Compartir

III - OFERENDA

last update Fecha de publicación: 2026-07-14 07:04:08

A fechadura girou, mas a porta não abriu. Em vez disso, o tranco da madeira batendo contra o batente ecoou pelo corredor como um tiro.

Eu estava encolhida no canto, as pernas abraçadas, sentindo o frio das pedras atravessar meus ossos. E então, o som de garras raspando o chão: rítmico, seco, de algo que se move sem a delicadeza de calçados

A porta escancarou e três mulheres entraram.

Predadoras vestidas em seda cara, mas que traziam a sujeira da floresta nos olhos. A primeira era alta, com um rosto que parecia esculpido em gelo, a pele tão pálida que as veias sob o pescoço pareciam sombras escuras. A segunda tinha os cabelos pretos cortados de forma desigual, rente à nuca, expondo uma cicatriz que subia até a orelha. A terceira era uma garota que não parecia ter mais de vinte anos, mas os olhos... os olhos eram velhos. Amarelos, intensos, como brasas sopradas pelo vento.

O cheiro de pinheiro e sangue velho impregnou o ar.

— Então essa é a safra deste ano? — A da cicatriz parou diante de mim. Ela não olhava para o meu rosto; olhava para os meus braços, para a forma como meus dedos tremiam. — Parece que se quebra com um espirro.

— O Rei não quer uma boneca de porcelana — a de olhos amarelos disse, agachando-se na minha frente. O movimento foi fluido, um predador reduzindo a distância entre ele e a presa. Ela cheirou meu pescoço, o nariz roçando a minha pele. Sua pele era quente. Quente demais. — Ela fede a medo. O medo azeda o sangue, sabia disso, garotinha?

Eu tentei me afastar, mas a da cicatriz cravou os dedos no meu ombro. O aperto não era de uma humana. Era de uma morsa, uma pressão que parecia querer pulverizar minha clavícula.

— Deixa ela. O cheiro de pânico é o tempero favorito dele — a primeira, a de rosto de gelo, disse com um desdém cortante. Ela deu a volta, examinando-me como se eu fosse um cavalo num leilão. Ela tocou na capa militar que eu vestia e a arrancou com um puxão seco, rasgando o tecido. O frio me atingiu como um soco. — Tirem esse lixo. Ela precisa estar limpa para ser devorada.

— Por favor... — eu sussurrei, a voz saindo como uma súplica de uma coisa morta.

A de olhos amarelos soltou uma risada que começou no peito e terminou num som de garganta fechada, um rosnado disfarçado.

— "Por favor"? — ela olhou para as outras duas. — A ovelhinha aprendeu a falar. Que gracinha.

Ela se levantou e, com um movimento rápido, segurou minha blusa. Não foi um puxão. Foi um corte. Ela simplesmente rasgou o tecido, expondo meu peito ao ar gélido do castelo. Eu tentei me cobrir, mas a que estava atrás de mim agarrou meus pulsos e os prendeu nas minhas costas. A dor foi imediata.

— Olhem para isso — a da cicatriz zombou, passando uma unha longa e afiada pelo meu braço, deixando uma trilha branca que demorou a sangrar. — Pele de camponesa. Cheia de marcas de trabalho, de sol, de miséria. Você acha que ele vai ter dó, humana?

— Ele vai ter fome — a de olhos amarelos respondeu, puxando-me pelos cabelos até que eu ficasse de pé. Eu cambaleei, meus pés descalços sentindo cada irregularidade da pedra fria. — Vamos. A tina está pronta. Se ela entrar em choque térmico, o problema é dela.

Elas me arrastaram para um salão de banho anexo. O ambiente era um contraste cruel: paredes de pedra bruta, escuras, iluminadas apenas pelo vapor que subia de uma tina de ferro fundido. A água fervia, borbulhando um som sibilante.

— Enfia a cabeça dela aí dentro — a de rosto de gelo ordenou, encostada na parede, lixando as unhas com uma pequena lasca de osso. — Quero que saia toda a sujeira de Oakhaven. Não quero que o Rei sinta cheiro de porco.

A que segurava meus cabelos me empurrou. Senti a água quente rasgar minha pele, o choque térmico sendo uma dor tão real que eu soltei um grito abafado, engolindo água.

— Não esperneia — a de olhos amarelos sussurrou, a voz carregada de um divertimento cruel. Ela esfregou uma escova de cerdas de metal na minha pele, com tanta força que o sangue começou a brotar em linhas finas. — Se você sangrar demais agora, vai estragar o banquete.

— Quanto tempo vocês acham que ela dura? — a da cicatriz perguntou, observando o trabalho da outra. — A última chorou tanto que ele perdeu a paciência em dez minutos.

— Essa aqui é diferente — a de rosto de gelo interveio, aproximando-se. Ela tocou meu queixo, forçando-me a encará-la. Os olhos dela eram como dois poços sem fundo. — Ela tem algo nos olhos. Um tipo de ódio escondido. É uma pena, na verdade. O ódio demora mais tempo para morrer, mas quando morre... o som que faz é muito mais doce.

Elas me tiraram da tina, me empurrando com força para o chão frio. Eu não conseguia mais tremer. Estava entorpecida, uma boneca feita de carne esfolada e vergonha.

Vestiram-me com a seda preta. Ela era tão leve que parecia não estar ali, e tão fria que parecia me abraçar como um espectro. O tecido caía sobre meus ombros, deixando tudo exposto.

— Pronta para o abate — a da cicatriz sussurrou, alinhando os fios do meu cabelo com uma força desnecessária. — Tente não ser chata, humana. O Rei gosta de silêncio antes do desastre.

Elas me levaram pelo corredor. O mármore parecia absorver a luz das tochas. Paramos diante da porta que eu sabia que nunca deveria ter visto. As dobradiças em forma de lobos pareciam estar rosnando para mim.

A de olhos amarelos soltou meu braço. O toque final dela foi um arranhão no meu ombro, um aviso de que elas estariam vigiando.

— O resto é com você, pequena carne — ela disse, e o sorriso dela mostrou dentes que definitivamente não pertenciam a uma mulher.

Elas se viraram e caminharam de volta para a escuridão. O silêncio que ficou era pior do que qualquer grito. Eu estava ali, sozinha, os pés sangrando na pedra, o vestido de seda sendo a única coisa entre mim e a minha morte.

Eu não bati na porta. A porta, sentindo meu desespero ou obedecendo ao mestre, abriu-se por conta própria.

Uma escuridão lá dentro me convidava. Um cheiro de pinho e sangue velho, mais forte agora, como se estivesse me puxando para dentro de uma armadilha que eu mal podia ver. Eu dei o primeiro passo. E o mundo de fora deixou de existir.

Continúa leyendo este libro gratis
Escanea el código para descargar la App

Último capítulo

  • Vendida ao Monstro do Norte   EPÍLOGO

    O silêncio do Norte nunca foi pacífico; ele era apenas a calmaria tensa que antecedia o bote de uma fera invisível.Anos haviam se passado desde o dia em que as carruagens de Aedan e Lyra desceram a encosta rumo ao exílio dourado no Sul. Desde então, a Fortaleza de Obsidiana havia mudado o seu ritmo. Kael reinava com pulso firme e justo ao lado de Ravena, consolidando o império que Soren e Maeve haviam forjado no sangue. O meu pai e a minha mãe viviam agora numa trégua sagrada com o tempo, desfrutando das sombras da montanha de forma reclusa e quase intocável. E eu... eu havia assumido o único lugar que a minha biologia e o meu temperamento exigiam: Comandante da Guarda de Elite do Norte.Aos vinte e cinco anos, o meu reflexo nos espelhos de prata de Obsidiana já não mostrava o garoto raivoso que atirava pratos contra a parede ou que rosnava por ciúmes infantis. Os cabelos platinados caíam longos sobre os ombros largos, emoldurando um rosto marcado por cicatrizes de patrulhas nas front

  • Vendida ao Monstro do Norte   CXXX - Enfim, sós.

    O sol de inverno despontava preguiçoso por trás dos picos gelados, banhando as pedras escuras da fortaleza com uma luz pálida e prateada. O pátio inferior estava mergulhado num caos organizado, uma sinfonia ruidosa de cascos batendo na pedra, metal tilintando, relinchos nervosos e ordens sendo gritadas pelos comandantes da guarda.Mas, para mim, o mundo inteiro estava mergulhado num silêncio ensurdecedor.As despedidas íntimas haviam acontecido nos corredores internos, longe dos olhares dos lordes e dos soldados. Eu havia abraçado Lyra com uma força desesperada, afagando os cabelos brancos da minha menina, sussurrando contra a bochecha sardenta dela todas as promessas e conselhos que uma mãe poderia dar. Eu pedi que ela fosse forte, que continuasse lendo, que não esquecesse o arco longo e, acima de tudo, que permitisse a si mesma ser feliz no Sul. Ela chorou, as lágrimas quentes molhando o meu pescoço, os dedinhos apertando o veludo do meu vestido como se fosse a última âncora do mund

  • Vendida ao Monstro do Norte   CXXIX - DESPEDIDAS

    O fogo crepitava na lareira da sala de estudos, lançando sombras quentes e dançantes sobre as prateleiras de carvalho maciço e os milhares de pergaminhos que guardavam a história de Obsidiana. O castelo lá fora continuava a sua rotina gélida e militar, mas, dentro daquelas quatro paredes, o tempo parecia ter parado. Não havia Rei, não havia Estrategista, não havia Comandante. Havia apenas uma mãe e os seus dois filhos.Estávamos deitados no chão, sobre os grossos e macios tapetes de pele de urso que forravam a pedra fria. Eu estava no centro, de costas para o chão, fitando o teto abobadado. Torin estava deitado à minha direita, com os braços cruzados atrás da cabeça platinada, enquanto Aedan estava à minha esquerda, de lado, apoiado no cotovelo, observando as brasas com o seu olhar de cobre.Era uma cena idêntica a dezenas de outras que havíamos partilhado quando eles eram apenas filhotes desajeitados, fugindo dos treinos rigorosos de Soren para se esconderem no meu refúgio. Mas agora

  • Vendida ao Monstro do Norte   CXXVIII - A CÚPULA

    O amanhecer trouxe consigo uma claridade fria e implacável que atravessou as pesadas cortinas do meu quarto, mas não trouxe arrependimento. Quando abri os olhos, o peso reconfortante do braço de Aedan ainda repousava sobre a minha cintura, prendendo-me contra o peito largo e quente dele. A marca na base do meu pescoço latejava num ritmo compassado, um lembrete físico e eterno de que eu havia sido reivindicada. O meu sangue cantava, a minha loba estava em paz, mas o ar que respirávamos estava denso com a promessa da tempestade.A minha pele inteira exalava o cheiro dele. Couro, especiarias, ozônio e o gelo cortante do Sul haviam se fundido à minha lavanda de forma irrevogável. Aedan me ajudou a vestir uma túnica de gola alta, os dedos longos dele demorando-se na minha marca com uma reverência quase religiosa, antes de beijar a minha testa. Não havia mais como nos escondermos. Nós caminhamos pelos corredores de Obsidiana lado a lado, as nossas mãos entrelaçadas. A cada passo, eu via as

  • Vendida ao Monstro do Norte   CXXVII - DESISTÊNCIA DELICIOSA

    As horas que se arrastaram após o amanhecer foram a tortura mais silenciosa que eu já havia suportado. A nevasca lá fora continuava castigando as muralhas de Obsidiana, uivando como um bando de feras famintas, mas o verdadeiro inferno estava acontecendo dentro do meu próprio corpo.Trancada nos meus aposentos, eu andava de um lado para o outro como um animal enjaulado. A minha pele formigava. O meu sangue parecia espesso, quente demais, correndo pelas minhas veias com uma urgência febril que me deixava tonta. O meu lobo interior estava desperto, arranhando as grades da minha mente, exigindo o macho que a biologia havia escolhido. Eu esfregava os braços, tentando espantar os tremores, mas o cheiro fantasma de Aedan — couro escuro, gelo e especiarias — recusava-se a abandonar os meus sentidos.Quando a noite finalmente caiu, engolindo o castelo numa escuridão profunda, o clique metálico da fechadura da minha porta soou como um tiro.Girei sobre os calcanhares, o coração saltando até a b

  • Vendida ao Monstro do Norte   CXXVI - PAI E FILHO

    O amanhecer na Fortaleza de Obsidiana, após a nevasca implacável que castigou a montanha durante a noite inteira, nasceu pálido, silencioso e congelante. O castelo parecia mergulhado num transe profundo, as pedras cobertas por uma espessa camada de gelo branco que refletia a luz fraca do sol de inverno.Aedan caminhava pelos corredores da Ala Leste com passos medidos, silenciosos e absolutamente letais. O Estrategista do Sul não havia dormido. O cheiro de lavanda, pele úmida e desejo ainda impregnava as suas roupas e nublava os seus sentidos, uma lembrança física e torturante da garota de cabelos brancos que ele deixara adormecida, trancada e segura nos aposentos dela, poucas horas antes.O lobo dentro dele estava agitado, arranhando as paredes da sua mente, exigindo voltar, exigindo arrombar aquela porta de carvalho e terminar o que haviam começado. Mas a mente humana, afiada e brilhante de Aedan, sabia que o próximo passo não poderia ser dado no calor dos lençóis. O próximo passo pr

Más capítulos
Explora y lee buenas novelas gratis
Acceso gratuito a una gran cantidad de buenas novelas en la app GoodNovel. Descarga los libros que te gusten y léelos donde y cuando quieras.
Lee libros gratis en la app
ESCANEA EL CÓDIGO PARA LEER EN LA APP
DMCA.com Protection Status