheiros e pelo terror absoluto de encarar o exército do Sul.Diante de mim, movendo-se com uma graciosidade gélida e impecável, estava Ravena.Os olhos violeta dela estavam cravados no meu braço, analisando um corte superficial com a precisão de um falcão.Mergulhou um pano limpo na água quente, torceu o tecido e pressionou-o contra o arranhão no meu ombro com uma firmeza que me fez sibilar.Puxei o braço por instinto, o meu orgulho ferido falando m
O eco das minhas botas contra a pedra vulcânica soava como o bater de tambores fúnebres.Deixei os meus aposentos com o coração dividido. Uma metade da minha alma permanecia ancorada na cama, presa ao rosto exausto da minha Loba de Prata e ao calor frágil da minha filha recém-nascida. A outra metade, forjada no gelo e na responsabilidade militar, marchava pelos corredores escuros da Fortaleza de Obsidiana, empunhando a espada negra com uma força que fazia os meus nós dos dedos doerem.Se Kai estava nos portões, a guerra havia transbordado as trincheiras.Desci as grandes escadarias do pátio leste saltando os degraus. O ar ficava mais gélido a cada andar, a proximidade com as muralhas externas trazendo o sopro cortante da tempestade que assolava a montanha.Não estava sozinho na minha descida.Das sombras do corredor oeste, emergiu a figura inabalável de Kael. O Alpha Supremo vestia apenas a sua túnica de couro e calças de batalha, os longos cabelos pretos e lisos voando ao redor do ro
A tempestade que açoitava as torres da Fortaleza de Obsidiana naquela noite parecia ter sido conjurada pelos próprios deuses do gelo para espelhar a guerra e o desespero que corroíam o império. O vento uivava contra os vitrais espessos dos nossos aposentos reais, atirando punhados de neve congelada contra o vidro como se quisesse quebrar a barreira e devorar o calor que lutávamos para manter lá dentro. Contudo, o verdadeiro furacão não estava do lado de fora das muralhas de pedra vulcânica. O epicentro do caos absoluto ocorria bem no meio do nosso quarto.Um grito rasgou a minha garganta, um som tão agudo, primitivo e carregado de dor pura que fez as chamas nas imensas lareiras do quarto vacilarem.As minhas unhas cravaram-se com força esmagadora nos lençóis de seda negra, rasgando o tecido luxuoso como se fosse papel. A dor não era humana. Não era apenas física. Era uma combustão mágica e biológica que ameaçava partir a minha espinha ao meio. O filhote que eu carregava — o herdeiro q
O calor dentro da tenda médica, que antes era inebriante e luxurioso, transformou-se instantaneamente numa fornalha asfixiante. O inferno engolia a noite lá fora. As chamas que devoravam o acampamento de Obsidiana não possuíam o tom alaranjado e natural da lenha queimando; elas ardiam com um brilho esverdeado e doentio, cuspindo uma fumaça negra com cheiro de enxofre e óleo podre. Magia de sangue.Kai não hesitou. O instinto letal do Carrasco de Obsidiana obliterou o amante vulnerável de minutos atrás. Ele agarrou o cabo do imenso machado de duas cabeças esquecido no chão, os músculos colossais das costas e dos ombros retesando-se sob a tensão iminente do combate.— Fique colada nas minhas costas, Sienna — ele ordenou, a voz grave cortando o som da destruição, os olhos dourados varrendo o ambiente em busca de qualquer brecha segura. — Não solte a minha calça por um único segundo. Entendeu?Assenti freneticamente. O meu coração martelava contra as costelas de forma ensurdecedora, mas o
O pilão de pedra vulcânica pesava na minha mão. O cheiro adstringente da semente de zimbro esmagada misturava-se ao aroma mentolado das folhas de gelo que eu macerava, criando uma pasta anestésica espessa. O acampamento militar de Obsidiana, fixado na retaguarda da fronteira, parecia tranquilo, imerso no silêncio exausto que sucedia a tormenta da batalha. O único som constante era o vento uivando contra a lona grossa da minha tenda médica.Eu usava apenas a minha camisa de seda fina por baixo de um colete leve, o calor irradiando do pequeno braseiro no centro do ambiente mantendo o frio cortante afastado. Estava tão concentrada em calcular a proporção exata da resina que não percebi a alteração gravitacional no ar.Para um monstro colossal daquele tamanho, Kai movia-se com uma furtividade que beirava o sobrenatural.Não ouvi passos. Não ouvi o roçar do tecido escuro das suas calças militares. Apenas senti a parede de músculos quentes colidir contra as minhas costas. Antes que eu pudes
O frio que emanava das montanhas de Obsidiana nunca parecera tão cortante, tão carregado de presságios fúnebres quanto naquelas últimas semanas. O retorno de Silas com a notícia da aliança entre Evander e as Bruxas de Cinzas do Leste havia alterado irrevogavelmente o curso da guerra. O que antes era uma disputa territorial sangrenta, baseada em espadas, presas e táticas brutais, transformara-se num pesadelo de magia obscura e neblina venenosa.Nós estávamos perdendo.A palavra não era dita em voz alta nos grandes salões, pois o orgulho dos lobos do Norte proibia tal confissão, mas a verdade estava gravada nas feições de cada membro da Mesa de Obsidiana. Eu via os reflexos da derrota nas reuniões diárias. Kael, o Alpha Supremo, outrora uma estátua impassível de mármore e gelo, agora exibia sombras sob os olhos dourados; os longos cabelos pretos e lisos dele perdiam o brilho enquanto ele passava noites em claro, calculando baixas que se acumulavam nas trincheiras do Sul. O exército de O







