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5. O Preço da Vida

مؤلف: mahribbs
last update تاريخ النشر: 2026-07-07 09:32:26

Gabriel de Valença não respondeu de imediato depois que Joaquim disse o valor.

A quantia ficou suspensa entre os dois como uma obscenidade pronunciada dentro de uma igreja. Joaquim esperava espanto, talvez desprezo, talvez uma expulsão tão fria quanto a casa que os cercava. Em vez disso, o conde permaneceu imóvel junto à escrivaninha, com o lado mascarado do rosto voltado parcialmente para a sombra e o olho visível fixo nele com uma atenção que não se parecia com piedade. Era cálculo, Joaquim percebeu. Não o cálculo vulgar de quem pesava moedas, mas o de um homem acostumado a decidir o destino de propriedades, contratos e empregados sem permitir que a própria mão tremesse.

— Silas Freire lhe deu três dias — disse Gabriel, enfim.

— Sim.

— E já tomou sua filha como garantia antes do vencimento.

Joaquim baixou os olhos.

— Sim.

Gabriel caminhou até a janela. Do lado de fora, os ciprestes de Monteluz se curvavam com o vento, escuros contra o céu da tarde, e por um instante Joaquim teve a impressão de que aquela casa inteira o julgava em silêncio. Talvez julgasse. Talvez fosse exatamente o tipo de lugar onde gerações de mortos permaneciam nas paredes, assistindo aos vivos repetirem violências com nomes mais aceitáveis.

— Silas não receberá de suas mãos — disse Gabriel. — Homens como ele farejam desespero e aumentam o preço quando percebem que a presa ainda respira.

Joaquim ergueu a cabeça depressa demais.

— Então o senhor vai ajudar?

— Vou pagar a dívida — respondeu Gabriel, sem qualquer suavidade. — Isso não significa que estou aceitando sua proposta nos termos em que o senhor a trouxe.

A esperança que subiu pelo peito de Joaquim era tão indecente quanto o alívio de um condenado que descobre que outro ocupará seu lugar na forca. Ele quis agradecer, quis cair de joelhos, quis prometer qualquer coisa, mas o olhar do conde o manteve de pé. Gabriel não parecia um salvador. Parecia um homem diante de algo sujo que decidira tocar apenas porque deixá-lo no chão seria pior.

— Se Clara Moura vier para Monteluz, virá como minha esposa legal, não como uma amante escondida, uma criada promovida ou uma moça comprada para satisfazer boatos de corredor. O casamento será público, registrado e irrevogável por pelo menos um ano. Depois disso, se houver motivo jurídico ou acordo entre as partes, poderemos discutir separação de corpos ou outra solução que preserve o nome dela tanto quanto possível.

Joaquim piscou, atordoado pela formalidade fria daquelas palavras.

— Um ano?

— Não me interessa uma encenação que Teodoro de Valença possa contestar em duas semanas. Também não me interessa destruir a reputação de uma mulher para depois descobrir que seu pai pretende resgatá-la assim que a poeira baixar. O senhor veio até mim oferecendo uma filha. Eu estou lhe dizendo as condições para que ela não seja tratada como mercadoria por todos os outros.

A frase deveria tê-lo consolado, mas Joaquim sentiu apenas mais vergonha.

— Ela vai me odiar.

— Seria estranho se não odiasse.

Gabriel voltou-se completamente para ele. A máscara cobria o que a luz talvez revelasse, mas a metade visível do rosto bastava para mostrar a dureza de sua decisão.

— Há outra condição.

Joaquim assentiu antes mesmo de ouvi-la.

— Qualquer coisa.

— Não use essa expressão diante de mim novamente. Homens que dizem “qualquer coisa” costumam descobrir tarde demais que não tinham o direito de oferecer tanto.

Joaquim fechou a boca.

— Minha condição é simples — continuou Gabriel. — Clara saberá a verdade. Toda ela. Saberá que foi sequestrada por causa da sua dívida, que eu paguei Silas Freire, que o casamento foi proposto pelo senhor e aceito por mim por razões que não têm nada de românticas. Se eu descobrir que o senhor tentou enfeitar esse acordo com palavras como destino, proteção ou oportunidade, anularei minha participação e deixarei Silas cobrar do modo que preferir.

O sangue fugiu do rosto de Joaquim.

— Mas isso vai quebrá-la.

— Não. O sequestro talvez a quebre. A mentira apenas garantiria que ela nunca soubesse em quem confiar depois.

Joaquim levou uma das mãos ao encosto da cadeira, porque as pernas ameaçaram falhar. Durante anos, mentira para Clara em doses pequenas, quase domésticas, como quem dilui veneno em água e chama aquilo de sobrevivência. Mentira sobre o dinheiro que perdia, sobre os objetos que penhorava, sobre as noites em que voltava sem olhar nos olhos dela. Agora aquele homem, sobre quem a cidade inteira contava histórias de monstruosidade, exigia a verdade com uma firmeza que Joaquim nunca tivera coragem de oferecer à própria filha.

Gabriel puxou uma folha de papel, mergulhou a pena no tinteiro e começou a escrever.

— Dona Beatriz providenciará uma carruagem e dois homens de confiança. O pagamento será entregue ainda hoje, mediante a devolução imediata de Clara Moura. Silas Freire assinará recibo e declaração de quitação, ainda que ambos saibamos que o papel de um criminoso vale menos do que a tinta nele usada.

— E se ele não aceitar?

Gabriel ergueu os olhos.

— Ele aceitará.

Não havia arrogância na frase. Havia certeza. Joaquim, que passara a vida recente se curvando diante de homens piores do que ele, sentiu pela primeira vez o peso real da diferença entre um homem rico e um homem poderoso.

E, definitivamente, Gabriel era os dois.

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