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II - MORTALHA

last update publish date: 2026-07-14 06:57:59

O vento rugiu assim que coloquei a bota no degrau de madeira podre da jaula. A sola gastou no gelo acumulado e, antes que eu pudesse buscar equilíbrio, o mercenário da cicatriz perdeu o restinho de paciência militar que tinha. Ele agarrou o tecido grosso da minha capa nas costas e me puxou para fora de uma vez.

Meus joelhos bateram com força na neve acumulada do pátio. Só que a neve ali não era fofa. Era uma crosta dura, cristalizada, afiada como vidro quebrado, que rasgou a bainha do meu vestido de algodão por baixo da capa e arranhou minha pele.

Engoli o gemido de dor. Apoiei as mãos dormentes no chão de gelo, sentindo o frio morder meus dedos até os ossos, e levantei o rosto devagar.

O fôlego que me restava sumiu.

A Fortaleza de Obsidiana não era um castelo. Castelos tinham torres elegantes, vitrais coloridos e bandeiras balançando ao vento. Aquilo ali era uma monstruosidade arquitetônica, uma anomalia brutal e maciça que parecia ter sido vomitada diretamente das entranhas da montanha. Era inteiramente construída com uma pedra negra e porosa que não refletia um único feixe de luz solar. Ela engolia a claridade. As paredes gigantescas se erguiam num ângulo agressivo contra o céu branco e nublado, sem nenhuma janela nos andares inferiores. Parecia uma fortaleza de guerra projetada não para proteger quem estava dentro, mas para triturar quem tentasse entrar.

O portão principal era um arco descomunal de ferro escuro, ladeado por tochas imensas cujas chamas tremiam violentamente com a ventania, queimando com uma estranha cor azulada.

— Levanta logo, garota — rosnou o mercenário, dando um chute fraco na sola da minha bota. A voz dele tremia de leve. Ele queria sair dali. O cheiro de ozônio e pinho selvagem que eu tinha sentido na carruagem estava muito mais forte agora. Cheirava a predador solto.

Me forcei a levantar, os joelhos latejando, e ajeitei a capa fedorenta ao redor do corpo.

Das sombras do arco principal, duas figuras avançaram em nossa direção. Os guardas do Norte. Meu estômago despencou.

Eles eram gigantes. Não eram homens rústicos como os da minha aldeia, e muito menos soldados treinados do Sul. Pareciam montanhas que andavam. Não usavam cotas de malha completas ou placas de metal espessas para se protegerem do frio cortante, o que era uma insanidade biológica a vinte graus negativos. Usavam apenas calças de couro grosso, botas forradas e coletes de pele de lobo ou urso por cima de blusas escuras. Os braços musculosos e pálidos de um deles estavam parcialmente expostos, cobertos por tatuagens rúnicas que pareciam ter sido encravadas na pele com brasa pura.

Mas o que me fez recuar um passo instintivo foi o jeito que eles olharam para mim. Ou melhor, o jeito que não olharam. Não havia curiosidade humana ali. Os olhos deles eram duros, frios e focados. Olharam para mim como um fazendeiro olha para um saco de ração antes de jogá-lo no celeiro.

— O Tratado — disse o sargento mercenário, a voz mais alta do que o necessário, tentando esconder o nervosismo. Ele não desceu do cavalo dessa vez. — O tributo de Oakhaven. Viva, conforme o acordo.

O guarda do Norte com as tatuagens no braço parou a dois metros de mim. Ele tinha os cabelos escuros trançados rentes ao couro cabeludo e uma barba cerrada. O ar saía da boca dele em nuvens brancas e densas.

Ele não respondeu ao sargento. Não confirmou o recebimento, não agradeceu, não ameaçou. Apenas esticou um braço do tamanho de um tronco de árvore, agarrou o meu bíceps por cima da capa pesada e me puxou para o lado dele.

O aperto foi desumano. Uma força que me lembrou imediatamente de que, caso eu tentasse correr, ele não precisaria da espada que carregava nas costas para me parar; ele simplesmente quebraria o meu pescoço com uma mão.

— Podem dar o fora das nossas terras — a voz do guarda ecoou. Era grave, rouca, soando como duas pedras raspando uma na outra.

O sargento não pensou duas vezes. Puxou as rédeas do cavalo com tanta pressa que o animal empinou, virou de costas e chicoteou a montaria. A carruagem vazia fez a volta no pátio, as rodas derrapando no gelo, e eles sumiram pelo desfiladeiro branco sem olhar para trás nem por um segundo. A minha última conexão com o mundo normal tinha acabado de desaparecer no nevoeiro.

O guarda me puxou para frente. Quase tropecei nas minhas próprias pernas dormentes tentando acompanhar as passadas largas dele.

Atravessamos o portão descomunal. Assim que a escuridão do arco engoliu meu corpo, a temperatura mudou. Cortou o vento, mas o frio que me atingiu foi muito pior. Era o frio da pedra antiga, um gelo estagnado, de tumba, que não circulava e apenas sugava a umidade do ar.

Uma grade de ferro imensa, com pontas afiadas como lanças, desceu atrás de nós com um estrondo ensurdecedor. O impacto fez o chão tremer sob as minhas botas. Bum. Estava feito. Não tinha como sair.

O interior da fortaleza era um pesadelo arquitetônico. Os corredores eram largos o suficiente para passar uma carruagem inteira, iluminados por archotes espaçados que deixavam manchas enormes de escuridão pura entre uma luz e outra. O chão era de lajotas de pedra negra, polidas e perigosamente escorregadias.

Mas o que me fez prender a respiração, o que realmente acelerou o meu coração em um pânico crescente enquanto eu era arrastada por aquele labirinto, não foi o tamanho do lugar.

Foi o silêncio.

Um castelo com aquelas proporções, projetado para abrigar um exército, deveria ser barulhento. Deveria cheirar a carne assando nas cozinhas, a pão fresco. Deveria ter criadas correndo com baldes de água, o barulho metálico de armas sendo forjadas no pátio, o burburinho de pessoas fofocando ou brigando.

Mas não havia nada. Nenhum murmúrio. Nenhuma porta batendo ao longe.

O único som no mundo era o eco seco e agressivo das botas dos guardas contra a pedra e a minha própria respiração ofegante. Era um silêncio oco, pesado. O silêncio de um lugar que tinha parado no tempo. De uma casa enorme habitada por fantasmas ou por coisas que não precisavam conversar.

Subimos uma escadaria de pedra espiral que parecia não ter fim. Minhas coxas queimavam. Eu não comia uma refeição decente desde a manhã do dia anterior, e o peso da capa militar estava cobrando o seu preço. Meus pulmões ardiam buscando oxigênio no ar rarefeito e gelado da montanha. A cada degrau, o cheiro selvagem que me atingiu lá fora ficava mais concentrado. Era instintivo, primitivo. Fazia a penugem da minha nuca se eriçar.

Paramos de repente no meio de um corredor longo, ladeado por portas de carvalho maciço e ferro trabalhado.

O guarda soltou o meu braço. Meu corpo inteiro balançou com a perda de apoio e dei um passo rápido para trás, esfregando o local onde os dedos dele quase me deixaram um hematoma instantâneo por cima das roupas.

Ele parou diante de uma das portas, puxou uma chave de metal escuro do cinto e a destrancou. Empurrou a folha de madeira pesada com o ombro. Ela se abriu rangendo baixo.

Ele virou o rosto na minha direção. Pela primeira vez, os olhos mortos e escuros focaram no meu rosto. Ele viu o meu queixo tremendo, viu as sardas salpicadas no meu nariz avermelhado pelo frio extremo e o pavor contido na minha postura defensiva. Ele não sorriu. Não zombou.

— Entra — foi a única coisa que ele disse.

Eu não me movi. Olhei para a escuridão do quarto além da porta. Não havia fogueira acesa lá dentro. Não havia luz. Era um buraco negro.

Meu instinto de sobrevivência travou meus pés no chão de lajota escorregadia. Entrar ali seria admitir a derrota. Seria aceitar que eu era o gado que finalmente tinha chegado à sua baia no matadouro.

— Não — a palavra escapou da minha boca antes que eu pudesse frear a língua. Foi um sussurro quebrado, rouco, quase ridículo se comparado ao tamanho do homem à minha frente. Mas era tudo o que eu tinha.

O outro guarda, que havia subido as escadas em silêncio atrás de nós, cruzou os braços maciços.

O guarda tatuado piscou lentamente. Ele não sacou uma arma. Ele não se irritou. Ele apenas deu um passo na minha direção, o corpo enorme bloqueando a parca luz das tochas do corredor, e usou as duas mãos enormes. Uma no meu ombro, a outra no meu peito, em cima da capa suja.

E me jogou para dentro do quarto.

Fui arremessada como uma boneca de trapos. O ar fugiu dos meus pulmões com a força do solavanco. Tropecei nos meus próprios pés e caí de bruços no chão de pedra polida e congelante. Bati as palmas das mãos no piso para tentar proteger o rosto, arranhando os calos velhos na rocha fria.

Eu me virei de lado rapidamente, o coração ameaçando pular pela boca, esperando um ataque. Esperando que o homem entrasse para terminar o serviço ou me acorrentar na parede.

Mas ele não entrou. O guarda apenas ficou parado na soleira por um segundo, uma montanha bloqueando a luz, a silhueta impenetrável. E então, ele recuou um passo.

A porta pesada de carvalho foi puxada.

A última fresta de luz dourada sumiu do meu rosto. A madeira bateu contra o batente com um baque surdo, definitivo, que sacudiu as paredes do cômodo. O som metálico da chave girando na tranca pesada estalou duas vezes no ambiente morto.

Ouvi as botas dos dois guardas se afastando pelo corredor de pedra, o eco ritmado diminuindo, diminuindo, diminuindo... até desaparecer por completo.

Fiquei deitada no chão, o peito subindo e descendo freneticamente, as mãos espalmadas contra o piso gélido.

Eu tentei ouvir alguma coisa. Qualquer coisa. Um barulho de vento na janela, o rangido do encanamento antigo do castelo, os passos do meu carrasco se aproximando de onde quer que estivesse vindo. Mas a Fortaleza de Obsidiana era construída para não ter ouvidos. E para não ter voz.

A escuridão era absoluta. O frio estava impregnado nas pedras, rastejando pela minha pele como pequenas agulhas afiadas, perfurando o algodão da minha blusa, avisando que a capa militar não seria suficiente por muito tempo sem uma fogueira.

Encolhi as pernas, puxando os joelhos de encontro ao queixo, sozinha num quarto selado no fim do mundo, num castelo que parecia morto.

Fechei os olhos com força, esperando o ardor das lágrimas, mas elas não vieram. O pânico de repente foi engolido por um vazio gelado. O pior daquela cela não era o frio que endurecia minhas juntas, nem a fome que torcia o meu estômago ou a ausência total de luz.

O pior era que o silêncio lá dentro gritava mais alto do que qualquer monstro.

E eu sabia, com uma certeza visceral e aterrorizante que gelou meu sangue, que aquilo não era um esquecimento. O Rei Alpha não tinha atrasado. Ele não estava simplesmente ocupado.

Aquilo era um teste.

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