LOGINClara Moura não foi pedida em casamento. Foi vendida. Depois que seu pai perde tudo em uma mesa de jogo, Clara é sequestrada por um agiota cruel e transformada em garantia de uma dívida impossível de pagar. Para salvá-la, Joaquim Moura faz o único acordo que ainda lhe resta: entrega a filha ao homem mais temido da região. Lorde Gabriel de Valença, a Fera de Monteluz. Rico, recluso e marcado pelo incêndio que destruiu metade de seu rosto, Gabriel vive escondido atrás de uma máscara. Nenhuma família respeitável aceita lhe dar uma esposa. Mas ele precisa de uma. Precisa de um herdeiro antes que seu título caia nas mãos do primo que espera vê-lo morto. Então Gabriel paga a dívida de Clara. E Clara se torna sua esposa. Ela chega a Monteluz esperando encontrar um monstro. Um homem cruel. Um marido disposto a cobrar o preço do dinheiro que gastou para salvá-la. Mas Gabriel não a toca sem permissão. Não exige amor. Não finge que o casamento foi justo. Apenas lhe oferece uma verdade fria: ela terá tempo para se acostumar à nova vida, mas um dia precisará decidir se será sua esposa apenas no papel… ou também no corpo. Clara deveria odiá-lo. Só que, entre corredores escuros, jantares silenciosos e noites em que a máscara parece pesar mais do que as cicatrizes, ela começa a perceber que talvez a fera de Monteluz não seja o verdadeiro monstro daquela história. E quando finalmente tiver a chance de partir, Clara precisará escolher: voltar para a vida que a vendeu… ou ficar com o homem que nunca tentou possuí-la.
View MoreClara Moura aprendeu a medir a desgraça pelo som dos passos do pai.
Quando Joaquim voltava cedo, ainda havia alguma esperança. Quando voltava cantando baixo, com aquele cheiro acre de aguardente barata entranhado no casaco, Clara sabia que ele perdera pouco e inventaria alguma desculpa mansa para pedir perdão. Quando voltava depois da meia-noite, sem cantar, sem bater à porta com os nós dos dedos como costumava fazer antes de abrir, a casa inteira parecia prender a respiração antes dele. Naquela noite, a casa já estava sufocada havia horas. Era uma construção estreita, espremida entre uma mercearia falida e a oficina de um relojoeiro que perdera a visão de um olho. As paredes, um dia caiadas de branco, tinham adquirido a cor cansada da fumaça dos lampiões e da umidade que subia do chão. O telhado rangia quando o vento vinha do porto, e a janela da sala nunca fechava direito, deixando passar um fio constante de ar frio que movia a chama da lamparina como se houvesse alguém invisível soprando contra ela. Clara estava sentada junto à mesa, com uma xícara de café aguado intocada diante de si e um casaco velho dobrado sobre os joelhos. Tentava remendar a manga pela terceira vez, embora soubesse que o tecido já não suportava novas costuras. Fazia isso para manter as mãos ocupadas, para não levantar a cada cinco minutos e olhar pela fresta da cortina. À luz amarelada, seus cabelos castanhos pareciam mais escuros do que eram, presos de qualquer modo na nuca, com alguns fios escapando ao redor do rosto. Clara não tinha a beleza delicada das moças estampadas nos jornais de moda que chegavam, atrasados e amassados, à banca do largo. Havia nela uma graça mais firme, menos obediente, feita de olhos atentos, boca séria e uma postura que a pobreza ainda não conseguira curvar por completo. Aos vinte e dois anos, tinha mãos de mulher que trabalhava e o olhar de quem fora obrigada a entender cedo demais que amor não pagava aluguel, não comprava pão e não impedia um homem fraco de destruir tudo ao redor. O relógio do vizinho bateu uma hora. Clara largou a agulha. O som da rua havia mudado. Depois da passagem da última carruagem de aluguel e do pregão distante de um vendedor de castanhas que insistia em trabalhar até tarde, restara apenas o ruído miúdo da cidade: rodas molhadas no calçamento, um cão latindo ao longe, vozes masculinas saindo de alguma taberna escondida. Então, por cima de tudo isso, vieram passos. Lentos. Irregulares. Arrastados. Clara se levantou antes mesmo que a maçaneta girasse. A porta abriu com dificuldade, como se o homem do outro lado tivesse se apoiado nela mais do que empurrado. Joaquim Moura entrou sem tirar o chapéu. O primeiro erro foi esse. Seu pai sempre tirava o chapéu, mesmo quando estava bêbado, mesmo quando vinha com a vergonha pendurada no pescoço como uma pedra. O segundo erro foi o silêncio. O terceiro foi o sangue seco no canto da boca. — Pai. Joaquim ergueu os olhos para ela, e Clara sentiu o estômago afundar. Ele envelhecera dez anos desde a manhã. O rosto magro estava marcado por um corte perto da sobrancelha, o lábio inchado deformava a linha suave que ela conhecera desde criança, e uma das mãos tremia tanto que ele precisou escondê-la no bolso do casaco. Havia lama em suas calças, poeira no ombro e um hematoma se formando sob o olho esquerdo. Não era apenas o resultado de uma briga. Clara reconheceu, com uma clareza fria, o aspecto de alguém que apanhara de homens que não tinham pressa. — Eu caí — disse ele. A mentira saiu tão pobre que quase a ofendeu. Clara atravessou a sala e segurou o braço dele antes que Joaquim pudesse recuar. Ele fez uma careta, pequena demais para quem queria fingir tranquilidade, e ela afrouxou os dedos imediatamente. Havia dor ali. Dor recente. — Sente-se. — Clara, não faça alarde. — Sente-se. Dessa vez, Joaquim obedeceu. Ele se deixou cair na cadeira como se os ossos tivessem perdido a autoridade sobre o corpo. Clara buscou uma bacia, despejou água limpa de uma jarra e pegou o pano que usava para cobrir o pão. Não havia pão naquela noite, apenas o pano, o que lhe pareceu uma crueldade tão ridícula que quase a fez rir. Em vez disso, molhou o tecido e começou a limpar o sangue do rosto do pai. Joaquim desviou o olhar. — Foi uma noite ruim. — Uma noite ruim é perder o dinheiro do aluguel — Clara respondeu, tentando manter a voz baixa para não acordar os vizinhos. — Uma noite ruim é voltar bêbado. Uma noite ruim é penhorar o relógio da mamãe sem me contar. Isso aqui é outra coisa. O nome da mãe pairou entre eles com o peso de um retrato coberto por pano preto. Joaquim fechou os olhos por um instante, e Clara percebeu que o golpe acertara, mas não retirou o que disse. Tinha passado anos poupando o pai de verdades que ele nunca poupava dela. — Eu vou resolver — murmurou ele. — Resolver o quê? — Não é assunto para você. Clara parou de limpar o corte. A água dentro da bacia já estava turva, avermelhada, e a chama da lamparina fez o líquido parecer mais escuro do que sangue diluído deveria ser. — Não é assunto para mim? — ela repetiu, devagar. — Esta casa é assunto meu. A comida que não temos é assunto meu. As dívidas que batem à nossa porta são assunto meu. O seu rosto arrebentado na minha frente também é assunto meu! Joaquim abriu a boca, talvez para repreendê-la, talvez para pedir perdão, mas nenhuma das duas coisas saiu. Ele apenas passou a mão trêmula pelo cabelo grisalho e soltou uma respiração quebrada. Foi então que Clara viu. Um papel dobrado no bolso interno do casaco dele. Não estaria visível se Joaquim não tivesse se curvado. Era um pedaço de papel grosso, marcado por um carimbo vermelho que ela não conhecia, mas o modo como o pai levou a mão ao peito quando percebeu o olhar dela bastou para confirmar que aquilo era pior do que qualquer ferimento. — O que é isso? — Nada. Clara estendeu a mão. — Me dê. — Clara. — Me dê, pai. Joaquim apertou os dedos contra o casaco. Por um momento, ela viu nele não o homem quebrado diante dela, mas o contador respeitável que fora um dia, aquele que voltava para casa com tinta nos dedos, balas de hortelã no bolso e uma paciência infinita para ensinar a filha a somar colunas de números. Aquele homem havia morrido aos poucos, carta por carta, dívida por dívida, aposta por aposta, até restar apenas esse outro, acovardado e cheio de desculpas. Clara enfiou a mão no bolso dele e arrancou o papel. Joaquim não tentou impedir. Ela desdobrou a folha. Não era uma promissória comum. As letras eram firmes, elegantes até, como se a violência precisasse de boa caligrafia para parecer legítima. Havia um valor escrito no centro, uma quantia tão absurda que Clara precisou ler duas vezes para ter certeza de que não confundira os zeros. Abaixo, vinha o nome de Joaquim Moura. Mais abaixo, numa assinatura grande e escura, estava escrito Silas Freire. Clara conhecia aquele nome. Todo mundo conhecia, embora ninguém o dissesse em voz alta sem olhar para os lados. Silas Freire era dono de uma casa de jogos clandestina escondida atrás de uma chapelaria fechada na Rua dos Arcos. Homens saíam de lá ao amanhecer sem relógios, sem alianças, sem dignidade. Alguns não saíam. Outros apareciam dias depois boiando no canal, e os jornais chamavam aquilo de acidente porque a polícia gostava de ser paga para não saber nadar. A garganta de Clara se fechou. — Quantos dias? Joaquim abaixou a cabeça. — Clara... — Quantos dias ele deu? O silêncio respondeu antes dele. — Três — disse Joaquim, enfim. — Três dias. Clara sentiu algo dentro de si ficar imóvel. Não era calma. Era a parte do medo que congelava antes de virar fúria. — O que foi que você fez?! A pergunta explodiu mais alta do que ela pretendia. A janela vibrou com uma rajada de vento, e em algum lugar do corredor estreito uma vizinha tossiu. Joaquim levou as mãos ao rosto, como um menino surpreendido diante de um castigo. — Eu tentei recuperar o que perdi. — Perdendo mais? — Eu tinha uma sequência boa, Clara. Eu juro por Deus que tinha. Se a última carta tivesse vindo— — Não termine essa frase. Ele obedeceu, mas tarde demais. A última carta. A última aposta. Sempre havia uma última qualquer coisa antes do fundo do poço, e Joaquim parecia incapaz de perceber que o fundo também podia ceder. Clara olhou ao redor da casa, para as cadeiras gastas, para o armário quase vazio, para a cortina que ela costurara com tecido de um vestido antigo da mãe. Nada ali valia uma fração da dívida escrita naquele papel. Nem a casa era deles. Nem o nome Moura, antes decente, valia alguma coisa nos balcões comerciais da cidade. — Ele vai me matar se eu não pagar — Joaquim sussurrou. Clara virou-se para ele. Por um instante, sentiu pena. Uma pena antiga, cansada, humilhante. Depois, por baixo dela, veio outra coisa. Uma raiva limpa, quase cruel. — E você veio para casa esperando que eu fizesse o quê? — Nada. Eu não quero que você faça nada. — Mentira. Joaquim a encarou, ferido de um modo que nenhum soco poderia explicar. — Eu não venderia você, Clara. A frase deveria tê-la tranquilizado. Em vez disso, fez algo frio tocar sua nuca. — Por que pensou nisso? Ele empalideceu. Clara dobrou o papel com cuidado, como se aquela calma pudesse impedir suas mãos de tremerem. Depois o colocou sobre a mesa, bem entre os dois. Por alguns segundos, nenhum deles falou. O relógio do vizinho bateu uma e meia. A lamparina estalou. A cidade seguiu viva lá fora, indiferente ao fato de que, naquela sala pequena, uma filha começava a desconfiar que o amor do pai talvez não fosse forte o bastante para protegê-la dele. — Amanhã cedo vou procurar mais serviço — disse Clara. — Dona Amélia talvez precise de alguém para ajudar na costura dos uniformes do colégio. O senhor Antunes me deve dois pagamentos pelas cópias dos recibos. Posso falar com a farmácia também, talvez aceitem que eu organize as contas à noite. — Não vai adiantar. — Eu sei. A honestidade a atingiu depois de dita. Joaquim também pareceu senti-la, porque fechou os olhos e chorou sem som. Clara não o consolou. Se encostasse nele agora, talvez desabasse, e não podia se dar ao luxo de desabar enquanto houvesse três dias entre eles e Silas Freire. Na manhã seguinte, Clara saiu antes que o sol subisse por completo. A cidade tinha um aspecto lavado pela chuva da madrugada. As pedras da rua brilhavam sob as rodas das carroças, e os fios do telégrafo cortavam o céu pálido como linhas pretas costuradas entre os postes. Homens de paletó escuro liam jornais dobrados nas portas dos cafés, criadas apressadas carregavam cestos de roupa, e um automóvel solitário passou pela avenida principal com um ruído arrogante que assustou dois cavalos de aluguel. Clara caminhou com o xale apertado junto ao peito, carregando na bolsa a promissória dobrada e uma lista de nomes que talvez pudessem lhe oferecer trabalho. Não sabia por que levara o papel. Talvez porque, depois de vê-lo, deixá-lo em casa parecesse impossível. Talvez porque uma parte dela precisasse tocar a prova de que a ruína tinha forma, valor e assinatura. Visitou primeiro a costureira. Depois, o armazém. Depois, a farmácia. Em todos os lugares, encontrou variações do mesmo olhar: pena, desconforto, pressa. Havia trabalho, sim, mas pouco. Havia pagamentos atrasados, sim, mas não agora. Havia boa vontade, mas nenhuma boa vontade do mundo se transformaria naquela quantia em três dias. Ao sair da farmácia, Clara parou sob a marquise e respirou fundo. Do outro lado da rua, um jornaleiro gritava uma manchete sobre um lorde recluso do interior, alguma nota venenosa sobre Monteluz e o conde que escondia o rosto. Ela quase não ouviu. Estava ocupada demais calculando o impossível. Então percebeu os homens. Eram dois, parados junto à entrada de uma chapelaria fechada. Um deles fumava. O outro fingia observar a vitrine empoeirada, mas nenhum dos dois olhava de verdade para os chapéus. Olhavam para ela. Clara deu um passo para trás. O homem que fumava sorriu. E, com a ponta dos dedos, tocou a aba do chapéu em cumprimento.Gabriel não abandonou a máscara de uma vez. Clara percebeu isso antes de qualquer outra coisa. Não houve milagre na manhã seguinte, nem uma transformação limpa em que o conde de Monteluz atravessou os corredores com o rosto descoberto e permitiu que a casa inteira reaprendesse a vê-lo. Nada em Gabriel acontecia assim. O que nele parecia decisão, visto de fora, quase sempre era o resultado de uma guerra silenciosa travada por dias, meses, anos. Mas alguma coisa havia mudado. Na primeira manhã depois da noite em que ele deixara a máscara cair, Gabriel apareceu no jardim com ela no rosto, como sempre. As luvas também estavam em seu lugar. O casaco escuro. A gola alta. A postura tão exata que poderia ser confundida com indiferença por quem não soubesse onde procurar as falhas. Clara o viu junto ao muro norte, dando instruções a dois jardineiros sobre a fonte seca, e sentiu uma pontada de decepção que se recusou a nomear. Depois ele olhou para ela. Não foi um olhar longo, não foi
A máscara permaneceu no chão. Clara não sabia por quanto tempo olhou para ela, caída sobre o tapete como uma coisa morta. Antes, aquele objeto parecia fazer parte de Gabriel, uma extensão escura de sua pele, de sua história, de sua condenação. Agora, separado dele, parecia menor. Ainda pesado, ainda terrível pelo que representava, mas menor do que o homem parado diante dela. Gabriel continuava sem se mover. Era estranho vê-lo assim, exposto à luz da lamparina, sem a máscara e sem qualquer palavra que pudesse reorganizar a cena. As cicatrizes deformavam o lado esquerdo de seu rosto, puxavam a pele, alteravam a simetria, tornavam sua expressão mais difícil de ler e, ao mesmo tempo, mais impossível de ignorar. Clara não tentou transformá-las em beleza. Não tentou procurar uma forma poética para suavizar a violência do que via. O fogo havia deixado marcas reais. Cruéis. Permanentes. Mas ele estava ali. E isso, de algum modo, importava mais. Gabriel segurava a mão dela contra o
Gabriel não foi ao quarto de Clara na noite seguinte. Nem na outra. Na terceira, Clara deixou de fingir que não escutava os corredores. Sentou-se junto à janela com um livro aberto no colo, sem ler uma única linha, enquanto a casa apagava as próprias luzes ao redor dela. Monteluz tinha uma forma cruel de dormir: não descansava, apenas se recolhia para dentro de si mesma. Os passos dos criados desapareciam, as portas eram fechadas com cuidado, o relógio atrasado no corredor insistia em marcar uma hora que ninguém corrigia, e cada pequeno ruído parecia pertencer a alguém que talvez viesse, mas não vinha. Clara odiou esperar. Odiou mais ainda saber que esperava. Desde a discussão no jardim, repetia para si mesma que Gabriel tinha o direito de não retirar a máscara. Tinha, sim. A dor era dele, o rosto era dele. O tempo também deveria ser. Mas o direito dele não apagava a ferida dela. Porque, quando ele recuava, não parecia apenas preservar um limite, parecia condenar tudo que ha
Clara escolheu a tarde errada para pedir. Percebeu isso depois, quando já era tarde demais para retirar a frase do ar e devolvê-la ao lugar inseguro de onde viera. Mas, no momento, pareceu inevitável. Havia dias em que a ausência de Gabriel doía mais do que sua presença, e havia dias em que sua presença carregava uma ausência ainda pior. Ele estava ali no jardim, na biblioteca, no quarto dela à noite. Sentava-se perto, conversava no escuro, beijava-a com uma contenção que às vezes parecia cuidado e às vezes parecia castigo. Tocava sua nuca como se segurasse algo precioso e proibido. Dizia seu nome de um modo que ela continuava ouvindo muito depois que ele saía. E, ainda assim, metade dele permanecia inacessível. Não apenas o rosto. A máscara já não era um objeto, era uma fronteira. Uma lembrança visível de tudo que Gabriel permitia até certo ponto e depois arrancava de volta. Clara podia saber sobre Miguel em pedaços. Podia conhecer o jardim de lady Helena. Podia sentir os ded






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